Areia vs argila
Labaredas de Areia e Argila
A viagem de volta para Sunagakure não foi feita sobre uma plataforma de areia flutuante e impessoal, mas sim em uma carruagem blindada, escoltada pela elite dos Shinobis da Areia. Gaara não permitiu que Deidara fosse tratado como um prisioneiro comum. Dentro do veículo, o silêncio era denso, quebrado apenas pelo sacolejar das rodas no terreno irregular que marcava a fronteira entre os países.
Deidara estava sentado de frente para Gaara, observando a paisagem árida através da pequena fresta da janela. Ele parecia mais pálido do que o normal, e suas mãos, agora livres de algemas, mas ainda sem acesso a argila explosiva, repousavam inquietas sobre o colo. O loiro sentia o olhar constante de Gaara sobre si — um olhar que não era mais de vigilância, mas de algo que ele ainda tinha dificuldade em rotular.
— Você está me encarando de novo, hum — disse Deidara, sem desviar os olhos da janela. — Se quer tirar uma foto, dura mais. Ou será que o grande Kazekage está apenas conferindo se o "recipiente" do seu herdeiro ainda está inteiro?
Gaara não se moveu. Sua postura era reta, as mãos cruzadas sobre os joelhos, mas a intensidade em seus olhos verdes era inegável.
— Não chame a si mesmo de recipiente, Deidara. E eu não estou preocupado apenas com o bebê. Estou preocupado com você. Você mal tocou na comida que trouxeram pela manhã.
Deidara soltou uma risada seca, finalmente virando o rosto para encarar o ruivo. O brilho desafiador em seus olhos azuis estava lá, mas havia uma sombra de exaustão que ele não conseguia esconder.
— Comida de hospital de Iwa tem gosto de pedra, e o que vocês servem aqui tem cheiro de poeira — ele reclamou, cruzando os braços. — Além disso, meu estômago parece estar em guerra constante. É como se houvesse uma pequena bomba relógio aqui dentro, e não é do tipo artístico que eu gosto.
— O médico disse que é normal nas primeiras semanas — Gaara explicou com uma paciência que parecia irritar Deidara ainda mais. — Especialmente para um Ômega que passou tanto tempo suprimindo sua natureza. Seu corpo está tentando se reajustar.
Deidara bufou, recostando a cabeça no estofado da carruagem.
— Minha natureza... hum. Eu passei anos sendo o que eu queria ser. Um artista, um terrorista, um homem livre. Agora, por causa de um descuido e de um jutsu barato, eu sou um "caso diplomático". Você tem noção do quanto isso fere o meu orgulho, Gaara?
— O que aconteceu no deserto não foi um descuido — Gaara disse, sua voz baixando de tom, tornando-se mais vibrante. — Foi uma força além do nosso controle. Mas o que acontece a partir de agora é uma escolha. Eu escolhi trazer você para Suna. Eu escolhi proteger vocês dois.
Deidara sentiu um calafrio percorrer sua espinha. O cheiro de Gaara — sândalo seco e a promessa de chuva no deserto — estava preenchendo o espaço confinado da carruagem, agindo como um calmante involuntário para seus sentidos de Ômega. Ele odiava o quanto aquela presença o afetava.
— Você e suas escolhas nobres... — Deidara murmurou, desviando o olhar novamente. — Você é um Alfa tão certinho que me dá náuseas. Mas não pense que vou virar um cidadão exemplar. Se eu me sentir entediado, eu vou transformar o seu palácio em fogos de artifício.
— Eu não esperava nada menos de você — respondeu Gaara, e pela primeira vez, Deidara viu um lampejo de divertimento real no rosto do Kazekage.
Ao chegarem em Sunagakure, a recepção foi cautelosa. A notícia de que o Kazekage estava trazendo um membro da Akatsuki para a vila como "hóspede sob custódia" já havia se espalhado. Temari os aguardava na entrada do prédio principal, com uma expressão que oscilava entre o choque e a resignação.
Gaara guiou Deidara não para as celas, mas para uma ala residencial privada, conectada ao seu próprio complexo. Era uma área bem ventilada, com tapetes luxuosos e uma vista privilegiada das dunas que cercavam a vila.
— Este será o seu espaço — disse Gaara, abrindo a porta de um quarto amplo. — Há um laboratório nos fundos. Eu providenciei argila neutra. Sem minerais explosivos por enquanto, mas você pode usar para esculpir. Achei que ajudaria a manter sua mente ocupada.
Deidara caminhou pelo quarto, tocando os móveis com desconfiança. Quando ouviu sobre a argila, seus olhos brilharam por um segundo antes de ele retomar sua máscara de indiferença.
— Argila sem explosão? Isso é como dar um pincel sem tinta para um pintor, hum. É um insulto à minha arte.
— É um começo — Gaara retrucou, fechando a porta atrás de si para que tivessem privacidade. — Deidara, eu sei que você se sente prisioneiro, mas aqui você está seguro. Iwa enviará espiões. A Akatsuki, se descobrir, verá você como um traidor ou um ponto fraco.
Deidara parou de costas para Gaara, seus ombros ficando subitamente tensos.
— Eu não sou um ponto fraco. Nunca fui.
— Eu sei que não — Gaara deu um passo à frente, reduzindo a distância entre eles. — Mas agora você carrega algo que é parte de mim também. E eu não sou o tipo de Alfa que deixa o que é seu para trás.
O loiro virou-se bruscamente, o rosto corado de raiva e algo mais que ele não queria admitir.
— "O que é seu"? Eu não sou sua propriedade, Kazekage! — Ele apontou o dedo para o peito de Gaara. — Só porque você me marcou naquele deserto sob o efeito de um veneno, não significa que você manda em mim.
Gaara segurou o pulso de Deidara com delicadeza, mas firmeza. A diferença de temperatura entre a mão fria de Gaara e a pele febril de Deidara era eletrizante.
— Eu nunca disse que você era minha propriedade — Gaara disse, mantendo o contato visual intenso. — Mas você é o pai do meu filho. E, quer você admita ou não, existe um laço entre nós que nem mesmo a sua arte explosiva pode destruir.
Deidara tentou puxar o braço, mas a força de Gaara era persistente, assim como o homem. Ele sentiu o coração martelar contra as costelas. O instinto de Ômega, amplificado pela gravidez, gritava para que ele se rendesse àquele toque, para que buscasse o conforto do pescoço do Alfa, onde o cheiro era mais forte.
— Eu odeio você, hum — Deidara sussurrou, embora sua voz tivesse perdido toda a convicção.
— Eu sei — Gaara respondeu, soltando o pulso dele, mas não se afastando. — Mas você vai aprender a conviver com isso. Pelo bem do que estamos criando.
As semanas seguintes foram um teste de paciência para ambos. Deidara passava a maior parte do tempo no pequeno laboratório, moldando figuras de argila que, embora não explodissem, possuíam uma beleza agressiva e detalhada. Gaara o visitava todas as noites, trazendo pessoalmente as refeições e garantindo que o loiro estivesse confortável.
A tensão entre eles era quase palpável. Era uma dança de atração e repulsa. Deidara provocava Gaara constantemente, fazendo piadas de duplo sentido sobre como o "sério Kazekage" se comportava entre quatro paredes, tentando arrancar qualquer reação emocional do ruivo. Gaara, por sua vez, respondia com uma sinceridade desarmante que muitas vezes deixava o loiro sem palavras.
Certa noite, uma tempestade de areia particularmente forte atingiu Suna. O uivo do vento contra as paredes do palácio era ensurdecedor. Deidara estava inquieto, andando de um lado para o outro no quarto, sentindo uma pressão estranha no ventre e uma ansiedade que não conseguia aplacar.
Quando a porta se abriu, ele não precisou olhar para saber quem era. O cheiro de Gaara o inundou antes mesmo de o ruivo entrar.
— A tempestade está forte — disse Gaara, fechando a porta. — Vim ver se você precisava de algo.
Deidara estava parado perto da janela protegida, os braços abraçando o próprio corpo.
— Eu me sinto... estranho, hum. É como se a areia estivesse tentando entrar na minha pele.
Gaara aproximou-se lentamente. Ele percebeu que Deidara estava entrando em um estado de estresse hormonal comum para Ômegas grávidos durante mudanças climáticas drásticas. Sem dizer uma palavra, Gaara sentou-se na borda da cama e estendeu a mão.
— Venha aqui.
— Eu não sou um cachorro que atende a comandos, Gaara — Deidara retrucou, mas seus pés o levaram em direção ao Alfa quase automaticamente.
Gaara o puxou para que ele se sentasse entre suas pernas, de costas para ele. Com movimentos lentos e cuidadosos, Gaara começou a liberar seu feromônio de forma controlada, envolvendo Deidara em uma aura de proteção e calma. Suas mãos subiram para os ombros do loiro, massageando a tensão acumulada ali.
— Relaxe, Deidara. A tempestade não pode chegar até você aqui.
Deidara soltou um gemido baixo, sua cabeça caindo para trás, repousando no ombro de Gaara. A resistência que ele vinha mantendo por semanas começou a desmoronar.
— Por que você faz isso? — Deidara perguntou, a voz abafada. — Por que se importa tanto com um prisioneiro que tentou matar você?
— Porque você não é mais apenas um prisioneiro — Gaara disse, sua mão descendo para o ventre de Deidara, cobrindo a mão do loiro que já estava ali. — E porque, no deserto, eu vi quem você é de verdade. Você busca a beleza no efêmero, mas eu quero mostrar que há beleza no que permanece.
Deidara virou o rosto levemente, e seus lábios ficaram a milímetros dos de Gaara. A respiração do loiro estava curta.
— Você é um filósofo de araque, hum. Mas... — Ele fechou os olhos, entregando-se ao toque. — Sua areia é quente.
Gaara não resistiu mais. Ele inclinou-se e selou seus lábios nos de Deidara. Não foi um beijo movido por veneno ou necessidade biológica urgente, mas algo profundo, carregado de uma promessa silenciosa. Deidara respondeu com uma intensidade faminta, suas mãos segurando a gola do manto de Gaara, puxando-o para mais perto.
Quando se separaram, ambos estavam ofegantes. Deidara tinha um brilho diferente nos olhos — menos ódio, mais curiosidade.
— Isso... — Deidara começou, tentando recuperar seu tom sarcástico — ...foi uma explosão de nível médio. Você ainda precisa praticar muito para chegar ao meu nível artístico.
Gaara sorriu, um sorriso que desta vez chegou aos seus olhos.
— Temos meses pela frente, Deidara. Eu pretendo praticar todas as noites.
Deidara sorriu de volta, um sorriso ladino e cheio de promessas.
— É bom que pretenda mesmo, hum. Porque se o meu filho nascer sem o senso estético correto, a culpa vai ser toda sua.
Naquela noite, sob o rugido da tempestade de areia, o Kazekage e o artista renegado encontraram um novo tipo de equilíbrio. Não era a paz que o mundo ninja conhecia, mas sim uma trégua apaixonada entre dois elementos que, embora opostos, descobriram que juntos podiam criar algo muito mais poderoso do que a destruição: uma vida, e talvez, um novo propósito.
A arte de Deidara sempre fora sobre o momento final, o brilho antes do fim. Mas, nos braços de Gaara, ele estava começando a entender que algumas explosões podiam durar uma vida inteira.