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Atirei pedras na cruz

O Batismo de Fogo no Trono de Couro

A vigília estava em seu ápice. O som do teclado preenchia o salão com notas graves e prolongadas, enquanto o Pastor Elias clamava por arrependimento. Davi estava a poucos metros de mim, com as mãos erguidas, os olhos fechados e uma expressão de transe que, em qualquer outro dia, eu chamaria de santidade. Mas hoje, tudo o que eu via era uma máscara de plástico.

Meu corpo estava ali, no banco de madeira, mas minha mente ainda estava no banco de couro daquele SUV. Minha boca ainda queimava. O gosto de Ravena era uma marca que nenhum hino conseguia apagar. Eu tentava repetir os versículos que conhecia desde a infância, mas as palavras pareciam cinzas na minha língua.

— Eu volto logo — sussurrei para a irmã ao meu lado, que mal me ouviu entre os seus próprios lamentos.

Saí da igreja pelos fundos, evitando o olhar de Davi. O ar da noite me atingiu como um tapa, frio e carregado de umidade. Caminhei apressada pela rua lateral, onde a iluminação era falha, até avistar a silhueta imponente do carro preto estacionado sob a sombra de uma mangueira antiga.

Eu não bati no vidro. A porta destravou com um clique metálico assim que me aproximei. Entrei e fechei a porta, mergulhando no silêncio absoluto que o isolamento acústico proporcionava. Ravena estava lá, com um cigarro apagado entre os lábios e os olhos roxos fixos no horizonte de luzes da favela.

— A vigília ainda não acabou, santinha — disse ela, a voz vibrando baixo, como o ronco de um motor. — O que aconteceu? O seu Deus não estava falando alto o suficiente hoje?

— Ele está falando — respondi, sentindo meu peito subir e descer com rapidez. — Mas você fala mais alto.

Ravena virou o rosto para me encarar. O brilho dos olhos dela era predatório, mas havia uma fresta de algo que parecia... adoração. Ela jogou o cigarro no cinzeiro e deslizou a mão pelo encosto do meu banco, os dedos roçando meu pescoço.

— Você está tremendo — ela constatou, inclinando-se para frente. — É medo ou é o Espírito Santo?

— É você, Ravena. É sempre você — eu disse, e a confissão saiu como um suspiro de derrota. — Eu passo o dia inteiro fingindo que te amo "como alma", que rezo pela sua redenção, mas a verdade é que eu não consigo mais suportar o peso desse vestido. Ele me sufoca.

Ravena não sorriu. Ela levou a mão ao meu rosto, puxando-me para perto até que nossas testas se tocassem.

— Então para de mentir — sussurrou ela contra meus lábios. — Para de tentar me salvar e deixa eu te mostrar que o que você chama de pecado é a única coisa que vai te fazer sentir viva de verdade.

Ela me beijou novamente, mas desta vez não havia a urgência violenta de antes. Era um beijo lento, possessivo, que explorava cada canto da minha boca como se ela estivesse reivindicando um território que sempre lhe pertenceu. Minhas mãos subiram para o peito dela, sentindo o coração da dona do morro bater num ritmo frenético sob a jaqueta de couro.

— Ravena... — murmurei entre os beijos —, eu nunca... eu nunca estive com ninguém.

Ela parou por um segundo, os olhos roxos dilatados, estudando minha expressão. Havia uma hesitação ali, uma fração de segundo em que a mulher impiedosa que comandava Azarath pareceu dar lugar a algo muito mais humano.

— Você tem certeza disso? — perguntou ela, a voz mais suave do que eu jamais ouvira. — Depois que eu cruzar essa linha com você, não tem mais volta para a sua vida de antes. O altar nunca mais vai parecer o mesmo.

— O altar já está vazio, Ravena — respondi, sentindo uma coragem que não vinha de mim. — Meu único altar agora é você.

Ravena soltou um suspiro pesado e, com um movimento ágil, puxou-me para o seu colo. O console central era um obstáculo pequeno diante da necessidade que tínhamos uma da outra. Eu me sentei sobre ela, sentindo o contraste da minha saia de sarja contra o couro da sua calça.

As mãos dela, grandes e marcadas por cicatrizes que contavam histórias de guerra, subiram pelas minhas coxas, levantando o tecido do meu vestido. O toque da pele fria dela contra a minha pele quente me fez soltar um arquejo.

— Você é tão linda — ela murmurou, enterrando o rosto no meu pescoço, aspirando o cheiro de sabonete de flores que eu usava. — Tão pura que chega a doer.

— Me estraga, então — eu desafiei, as lágrimas começando a rolar, não de tristeza, mas de alívio. — Tira essa pureza de mim. Eu não quero mais ser a menina perfeita da igreja. Eu quero ser sua.

Ravena me olhou nos olhos, e eu vi o brilho sobrenatural que diziam que ela tinha. Não era maldade; era uma intensidade que consumia tudo ao redor. Ela desabotoou minha blusa, um botão de cada vez, com uma paciência torturante. Quando o tecido se abriu, revelando minha pele branca sob a luz fraca do painel do carro, ela pareceu prender a respiração.

— Você é o meu maior pecado — ela disse, antes de baixar a cabeça e trilhar um caminho de beijos ardentes pelo meu colo.

Cada toque era um batismo de fogo. Eu sentia meu corpo despertar de um sono de anos. A tensão sexual que vínhamos alimentando nas escadarias da igreja, nos olhares atravessados no baile e nas provocações no mirante, finalmente encontrava um escape.

Minhas mãos se perderam nos cabelos dela, puxando-a para mais perto, querendo fundir minha pele à dela. Ravena era experiente, cada movimento dela era calculado para me levar ao limite. Quando suas mãos encontraram o centro da minha intimidade, eu travei por um instante, o peso de toda a minha criação religiosa caindo sobre meus ombros.

— Shh... — ela sussurrou no meu ouvido, sua respiração quente me arrepiando inteira. — Relaxa. Sou eu. Só eu e você. O mundo lá fora não existe. O Pastor não existe. Só existe esse momento.

Eu fechei os olhos e me deixei levar. A dor inicial foi breve, um pequeno preço a pagar pela libertação que veio em seguida. Ravena foi cuidadosa, movendo-se comigo com uma sincronia que parecia coreografada pelas sombras. Eu enterrei meu rosto no ombro dela, abafando meus gemidos enquanto sentia o mundo girar.

Não havia nada de espiritual naquele momento, e ao mesmo tempo, era a experiência mais transcendente que eu já tivera. Enquanto o som distante dos hinos da vigília ainda ecoava fracamente no ar, eu estava ali, no escuro de um SUV, entregando o que eu tinha de mais sagrado para a mulher que todos chamavam de demônio.

O ápice veio como uma onda avassaladora, arrancando de mim um grito que foi silenciado pelos lábios de Ravena. Eu me agarrei a ela como se minha vida dependesse disso, sentindo os espasmos do meu corpo encontrarem eco no dela.

Ficamos ali, abraçadas, por um tempo que eu não soube medir. O silêncio voltou a reinar no carro, interrompido apenas pelas nossas respirações pesadas que embaçavam os vidros. Ravena acariciava meu cabelo, um gesto de uma ternura devastadora.

— Você está bem? — ela perguntou, a voz rouca.

— Estou — respondi, escondendo o rosto na curva do pescoço dela. — Eu me sinto... leve. Como se eu tivesse finalmente parado de carregar o mundo nas costas.

Ravena me apertou um pouco mais forte.

— Você sabe que eles vão notar — ela disse, referindo-se aos outros fiéis. — Eles vão ver no seu olhar que algo mudou. A santinha não mora mais aqui.

— Deixa que vejam — eu disse, afastando-me um pouco para olhá-la. — Eu passei a vida inteira tentando salvar a alma dos outros, Ravena. Pela primeira vez, eu salvei a minha.

Ela deu um sorriso de canto, mas desta vez não havia sarcasmo. Havia um orgulho sombrio.

— Agora você é parte da escuridão, pequena — ela murmurou, beijando minha testa. — A minha escuridão.

— Eu sempre fui — confessei. — Eu só precisava que você me mostrasse o caminho.

Ajeitei minhas roupas com as mãos ainda trêmulas. O vestido, antes um símbolo de modéstia, agora parecia apenas um pedaço de pano sem valor. Ravena me ajudou a fechar os botões, seus dedos demorando-se na minha pele como se ela não quisesse me deixar ir.

— Você precisa voltar — ela disse, embora seus olhos dissessem o contrário. — A vigília deve estar terminando. Não queremos o "Rei Davi" batendo na sua porta de madrugada.

— Ele não é nada perto de você — respondi, abrindo a porta do carro.

Antes de sair, eu me virei para ela uma última vez.

— Eu te amo, Ravena. E não é só a sua alma.

Ravena não respondeu com palavras. Ela apenas acenou com a cabeça, um gesto de respeito e posse que valia mais do que qualquer declaração.

Caminhei de volta para a igreja, sentindo o chão de um jeito diferente sob meus pés. Entrei pelos fundos e retomei meu lugar no banco, exatamente no momento em que o Pastor Elias pedia a oração final.

Davi se aproximou de mim quando as luzes se acenderam, com aquele sorriso condescendente de sempre.

— Irmã, você sumiu por um tempo. Estava em oração profunda no jardim? — ele perguntou, tentando segurar minha mão.

Eu olhei para a mão dele e depois para os olhos dele. Senti uma vontade quase incontrolável de rir.

— Sim, Davi — respondi, minha voz saindo firme, sem a hesitação de antes. — Eu tive um encontro com a verdade. E posso te garantir: a verdade liberta.

Ele franziu o cenho, confuso com o brilho no meu olhar, mas não disse nada. Saímos da igreja e eu vi o SUV preto passando lentamente pela rua principal, os faróis desligados, como um predador vigiando sua criação.

Eu respirei fundo o ar da madrugada. Eu ainda era a menina da igreja para o resto do morro. Eu ainda usava o vestido floral e carregava a Bíblia debaixo do braço. Mas, por baixo do pano e das aparências, eu carregava o fogo de Ravena. E eu sabia que, a partir daquela noite, Azarath nunca mais veria a mesma santinha. Porque agora, eu não rezava mais para que Deus mudasse Ravena. Eu rezava para que a noite nunca acabasse.