Amorpio
O Labirinto das Máscaras e o Jantar dos Desastres
Querido Diário,
Eu costumava achar que poções de invisibilidade eram o auge da complicação mágica, mas descobri que a "Poção da Mentira Prolongada" tem efeitos colaterais muito piores: ela causa palpitações, insônia e uma vontade louca de sair correndo toda vez que alguém menciona a palavra "identidade".
Minha cabeça está uma bagunça, Diário. A Poção Transcrevedora está quase no fim (preciso urgente assaltar o armário de suprimentos da Vovó Dulce de novo!), então vou tentar ser rápida antes que a magia acabe e eu tenha que escrever à mão — o que seria um desastre, já que meus dedos ainda estão formigando por causa de tudo o que aconteceu hoje.
O Scorpio sabe. O Scorpio Diabrotic, o garoto com o cabelo mais rebelde da escola e o crush mais problemático da minha vida, viu meus cabelos roxos. Ele viu a Amora. E o mais bizarro? Ele não fugiu gritando. Ele me beijou. De novo. Mas agora, sem a máscara da Florentina entre nós.
Mas não pense que isso facilitou as coisas. Oh, não. Se a vida fosse um livro de contos de fadas, o segredo revelado seria o fim. Para mim, é só o começo de um novo nível de pânico.
Hoje de manhã, acordar foi um desafio. Tive que aplicar o feitiço de camuflagem com um cuidado redobrado. Sabe quando você pinta uma parede que está descascando? É assim que me sinto. A Florentina está começando a "descascar".
— Amora, você está usando camadas demais de pó mágico — comentou a Lila enquanto caminhávamos para a aula de Defesa Contra Criaturas Emburradas. — Sua pele está parecendo papel de pergaminho velho.
— É o estresse, Lila! — sussurrei, ajeitando meus óculos sem grau que insistiam em escorregar. — A Sadi está me caçando. Ela é como um cão farejador de cabelos roxos. E agora o Scorpio sabe... e se ele deixar escapar? E se ele me olhar de um jeito diferente na frente dela?
— O Scorpio é um Diabrotic — disse Lila, tentando me acalmar com um sorriso. — Eles são mestres em segredos. O problema não é ele, é você. Você não sabe fingir que não está apaixonada.
Ela tinha razão. Quando entramos na sala, o Scorpio já estava lá. Ele me lançou um olhar... Diário, foi um olhar que derreteria uma geleira inteira no Reino do Gelo. Não era o olhar que ele dava para a Florentina "estudiosa". Era um olhar de cumplicidade. De quem conhecia o segredo sob a tinta castanha.
— Bom dia, Florentina — disse ele, dando ênfase ao nome falso de um jeito que só eu entendi.
— Bom dia, Scorpio — respondi, sentindo meu rosto queimar.
— Você deixou um... livro... no meu quarto ontem — ele continuou, baixinho, enquanto o professor não chegava. — Um livro sobre violetas. Muito interessante.
Eu quase engasguei.
— Ah, sim. É um exemplar raro. Espero que ninguém mais o tenha visto.
— Ninguém — garantiu ele, piscando para mim.
Mas a nossa bolha de segredo durou pouco. Sadi entrou na sala logo em seguida, e o clima esfriou uns dez graus. Ela não se sentou. Ela caminhou direto para a nossa mesa e bateu as mãos na madeira, fazendo nossas penas de escrita pularem.
— O jantar é hoje — anunciou ela, olhando fixamente para mim.
— Que jantar, Sadi? — perguntou Scorpio, fingindo desinteresse.
— O jantar anual da família Diabrotic para os "amigos próximos" — disse ela, com um sorriso que não chegava aos olhos. — E eu fiz questão de convidar a Florentina. E a Lila também, claro.
— Eu? — Lila apontou para si mesma, horrorizada. — Mas eu tenho... hã... que dar banho no meu gato alado.
— O gato pode esperar, Lila — cortou Sadi. — Quero que a Florentina conheça a nossa casa à luz do dia. E a minha tia Beatriz faz questão de conhecer a menina que deixou o Scorpio tão... mudado.
Eu olhei para o Scorpio. Ele estava tenso. Um jantar na Mansão Diabrotic, com a Sadi nos observando e a tia Beatriz — que tem a fama de conseguir ler pensamentos se olhar fixamente por tempo demais — era a receita perfeita para o meu fim.
— Eu não acho que seja uma boa ideia — comecei a dizer.
— Eu insisto — disse Sadi, e o tom dela não deixava margem para recusas. — A menos que você tenha algo a esconder, Florentina. Algo que não queira que a luz dos candelabros da minha família revele.
— Nós iremos — interrompeu Scorpio, segurando minha mão por baixo da mesa. — Vai ser um prazer, prima.
Sadi deu as costas e saiu, mas eu sabia que ela estava vitoriosa. Ela tinha nos encurralado.
O resto do dia foi um treinamento intensivo de sobrevivência. A Lila e eu passamos o intervalo escondidas na biblioteca, tentando reforçar meu feitiço de camuflagem.
— Se a tia do Scorpio for mesmo uma Legilimens, você está frita — disse Lila, folheando um livro de escudos mentais. — Você precisa pensar em coisas chatas. Pense em batatas. Pense em chuva. Não pense no Scorpio e, pelo amor de Dulce, não pense no seu cabelo roxo!
— É impossível não pensar nele quando ele está sentado do meu lado! — eu exclamei, enterrando o rosto nas mãos.
Às sete da noite, lá estávamos nós: na frente dos portões de ferro forjado da Mansão Diabrotic. O lugar parecia ainda mais imponente e sombrio do que na noite em que fui "sequestrada". As gárgulas no telhado pareciam nos seguir com os olhos de pedra.
Scorpio nos recebeu na porta. Ele usava uma túnica de veludo escuro que o deixava incrivelmente bonito, mas seus olhos mostravam que ele estava tão nervoso quanto eu.
— Fiquem perto de mim — sussurrou ele enquanto entrávamos no grande salão de jantar.
A mesa estava posta para cinco pessoas. Sadi já estava lá, elegante e afiada como uma adaga. Ao cabeceira, estava a tia Beatriz. Ela tinha cabelos pretos perfeitamente alinhados e olhos que pareciam buracos negros.
— Então esta é a famosa Florentina — disse a tia Beatriz, sua voz ecoando suavemente. — Sente-se, querida. Não seja tímida.
O jantar foi um campo minado. A cada garfada, eu sentia o olhar da Sadi pesando sobre mim.
— Conte-nos, Florentina — disse a tia Beatriz, enquanto o prato principal (uma sopa de cogumelos mágicos que mudava de cor) era servido. — Como é morar no castelo com a senhorita Dulce? Ela deve ser uma avó muito... presente.
— Ela é maravilhosa — respondi, tentando manter a voz firme. — Muito dedicada às suas poções.
— E a neta dela? A tal Amora? — perguntou Sadi, casualmente. — Você deve vê-la o tempo todo, não é? Dizem que ela é tão reclusa.
— A Amora é... ocupada — respondi, sentindo o suor frio. — Ela passa muito tempo nos jardins privados.
— Engraçado — continuou Sadi, girando a taça de suco de amora (de novo as amoras!). — Eu estive no castelo hoje cedo para levar um recado e não vi sombra dela. Mas encontrei algo interessante perto da sua janela, Florentina. Uma fita. Uma fita de seda... roxa.
Eu quase derrubei minha colher.
— Deve ser de algum embrulho de presente — interveio Lila, rapidamente. — A senhorita Dulce adora fitas.
— É — disse Scorpio, limpando a garganta. — Sadi, pare de interrogar as convidadas. É falta de educação.
— Só estou sendo curiosa, primo — rebateu Sadi. — Afinal, a Florentina é tão parecida com a descrição que fazem da Amora... exceto, claro, pelo cabelo sem graça e os óculos. Mas a estrutura óssea, o tom de voz...
— Chega de bobagens, Sadi — disse a tia Beatriz, mas seus olhos não saíam de mim. — Florentina, você parece estar com calor. Por que não tira esse casaco pesado?
Eu não podia tirar o casaco. Por baixo dele, eu estava usando o meu colar de família que tinha um pingente de ametista — um símbolo real que eu tinha esquecido de tirar no meu desespero!
— Eu estou bem, obrigada — respondi, apertando o casaco contra o corpo.
— Eu insisto — disse a tia Beatriz, e desta vez senti uma pressão invisível na minha mente. Ela estava tentando me forçar a obedecer!
— Ela disse que está bem, tia — disse Scorpio, sua voz subindo um tom. — Deixe-a em paz.
O clima ficou tenso. Sadi sorriu, percebendo que tinha atingido um ponto sensível. Ela se levantou e caminhou até mim.
— Sabe, Florentina, eu tenho um presente para você. Um perfume novo que criei.
Antes que eu pudesse reagir, ela tirou um frasco pequeno do bolso e borrifou um pouco no ar, perto de mim. Não era perfume. Era um "Solvente de Ilusões" concentrado.
O efeito foi instantâneo.
Senti o ar ao meu redor vibrar. Meus óculos, que eram mantidos no lugar por um pequeno feitiço de aderência, caíram no chão. O feitiço de camuflagem na minha pele começou a falhar, revelando o brilho perolado da minha pele real. E o pior: meu cabelo.
A cor castanha começou a escorrer como tinta fresca, revelando as mechas roxas vibrantes por baixo.
— EU SABIA! — gritou Sadi, apontando para mim.
Lila se levantou, derrubando a cadeira. Scorpio ficou de pé, pronto para me proteger, mas o estrago estava feito. A tia Beatriz apenas observava, com uma sobrancelha arqueada.
— Amora — disse Sadi, com um triunfo maligno. — A Princesa Desastrada estava escondida bem debaixo do nosso nariz.
Eu me levantei, tremendo. O disfarce tinha caído completamente. Meus cabelos roxos brilhavam sob a luz dos candelabros. Eu me sentia nua, exposta, vulnerável.
— Sim — eu disse, minha voz saindo mais forte do que eu esperava. — Eu sou a Amora. E daí?
Scorpio deu um passo para o meu lado, segurando minha mão firmemente na frente da família dele.
— E daí que ela é a garota que eu gosto — disse ele, olhando para a Sadi com fogo nos olhos. — Seja ela a Florentina ou a Amora. E se você tiver algum problema com isso, Sadi, o problema é seu, não dela.
Sadi pareceu surpresa com a determinação dele. Ela esperava que o Scorpio se sentisse traído, mas ele já sabia. E ele estava do meu lado.
— Scorpio, você é um idiota — disse Sadi, mas sua voz perdeu um pouco da agressividade. — Ela mentiu para você. Ela mentiu para todos nós.
— Ela se protegeu — corrigiu ele. — Em um mundo onde as pessoas julgam pelo título ou pela cor do cabelo, ela queria ser vista pelo que é por dentro. E eu a vi.
A tia Beatriz soltou uma risada curta e seca.
— Bem — disse ela, levantando-se. — Isso certamente tornou o jantar mais interessante. Amora, neta de Dulce... você tem coragem, admito. Esconder-se na toca dos Diabrotic exige um certo tipo de loucura que eu respeito.
— Mãe! — exclamou Sadi. — Você não vai fazer nada?
— E o que eu deveria fazer, Sadi? — perguntou a tia Beatriz. — O segredo dela não nos prejudica. E se o seu primo está feliz com uma princesa disfarçada, quem sou eu para intervir? Mas... — ela se virou para mim — ... saiba que a corte não será tão compreensiva quanto eu se descobrirem que você anda frequentando lugares "impróprios" sob um nome falso.
— Eu não me importo com a corte — respondi, olhando para o Scorpio.
— Ótimo — disse a tia Beatriz. — Agora, sentem-se. A sopa está esfriando e eu detesto sopa fria.
O resto do jantar foi o mais surreal da minha vida. Eu estava lá, como Amora, comendo sopa na Mansão Diabrotic, enquanto a Sadi me lançava olhares de "isso ainda não acabou" e o Scorpio não soltava a minha mão por nada.
Quando finalmente saímos de lá, a noite estava fresca. Lila estava em choque, andando em silêncio.
— Você foi incrível — sussurrou Scorpio enquanto caminhávamos em direção ao castelo.
— Eu quase morri de susto — confessei. — A Sadi me odeia agora.
— A Sadi só está brava porque perdeu o jogo — disse ele. — Ela vai superar. O importante é que agora eu não preciso mais fingir que estou falando com a Florentina quando quero falar com você.
Ele parou perto do portão do castelo.
— Então, Princesa Amora... o que faremos amanhã?
— Amanhã — eu disse, sorrindo — eu acho que vou para a escola sem óculos. E talvez, só talvez, eu deixe o roxo aparecer um pouco mais.
— Mal posso esperar — disse ele, e me deu um beijo de boa noite que selou o fim da Florentina e o começo de algo muito mais real.
Agora estou aqui, Diário. O segredo foi revelado para as pessoas que mais importavam (e para a Sadi, infelizmente). O peso saiu dos meus ombros, mas sei que novos desafios virão. A escola vai descobrir em breve. A Vovó Dulce vai ter que lidar com os boatos.
Mas, pela primeira vez, eu não estou com medo. Porque eu não estou mais sozinha no meu labirinto de máscaras.
O Scorpio está comigo. E o roxo nunca pareceu tão bonito.
Boa noite, Diário. Acho que finalmente vou dormir bem.
— Amora (a princesa que cansou de se esconder).