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Atirei pedras na cruz

O Cálice Partido e o Som do Aço

O sol de segunda-feira nasceu com uma indiferença cruel, iluminando as marcas roxas escondidas sob a gola alta do meu vestido. Eu não conseguia olhar para o espelho sem sentir que a imagem refletida era a de uma impostora. A "santinha" de Azarath ainda estava lá, com o cabelo preso em um coque perfeito e a Bíblia sobre a mesa de cabeceira, mas por dentro, eu me sentia como um templo cujas colunas haviam sido derrubadas por um terremoto.

Passei os três dias seguintes em um estado de negação febril. Eu evitava as janelas. Evitava a escadaria da igreja nos horários em que o sol começava a sumir. Quando o Pastor Elias me pedia para liderar o louvor, minha voz saía mecânica, desprovida daquela paixão que todos confundiam com fé, mas que eu agora sabia ser apenas um desejo reprimido que finalmente encontrara seu alvo.

— Você está tão pálida, minha filha — disse minha mãe, enquanto servia o café na quarta-feira. — Tem comido direito?

— É só o cansaço do ministério, mãe — menti, focando minha atenção absoluta na torrada seca. — Muitas almas precisando de orientação.

"Almas". A palavra me dava náuseas. Eu me sentia suja, não pelo ato em si — porque, no fundo do meu coração, a memória do toque de Ravena era a única coisa que me fazia sentir real —, mas pela hipocrisia de continuar vestindo aquela máscara. Eu a evitava porque tinha medo. Medo de que, se a visse de novo, eu largaria tudo. Minha família, minha reputação, meu Deus.

Eu não a procurei. Não desci até a quadra. Não respondi às mensagens cifradas que um dos meninos do morro tentou me entregar em um papel amassado na porta da escola dominical. Eu me convenci de que o que aconteceu no carro foi um surto, uma fraqueza da carne que eu poderia enterrar sob camadas de jejum e oração. Mas o problema do fogo é que, quanto mais você tenta abafá-lo sem oxigênio, mais ele queima por dentro.

Na tarde de quinta-feira, o ar no Morro de Azarath mudou. Não era o calor típico do Rio; era uma pressão abafada, um silêncio que precedia a tempestade. Eu estava voltando do mercado com duas sacolas pesadas, subindo um atalho estreito que cortava o "morrinho", uma área de mata rasteira e becos sinuosos que servia de fronteira entre a parte alta e a zona de conflito.

De repente, o silêncio foi estilhaçado.

O primeiro estalo foi seco, como um galho quebrando, seguido por uma sucessão rítmica e ensurdecedora. *Pá-pá-pá-pá!*

— Chão! Todo mundo no chão! — alguém gritou lá embaixo.

O pânico foi instantâneo. As sacolas de compras caíram das minhas mãos, espalhando laranjas e caixas de leite pelo cimento rachado. O som dos tiros ecoava pelas paredes de tijolo aparente, tornando impossível identificar de onde vinham. Eu me encolhi contra um muro baixo, o coração batendo tão forte que eu achei que fosse desmaiar.

Mais tiros. Gritos de homens. O som metálico de cápsulas caindo. Era uma invasão ou uma operação policial; em Azarath, o resultado era o mesmo: morte e medo.

Tentei me arrastar para trás de uma caixa d'água de amianto, mas o som de passos pesados vindo na minha direção me paralisou. Um grupo de homens armados passou correndo pelo beco acima, disparando para trás. Eu estava no meio do fogo cruzado.

— Sai daí, sua louca! — um deles gritou, mas eu não conseguia mover minhas pernas.

Foi então que eu a vi.

Ravena surgiu do meio da fumaça e da poeira como uma entidade sombria. Ela não estava de capa; usava um colete tático sobre a regata preta, um fuzil atravessado no peito e um rádio comunicador chiando no ombro. O rosto dela estava sujo de fuligem, e os olhos roxos brilhavam com uma fúria gélida que faria qualquer homem tremer.

Ela disparou uma rajada curta para o alto do beco, forçando os invasores a recuarem, e então se virou, procurando algo. Quando seus olhos encontraram os meus, encolhida no chão, a expressão de autoridade dela desmoronou por um milésimo de segundo, sendo substituída por um terror absoluto.

— Droga! — ela rugiu, correndo em minha direção enquanto as balas estilhaçavam o reboco do muro acima da minha cabeça.

Ela se jogou sobre mim, usando o próprio corpo como escudo, jogando-me contra o chão de terra batida atrás da proteção de um pilar de concreto. O peso dela era reconfortante e aterrorizante ao mesmo tempo. O cheiro de pólvora e suor agora substituía o sândalo.

— O que você está fazendo aqui?! — ela gritou perto do meu ouvido, tentando se sobrepor ao som dos disparos. — Eu mandei avisar para ninguém circular por esse lado hoje!

— Eu não recebi aviso nenhum! — respondi, soluçando, as mãos cravadas nos ombros dela. — Ravena, eu achei que ia morrer...

Ela me apertou contra o peito, uma das mãos segurando minha nuca, forçando minha cabeça para baixo.

— Você não vai morrer. Ninguém toca em você enquanto eu estiver respirando — ela sibilou.

Ela se afastou o suficiente para verificar se eu estava ferida, suas mãos percorrendo meu corpo com uma urgência frenética. Quando percebeu que eu estava intacta, a fúria voltou aos seus olhos.

— Por que você sumiu? — perguntou ela, a voz rouca, ignorando o fato de que uma guerra acontecia a poucos metros de nós. — Eu fiquei três dias esperando você aparecer. Achei que tinham te pegado, achei que você tinha fugido...

— Eu não podia, Ravena! — gritei de volta, as lágrimas se misturando à sujeira no meu rosto. — O que aconteceu... foi errado. Eu sou da igreja, eu tenho uma vida, eu tenho...

— Você tem uma mentira! — ela me cortou, o som de uma explosão de granada ao longe fazendo o chão vibrar. — Você quase morreu agora com essa Bíblia invisível na mão! Onde está o seu "Rei Davi" para te proteger das balas, hein? Onde está a sua oração agora?

Eu não respondi. Eu apenas a encarei, vendo a dor e a possessividade em seu rosto. Mesmo no meio do caos, a tensão sexual entre nós era uma força gravitacional.

— Fica aqui. Não arreda o pé desse pilar — ela ordenou, pegando o fuzil novamente. — Eu vou limpar o caminho e te levar para casa.

— Não me deixa sozinha! — implorei, segurando a barra do colete dela.

Ravena parou, olhou para a minha mão e depois para os meus olhos. Ela se inclinou e me deu um beijo rápido, um toque de lábios que tinha gosto de metal e promessa.

— Eu nunca deixo o que é meu — ela disse.

Ela se levantou e começou a disparar, movendo-se com uma precisão mortal. Eu assisti, horrorizada e fascinada, enquanto a dona do morro retomava seu território. Ela gritava ordens pelo rádio, coordenando seus homens, uma rainha de guerra em seu trono de escombros.

Cinco minutos depois, que pareceram horas, o tiroteio começou a minguar, deslocando-se para a parte baixa do morro. Ravena voltou para mim, ofegante, estendendo a mão.

— Vem. Agora.

Ela me puxou pela mão, guiando-me pelos becos com uma autoridade inquestionável. Passamos por corpos no chão e marcas de sangue, mas ela não me deixou olhar. Ela me manteve colada ao seu lado até chegarmos à segurança da minha rua, que estava deserta, com todos os moradores trancados em casa.

Quando chegamos ao meu portão, ela me soltou. O silêncio da rua era pesado.

— Entra — disse ela, o tom de voz voltando a ser seco. — E não sai mais hoje.

— Ravena... — comecei, mas ela me cortou com um gesto.

— Você passou três dias fingindo que eu não existo porque "foi errado" — ela disse, limpando o sangue de um pequeno corte no seu braço. — Mas na hora que o bicho pegou, foi no meu peito que você se escondeu. Aceita a sua natureza, santinha. Você pode orar o quanto quiser, mas o seu lugar é onde o perigo mora. Porque o perigo sou eu.

— Eu não queria que fosse assim — sussurrei, segurando as grades do portão.

— Mas é assim. A alma pode até querer o céu, mas o seu corpo já escolheu o inferno comigo — ela deu um passo para trás, voltando para a penumbra do beco. — Agora entra. Amanhã a gente conversa sobre o quanto você "acha errado" o jeito que eu te toquei.

Ela desapareceu na escuridão antes que eu pudesse responder. Entrei em casa e me tranquei no quarto, desabando no chão. Eu olhei para as minhas mãos sujas de terra e pólvora.

Eu tentei não dar bola para ela. Tentei me convencer de que era um erro. Mas, enquanto o som distante dos últimos tiros ecoava no morro, eu percebi que Ravena tinha razão. No momento em que as balas começaram a voar, eu não chamei por Deus. Eu chamei por ela.

A santinha de Azarath estava morta, enterrada em algum lugar sob o concreto do morrinho. E a mulher que restou no lugar dela só conseguia pensar em quando sentiria o cheiro de pólvora e sândalo outra vez.