As Horas Entre Nós
O Peso do Aço e a Maciez da Seda
O trajeto de volta para o apartamento foi envolto em um silêncio denso, mas diferente do silêncio punitivo de horas atrás. Era um silêncio de exaustão emocional, onde o som do motor da caminhonete de Hylda parecia preencher todos os espaços vazios entre as duas. Gabriele olhava pela janela, observando as luzes da cidade industrial passarem como borrões amarelados, enquanto Hylda mantinha as mãos firmes no volante, os nós dos dedos ainda sujos de graxa e nicotina, mas agora relaxados.
Quando a porta do apartamento finalmente se fechou atrás delas, o isolamento do mundo exterior trouxe de volta a eletricidade que havia sido interrompida na calçada. Gabriele deixou sua bolsa sobre o aparador de entrada, um gesto mecânico de quem ainda tentava recuperar a compostura, mas seus ombros estavam caídos, revelando a fragilidade que a discussão havia deixado.
Hylda parou no meio da sala, observando-a. Ela se sentia imensa naquele ambiente tão meticulosamente organizado, como um elefante em uma loja de cristais. A culpa por ter usado Bia para ferir Gabriele ainda latejava em suas têmporas, misturada ao desejo avassalador que sentia toda vez que via Gabriele desmoronar sua fachada de perfeição.
— Gabi — chamou Hylda, a voz saindo como um trovão baixo na calmaria do apartamento.
Gabriele se virou, os olhos ainda um pouco vermelhos, o vestido de seda azul-marinho abraçando suas curvas de uma forma que Hylda sempre considerou uma tortura particular.
— Eu ainda estou processando tudo, Hylda — murmurou Gabriele, abraçando o próprio corpo. — Foi muita coisa para uma noite só.
Hylda deu um passo à frente, diminuindo a distância. Ela não queria falar de sentimentos agora; as palavras já haviam sido gastas na calçada e, para uma mulher como ela, o afeto era algo que se provava com o corpo, com a presença, com a entrega.
— Eu sei. Eu fui uma idiota — disse Hylda, parando a poucos centímetros de Gabriele. O cheiro de festa — fumaça e cerveja — ainda emanava dela, mas havia algo mais profundo, o cheiro de arrependimento. — Deixa eu cuidar de você.
Hylda estendeu a mão, hesitante por um microssegundo, antes de tocar o zíper invisível nas costas do vestido de Gabriele. Seus dedos calejados, acostumados a lidar com engrenagens pesadas e metal bruto, tremeram levemente ao entrar em contato com a pele macia da nuca de Gabriele.
— Hylda... — Gabriele suspirou, fechando os olhos quando sentiu o toque áspero.
— Shh. Só relaxa, madame — sussurrou Hylda, a boca roçando a orelha de Gabriele. — Deixa o mundo lá fora.
Com uma precisão que contrastava com sua aparência bruta, Hylda deslizou o zíper para baixo. O som do metal correndo pelo tecido foi o único ruído no quarto. O vestido escorregou pelos ombros de Gabriele, revelando a lingerie de renda fina que ela sempre usava, uma armadura de elegância que Hylda estava ansiosa para desmantelar.
Hylda ajudou Gabriele a se livrar das mangas, e o vestido caiu em um amontoado de seda azul no chão de madeira. Gabriele estava trêmula, não de frio, mas de uma antecipação que a assustava. Ela se virou para Hylda, encontrando aqueles olhos escuros e intensos que pareciam ler sua alma através de todas as camadas de livros e normas sociais.
— Você tem certeza? — perguntou Hylda, a voz carregada de uma incerteza rara. — Eu não quero... eu não quero que você sinta que eu estou forçando nada depois daquela cena ridícula na festa.
Gabriele respondeu puxando Hylda pela gola da jaqueta de couro, trazendo-a para um beijo que era metade desespero e metade perdão. Hylda soltou um gemido baixo, a mão esquerda espalmada nas costas de Gabriele, puxando-a para mais perto, enquanto a direita se perdia nos cabelos perfeitamente arrumados, desmanchando o coque com uma urgência faminta.
Elas se moveram em direção ao quarto, um emaranhado de pernas e respirações curtas. Hylda chutou as botas para longe e livrou-se da jaqueta e da camiseta em movimentos bruscos, revelando o tronco coberto de tatuagens e as cicatrizes de uma vida vivida nos limites. Quando caíram sobre a cama de lençóis de linho egípcio, o contraste era absoluto: a brancura imaculada da cama de Gabriele sob o corpo marcado e suado de Hylda.
Hylda pairou sobre ela por um momento, os braços musculosos sustentando seu peso. Ela olhou para Gabriele — a pele pálida, os olhos fixos nos seus, a boca entreaberta — e sentiu um medo súbito. O medo de que sua força fosse demais, de que sua natureza bruta acabasse por quebrar aquela mulher que ela considerava a coisa mais preciosa que já possuíra.
— Eu tenho medo de te machucar, Gabi — confessou Hylda, os dedos traçando o contorno dos lábios de Gabriele. — Eu sou toda feita de quinas e você é... você é seda.
Gabriele sorriu, um sorriso pequeno e corajoso, e levou as mãos às bochechas de Hylda, sentindo a aspereza da pele.
— Então me quebre, Hylda — sussurrou Gabriele. — Eu estou cansada de ser inteira. Eu quero que você me mostre onde eu começo e onde você termina.
Hylda não precisou de mais nada. Ela mergulhou no pescoço de Gabriele, seus beijos deixando marcas que a bibliotecária teria dificuldade em esconder no dia seguinte, mas que, naquele momento, eram medalhas de pertencimento. As mãos de Hylda exploravam cada centímetro do corpo de Gabriele com uma curiosidade devota, descobrindo as reações, os arrepios, os sons baixos que ela arrancava daquela mulher tão contida.
Quando Hylda finalmente se uniu a ela, foi como se o aço e o veludo se fundissem em uma forja única. Não foi um ato delicado; foi uma reivindicação. Hylda se movia com uma intensidade que fazia Gabriele perder o fôlego, um ritmo que ecoava as máquinas da fábrica, mas carregado de uma ternura que só Hylda sabia demonstrar. Gabriele enterrava as unhas nas costas de Hylda, sentindo o relevo das tatuagens sob seus dedos, deixando-se levar pelo caos que aquela mulher trouxera para sua vida.
No clímax, Gabriele gritou o nome de Hylda, um som que ecoou pelas paredes cheias de livros, uma quebra definitiva do silêncio que ela tanto prezara. Hylda desabou sobre ela, o coração batendo contra o de Gabriele como um pistão desgovernado, a respiração pesada e quente contra o seu ombro.
Minutos depois, o quarto estava mergulhado em uma paz exausta. Hylda se afastou um pouco, deitando-se de lado para observar Gabriele. Ela sentia um aperto no peito, uma vulnerabilidade que a deixava inquieta.
— Você está bem? — perguntou Hylda, a voz quase um sussurro. — Eu... eu passei do ponto?
Gabriele abriu os olhos devagar, um brilho de satisfação e paz neles. Ela estendeu a mão e acariciou o braço de Hylda, onde uma tatuagem de uma rosa cheia de espinhos se destacava.
— Você foi perfeita, Hylda. Pela primeira vez em muito tempo, eu não estava pensando em nada. Eu só estava... aqui. Com você.
Hylda suspirou, aliviada, e tateou a mesa de cabeceira em busca do maço de cigarros que havia deixado ali antes de saírem. Ela tirou um, levando-o aos lábios, e buscou o isqueiro.
— Nem pense nisso — disse Gabriele, sentando-se e segurando a mão de Hylda antes que ela pudesse acender o fogo.
Hylda arqueou uma sobrancelha, o cigarro pendurado no canto da boca.
— O quê? É o meu cigarro pós-guerra, madame. Meus pulmões pedem.
— Não — Gabriele disse com firmeza, mas com um brilho carinhoso nos olhos. — Chega de fumaça por hoje. Eu quero sentir o seu cheiro, não o cheiro daquela fábrica ou do tabaco. Quero sentir você.
Hylda olhou para o cigarro e depois para Gabriele. Ela viu a determinação nos olhos da bibliotecária e, pela primeira vez na vida, a vontade de agradar alguém superou o vício de décadas. Ela jogou o cigarro de volta no maço e o empurrou para longe na mesa.
— Você é mandona, sabia? — resmungou Hylda, mas havia um sorriso brincando em seus lábios. — Está querendo me reformar, Gabriele Lima?
— Estou querendo que você dure mais tempo — respondeu Gabriele, voltando a se deitar no peito de Hylda. — Para que eu possa te irritar por muitos anos ainda.
Hylda a abraçou, sentindo o calor do corpo de Gabriele contra o seu. Ela beijou o topo da cabeça da outra, sentindo o cheiro de xampu de lavanda que agora estava misturado ao seu próprio suor.
— Eu não vou a lugar nenhum, meu amor — disse Hylda, a voz carregada de uma promessa solene. — Nem com cigarro, nem sem cigarro.
— Eu sei — murmurou Gabriele, fechando os olhos. — E amanhã... amanhã nós vamos almoçar. Naquela praça. E você pode usar sua jaqueta de couro.
Hylda riu, uma risada rouca e genuína que fez o peito de Gabriele vibrar.
— E você vai dizer para o engomadinho loiro que eu sou sua mulher?
Gabriele levantou a cabeça, olhando nos olhos de Hylda com uma clareza que não deixava margem para dúvidas.
— Eu vou dizer para quem quiser ouvir, Hylda Carandini. Que você é a minha mulher, o meu caos e a melhor coisa que já aconteceu entre essas estantes mofadas.
Hylda sentiu uma pontada de emoção que quase a fez perder a fala. Ela apenas puxou Gabriele para mais perto, cobrindo as duas com o lençol de linho. Ali, na penumbra do quarto, cercadas por livros que contavam histórias de amores épicos e tragédias antigas, elas estavam escrevendo a própria história. Uma história feita de graxa e seda, de cigarros apagados e promessas feitas no escuro. Uma história que, finalmente, não precisava mais ser um segredo.