Areia vs argila
O Brilho da Argila e a Sombra do Deserto
O sol de Sunagakure era implacável, mas dentro das paredes de pedra do palácio do Kazekage, o ar era mantido fresco por uma circulação constante de vento e jutsus de resfriamento. Deidara estava sentado em um divã largo, cercado por pedaços de argila neutra que Gaara insistia em fornecer. Ele moldava um pequeno dragão com as mãos, as bocas em suas palmas trabalhando mecanicamente, embora o brilho em seus olhos não fosse de pura inspiração artística, mas de uma melancolia inquieta.
Sua barriga já começava a apresentar uma curvatura sutil, algo que ele tentava esconder sob as túnicas largas de seda que Gaara lhe dera, mas que para seus próprios sentidos parecia um farol gritante. Ele estava gostando da estadia — mais do que seu orgulho permitia admitir. Gostava das visitas noturnas de Gaara, do cheiro de sândalo que impregnava os lençóis e da forma como o ruivo ouvia suas teorias sobre a "arte efêmera" como se fossem escrituras sagradas. Mas o mundo lá fora não era tão acolhedor quanto o quarto do Kazekage.
A porta do salão se abriu com um estrondo controlado. Deidara não precisou olhar para saber quem era. O chakra afiado e seco como o vento do deserto anunciava Temari antes mesmo que ela desse o primeiro passo para dentro do cômodo.
— Ainda desperdiçando material com essas miniaturas inúteis? — a voz dela cortou o silêncio, carregada de um desdém que não era novidade.
Deidara suspirou, fechando as bocas das mãos e deixando o dragão de lado. Ele se ajeitou no divã, tentando manter a postura insolente que era sua marca registrada.
— Inúteis para quem não tem visão, hum — rebateu Deidara, arqueando uma sobrancelha. — Mas entendo que, para alguém que usa um leque gigante para soprar poeira, a delicadeza da arte seja um conceito estrangeiro.
Temari parou a poucos metros dele, os olhos estreitados em fendas de puro desprezo. Ela não via um hóspede, nem o pai do futuro sobrinho. Ela via o criminoso que ajudara a sequestrar seu irmão, o renegado que trouxera dor à sua vila.
— Você fala demais para alguém que só está aqui por misericórdia — disse ela, a voz baixa e perigosa. — A vila inteira comenta, sabia? Eles odeiam você. Cada vez que Gaara sai para te ver, o conselho se enfurece. Você é uma mancha na reputação dele. E essa... coisa que você carrega... — ela olhou para o ventre dele com uma expressão de nojo — ...não passa de um erro que Suna terá que carregar nas costas.
As palavras atingiram Deidara com a força de um soco no estômago. Ele estava acostumado a ser odiado. Ele amava ser odiado por seus inimigos; isso significava que sua arte causara impacto. Mas ouvir alguém chamar seu bebê de "erro" e "coisa" despertou uma dor que ele não sabia que era capaz de sentir. Suas mãos tremeram levemente, e ele as escondeu sob as mangas.
— Saia daqui, hum — disse Deidara, sua voz perdendo a vibração provocadora, soando subitamente oca.
— Com prazer — Temari girou nos calcanhares. — Só não se esqueça, Deidara: você pode ter o coração do meu irmão agora, mas nunca terá o respeito desta vila. Nem você, nem esse fruto de um jutsu maldito.
Quando a porta se fechou, o silêncio que restou parecia pesado demais para respirar. Deidara encolheu-se no divã, abraçando os próprios joelhos. Ele não ligava para o que os conselheiros diziam, nem para os olhares tortos dos guardas. Mas a ideia de que seu filho cresceria sendo chamado de "erro" por sua própria família... isso era uma explosão que ele não podia controlar.
Horas depois, quando o crepúsculo tingia o céu de um laranja profundo, Gaara entrou no quarto. Ele percebeu imediatamente que algo estava errado. O cheiro de Deidara, que geralmente era vibrante e desafiador, estava abafado, tingido pela amargura da tristeza.
— Deidara? — Gaara aproximou-se, sentando-se cautelosamente ao lado dele. — Você não foi jantar. O que aconteceu?
Deidara não olhou para ele. Ele continuava mexendo em um pedaço de argila, mas não moldava nada, apenas o esmagava entre os dedos.
— Por que você me trouxe para cá, Gaara? Hum? — a pergunta saiu em um sussurro. — Teria sido mais fácil me deixar em uma cela em Iwa. Lá, pelo menos, as paredes não têm olhos que me julgam a cada segundo.
Gaara franziu a testa, sua areia agitando-se levemente ao redor de seus pés, sentindo a angústia do outro.
— Alguém disse algo a você. Foi a Temari?
— Não importa quem foi! — Deidara explodiu, finalmente virando-se para ele, os olhos azuis brilhando com lágrimas que ele se recusava a deixar cair. — Eles estão certos, não estão? Eles me odeiam. Eles odeiam o fato de você estar comigo. E o pior... eles já odeiam o bebê antes mesmo de ele nascer. Eles o chamam de erro, Gaara. Um erro!
Gaara sentiu uma onda de frieza percorrer sua espinha. Ele conhecia bem aquela sensação. Ele passara a infância sendo chamado de monstro, de erro, de ferramenta. A ideia de que seu filho — e o homem que ele aprendera a amar de uma forma tortuosa e intensa — estivessem passando por isso o atingiu como uma lâmina.
— Olhe para mim — ordenou Gaara, sua voz carregada da autoridade de um Kazekage, mas suavizada pela ternura de um Alfa.
Deidara hesitou, mas acabou cedendo, encontrando o olhar esmeralda firme de Gaara.
— Você não é um prisioneiro aqui, e este bebê não é um erro — disse Gaara, levando a mão ao rosto de Deidara, limpando uma lágrima solitária que escapara. — Sunagakure é uma vila construída sobre a sobrevivência e a resiliência. Eles temem o que não entendem, mas eu sou o Kazekage. Minha palavra é a lei, mas meu coração... meu coração pertence a este "erro" e ao artista teimoso que o carrega.
— Você diz isso agora — Deidara soluçou, encostando a testa no ombro de Gaara —, mas e quando ele nascer? E quando ele vir os olhares que a sua irmã me dá? Eu não quero que ele cresça em um deserto de ódio, hum.
Gaara o puxou para um abraço apertado, envolvendo-o com seus braços e com sua própria presença protetora.
— Temari é protetora, e ela está errada em descontar as dores do passado em você ou no bebê. Eu falarei com ela — Gaara prometeu, beijando o topo da cabeça loira de Deidara. — Mas você precisa entender uma coisa, Deidara. Você sempre disse que a arte é um flash, um momento de glória que desaparece. Mas este bebê... ele é a nossa arte permanente. Ele é a prova de que mesmo do caos e de um jutsu inimigo, algo belo pode nascer.
Deidara relaxou nos braços dele, o calor de Gaara agindo como um bálsamo para suas feridas emocionais. Ele respirou fundo, inalando o cheiro de sândalo que tanto o acalmava.
— Você é muito brega às vezes, sabia? — Deidara murmurou, embora estivesse sorrindo contra o peito do ruivo. — "Arte permanente"... que conceito ridículo, hum.
— Pode ser ridículo, mas é a verdade — Gaara afastou-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dele novamente. — Deixe que eles olhem. Deixe que eles falem. Eles não sabem o que é ter a coragem de criar algo novo a partir das cinzas. Eu não vou deixar ninguém machucar vocês. Nem com lâminas, nem com palavras.
Deidara sentiu uma segurança que nunca conhecera na Akatsuki, onde era apenas uma peça em um tabuleiro de xadrez. Com Gaara, ele sentia que era o centro de um universo pequeno, mas sólido.
— Tudo bem, hum — disse Deidara, limpando o rosto com a manga da túnica e recuperando um pouco de seu brilho habitual. — Mas se a Temari olhar torto para mim de novo, eu não respondo por mim. Eu posso não ter argila explosiva, mas ainda tenho uma língua bem afiada.
Gaara soltou uma risada baixa, um som que raramente era ouvido fora daquele quarto.
— Eu não esperava nada diferente. Apenas tente não implodir o conselho antes do nascimento. Seria um problema diplomático difícil de resolver.
— Vou pensar no seu caso — Deidara provocou, puxando Gaara para um beijo lento e profundo, que selava a promessa de proteção.
Naquela noite, Deidara dormiu sem pesadelos. Ele sabia que o deserto lá fora ainda era frio e que os olhares de desprezo não desapareceriam da noite para o dia. Mas, enquanto sentia a mão firme de Gaara repousar sobre seu ventre durante o sono, ele percebeu que não precisava da aprovação de uma vila inteira.
Ele tinha o seu Alfa. Ele tinha a sua "arte permanente" crescendo dentro de si. E, pela primeira vez em sua vida de explosões e fugas, Deidara sentiu que tinha um lugar onde realmente pertencia. O ódio dos outros era apenas ruído de fundo diante do silêncio acolhedor e persistente da areia que o envolvia.
— Nós vamos ficar bem, hum — ele sussurrou para a escuridão do quarto, sentindo um chute suave contra sua palma.
E, no silêncio de Suna, a resposta veio no aperto suave da mão de Gaara contra a sua, uma promessa silenciosa de que, naquele deserto, o amor era a única força capaz de transformar poeira em vida.