As provocações
O Pacto de Sangue e Ouro: A Invasão da Pequena Imperatriz
A manhã no Continente de Gelo começou com um silêncio incomum, interrompido apenas pelo som rítmico de pequenos passos flutuantes. Guy Crimson estava sentado em seu trono, mas sua postura não era a de um soberano entediado. Ele observava Akane, que agora tentava equilibrar uma miniatura de sua espada de gelo enquanto flutuava ao redor do salão.
— Akane — chamou Guy, sua voz grave ressoando com um orgulho que ele não se dava mais ao trabalho de esconder. — O acordo. Lembre-se do que conversamos.
A pequena parou no ar, os cabelos vermelhos flutuando como chamas vivas. Ela olhou para o pai com aqueles olhos roxos profundos, que agora mostravam as primeiras nuances de um degradê dourado nas bordas, sinal de que sua herança de Slime estava se fundindo perfeitamente com a natureza demoníaca.
— Se eu deixar o Papai dar beijo na Mamãe na frente dos generais, eu ganho a coleção de cristais de alma da caverna proibida? — perguntou a menina, inclinando a cabeça com uma esperteza que fazia Misery tremer nos bastidores.
— E eu deixo você sentar no meu ombro durante toda a reunião de hoje — acrescentou Guy, estendendo a mão. — Nós seremos uma frente unida. Ninguém toca na Rimuru, e nós dividimos as atenções.
Akane voou até o colo de Guy e apertou o dedo mindinho dele com sua mãozinha.
— Feito, Papai. Mas se a Mamãe fizer aquele carinho especial na sua cabeça, eu quero metade!
Guy soltou uma risada curta e satisfeita. Ele vinha mimando Akane de forma escandalosa. Se Rimuru era o coração de sua existência, Akane era a extensão de seu próprio ego e poder. Ele a presenteava com artefatos que poderiam destruir nações como se fossem brinquedos de dentição, e ai de quem sugerisse que a menina estava ficando mal-acostumada.
A porta do salão se abriu e Rimuru entrou, vestindo um conjunto de seda azul-celeste que realçava suas curvas femininas e a aura de serenidade que ele carregava. Ele parou, observando a cena de pai e filha conspirando.
— Posso saber o que os dois demônios ruivos estão tramando agora? — perguntou Rimuru, colocando as mãos na cintura e arqueando uma sobrancelha.
— Nada, Mamãe! — Akane exclamou, voando para os braços de Rimuru e afundando o rosto em seu pescoço. — O Papai só estava dizendo que eu sou a princesa mais bonita do mundo.
— E ela é — Guy levantou-se, caminhando até os dois. Ele envolveu Rimuru e Akane em um abraço possessivo, beijando a têmpora de Rimuru e depois a bochecha da filha. — Mas está na hora, Rimuru. O portal para Tempest está pronto.
Rimuru suspirou, sentindo o peso do ciúme que já emanava de Guy só de pensar em outros homens — ou monstros — olhando para sua forma feminina em público.
— Lembrem-se do que combinamos — avisou Rimuru, olhando seriamente para Guy e depois para Akane. — Nada de rosnar para o Benimaru, nada de ameaçar o Diablo e, pelo amor de Veldanava, Akane, não tente queimar as roupas da Shuna só porque ela quer te abraçar. Se vocês se comportarem, eu faço aquele banquete especial.
— Eu serei um modelo de etiqueta — mentiu Guy, enquanto mentalmente revisava a lista de pessoas em Tempest que ele pretendia intimidar.
— Eu vou ser fofa, Mamãe! — prometeu Akane, embora seus olhos brilhassem em um dourado perigoso com a menção de Shuna tocando nela.
A viagem através do portal foi instantânea. Quando emergiram na praça central de Tempest, a recepção foi monumental. Benimaru, Shuna, Shion, Diablo e até Veldora estavam presentes. O Dragão da Tempestade foi o primeiro a se aproximar, rindo alto.
— Hahaha! Rimuru, você ainda está nessa forma? E veja só, a pequena sobrinha ruiva!
Veldora estendeu a mão para bagunçar o cabelo de Akane. Em um milésimo de segundo, a temperatura ao redor caiu drasticamente. Akane não recuou; ela rosnou, um som baixo e gutural que era a cópia exata do de Guy, e seus olhos mudaram instantaneamente para um degradê de vermelho e dourado brilhante.
— Não toca! — gritou a menina, e uma pequena onda de choque mágico empurrou a mão de Veldora para trás.
Guy, ao lado, cruzou os braços com um sorriso de canto, sem fazer menção de repreendê-la. Pelo contrário, sua aura de Lorde Demônio vazou apenas o suficiente para fazer Benimaru dar um passo atrás por instinto.
— Guy! Akane! — Rimuru repreendeu, sentindo a dor de cabeça começando. — O que eu disse sobre se comportar?
— Ela só está protegendo o espaço pessoal dela, Rimuru — justificou Guy, dando um tapinha encorajador no ombro da filha. — É uma característica admirável.
— É isso aí! — Akane concordou, cruzando os braços exatamente como o pai.
Shuna e Shion, no entanto, não foram dissuadidas. Elas se aproximaram com os olhos brilhando.
— Oh, céus! Ela é idêntica ao Lorde Guy, mas tem as bochechas do Lorde Rimuru! — Shuna exclamou, estendendo os braços. — Posso segurá-la um pouco?
Akane olhou para Rimuru, que lhe deu um olhar de "por favor, coopere", e depois para Guy, que estava com a mandíbula travada de ciúmes por ver alguém se aproximando de sua família. Akane suspirou, um som dramático, e permitiu que Shuna a pegasse.
— Só um pouquinho — cedeu a pequena imperatriz —, porque a Mamãe disse que eu tenho que ser legal.
A visita seguiu para uma reunião no palácio de governo de Tempest. Rimuru sentou-se à cabeceira, tentando manter a formalidade, mas Guy rapidamente puxou uma cadeira extra para o lado dele, sentando-se tão perto que seus ombros se tocavam. Akane, não querendo ficar de fora, voou para o colo de Rimuru, aninhando-se contra seu peito.
— Sobre o tratado de exportação de poções... — Benimaru começou a falar, mas sua voz fraquejou quando encontrou o olhar gélido de Guy.
Guy estava ocupado traçando círculos com o dedo no braço de Rimuru, subindo ocasionalmente para roçar a pele exposta de seu pescoço.
— Continue, Comandante — disse Guy, sua voz suave, mas carregada de uma possessividade que dizia "eu estou ouvindo, mas se você olhar para as pernas da Rimuru por mais de um segundo, eu te apago da existência".
Akane, percebendo a tensão, decidiu ajudar o pai. Ela olhou para Diablo, que observava Rimuru com sua adoração habitual.
— Ei, homem de preto — chamou Akane, apontando para Diablo. — Por que você está olhando tanto para a minha Mamãe? Ela já tem o Papai e eu. Você não tem uma casa para ir?
Diablo soltou uma risada elegante, embora uma veia tivesse saltado em sua testa.
— Jovem senhorita, eu sou o servo leal do Lorde Rimuru. É meu dever observar cada movimento de sua grandiosidade.
— Pois observe de longe — Guy interveio, puxando Rimuru para um beijo rápido e possessivo no canto da boca, bem na frente de todos. — Akane tem razão. O campo de visão de vocês está muito poluído.
— Guy! — Rimuru sussurrou, o rosto queimando. — Estamos em uma reunião!
— E eu estou entediado — Guy respondeu, e para o horror coletivo dos generais de Tempest, ele inclinou a cabeça e descansou o rosto no peito de Rimuru, fechando os olhos. — O cheiro de Tempest é irritante. O seu é melhor.
Akane, vendo que o pai havia conquistado o território principal, deitou a cabeça logo abaixo da de Guy, abraçando a cintura de Rimuru.
— É, a Mamãe é nossa! — exclamou a menina, lançando um olhar de triunfo para Shion, que parecia prestes a chorar de inveja.
Rimuru tentou continuar a reunião, mas era difícil manter a autoridade com um Lorde Demônio de dois metros de altura usando seu colo como travesseiro e uma criança poderosa rosnando para qualquer um que fizesse um movimento brusco.
— Lorde Rimuru — disse Benimaru, limpando o suor da testa —, talvez seja melhor discutirmos os detalhes técnicos amanhã? A presença do Lorde Guy e da pequena Akane está... dificultando a concentração da equipe.
— Eu acho uma ótima ideia — Rimuru concordou rapidamente, querendo fugir daquela situação embaraçosa.
Assim que a sala foi esvaziada, Guy levantou a cabeça, um brilho travesso nos olhos.
— Viu? Eles são muito fracos, Rimuru. Não aguentam um pouco de afeto familiar.
— Afeto? Guy, você estava quase marcando território com urina mágica! — Rimuru reclamou, embora não conseguisse evitar de passar os dedos pelos cabelos ruivos dele.
— O Papai foi foda, Mamãe! — Akane disse, usando uma palavra que certamente ouvira de algum demônio no castelo de gelo.
— Akane! Olha o vocabulário! — Rimuru repreendeu, horrorizado.
— Guy Crimson, você está ensinando palavrões para ela?
— Eu? Jamais — mentiu Guy, embora tivesse dado um joinha discreto para a filha por trás das costas de Rimuru. — Eu só a ensino a ser honesta sobre sua superioridade.
Mais tarde, durante o banquete noturno, a situação não melhorou. Guy insistiu em dar comida na boca de Rimuru, ignorando os talheres e usando os próprios dedos, lambendo os vestígios de molho dos lábios de Rimuru com uma lentidão deliberada que fazia Diablo quebrar as taças de vinho em suas mãos.
Akane estava no centro das atenções. Ela havia descoberto que, se fizesse uma cara fofa e seus olhos brilhassem em dourado, ela ganhava qualquer doce que quisesse.
— Ela é realmente encantadora — comentou Shuna, oferecendo um pedaço de bolo de mel para a menina.
Akane aceitou o bolo, mas antes de comer, olhou para Guy.
— Papai, a moça rosa é legal. Posso deixar ela ser minha serva no castelo de gelo?
Guy riu, uma risada rica e profunda que silenciou o salão.
— Se ela sobreviver ao frio e ao meu humor, por que não? Mas lembre-se, Akane, servos não podem tocar no que é nosso sem permissão.
— Eu sei! — Akane respondeu, voltando-se para Shuna com um olhar subitamente sério. — Você pode vir, mas se você tentar abraçar a Mamãe sem eu deixar, eu vou ter que te transformar em um picolé. O Papai me ensinou como congelar almas ontem!
Rimuru quase engasgou com o vinho.
— Guy! Você está ensinando magia de congelamento de almas para uma criança de um ano?!
— Ela tem um talento natural, Rimuru. Seria um crime desperdiçar — Guy justificou-se, puxando Rimuru para seu colo de forma definitiva. — Além disso, ela precisa saber se defender desses seus subordinados excessivamente amigáveis.
Rimuru suspirou, derrotado. Ele olhou para sua nação, para seus amigos que observavam com uma mistura de medo e admiração, e depois para sua pequena e caótica família. Akane agora estava tentando imitar a postura de Guy, sentada em uma cadeira alta, olhando para todos com um ar de superioridade, enquanto Guy a mimava com pedaços de carne rara.
— Vocês dois são impossíveis — Rimuru murmurou, encostando a cabeça no ombro de Guy.
— Mas você nos ama — Guy sussurrou de volta, sua mão subindo para acariciar o rosto de Rimuru, seus olhos vermelhos suavizando apenas para ele. — E você sabe que ninguém neste mundo, ou em qualquer outro, vai te adorar e te proteger como nós.
— É, Mamãe! — Akane gritou do outro lado da mesa, os olhos agora totalmente dourados de felicidade. — Nós somos o time mais forte!
Naquela noite, em Tempest, todos aprenderam uma lição valiosa: o Lorde Demônio Guy Crimson podia ser o ser mais perigoso do mundo, mas quando se tratava de Rimuru e da pequena Akane, ele era apenas um homem — e um pai — perigosamente possessivo. E Akane, a pequena imperatriz de gelo e fogo, provou ser a combinação perfeita da astúcia de sua mãe e da arrogância de seu pai.
Enquanto Rimuru adormecia naquela noite, cercado pelo calor de Guy e pelos pequenos chutes de Akane que insistia em dormir no meio deles, ele percebeu que, embora vivesse em um mar de ciúmes e provocações, ele nunca se sentira tão completo. O trono de safira de Tempest e o trono de obsidiana do Continente de Gelo estavam agora unidos por um laço de sangue, ouro e um amor tão intenso que até as estrelas pareciam diminuir seu brilho diante deles.
E se Guy tivesse que queimar o mundo para manter aquele momento, ele o faria com um sorriso no rosto, contanto que Rimuru estivesse ao seu lado e Akane estivesse lá para herdar as cinzas.