As crianças que sonham em ser piratas
O Labirinto de Açúcar e o Peso da Coroa de Mel
O sol de Whole Cake Island não era como o sol do resto do Novo Mundo. Ele parecia ter um filtro alaranjado, denso, que fazia o ar cheirar constantemente a caramelo queimado e baunilha. Para as crianças do *Aethelgard*, o porto de Sweet City era uma visão saída de um delírio febril. Edifícios feitos de pão de ló, rios de suco de uva e árvores cujas folhas eram biscoitos de manteiga.
No entanto, para Miu, cada cor vibrante daquele lugar parecia uma mancha de sangue em potencial. Ela estava parada no convés principal, observando os operários de Big Mom instalarem o novo mastro auxiliar onde a bandeira da Imperatriz agora ondulava, soberana, acima da sua.
— Senhorita Miu, o número 1402 está chorando. Ele diz que o chão da ilha tentou morder o pé dele — relatou Madame Rendas, aproximando-se com sua elegância de porcelana.
Miu suspirou, ajeitando uma mecha de seu cabelo branco que insistia em se prender nos botões de seu vestido.
— Diga a ele que são apenas os "Homies", Madame Rendas. Explique que, nesta ilha, até o chão tem alma, mas que eles não podem machucar ninguém do nosso navio. É a lei da Mamãe agora.
A palavra "Mamãe" deixou um gosto amargo em sua boca. Ela se virou para ver o número 1, que a observava de longe com uma expressão sombria. O jovem não dizia nada desde que ela retornara do palácio, mas o silêncio dele era mais barulhento do que qualquer protesto.
— 1, venha aqui — chamou ela suavemente.
O rapaz aproximou-se, seus passos pesados ecoando no metal que Miu tanto se esforçara para comprar.
— Você realmente acredita que ela vai cumprir o acordo? — perguntou ele, sem olhar nos olhos vermelhos de Miu. — Ela é uma pirata, Miu. Ela consome tudo o que toca.
— Eu sei o que ela é — respondeu Miu, baixando a voz para que as outras crianças não ouvissem. — Mas você viu os navios da Marinha patrulhando as fronteiras de Totland? Eles deram meia-volta assim que viram a nossa nova escolta. Pela primeira vez em anos, ninguém está tentando nos afundar.
— — A que custo? — O número 1 finalmente olhou para ela, e havia uma chama de revolta em suas íris. — Hoje ela pede lealdade. Amanhã, ela pedirá que o número 15 use seus poderes para destruir uma ilha que não pagou o tributo de doces. E o que você vai fazer quando ela exigir que um de nós se case com um de seus filhos para "fortalecer os laços"?
Miu sentiu um calafrio. Ela sabia que os casamentos políticos eram a base do império de Linlin.
— — Eu protegerei vocês — disse ela, segurando as mãos calejadas do jovem. — Eu sou a justiça deste navio, 1. Se ela tentar cruzar essa linha, eu encontrarei uma saída. Mas agora, precisamos de tempo. Tempo para vocês crescerem, tempo para entenderem seus poderes sem o medo de um bisturi no pescoço.
A conversa foi interrompida pelo som de trombetas feitas de alcaçuz. Um grupo de soldados de xadrez marchava pelo cais, escoltando uma carruagem que parecia um enorme merengue. Da carruagem desceu uma figura alta, de pernas longas e um chapéu de abas largas adornado com flores: Charlotte Smoothie, uma das Generais Doces.
Miu desceu a passarela para recebê-la, sentindo-se minúscula diante da estatura da mulher.
— — A Mamãe está impaciente, Miu — disse Smoothie, sua voz fria e líquida como o suco que ela extraía de seus inimigos. — Ela quer ver o progresso dos "pequenos prodígios". Trouxe uma lista de instrutores que começarão o treinamento amanhã.
Miu pegou o pergaminho, sentindo o peso do papel.
— — Meus filhos não são soldados de infantaria, General. O acordo dizia que eu supervisionaria o treinamento.
— — O acordo diz que eles pertencem à frota — rebateu Smoothie, olhando por cima do ombro de Miu para as centenas de cabeças curiosas que espreitavam pelas amuradas do navio. — E a frota precisa de força. A Mamãe enviará Charlotte Oven para testar a resistência térmica dos números 500 a 600. Ouvi dizer que eles possuem modificações de pele de salamandra.
Miu sentiu uma onda de fúria subir por sua garganta. Ela deu um passo à frente, e o ar ao redor de seus pés começou a vibrar.
— — Se o Oven encostar um dedo neles com a intenção de machucar, eu transformarei o calor dele em nada mais do que o de uma vela de aniversário — disse ela, sua voz soando com uma autoridade gélida. — Eles são crianças, não metais para serem forjados no fogo.
Smoothie arqueou uma sobrancelha, surpresa com a audácia da pequena mulher.
— — Você tem coragem, admito. Mas tome cuidado, Miu. Em Totland, a coragem sem utilidade é apenas um ingrediente para o desastre.
A General se retirou, deixando para trás um rastro de tensão. Miu voltou para o navio, onde o Sargento Fofura a esperava na entrada. O urso azul parecia inquieto, suas orelhas de pano murchas.
— — Eu sei, Sargento — murmurou ela, acariciando o braço felpudo do brinquedo vivo. — O jardim está ficando perigoso.
Naquela noite, o *Aethelgard* não estava em festa, apesar de estar atracado na cidade mais doce do mundo. Miu reuniu os números mais velhos na sala de conselho — uma sala decorada com mapas e desenhos infantis.
— — Escutem bem — começou ela, olhando para os rostos de 1, 15, 22, 104 e 1002. — Estamos em território inimigo, mesmo que nos chamem de aliados. A partir de amanhã, os filhos de Big Mom virão para "treinar" vocês.
— — Nós vamos lutar contra eles? — perguntou o número 15, com um brilho de antecipação nos olhos.
— — Não — respondeu Miu firmemente. — Vocês vão aprender. Observem as técnicas deles, entendam como eles usam o Haki, como coordenam seus ataques. Mas nunca mostrem a extensão total do que podem fazer. Guardem o seu melhor para si mesmos. Se eles pensarem que conhecem todos os seus truques, eles se tornarão arrogantes. E a arrogância é a única fraqueza que podemos explorar.
— — E se eles tentarem nos levar para longe do navio? — perguntou a número 22, apertando seu dragão de pelúcia contra o peito.
— — Ninguém sai deste navio sem a minha permissão — declarou Miu. — Se tentarem forçar, usem os protocolos de defesa de brinquedo. O Sargento Fofura e Madame Rendas têm ordens para agir como escudos.
A reunião terminou com um sentimento de resistência silenciosa. Miu passou o resto da noite caminhando pelos dormitórios. Ela parou no quarto das crianças menores, onde o número 2882 dormia abraçada ao seu dragão guardião. A visão daquela paz frágil era o que mantinha Miu de pé.
De repente, um som estranho veio do convés superior. Não era o passo de um guarda de xadrez, mas algo mais leve, quase rítmico. Miu subiu as escadas rapidamente, seus cabelos brancos flutuando como uma aura de fantasma sob a luz da lua de queijo.
Lá, sentada na borda do navio, estava uma menina. Ela parecia ter a mesma idade que muitas das crianças de Miu, mas tinha três olhos — o terceiro escondido sob uma franja espessa. Era Charlotte Pudding.
— — É um navio muito bonito — disse Pudding, sem olhar para trás. — Quase não parece que foi comprado com sangue e lágrimas.
Miu aproximou-se cautelosamente. Ela sabia quem era a menina e a reputação de sua linhagem.
— — Foi comprado com a esperança de um futuro, Pudding-sama — respondeu Miu, parando a alguns metros de distância.
Pudding virou-se, e por um momento, a máscara de doçura que ela costumava usar para sua mãe desapareceu, revelando uma tristeza profunda e amarga.
— — Futuro? — Pudding soltou uma risada curta. — Neste lugar, o único futuro que existe é o que a Mamãe escreve para você. Você acha que a protegeu? Você apenas as trouxe para o matadouro mais enfeitado do mundo.
— — Eu fiz o que era necessário para que elas não morressem hoje — rebateu Miu. — O amanhã nós construiremos.
— — Você é ingênua — disse Pudding, levantando-se. — Mas eu gosto do seu navio. Ele cheira a algo que eu não sinto há muito tempo. Cheira a... casa. Não a uma casa feita de doces que você pode comer, mas a uma casa onde você pode chorar sem que as paredes riam de você.
Pudding caminhou em direção à passarela, mas parou antes de descer.
— — Um aviso, Miu. Amanhã, Oven não virá apenas para treinar. Ele virá para marcar o gado. Ele trouxe ferros de marcar com o símbolo da Mamãe. Ele quer colocar a marca nas crianças mais fortes.
O coração de Miu parou por um segundo.
— — Por que você está me contando isso?
Pudding deu de ombros, sua expressão voltando a ser a de uma boneca perfeita.
— — Talvez porque eu queira ver se a sua "justiça" é tão forte quanto o seu cabelo é longo. Ou talvez porque eu odeie o Oven. Quem sabe?
A menina desapareceu na escuridão do porto, deixando Miu com um peso renovado no peito. Ela não conseguia dormir. Se Oven tentasse marcar as crianças, o acordo estaria acabado antes mesmo de começar. Ela não permitiria que aqueles corpos, já tão cicatrizados por experimentos, fossem marcados como propriedade de outra pessoa.
Ao amanhecer, o porto de Sweet City estava agitado. Charlotte Oven chegou exatamente como Pudding previra. Ele era um homem imenso, cujas roupas pareciam estar prestes a entrar em combustão. Atrás dele, soldados carregavam brasas vivas e ferros de metal incandescente.
— — Traga os espécimes, Miu! — rugiu Oven, sua voz fazendo o ar vibrar de calor. — A Mamãe quer que todos saibam a quem esses monstros pertencem agora!
Miu estava parada no topo da passarela, ladeada pelo Sargento Fofura e pelo número 1. Atrás dela, as 2994 crianças estavam em formação, mas não havia medo em seus rostos; havia uma calma perturbadora, uma disciplina que elas haviam aprendido nos laboratórios e que Miu refinara com amor.
— — O acordo dizia proteção, Oven — disse Miu, sua voz projetada por um sistema de som invisível criado pelo número 88. — Marcar seres humanos não é proteção. É gado. E ninguém neste navio é um animal.
— — Eu não vim aqui para debater semântica com uma garotinha! — Oven deu um passo à frente, e o metal da passarela começou a brilhar de vermelho sob seus pés. — Saia da frente ou eu farei este navio derreter antes do meio-dia!
— — Sargento — comandou Miu baixinho.
O urso azul avançou. Oven soltou uma gargalhada e desferiu um soco carregado de calor intenso contra o peito do brinquedo. O impacto deveria ter atravessado o tecido e o enchimento, mas algo estranho aconteceu. O calor de Oven simplesmente desapareceu ao tocar o Sargento Fofura.
O urso, imperturbável, abraçou Oven.
— — O que... o que é isso? — gritou Oven, tentando se soltar, mas percebendo que sua Akuma no Mi, a *Netsu Netsu no Mi*, não estava funcionando.
— — O Sargento Fofura não é apenas um brinquedo, Oven — explicou Miu, descendo a passarela com passos lentos. — Ele é feito de um material que eu chamo de "Vácuo de Afeto". Ele absorve energia térmica e cinética para se manter fofinho. Quanto mais você esquenta, mais macio ele fica.
As crianças no convés começaram a rir. Ver um dos temidos oficiais de Big Mom sendo "abraçado" por um urso de pelúcia gigante era uma visão impagável.
— — Solte-me, sua aberração! — Oven rugiu, seu rosto ficando roxo de raiva.
— — Eu soltarei — disse Miu, parando diante dele. — Mas você vai levar seus ferros de marcar de volta para o castelo. E dirá à sua mãe que o treinamento pode começar, mas a marcação nunca acontecerá. Se ela quiser um símbolo de lealdade, ela terá a nossa bandeira ao lado da dela. Mas a pele dos meus filhos é sagrada.
Oven, humilhado e incapaz de usar seus poderes contra o urso, rosnou uma maldição. Quando o Sargento finalmente o soltou, ele recuou, sinalizando para seus soldados recolherem as brasas.
— — Você vai se arrepender disso, Miu — ameaçou ele, antes de se retirar sob os olhares de deboche das crianças.
Miu observou-os partir, mas não sentiu vitória. Ela sentiu o início de uma guerra de atrito. Ela se virou para as crianças, que agora comemoravam.
— — Escutem! — gritou ela, e o silêncio caiu instantaneamente. — Hoje vencemos uma pequena batalha. Mas a partir de agora, o treinamento será real. Não porque a Big Mom quer, mas porque vocês precisam ser fortes o suficiente para que ninguém, nunca mais, ouse trazer um ferro de marcar para perto de vocês. Vocês são os Guardiões do *Aethelgard*. E este navio não é uma prisão, é a nossa fortaleza!
Um rugido de aprovação ecoou pelo porto, um som que fez até os Homies de Sweet City tremerem.
Naquela tarde, o treinamento começou. Mas não foi o treinamento que Big Mom esperava. Sob a supervisão de Miu, as crianças começaram a combinar seus poderes de formas inéditas. O número 582, que controlava metal, trabalhava com o número 104 para criar armaduras radioativas. O número 15 e a número 22 criavam tempestades localizadas para confundir os instrutores de xadrez.
Miu observava tudo de sua cadeira na proa. Ela sabia que estava caminhando sobre uma corda bamba. De um lado, o Governo Mundial; do outro, a fome insaciável de uma Yonkou. E no meio, ela, uma jovem de 1,60 de altura com cabelos que tocavam o chão.
— Você está sendo muito corajosa — disse uma voz ao seu lado.
Era o número 1. Ele se sentou no chão ao lado de sua cadeira, observando o treinamento.
— — Eu estou apenas tentando não desmoronar, 1 — confessou ela, fechando os olhos por um momento.
— — Você não vai desmoronar — disse ele, com uma certeza que aqueceu o coração dela. — Porque nós somos os seus brinquedos, Miu. E brinquedos nunca deixam seu dono lutar sozinho.
Miu sorriu, uma lágrima solitária escapando de seus olhos vermelhos. Ela olhou para o horizonte, onde as nuvens de Totland pareciam algodão-doce, mas ela sabia que, por trás delas, o mundo continuava cruel. No entanto, ali, no convés do *Aethelgard*, entre risadas de crianças e o treinamento de pequenos deuses, ela sentiu que a justiça ainda tinha uma chance.
Ela era Miu, a Mãe dos Monstros, a Rainha dos Brinquedos, a Justiceira de Neve. E enquanto houvesse uma única criança sob seus cuidados, ela transformaria o próprio inferno em um parque de diversões para protegê-la.
A noite caiu sobre Whole Cake Island, e enquanto a Imperatriz Linlin sonhava com bolos e poder, no porto, um navio gigante brilhava com uma luz própria. Era a luz da resistência, embrulhada em pelúcia e aço, esperando pelo momento em que o mundo finalmente entenderia que não se deve brincar com o coração de uma mãe.