As Horas Entre Nós
O Batismo das Engrenagens e o Peso do Nome
A luz azulada do celular cortou a escuridão do quarto de Gabriele como um bisturi. O aparelho sobre a mesa de cabeceira vibrou com uma insistência metálica, um zumbido que parecia ecoar nas paredes repletas de livros. Hylda, cujo sono era tão pesado quanto o maquinário que operava, mas tão alerta quanto o de um animal de guarda, abriu os olhos instantaneamente.
— Que porra é essa agora... — resmungou Hylda, esticando o braço tatuado para fora das cobertas de linho.
Gabriele se mexeu ao lado dela, o rosto afundado no travesseiro, os cabelos desparramados como fios de seda.
— Hylda? O que foi? — a voz de Gabriele era um sussurro embargado pelo sono.
Hylda leu as mensagens na tela. Seu rosto, geralmente endurecido por uma máscara de ironia, contraiu-se em uma careta de preocupação real.
— É a fundição, Gabi. A prensa hidráulica principal estourou um retentor e o turno da madrugada está em pânico. Se aquela merda não voltar a rodar em duas horas, o bônus de produção de todo mundo vai pro ralo. Eu tenho que ir.
Hylda sentou-se na beira da cama, os pés tocando o chão frio. Começou a tatear em busca das roupas descartadas na noite anterior.
— Agora? São três da manhã, Hylda — Gabriele sentou-se, esfregando os olhos. — Você não pode dar instruções pelo telefone?
— Aqueles brutamontes não sabem a diferença entre uma chave de fenda e um palito de dente quando estão sob pressão — Hylda já estava vestindo a calça jeans, fechando o botão com uma agilidade bruta. — Eu sou a única que conhece o temperamento daquela máquina.
Gabriele ficou em silêncio por um momento, observando a silhueta de Hylda na penumbra. Havia algo na determinação daquela mulher, na forma como ela assumia a responsabilidade pelo seu "povo" na fábrica, que Gabriele achava secretamente heroico.
— Eu vou com você — disse Gabriele, levantando-se e buscando seu robe de seda.
Hylda parou com uma bota na mão, olhando para a bibliotecária como se ela tivesse acabado de anunciar que ia saltar de paraquedas.
— Você o quê? Madame, lá é um chiqueiro de óleo e barulho. Você vai estragar esse seu cheiro de lavanda em cinco minutos. Fica aí, volta a dormir.
— Eu não vou conseguir dormir sabendo que você está lá no meio daquela confusão — Gabriele já estava abrindo o guarda-roupa, escolhendo algo prático, mas ainda elegante. — E eu quero ver. Quero ver o seu mundo, Hylda. Sem filtros.
Hylda soltou uma risada curta, balançando a cabeça.
— Tudo bem, mas não reclama se uma gota de graxa cair nesse seu suéter de cashmere que custa o meu salário de um mês.
A fábrica era um monstro de aço e concreto que cuspia vapor contra o céu negro da madrugada. O barulho lá dentro era ensurdecedor, um ritmo industrial que vibrava nos ossos de Gabriele assim que ela cruzou o portão principal. O cheiro era uma mistura agressiva de metal aquecido, óleo queimado e suor humano.
Hylda mudou no instante em que pisou no galpão. Seus ombros se alargaram, seu passo tornou-se mais firme e sua voz, já naturalmente rouca, ganhou um tom de comando que não admitia réplicas.
— Marcos! — Hylda gritou para um homem coberto de fuligem que corria em direção a um painel. — Se você tocar naquela válvula antes de eu sangrar o sistema, eu juro que te jogo dentro da caldeira!
Gabriele ficou a uma distância segura, observando. Ela se sentia deslocada, uma figura de porcelana em um campo de batalha de ferro, mas não conseguia desviar os olhos de Hylda. A forma como ela se enfiava sob a máquina, as mãos mergulhadas em óleo escuro, a jaqueta de couro jogada de lado, era hipnotizante.
Um grupo de operários, homens de braços grossos e olhares cansados, parou por um momento para observar a "visita". Um deles, um sujeito alto com uma barba malfeita e um sorriso cínico, aproximou-se de onde Gabriele estava.
— E aí, boneca? — disse ele, a voz tentando competir com o barulho das máquinas. — Perdeu o caminho da biblioteca ou veio ver como os homens de verdade trabalham?
Gabriele endireitou a postura, o queixo erguido com a dignidade que décadas de silêncio na biblioteca lhe conferiram.
— Estou apenas acompanhando a chefe de operações — respondeu ela, a voz fria como gelo.
O homem deu uma risada suja, os olhos percorrendo o corpo de Gabriele com uma insolência que a fez estremecer por dentro.
— A Carandini tem bom gosto, hein? — ele se inclinou um pouco mais, o cheiro de fumo barato atingindo Gabriele. — Se cansar de ver ferro velho, eu posso te mostrar umas coisas mais interessantes lá nos fundos.
Antes que Gabriele pudesse responder, uma sombra se projetou entre os dois. Hylda estava lá, coberta de graxa até os cotovelos, uma chave inglesa pesada pendendo da mão direita. Seus olhos não eram mais os olhos que olhavam para Gabriele com ternura; eram poços de fúria industrial.
— Algum problema aqui, Jurandir? — a voz de Hylda era um rosnado baixo, perigoso.
O homem recuou um passo, o sorriso desaparecendo instantaneamente.
— Nada, Hylda. Só sendo hospitaleiro com a... amiga.
— Ela não é "amiga", seu imbecil — Hylda deu um passo à frente, invadindo o espaço dele. — Ela é a minha mulher. E se eu te ver olhando pra ela de novo com essa cara de quem quer levar um soco, eu te garanto que você vai descobrir como é ser prensado por aquela hidráulica ali. Volta pro seu posto. Agora!
O homem saiu resmungando, desaparecendo entre as sombras das máquinas. Hylda respirou fundo, tentando acalmar a adrenalina, e virou-se para Gabriele. Sua expressão suavizou-se apenas um pouco, mas a proteção possessiva ainda emanava dela.
— Você está bem? — perguntou Hylda, limpando a mão suja em um pano velho antes de ousar tocar no ombro de Gabriele.
— Estou. Eu sei me defender, Hylda — disse Gabriele, embora o coração ainda batesse rápido.
— Eu sei que sabe. Mas esses caras não entendem classe, Gabi. Eles só entendem força — Hylda olhou ao redor, como se desafiasse qualquer outro a se aproximar. — Eu terminei aqui. O retentor está no lugar. Vamos embora antes que eu perca a paciência de vez.
O sol começava a nascer quando saíram da fábrica. O céu tinha tons de rosa e laranja que pareciam estranhamente calmos após o caos da madrugada. Gabriele recebeu uma notificação no celular.
— Greve na Universidade — murmurou Gabriele, lendo a mensagem. — Os funcionários administrativos paralisaram tudo. Eu preciso ir até lá organizar os arquivos de reserva e falar com a minha estagiária. Não quero que nada se perca no meio da confusão.
— Você não para, não é, madame? — Hylda bocejou, o cansaço finalmente começando a cobrar o preço. — Tudo bem. Eu te levo. Tenho que passar na praça de qualquer jeito para pegar umas peças que um fornecedor vai deixar lá.
A praça em frente à Universidade estava tomada por estudantes e faixas de protesto. O clima ali era vibrante, jovem e barulhento, muito mais leve do que o da fábrica. Enquanto Gabriele entrava no prédio administrativo para sua reunião com o Reitor, Hylda ficou na praça, sentada em um banco de pedra, fumando seu primeiro cigarro do dia e observando o movimento.
Não demorou muito para que um grupo de alunos, que já conhecia a figura icônica de Hylda das suas passagens frequentes por ali, se aproximasse.
— Hey, Hylda! — gritou uma menina de cabelos azuis e mochila cheia de botons. — A "professora" te deixou de castigo aqui fora?
Hylda soltou uma nuvem de fumaça, sorrindo de canto.
— A madame está trabalhando, coisa que vocês deviam estar fazendo em vez de gritar no meio da rua — brincou Hylda.
Os alunos riram, sentando-se ao redor dela. Eles adoravam Hylda; ela era a antítese de tudo o que era acadêmico e rígido, uma lufada de realidade bruta em meio às teorias.
— A gente viu vocês chegando — disse outra aluna, uma menina de olhar doce chamada Clara. — Vocês formam um casal tão lindo, Hylda. É sério. Parece coisa de filme, o oposto que se atrai.
Hylda sentiu um calor estranho no peito, algo que não tinha nada a ver com o cigarro.
— É, a gente se vira — murmurou Hylda, tentando manter a pose de durona.
— Vocês vão casar? — a menina de cabelos azuis perguntou, com a curiosidade típica da juventude. — Imagina o casamento! A Gabriele de seda e você de jaqueta de couro. Seria icônico.
Hylda engasgou levemente com a fumaça.
— Casar? A Gabriele mal consegue admitir que eu não sou um "vazamento de esgoto" na vida dela, quem dirá casar.
— Ah, para com isso! — Clara interveio. — Dá para ver como ela olha para você quando você não está vendo. Ela te adora. Se vocês casarem, avisem a gente. Aí vocês podem nos adotar! Seríamos as filhas mais rebeldes da bibliotecária.
Hylda riu alto, uma risada que ecoou pela praça, atraindo alguns olhares curiosos.
— Adotar vocês? Eu mal dou conta de uma prensa hidráulica e de uma biblioteca, imagina um bando de universitários barulhentos.
Mas, enquanto os alunos continuavam a falar e a rir, a ideia começou a se infiltrar nos pensamentos de Hylda como óleo em uma engrenagem seca. Ela olhou para o prédio da Universidade, imaginando Gabriele lá dentro, lidando com o Reitor com aquela sua elegância intocável.
"Gabriele Carandini".
O nome soou estranhamente bem na sua cabeça. O veludo e o aço. A ordem e o caos sob o mesmo sobrenome. Hylda sempre achara que nomes e papéis eram apenas etiquetas inúteis, mas a ideia de Gabriele carregando o seu nome — ou ela carregando o de Gabriele — trazia uma sensação de permanência que a assustava e a encantava ao mesmo tempo.
Uma hora depois, Gabriele apareceu nos degraus do prédio. Ela parecia exausta, mas satisfeita. Ao ver Hylda cercada pelos alunos, um sorriso genuíno iluminou seu rosto, e ela caminhou em direção ao grupo.
— Vejo que você já encontrou seu fã-clube — disse Gabriele, parando ao lado de Hylda.
— Elas estão tentando me convencer a te levar para o altar, madame — Hylda disse, observando a reação de Gabriele com um brilho travesso nos olhos. — E disseram que querem ser adotadas.
Gabriele sentiu o rosto esquentar, mas, para a surpresa de Hylda, ela não desviou o olhar nem tentou mudar de assunto. Ela apenas colocou a mão sobre o ombro de Hylda, um gesto público de afeto que teria sido impensável meses atrás.
— É uma ideia a se considerar — disse Gabriele, a voz calma, mas carregada de significado. — Embora eu ache que a casa ficaria pequena demais para tantos filhos.
Os alunos soltaram um "ooooh" coletivo, e Hylda sentiu o coração dar um salto desajeitado.
— Bom, a gente tem que ir — Hylda levantou-se, limpando as cinzas da calça. — A madame tem livros para organizar e eu tenho uma vida para viver.
Enquanto caminhavam de volta para o carro, de mãos dadas sob o sol da manhã, Hylda estava incomumente silenciosa.
— No que você está pensando? — perguntou Gabriele, enquanto entravam na caminhonete.
Hylda deu partida no motor, mas antes de sair, olhou para Gabriele.
— Estava pensando no que aquela menina disse. Sobre os nomes.
Gabriele arqueou uma sobrancelha, esperando.
— Gabriele Carandini — disse Hylda, testando o som das palavras no ar. — Meio bruto para uma mulher tão fina, não acha?
Gabriele olhou para as mãos de Hylda no volante — mãos que haviam consertado uma fábrica de madrugada e que a haviam segurado com uma ternura infinita horas antes.
— Eu acho que soa como algo que não quebra fácil, Hylda — respondeu Gabriele, inclinando-se para dar um beijo rápido na bochecha da outra. — E eu sempre gostei de coisas duráveis.
Hylda sorriu, um sorriso largo e vitorioso, e acelerou o carro. O mundo ao redor delas podia estar em greve, em caos ou em chamas, mas ali, dentro daquela cabine com cheiro de óleo e lavanda, tudo estava exatamente onde deveria estar. Pela primeira vez na vida, Hylda Carandini não estava apenas sobrevivendo; ela estava construindo algo que nem mesmo a ferrugem do tempo seria capaz de destruir.