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Apenas amigos?

O Labirinto de Cinzas e o Rastro da Verdade

A rotina de Smallville tinha um jeito peculiar de mascarar o perigo sob a fachada de monotonia rural, mas Chloe Sullivan sempre teve um faro apurado para o que estava escondido sob a superfície. Enquanto Clark ainda lidava com as repercussões emocionais da noite na fazenda — e com a sensação constante de que o mundo agora tinha cores muito mais vibrantes —, Chloe já estava mergulhada em um novo mistério.

O Mural do Bizarro ganhara três novas fotos em branco. Alunos que simplesmente não apareceram para as aulas nos últimos dois dias. Sem bilhetes de despedida, sem histórico de rebeldia. Apenas ausências silenciosas.

— Não é coincidência, Clark — disse ela naquela manhã, enquanto caminhavam pelo corredor. — Três alunos sumidos em quarenta e oito horas? Todos do terceiro ano, todos com notas excelentes. Há um padrão aqui, e ele tem cheiro de obsessão.

— Chloe, talvez eles tenham apenas ido para Metrópolis em um feriado prolongado antecipado — sugeriu Clark, embora soubesse que era inútil tentar dissuadi-la.

— E todos escolheram a mesma semana? — Ela arqueou a sobrancelha, parando diante do armário de um aluno novo chamado Julian Vane. — Esse cara se transferiu há duas semanas. Ninguém sabe de onde ele veio, e ele está sempre "estudando" na antiga fábrica de fertilizantes abandonada.

Clark sentiu uma pontada de preocupação.

— Chloe, me promete que não vai lá sozinha. Eu tenho que ajudar meu pai com a cerca do pasto sul, mas posso te encontrar depois das cinco.

— Prometido, Smallville — disse ela com um sorriso rápido que não alcançou totalmente seus olhos analíticos. — Vou apenas terminar de cruzar os dados aqui no Tocha.

Mas a promessa de Chloe era sempre elástica quando se tratava de uma pista quente. Às quatro da tarde, ela estava estacionando seu Fusca a dois quarteirões da fábrica de fertilizantes. O prédio era um monólito de concreto e metal enferrujado, um remanescente de uma era industrial que Smallville preferia esquecer.

Ela entrou por uma janela quebrada, sua câmera digital pendurada no pescoço. O ar lá dentro era pesado, saturado com o cheiro de produtos químicos antigos e mofo.

— Julian? — chamou ela em um sussurro, sua voz ecoando nas vigas metálicas.

Não houve resposta, apenas o som de goteiras distantes. Chloe avançou, seu instinto jornalístico gritando que algo estava errado. Ela encontrou uma mochila escolar jogada em um canto. Ao abri-la, viu o nome de um dos alunos desaparecidos.

— Te peguei — murmurou ela, preparando a câmera.

Mas a sombra que se projetou sobre a parede à sua frente não era a dela. Chloe girou o corpo rapidamente, mas Julian Vane já estava lá. Ele não parecia o aluno tímido e calado da sala de aula. Seus olhos tinham um brilho febril, uma intensidade maníaca que fez o sangue de Chloe gelar.

— Você é muito intrometida, Sullivan — disse ele, a voz calma e desprovida de emoção. — Eu estava esperando por você. Sua mente... ela é tão brilhante. Seria um desperdício deixá-la fora da minha coleção.

— Coleção? Julian, do que você está falando? — Chloe tentou recuar, procurando uma rota de fuga. — Os outros alunos... onde eles estão?

— Eles estão seguros. Eles estão sendo preservados. O mundo lá fora é caótico demais para gênios como nós.

Chloe não esperou por mais explicações. Ela lançou sua bolsa pesada na direção do rosto dele e correu para a saída. Mas Julian era rápido. Ele a alcançou antes que ela chegasse à janela, segurando-a pelo braço com uma força desproporcional.

— Me solta! — gritou ela, tentando acertá-lo com a câmera.

Julian apenas sorriu e, com um movimento rápido, atingiu um ponto de pressão no pescoço de Chloe. O mundo girou e escureceu instantaneamente.

— Durma, Chloe. Quando você acordar, tudo será perfeito.

***

Na fazenda Kent, Clark sentiu um aperto súbito no peito. Ele olhou para o relógio: cinco e quinze. Chloe não atendia o celular, e as mensagens que ele enviara permaneciam sem visualização. O silêncio dela era um sinal de alerta mais alto que qualquer sirene.

Ele correu até o Tocha. O porão estava vazio, mas o computador de Chloe ainda estava ligado. Na tela, um mapa da antiga fábrica de fertilizantes e o histórico escolar de Julian Vane.

— Droga, Chloe — praguejou ele.

Clark saiu do colégio e, em um borrão de velocidade, atravessou os campos de milho em direção à zona industrial abandonada. Seus sentidos estavam em alerta máximo. Ele não se importava mais em esconder seus poderes; ele só precisava encontrá-la.

***

Chloe acordou com a cabeça latejando. Suas mãos estavam presas por cordas grossas a uma viga de metal. Ela tentou se mexer, mas o movimento apenas fez as cordas queimarem seus pulsos.

— Finalmente — disse uma voz vinda das sombras.

Ela olhou ao redor. O local parecia um antigo depósito de armazenamento subterrâneo. Ao seu lado, outros três alunos estavam sentados no chão, amordaçados e visivelmente aterrorizados.

— Julian, pare com isso — pediu Chloe, tentando manter a voz firme apesar do medo. — Você não pode manter as pessoas presas. Isso não é preservação, é sequestro.

Julian caminhava ao redor deles, carregando galões de um líquido inflamável. O cheiro de gasolina começou a preencher o ambiente, misturando-se aos resíduos químicos da fábrica.

— Vocês não entendem — disse Julian, derramando o líquido em um círculo perfeito ao redor do grupo. — O fogo purifica. Ele transforma o que é físico em algo eterno. Suas mentes, suas conquistas... elas serão lembradas como parte dessa grande pira. Eu serei o único a contar a história de vocês.

— Você é louco! — gritou Chloe, lutando contra as amarras. — Clark vai me encontrar. Ele sempre encontra.

Julian parou e olhou para ela, um sorriso distorcido nos lábios.

— O garoto da fazenda? Ele é apenas um músculo sem cérebro. Ele nunca entenderia a geometria dessa arte.

Ele riscou um fósforo. A chama pequena parecia imensa na penumbra do depósito.

— Adeus, Chloe Sullivan. Obrigado por ser a peça final.

Ele soltou o fósforo. O fogo correu pelo rastro de gasolina como uma serpente faminta, erguendo paredes de chamas que cercaram Chloe e os outros alunos. Julian saiu por uma porta de metal, trancando-a por fora.

O calor tornou-se insuportável em segundos. A fumaça negra começou a subir, dificultando a respiração. Chloe tossia, seus olhos ardendo. Ela olhou para os outros alunos, que choravam silenciosamente atrás das mordaças.

— Clark... — sussurrou ela, sentindo a consciência vacilar. — Por favor, Clark...

***

Do lado de fora, Clark parou bruscamente. Ele viu a fumaça subindo das chaminés da fábrica e o brilho alaranjado refletido nas janelas do porão.

— Chloe! — ele gritou, sua voz carregada de desespero.

Ele usou sua visão de raio-X, vasculhando as camadas de concreto e chumbo que ainda restavam na estrutura. Ele a viu. Estava no subsolo, cercada por chamas que se alimentavam de tanques antigos de nitrato de amônio. O prédio era uma bomba relógio.

Clark não hesitou. Ele atravessou a parede de tijolos como se fosse papel, descendo as escadas em chamas. O calor que derreteria um homem comum apenas o incomodava, mas a fumaça bloqueava sua visão normal.

— Chloe! — ele chamou novamente, usando sua superaudição para filtrar o som das chamas estalando.

— Aqui! — Ele ouviu um grito abafado, seguido por uma tosse violenta.

Clark chegou à porta de metal. Ela estava trancada e reforçada. Sem pensar, ele a arrancou das dobradiças com um único puxão, jogando-a para longe.

O cenário lá dentro era um inferno. O teto estava começando a ceder e o fogo bloqueava o acesso aos alunos.

— Clark! — Chloe gritou ao vê-lo através da cortina de fogo. Suas roupas estavam chamuscadas e ela mal conseguia manter os olhos abertos.

Ele inspirou profundamente e soprou com toda a força de seus pulmões. O sopro super-gelado criou um caminho temporário através das chamas, congelando o fogo por alguns segundos preciosos.

Clark correu até ela. Com um movimento rápido, ele rompeu as cordas como se fossem fios de seda.

— Eu te peguei — disse ele, a voz firme, embora seus olhos mostrassem o terror que sentira.

— Os outros... Clark, tire eles primeiro! — pediu ela, apontando para os alunos desmaiados pelo fumo.

Clark não discutiu. Ele pegou dois dos alunos, um em cada braço, e os levou para fora do prédio em um borrão de velocidade, deixando-os a uma distância segura. Ele voltou em menos de um segundo para pegar o terceiro aluno.

Quando ele voltou pela última vez para buscar Chloe, o teto da fábrica soltou um estalo sinistro. Uma viga imensa de aço se desprendeu, caindo em direção a ela.

— Não! — Clark gritou.

Ele se lançou sobre Chloe, usando seu próprio corpo como escudo. A viga atingiu suas costas com um estrondo metálico e dobrou-se ao meio, caindo inutilizada no chão. Clark nem sequer vacilou. Ele a pegou nos braços, protegendo-a contra seu peito.

— Segure-se — ordenou ele.

Ele atravessou a parede de fogo e subiu as escadas enquanto o prédio começava a implodir. Clark saltou por uma janela do segundo andar segundos antes de uma explosão massiva de produtos químicos reduzir a fábrica a um esqueleto de metal retorcido.

Ele pousou suavemente na grama alta, longe do calor das chamas. Clark colocou Chloe no chão com uma delicadeza infinita, suas mãos tremendo levemente enquanto ele verificava se ela estava ferida.

— Você está bem? — perguntou ele, a voz embargada. — Chloe, fale comigo.

Ela tossiu, inspirando o ar puro da noite de Smallville. Seus olhos se abriram e encontraram os dele. Havia fuligem em seu rosto e o cheiro de fumaça em seu cabelo, mas ela sorriu.

— Eu disse a ele que você me encontraria — sussurrou ela, estendendo a mão para tocar o rosto dele. — Eu sabia que você viria.

Clark a puxou para um abraço apertado, enterrando o rosto em seu pescoço. Ele sentia o coração dela batendo contra o seu, um lembrete rítmico de que ela estava viva.

— Eu quase te perdi — disse ele, a voz quebrada. — Chloe, eu não posso... eu não consigo imaginar isso.

— Você não me perdeu, Smallville — disse ela, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dele. — Mas você vai ter que me explicar como sobreviveu a uma viga de meia tonelada caindo nas suas costas sem rasgar a sua camiseta nova.

Clark deu uma risada nervosa, o alívio finalmente superando o medo.

— Eu tive sorte?

— Sorte? Clark, eu vi a viga dobrar. — Ela sorriu, aproximando-se e dando-lhe um beijo rápido nos lábios, ignorando o sabor de cinzas. — Mas vamos deixar a física para outra hora. Agora, eu só quero sair daqui antes que os bombeiros cheguem e comecem a fazer perguntas difíceis.

Eles olharam para os outros alunos, que começavam a acordar na grama, confusos mas salvos. Clark viu Julian Vane sendo detido por alguns policiais que haviam chegado ao local — o sequestrador não contara com a velocidade de um herói.

— Vamos para casa — disse Clark, pegando-a pela mão.

Enquanto caminhavam em direção ao Fusca de Chloe, que permanecera intacto a alguns quarteirões dali, o silêncio entre eles era confortável. A adrenalina estava baixando, dando lugar a uma compreensão profunda.

— Clark? — chamou ela, quando chegaram ao carro.

— Sim?

— Obrigada. Por ser o meu herói. E não estou falando da parte dos superpoderes. Estou falando da parte que não desistiu de me procurar.

Clark abriu a porta para ela, seu olhar carregado de um carinho que não precisava de palavras.

— Eu nunca vou desistir de você, Chloe. Nunca.

Eles entraram no carro e deixaram para trás as ruínas fumegantes da fábrica. Smallville voltaria a ser a cidade tranquila de sempre, mas para Clark e Chloe, as chamas daquela tarde haviam forjado algo ainda mais resistente. Eles haviam enfrentado o medo da perda e saído vitoriosos.

Enquanto dirigiam pela estrada escura, Chloe encostou a cabeça no ombro de Clark. Ela sabia que a vida com ele seria cheia de perigos, segredos e explosões. Mas, observando o perfil firme do homem ao seu lado, ela percebeu que não trocaria aquele caos por nenhuma calmaria do mundo. Porque, no final das contas, o maior teorema que ela já resolvera era que o amor não era sobre segurança, mas sobre quem estaria lá para atravessar o fogo por você. E Clark Kent, com ou sem capa, era o seu fogo e a sua salvação.