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Amorpio

O Enigma das Violetas e a Sombra dos Diabrotic

Querido Diário,

Eu costumava achar que a Poção Transcrevedora era a melhor invenção da Vovó Dulce, mas hoje eu gostaria que ela tivesse inventado uma poção para fazer o tempo parar ou, quem sabe, uma que me transformasse em uma estátua de jardim. Pelo menos estátuas não têm o coração disparado e não precisam lidar com primas desconfiadas que parecem ter faro de lobo caçador.

Hoje o dia começou com um gosto de metal na boca. Sabe quando você sente que o mundo está prestes a desabar, mas não sabe se ele vai cair para a esquerda ou para a direita? Pois é. Eu acordei no castelo, usei meu estoque precioso de feitiço de camuflagem e me transformei na Florentina. Mas, Diário, a magia está ficando cansada. Ou talvez seja eu que esteja cansada de me esconder atrás desses óculos de aro grosso que nem grau têm.

Quando cheguei à escola, a primeira pessoa que vi não foi o Scorpio. Foi a Sadi. Ela estava encostada na estátua do Fundador, com aquela postura de quem não tem medo de nada, mastigando uma maçã ácida e me seguindo com os olhos. Ela não disse nada, mas aquele olhar... parecia que ela estava tentando enxergar através da minha pele, procurando qualquer vestígio de roxo.

— Bom dia, Florentina — disse ela, com uma voz tão doce que parecia mel envenenado. — Dormiu bem? Ou será que teve sonhos... coloridos?

— Dormi bem, Sadi — respondi, tentando apressar o passo. — Tenho muita lição de História da Magia para revisar.

— Claro, claro. Você é sempre tão dedicada. Uma pena que a Amora não seja assim, não é? Ela vive sumida. O Scorpio até comentou que ela deve ser uma dessas princesas que só aparecem para bailes, mas eu... eu acho que ela está muito mais perto do que a gente imagina.

Eu senti um arrepio subir pela minha espinha. A Sadi não estava apenas desconfiada; ela estava brincando comigo como um gato brinca com um ratinho de corda.

Entrei na sala de aula e me sentei no meu lugar habitual. O Scorpio chegou logo depois. Ele parecia radiante, Diário! Aquele cabelo espetado dele estava mais rebelde do que nunca, e ele não parava de sorrir para o nada. Quando ele se sentou ao meu lado, o cheiro de sândalo me atingiu como uma onda.

— Você está fugindo de mim, Florentina? — sussurrou ele, inclinando-se para perto. — Depois de ontem, eu achei que a gente pudesse... sabe, conversar mais.

— Eu não estou fugindo, Scorpio — eu disse, focando desesperadamente no meu livro de Poções. — Só estou tentando não ser expulsa. A Sadi está de olho em nós.

— A Sadi é uma chata — ele deu de ombros. — Ela acha que manda em tudo porque é corajosa, mas ela não entende nada de... bom, de nós.

— Nós? — perguntei, sentindo meu estômago dar uma cambalhota.

— É. Nós.

O resto da manhã foi um borrão. Eu não conseguia me concentrar em nada. A Lila me mandava aviõezinhos de papel encantados com mensagens como "Ela sabe de alguma coisa?" ou "Tome cuidado, o roxo está aparecendo na sua nuca!". Eu passava a mão no pescoço a cada cinco minutos, aterrorizada.

Na hora do almoço, o Scorpio me puxou para o Jardim das Sombras, um lugar nos fundos da escola onde as árvores têm folhas negras e o sol nunca atinge o chão completamente. É o lugar favorito dele.

— Florentina, eu preciso te perguntar uma coisa — ele disse, ficando sério de repente. Ele pegou minhas mãos. — Por que você é tão misteriosa? Ontem, na mansão, você parecia outra pessoa. E hoje, você age como se aquele beijo nunca tivesse acontecido.

— Não é isso, Scorpio... é que as coisas são complicadas. Eu moro no castelo, a Vovó Dulce é rigorosa...

— Não é só isso — interrompeu ele. — Eu sinto que você está escondendo algo grande. E eu não me importo com segredos, desde que você confie em mim.

Eu olhei nos olhos dele e, por um segundo, a verdade quase pulou da minha boca. Eu queria gritar: "Eu sou a Amora! Eu tenho cabelos roxos e sou a princesa desastrada que você acha que é uma lenda urbana!". Mas o medo de perdê-lo foi maior. Se ele descobrisse que eu menti desde o primeiro dia, ele me perdoaria?

— Eu confio em você — menti, sentindo o peso da culpa.

— Então prova — disse ele, aproximando o rosto do meu.

Ele estava prestes a me beijar de novo quando um ruído de galhos quebrados nos fez pular.

— Que cena mais tocante! — Era a Sadi. Ela saiu de trás de uma árvore de folhas negras, segurando um frasco pequeno com um líquido efervescente. — Desculpe interromper o momento romântico do meu primo com a "menina da biblioteca", mas eu acabei de fazer uma descoberta incrível no laboratório.

— Sadi, cai fora! — rosnou Scorpio, ficando na minha frente.

— Ah, Scorpio, você sempre foi tão impulsivo. Deixa o coração guiar a cabeça e acaba não vendo o que está na cara. — Ela caminhou até nós, balançando o frasco. — Sabe o que é isso, Florentina? É um Reagente de Dissipação. Ele anula qualquer feitiço de camuflagem de baixo nível, como aqueles que estudantes usam para esconder espinhas... ou identidades.

Meu sangue gelou. Eu tentei dar um passo para trás, mas minhas costas bateram no tronco frio de uma árvore.

— Do que você está falando, Sadi? — perguntou Scorpio, confuso.

— Eu estou falando que a nossa querida Florentina é uma fraude — disse Sadi, com um brilho vitorioso nos olhos. — Eu vi as pontas roxas no banheiro, vi o jeito que a Lila protege ela. E agora, eu vou provar.

Ela abriu o frasco.

— Sadi, não! — gritou Scorpio, tentando tirar o frasco da mão dela.

Mas a Sadi era rápida. Ela arremessou o líquido para o alto, e ele se transformou em uma névoa fina e prateada que começou a descer sobre mim. Eu fechei os olhos, esperando o pior. Esperando que meu disfarce sumisse e que a Amora fosse revelada ali, no meio do Jardim das Sombras.

Mas nada aconteceu.

Abri os olhos e vi a Lila parada na minha frente, segurando um guarda-chuva mágico que ela devia ter conjurado no último segundo. A névoa prateada escorria pelo tecido invisível do guarda-chuva sem me tocar.

— Já chega, Sadi! — exclamou Lila, furiosa. — Você está passando dos limites. Isso é assédio mágico!

— Você a está protegendo, Lila! — acusou Sadi. — Por que você faria isso se ela não estivesse escondendo nada?

— Porque ela é minha amiga! E porque você é uma paranoica que não suporta ver o primo feliz! — rebateu Lila, puxando meu braço. — Vamos embora, Florentina.

Scorpio ficou parado, olhando de Sadi para mim, com uma expressão de total confusão e dor.

— Florentina? — chamou ele, mas eu não olhei para trás. Eu não conseguia.

Corremos até o castelo. A Lila não disse uma palavra até estarmos seguras dentro do meu quarto. Eu me joguei no chão, as lágrimas finalmente caindo, borrando o feitiço de camuflagem que agora, ironicamente, estava intacto.

— Ela quase me pegou, Lila. Ela quase me pegou! — eu soluçava.

— Eu sei, amiga. Eu sei. — Lila se sentou ao meu lado e me abraçou. — Mas você não pode continuar assim. A Sadi não vai parar. Ela é uma Diabrotic, Amora. Eles são persistentes e não desistem de uma caçada.

— O Scorpio... ele me defendeu. E eu continuei mentindo. Eu sou uma pessoa horrível, Diário? — perguntei para o vazio, embora a Lila estivesse ali.

— Você não é horrível. Você está com medo. Mas o medo é uma prisão pior do que qualquer masmorra da Mansão Diabrotic.

Passei a tarde inteira trancada. A Vovó Dulce bateu na porta, mas eu disse que estava com dor de cabeça. O que não era mentira, já que meu cérebro parecia ter sido passado por um espremedor de batatas.

À noite, ouvi um barulho na minha janela.

Moro no segundo andar do castelo, então não deveria haver ninguém ali. Abri a cortina com cuidado e vi o Scorpio. Ele estava equilibrado em uma videira mágica que crescia na parede lateral.

— O que você está fazendo aqui? — sussurrei, abrindo a janela. — Você vai cair!

— Eu não ligo — disse ele, entrando no quarto com a agilidade de um gato. Ele olhou em volta, vendo as cores roxas da minha decoração, os livros de princesa, as roupas que a Florentina nunca usaria.

Eu estava sem o disfarce, Diário.

Eu tinha esquecido de refazer o feitiço.

Meus cabelos roxos estavam soltos, caindo pelos meus ombros. Meus cílios longos estavam úmidos de choro. Eu era a Amora. Pura e simples.

Scorpio congelou. Ele olhou para o meu cabelo, depois para os meus olhos, depois para o meu rosto. O silêncio no quarto era tão pesado que eu conseguia ouvir o tique-taque do relógio na parede.

— Amora? — perguntou ele, a voz falhando.

Eu não conseguia falar. Apenas acenei com a cabeça, sentindo uma nova onda de lágrimas.

— Então a Sadi estava certa — disse ele, dando um passo para trás. — A Florentina... ela nunca existiu.

— Ela existiu, Scorpio! — eu finalmente consegui dizer. — Eu sou a Florentina. Mas eu também sou a Amora. Eu usei o disfarce porque tinha medo de que as pessoas só se aproximassem de mim por eu ser a neta da Dulce, ou que me julgassem por ser... bom, por ser eu.

— E você achou que eu era uma dessas pessoas? — Ele parecia magoado. — Você me deixou beijar um disfarce. Você me deixou contar meus segredos para uma máscara.

— Eu me apaixonei por você como Florentina porque era a única forma que eu tinha de ser eu mesma sem a pressão de ser uma princesa! — gritei, sem me importar se a Vovó ia ouvir. — Quando eu estava com você, eu não era a "Lenda Urbana". Eu era só uma garota.

Scorpio passou a mão pelo cabelo espetado, parecendo frustrado.

— Você tem ideia do quanto eu me senti idiota hoje? A Sadi jogando poção em você, a Lila te defendendo, e eu no meio, sem saber em quem acreditar.

— Me desculpa — sussurrei. — Eu ia te contar. Eu juro que ia.

Ele caminhou até mim. Eu achei que ele fosse embora, que fosse pular a janela e nunca mais falar comigo. Mas ele parou na minha frente e tocou uma mecha do meu cabelo roxo.

— É uma cor bonita — disse ele, baixinho. — Combina com os seus olhos.

— Você não está bravo?

— Eu estou furioso — admitiu ele. — Mas eu também estou aliviado. Porque agora eu sei por que a Florentina era tão boa em fugir e por que ela tinha aquele brilho que eu não conseguia explicar.

— E agora? — perguntei, com o coração na mão.

— Agora a gente tem um problema — disse ele, com um sorrisinho triste. — Se a Sadi descobrir que eu sabia e não contei, ela vai me matar. E se a escola descobrir que a Florentina é a Amora, vai ser um escândalo.

— A gente pode manter o segredo? — sugeri.

— Por enquanto — disse ele. Ele se aproximou e, pela primeira vez, beijou a Amora. Não a Florentina de óculos e cabelo castanho, mas a Amora de cabelos roxos e alma desastrada.

Foi o melhor beijo de todos, Diário. Porque não havia mentiras entre nós.

Mas, enquanto ele saía pela janela, ele me deu um aviso:

— A Sadi não vai parar, Amora. Ela viu o roxo hoje. Ela vai continuar cavando. Você precisa ser muito cuidadosa.

Agora ele se foi, e eu estou aqui, escrevendo para você.

Eu revelei meu segredo para o Scorpio. Ele sabe quem eu sou. Uma parte de mim se sente leve, como se tivesse tirado uma armadura de chumbo. Mas a outra parte está aterrorizada. A Sadi Diabrotic é uma inimiga poderosa, e ela odeia ser feita de boba.

Amanhã na escola, terei que ser a Florentina de novo. Terei que fingir que nada aconteceu. Mas como vou fazer isso agora que o Scorpio sabe a verdade? Como vou olhar para ele sem sorrir como uma boba?

E o mais importante: como vou impedir a Sadi de completar o quebra-cabeça?

Acho que vou precisar de mais do que apenas poções da Vovó Dulce. Vou precisar de sorte. Muita sorte.

— Amora (a princesa que não é mais uma lenda urbana para o garoto que ama).

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