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As crianças que sonham em ser piratas

O Despertar da Fragilidade e o Chamado do Velho Herói

Miu abriu os olhos abruptamente, mas a visão não era do convés de aço ou dos campos de doces de Totland. O teto de madeira clara de seu quarto particular no *Aethelgard* parecia girar em uma dança lenta e nauseante. O suor frio encharcava seus longos cabelos brancos, que se espalhavam pelos lençóis de seda como teias de aranha desfeitas. Ela tentou se levantar, mas uma pontada aguda de dor atravessou suas têmporas, e seu corpo pareceu pesar toneladas.

— Foi... foi tudo um sonho? — sussurrou ela, a voz saindo como um arranhão seco na garganta.

A febre queimava em suas bochechas, pintando um carmim doentio sob seus olhos vermelhos expressivos. Ela tateou o ar, sentindo o calor opressor que emanava de sua própria pele. As imagens de Big Mom, as ameaças de Oven e o pacto sombrio ainda estavam vívidos em sua mente, mas o silêncio do navio dizia outra coisa. Não havia frotas de doces ao redor, apenas o som reconfortante e constante do motor do navio e o murmúrio distante das crianças brincando nos níveis inferiores.

Miu soltou um soluço entrecortado, cobrindo o rosto com as mãos pequenas. O exaustivo fardo de ser a única protetora de quase três mil vidas estava cobrando seu preço físico. Sua mente, forçada a estar sempre um passo à frente de piratas e do Governo Mundial, havia criado aquele pesadelo como um reflexo de seus maiores medos.

— Madame Rendas... — chamou ela, sua voz mal saindo.

Em poucos segundos, a porta do quarto se abriu suavemente. A boneca de porcelana de tamanho humano entrou, seus pés mecânicos não emitindo som algum sobre o tapete. Ela carregava uma bacia de água fresca e um pano.

— A senhorita teve um delírio febril, Miu-sama — disse a boneca com sua voz melódica de caixa de música. — Sua temperatura subiu perigosamente durante a madrugada. O número 52 tentou usar seus poderes de resfriamento, mas eu o impedi. Febre de exaustão não se cura com gelo, mas com descanso.

— Eu não posso descansar, Rendas — gemeu Miu, aceitando o pano úmido que a boneca colocou em sua testa. — Eles estão vindo. Se não for a Big Mom, será o Kaidou, ou a Marinha, ou... eu não aguento mais ver ganchos de abordagem subindo pelas laterais deste navio.

Miu olhou para a janela circular de seu quarto. O horizonte estava limpo, mas ela sabia que a paz era uma ilusão temporária. Ela precisava de algo que seu navio, por mais poderoso que fosse, não podia oferecer sozinha: legitimidade. Proteção que não viesse de um novo mestre cruel, mas de alguém que entendesse o valor de uma vida.

Com um esforço hercúleo, Miu sentou-se na beira da cama. Suas pernas tremiam.

— Traga-me o Den Den Mushi dourado — ordenou ela. — Não o de emergência do Governo... o outro. O que está guardado na caixa de carvalho.

A boneca hesitou por um milésimo de segundo, mas obedeceu. Ela retornou com um caracol de aparência robusta, usando uma pequena capa de oficial da Marinha e com uma marca de biscoito de arroz no lado da concha.

Miu olhou para o aparelho com hesitação. Fazia anos que ela não falava com ele. Desde que decidira usar sua herança para resgatar as crianças e comprar o *Aethelgard*, ela optara pelo isolamento para não manchar a reputação do homem que a acolhera quando ela não tinha nada. Para o mundo, ele era o Herói da Marinha. Para ela, ele era a única figura paterna que já conhecera.

Seus dedos trêmulos discaram o número privado. O som do caracol chamando parecia ecoar no ritmo de seu coração acelerado.

*Puru-puru-puru... Puru-puru-puru... Gacha!*

— Alô? Quem é o engraçadinho que está ligando para o meu canal privado na hora do lanche? — A voz do outro lado era estrondosa, acompanhada pelo som nítido de algo sendo mastigado com barulho. — É bom que seja importante, ou eu vou te dar um Punho de Amor através do sinal!

Miu sentiu as lágrimas transbordarem antes mesmo de conseguir falar. O som daquela voz, tão cheia de vida e despreocupação, quebrou as últimas defesas que ela mantinha.

— Vovô... — soluçou ela, a voz falhando. — Sou eu... a Miu.

Houve um silêncio absoluto do outro lado da linha. O som de mastigação parou instantaneamente. Miu podia imaginar o rosto de Monkey D. Garp mudando de uma expressão de irritação para uma de choque absoluto.

— Miu? Pequena Miu? — A voz de Garp agora estava baixa, desprovida de sua habitual agressividade brincalhona. — Por todos os mares... onde você se meteu, menina? Eu movi céus e terra atrás de você depois que você sumiu com aquela fortuna! Pensei que piratas tivessem te pegado, ou pior, que você tivesse virado uma!

— Eu não virei pirata, vovô — disse ela, limpando o nariz com a manga do pijama. — Eu... eu comprei um navio. Um navio muito grande. E eu resgatei algumas pessoas.

— Algumas pessoas? — Garp soltou um suspiro que soou como um vendaval. — Eu ouvi os relatórios, Miu. Um navio gigante que navega pelo Novo Mundo, protegendo crianças modificadas que o Governo Mundial deu como "perdidas". Você tem ideia do vespeiro onde meteu a mão? Os Gorosei estão espumando de raiva!

— Eles eram crianças, vovô! — Miu gritou, sua voz ganhando força através da febre. — Elas estavam em jaulas! Estavam sendo cortadas, mudadas, transformadas em armas! Eu não podia deixar... eu não podia ser a neta do herói que defende a justiça e fechar os olhos para isso!

Garp ficou em silêncio novamente. Do outro lado, Miu ouviu o som de um suspiro cansado.

— Eu disse que faria de tudo para que você não seguisse o mau caminho, Miu. E, tecnicamente... salvar órfãos não é um crime — comentou Garp, embora sua voz soasse pesada. — Mas você roubou propriedades do Governo. Para eles, você é uma criminosa do pior tipo.

— Eles continuam nos atacando — desabafou Miu, as palavras saindo em uma cascata desesperada. — Piratas tentam nos saquear, a CP0 tenta nos invadir... eu tive um pesadelo agora, vovô. Eu sonhei que tinha que me vender para a Big Mom para manter as crianças seguras. Eu sonhei que elas estavam sendo marcadas como gado. Eu não durmo mais. Eu tenho febre toda noite. Eu sou alta para uma humana, mas me sinto tão pequena... eu não sei quanto tempo mais eu consigo segurar isso sozinha.

Os soluços de Miu tornaram-se mais pesados. Ela se encolheu na cama, segurando o Den Den Mushi como se fosse a mão do próprio Garp.

— É exaustivo... — sussurrou ela. — Cada vez que o sino de alerta toca, meu coração para. Eu olho para o número 7, para o número 1, para todos eles... e vejo o medo nos olhos deles. Eles acham que eu sou invencível porque eu crio brinquedos que lutam, mas eu sou apenas a Miu. Eu só queria que eles tivessem um jardim onde pudessem correr sem olhar para o céu esperando por balas de canhão.

Garp não a interrompeu. Ele ouviu cada palavra, cada soluço, sua expressão endurecendo a cada segundo. Ele conhecia Miu desde que ela era uma criança delicada e frágil que se escondia atrás de suas pernas quando estranhos se aproximavam. Ver aquela menina carregar o peso de três mil almas modificadas era algo que o atingia profundamente em seu senso de honra.

— Escute-me bem, Miu — disse Garp, sua voz agora era a do Vice-Almirante lendário, firme e inabalável. — Pare de chorar. Uma justiceira não pode ver o horizonte se os olhos estiverem nublados.

Miu tentou controlar a respiração, limpando os olhos vermelhos.

— Eu vou conversar com o Sengoku — continuou Garp. — E vou bater na mesa daqueles velhos no Governo. Eles me devem muitos favores por todos esses anos de serviço limpando a bagunça deles. Vou tentar negociar um status de "Santuário Neutro" para o seu navio. Não vai ser fácil, e eles vão querer garantias de que essas crianças não vão virar piratas no futuro.

— Elas só querem ser livres, vovô.

— Eu sei, eu sei. Mas o mundo é um lugar complicado para quem é diferente. — Garp fez uma pausa, e o som de sua risada curta e rouca voltou. — E sobre essa história de se vender para a Big Mom... se aquela velha gorda chegar perto de você, eu mesmo atravesso o Novo Mundo para dar um soco na cara dela! Ninguém toca na minha neta e sai ileso.

Miu deu uma risadinha fraca, sentindo um peso enorme ser retirado de seu peito.

— Obrigada, vovô.

— Não me agradeça ainda. O Governo é teimoso como uma mula. Mas eu vou fazer o possível. — O tom de Garp suavizou-se. — E Miu... tente descansar. Você não pode cuidar de ninguém se cair morta de exaustão. Eu vou tentar passar para uma visita qualquer dia desses. Vou levar alguns biscoitos de arroz e ver se esse seu navio é realmente tão grande quanto dizem.

— É maior que o seu navio de guerra — brincou ela, sentindo a febre finalmente começar a ceder sob o alívio emocional.

— Bwahaha! Veremos! Agora vá dormir. E Miu... — Garp fez uma pausa solene. — Eu tenho orgulho de você. Você tem mais coragem do que metade dos Almirantes que eu conheço.

O Den Den Mushi desligou com um estalo suave. Miu ficou olhando para o caracol por um longo tempo, sentindo uma paz que não experimentava há meses. Ela sabia que a ajuda de Garp não resolveria tudo magicamente, mas ter o apoio do homem mais forte da Marinha era um escudo que nenhum metal poderia igualar.

— Madame Rendas — chamou ela, sentindo o sono finalmente chegar, mas desta vez um sono sem pesadelos.

— Sim, Miu-sama?

— Peça ao número 1 para dobrar a ração de doces hoje. Diga que temos um motivo para celebrar.

— Como desejar.

Miu deitou-se novamente. Seus cabelos brancos agora pareciam mais leves ao redor dela. Ela fechou os olhos e, pela primeira vez, não imaginou navios piratas ou laboratórios escuros. Ela imaginou Garp chegando em seu navio, rindo alto e abraçando as crianças enquanto comia seus biscoitos de arroz.

Lá fora, as ondas do Novo Mundo continuavam a bater contra o casco do *Aethelgard*, mas o navio parecia navegar com mais firmeza. A justiça de Miu não estava mais sozinha. Ela tinha um pai, um avô e o herói mais lendário dos mares ao seu lado. E sob o brilho da lua, a pequena justiceira de olhos vermelhos finalmente dormiu o sono dos justos, pronta para enfrentar qualquer tempestade que o amanhã trouxesse.