Atirei pedras na cruz
Fonte de Águas Vivas e Labaredas de Fogo
A noite havia caído sobre o Morro de Azarath com uma densidade que parecia sufocar até o brilho das estrelas. O relógio na parede da sala marcava quase onze horas. Eu estava pronta, vestindo um casaco grosso por cima do meu vestido de sarja, segurando minha Bíblia e uma garrafa d’água. Era noite de vigília, um daqueles momentos em que os fiéis se reuniam para passar a madrugada em oração, buscando o "avivamento".
O som de uma buzina discreta ecoou lá fora. Eu espiei pela fresta da cortina. Era o carro de Davi. Um sedã prata, polido e comportado, estacionado exatamente onde a luz do poste falhava. Respirei fundo, tentando ignorar o aperto no peito que não tinha nada a ver com fervor religioso. Desde o episódio na igreja, Ravena não havia dado sinal de vida, e o silêncio dela era mais barulhento do que qualquer baile funk.
Saí de casa e caminhei até o carro. Davi desceu, todo solícito, abrindo a porta para mim com um sorriso que ele provavelmente treinava no espelho.
— Boa noite, irmã. Pronta para buscar o renovo? — ele perguntou, a voz transbordando aquela autoconfiança de quem se acha o escolhido.
— Boa noite, Davi. Sim, vamos. O Senhor tem pressa — respondi, tentando soar convicta.
Mas, assim que me sentei no banco do carona e ele fechou a porta, um vulto cruzou a rua. Não foi um vulto qualquer. Foi um rugido. Um motor potente e grave, que parecia rasgar o asfalto, surgiu do nada. Um SUV preto fosco, com vidros tão escuros que pareciam feitos de obsidiana, fechou o carro de Davi em uma manobra agressiva, atravessando-se na frente dele e forçando-o a frear bruscamente.
— Mas o que é isso?! — Davi exclamou, as mãos apertando o volante, o rosto pálido.
A porta do SUV se abriu. Ravena desceu. Ela parecia uma visão saída de um pesadelo elegante: usava uma jaqueta de couro preta sobre uma blusa de gola alta da mesma cor, e o cabelo estava levemente bagunçado pelo vento. Ela não olhou para o carro; ela caminhou direto para a janela do motorista e bateu no vidro com os nós dos dedos.
Davi baixou o vidro, tremendo visivelmente.
— Algum... algum problema, Ravena? — ele gaguejou.
— O problema é que você está no caminho — a voz dela era gélida. Ela nem sequer olhou para ele; seus olhos roxos estavam cravados em mim, através do para-brisa. — Desce do carro, pequena.
— Ravena, o que é isso? — eu disse, abrindo a porta e saindo, sentindo o ar gelado da noite bater no meu rosto. — Estamos indo para a vigília. Você não pode simplesmente cercar as pessoas assim.
— Vigília? — Ela deu um riso seco e se aproximou de mim, ignorando Davi como se ele fosse parte da paisagem. — Você vai passar a noite inteira trancada em um salão com esse... esse projeto de rei, enquanto eu fico aqui fora imaginando que tipo de "oração" ele vai tentar sussurrar no seu ouvido?
— Irmã, você não precisa ir com ela — Davi tentou intervir, saindo do carro também, embora mantivesse uma distância segura. — Eu sou o seu transporte oficial da igreja.
Ravena virou o rosto lentamente para ele. Foi apenas um olhar, mas Davi murchou como uma planta sem água.
— "Oficial"? — Ela repetiu a palavra com escárnio. — Escuta aqui, Davi. Se você não quiser que o seu carro novo amanheça decorando o fundo do despenhadeiro, entra nele e some da minha frente. Agora.
— Mas... mas a vigília... — ele balbuciou.
— Ela vai para a vigília — Ravena disse, voltando-se para mim e segurando meu braço com uma firmeza que me fez arfar. — Mas ela vai comigo. Eu levo.
Davi olhou para mim, esperando que eu protestasse. Eu deveria protestar. Eu deveria dizer que não entraria naquele carro de luxo, que cheirava a perigo e pecado. Mas a verdade é que, ao ver Ravena ali, consumida por um ciúme que ela mal conseguia conter, meu corpo respondeu antes da minha moral.
— Pode ir, Davi — eu disse, sem olhar para ele. — Eu encontro vocês lá.
— Tem certeza? — ele perguntou, a voz pequena.
— Tenho. Vá em paz.
Davi não esperou um segundo convite. Entrou no carro e saiu em disparada, os pneus cantando no asfalto. Ficamos sozinhas na rua deserta, sob o olhar atento dos olheiros do morro que observavam tudo das lajes.
— Você ficou louca? — eu disparei, tentando soltar meu braço, mas ela não soltou. — O que você acha que as pessoas vão falar? A menina da igreja saindo no meio da noite com a dona do morro?
— Que falem — Ravena sibilou, puxando-me para perto, o corpo dela emanando um calor furioso. — Eu vi o jeito que ele olhou para você. Eu vi o jeito que ele abriu aquela porta, como se tivesse o direito de te levar para onde quisesse.
— Ele é meu irmão em Cristo, Ravena! — eu gritei, a frustração transbordando. — Ele me respeita! Diferente de você, que me trata como se eu fosse uma das suas propriedades!
— Eu não te trato como propriedade — ela disse, a voz baixando para um tom perigosamente rouco, o rosto a centímetros do meu. — Eu te trato como a única coisa neste morro que ainda me faz sentir que eu não sou um monstro completo. E eu não vou deixar um moleque de terno e Bíblia debaixo do braço tirar isso de mim.
— Você está com ciúmes — eu acusei, sentindo um triunfo amargo. — Você, a grande Ravena, está morrendo de ciúmes de um rapaz da igreja.
— Estou — ela admitiu, sem hesitar, o que me pegou de surpresa. — Estou com um ciúme que me faz querer queimar cada banco daquela igreja só para você não ter onde sentar ao lado dele. Agora entra na droga do carro.
Ela me conduziu até o SUV. A porta se fechou com um som surdo, isolando-nos do mundo. O interior do carro era luxuoso, com cheiro de couro novo e o perfume de sândalo dela impregnado em tudo. Ravena deu a partida e o carro deslizou pelo morro como uma sombra.
Nós não fomos em direção à igreja. Ela pegou o caminho oposto, subindo para o mirante mais alto de Azarath, onde a cidade lá embaixo parecia um tapete de joias cintilantes.
— Para onde você está me levando? A vigília é para o outro lado! — eu protestei, apertando minha Bíblia contra o peito.
Ravena não respondeu. Ela estacionou o carro na beira do precipício, desligou o motor, mas manteve os faróis acesos, cortando a escuridão. O silêncio dentro do carro era tão denso que eu podia ouvir a respiração dela, pesada e irregular.
— Você gosta dele? — ela perguntou de repente, sem olhar para mim.
— O Davi é uma boa pessoa, Ravena. Ele quer construir uma vida... correta.
— Uma vida correta — ela repetiu com nojo. — Uma vida morna. Uma vida de aparências. Você acha que ele conhece a sua alma? Você acha que ele sabe o que você esconde por trás desse discurso de santidade?
— Eu não escondo nada! — menti, sentindo as lágrimas de raiva arderem nos meus olhos.
— Esconde sim — Ravena virou-se para mim, a expressão torturada. — Você esconde que me deseja. Você esconde que, toda vez que eu te toco, você sente um fogo que nenhuma oração consegue apagar. Você finge que me ama "como alma" porque tem medo de admitir que a sua carne grita pelo meu nome.
— Cala a boca! — eu gritei, e antes que eu pudesse processar, minha mão voou em direção ao rosto dela.
Eu não a atingi. Ravena segurou meu pulso no ar com uma agilidade sobrenatural. Ela me puxou para frente, forçando-me a inclinar sobre o console central do carro.
— Me obriga a calar — ela desafiou.
Nossos rostos estavam tão próximos que nossas respirações se misturavam. A tensão que vínhamos acumulando há meses, entre encontros na escadaria e olhares furtivos no culto, explodiu ali, naquele espaço confinado.
Eu não sei quem se moveu primeiro. Só sei que, de repente, a boca de Ravena estava na minha.
Não foi um beijo suave. Foi um choque de trens. Foi violento, desesperado, carregado de meses de repressão e desejo negado. O gosto dela era de uísque e perigo, e minhas mãos, que deveriam estar empurrando-a, enroscaram-se no cabelo curto da sua nuca, puxando-a para mais perto.
Eu soltei um gemido baixo quando a língua dela pediu passagem, e eu cedi, entregando-me a um êxtase que eu nunca imaginei existir. Era como se o mundo estivesse desabando e ela fosse a única coisa sólida à qual eu pudesse me agarrar. Minha Bíblia caiu no chão do carro, esquecida, enquanto eu sentia as mãos de Ravena subirem pela minha cintura, apertando meu corpo contra o dela com uma urgência possessiva.
Quando nos separamos, ambas estávamos ofegantes, os lábios inchados e os olhos brilhando com uma verdade que não podia mais ser escondida.
— Isso... isso foi um erro — eu sussurrei, embora não fizesse menção de me afastar.
— Foi a coisa mais real que você já fez na vida — Ravena respondeu, a voz embargada. Ela encostou a testa na minha. — Ainda vai dizer que é apenas amor de alma?
Eu fechei os olhos, sentindo o coração martelar nas costelas.
— Eu não sei o que é isso, Ravena. Eu sinto que estou morrendo e nascendo ao mesmo tempo.
Ravena se afastou um pouco, acariciando meu rosto com o polegar. O olhar dela amoleceu, algo que eu raramente via.
— Você fala tanto em beber da fonte — ela murmurou, referindo-se aos sermões que eu costumava citar. — Mas você passa a vida com sede, pequena. Você tenta beber de uma fonte que te dizem ser a única, mas olha para mim e vê um abismo.
— E você não é um abismo? — perguntei, sentindo um nó na garganta.
— Talvez eu seja — ela disse, voltando-se para o volante, mas mantendo uma mão sobre a minha. — Mas pelo menos eu não minto para você. Eu sou a fonte que queima. E você... você é a água que eu nunca soube que precisava para não virar cinzas.
Ficamos em silêncio por um longo tempo, observando as luzes da cidade. O fervor da discussão havia passado, deixando no lugar uma melancolia doce e pesada.
— Eu preciso ir para a vigília — eu disse finalmente, embora minha voz não tivesse força. — Eles vão sentir minha falta.
Ravena suspirou e ligou o motor.
— Eu te levo. Mas não pense que aquele beijo mudou o que eu penso sobre o seu "Rei Davi". Se ele encostar em você hoje, eu não respondo por mim.
— Ele não vai encostar — eu disse, olhando para as minhas mãos trêmulas. — Ninguém mais pode encostar em mim agora, Ravena. Você sabe disso.
Ela deu um sorriso de canto, um sorriso que continha todo o poder do morro e toda a vulnerabilidade de uma mulher apaixonada.
— Eu sei.
O caminho de volta para a igreja foi rápido. Quando o SUV parou a uma quadra de distância do templo, para não chamar atenção excessiva, eu peguei minha Bíblia do chão e ajeitei meu cabelo.
— Você vai entrar? — perguntei, antes de sair.
— Não — disse ela. — Eu não pertenço àquele lugar, e você sabe. Vou ficar aqui fora, no escuro. É onde eu funciono melhor. Mas estarei esperando quando você sair.
Eu saí do carro e caminhei em direção à igreja. O som dos hinos já podia ser ouvido, vozes subindo em uníssono para o céu. Entrei no salão e vi Davi, sentado na primeira fila, olhando ansiosamente para a porta. Ele sorriu quando me viu, mas eu não consegui retribuir.
Ajoelhei-me no altar, fechei os olhos e tentei orar. Mas as palavras não vinham. No lugar dos salmos, eu sentia o gosto do beijo dela. No lugar do temor a Deus, eu sentia o calor das mãos dela na minha pele.
Eu olhei para a cruz na parede e depois para a janela, sabendo que, lá fora, na escuridão, a dona do morro estava vigiando a minha alma.
— Senhor — sussurrei, as lágrimas finalmente caindo —, eu tentei ser a fonte de águas vivas para ela. Mas acho que foi ela quem me arrastou para o incêndio.
E ali, no meio da vigília, enquanto todos buscavam o paraíso, eu percebi que o meu inferno particular era o lugar mais sagrado onde eu já estive.