Atirei pedras na cruz
O Fruto do Pecado e o Trono de Sombras
O silêncio do meu quarto era interrompido apenas pelo som da chuva batendo no telhado de zinco, um ritmo constante que parecia acompanhar o descompasso do meu coração. Olhei para o pequeno bastão de plástico em cima da pia do banheiro. Dois riscos vermelhos. Uma sentença. Um milagre ou uma maldição, dependendo de quem olhasse.
Eu estava grávida. E eu não precisava de um exame de DNA para saber quem era o pai. Noites de uma entrega absoluta, onde as barreiras entre o sagrado e o profano foram derrubadas, deixaram sua marca definitiva em mim. Ravena, com toda a sua dualidade e sua natureza singular, tinha plantado uma vida no meu ventre.
Passei a mão pela barriga ainda plana, sentindo um calafrio. Como eu explicaria isso na igreja? Como explicaria para minha mãe? Mas, acima de tudo, como eu contaria para a dona do morro que o nosso "erro" agora tinha batimentos cardíacos?
Tomei coragem. Vesti meu casaco mais largo, escondendo o que ainda não era visível, e saí na noite úmida. O Morro de Azarath parecia mais sombrio do que o normal. Os vapores nas esquinas me olhavam com um respeito misturado com pena. Eles sabiam que algo tinha mudado entre a santinha e a patroa.
Subi até o casarão no topo do morro, o quartel-general de Ravena. O segurança na porta, um homem alto que todos chamavam de Blindado, apenas acenou para que eu entrasse. Ele sabia que eu tinha passe livre. Ou, pelo menos, achava que tinha.
Quando entrei na sala ampla, decorada com móveis de couro escuro e luzes neon roxas, encontrei Ravena de pé diante da janela panorâmica, observando o seu império. Ela não se virou de imediato, mas eu senti a tensão emanando dela.
— Ravena — chamei, minha voz saindo mais fraca do que eu pretendia.
Ela se virou lentamente. O rosto dela estava endurecido, os olhos roxos quase negros sob a luz fraca. Não havia o brilho de desejo que costumava me saudar. Havia apenas uma distância fria.
— Você não deveria estar aqui — disse ela, a voz desprovida de qualquer emoção.
— Eu precisava te ver. Faz semanas que você não me procura, que não manda recado...
— E não vou mandar — ela me cortou, dando um passo à frente, as mãos nos bolsos da calça cargo. — Acabou, pequena. O que aconteceu entre a gente... foi um erro. Um delírio. Eu me deixei levar por uma curiosidade e você se deixou levar por uma rebeldia de crente.
Senti como se tivesse levado um soco no estômago. O segredo que eu carregava pesou toneladas.
— Um erro? — perguntei, sentindo as lágrimas arderem. — É assim que você chama tudo o que a gente viveu? As promessas, o jeito que você me olhava...
— Eu olhava para você como um brinquedo novo, algo que eu queria quebrar para ver o que tinha dentro — ela disse, e eu soube que ela estava mentindo, mas a crueldade em sua voz era real. — Mas a brincadeira perdeu a graça. Eu sou a dona deste morro, tenho uma guerra para vencer e um nome a zelar. Não tenho tempo para brincar de casinha com a menina da igreja.
Antes que eu pudesse responder, a porta lateral se abriu e uma garota entrou. Era Juju, a mesma menina do baile, mas agora ela usava roupas mais caras e agia com uma familiaridade que me deu náuseas. Ela caminhou até Ravena e passou a mão pelo ombro dela, olhando para mim com um sorriso vitorioso.
— Amor, a mesa já está posta — disse Juju, a voz melosa. — Vamos jantar?
Ravena não a afastou. Ela manteve o olhar fixo no meu, um desafio mudo.
— A Juju entende o meu mundo — continuou Ravena, a voz agora carregada de um veneno que eu sabia ser direcionado a si mesma. — Ela quer ser a minha fiel. Ela sabe o que é viver no sangue e na pólvora. Você? Você só quer me salvar. E eu não quero ser salva.
Eu olhei para as duas, o contraste entre a minha pureza forçada e a vulgaridade ostensiva de Juju. O segredo da gravidez subiu até a minha garganta, mas o orgulho foi mais forte. Se ela queria me descartar desse jeito, se ela queria me trocar por alguém que "entendia o mundo dela", ela não merecia saber a verdade. Não agora.
— Entendo — eu disse, limpando uma lágrima solitária que teimava em cair. — Você tem razão, Ravena. Foi um erro. Um erro que eu pretendo consertar.
— Ótimo — respondeu ela, embora eu tenha visto um lampejo de dor cruzar seus olhos por um microssegundo. — Volte para o seu pastor e para a sua vida certinha.
— É exatamente o que eu vou fazer — retruquei, sentindo uma fúria santa crescer em mim. — Inclusive, o Davi... ele tem sido muito presente. Ele me pediu em casamento ontem. Acho que vou aceitar. É bom ter um homem de verdade ao lado, alguém que não tem medo de amar.
Vi o maxilar de Ravena travar. A mão dela, que estava no bolso, fechou-se com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— O Davi? O rei dos salmos? — ela riu, mas foi um som feio. — Boa sorte com ele.
— Obrigada — respondi, virando as costas. — E Ravena... não se preocupe. Você nunca mais vai precisar me ver.
Saí daquela casa sentindo que o mundo estava desmoronando, mas com a cabeça erguida. Eu não disse que estava grávida. Deixei que ela acreditasse que eu estava voltando para os braços do "perfeito" Davi.
As semanas se passaram. Eu evitava o topo do morro como se fosse solo sagrado proibido. Minha barriga começou a dar sinais de crescimento, e eu precisei usar roupas cada vez mais largas. Davi, percebendo meu estado vulnerável, realmente se aproximou. Ele não sabia da gravidez, mas eu deixava que ele me acompanhasse até em casa, deixando que os olheiros de Ravena vissem a cena. Eu queria que ela sofresse. Eu queria que ela sentisse o que eu senti.
Até que, em um domingo à tarde, o confronto inevitável aconteceu.
Eu estava saindo da igreja após o culto matinal. Davi estava ao meu lado, segurando minha Bíblia e falando sobre o futuro. Foi quando o SUV preto de Ravena freou bruscamente na frente da igreja.
Ela desceu do carro como um demônio enfurecido. Não havia Juju, não havia pose de dona do morro. Havia apenas uma mulher consumida pelo ciúme e por algo mais.
— Sai de perto dela! — Ravena rugiu para Davi, que recuou imediatamente, quase tropeçando nos degraus da igreja.
— Ravena, o que é isso? — eu perguntei, tentando manter a calma, mas sentindo o bebê chutar pela primeira vez.
— Eu ouvi os boatos — ela disse, caminhando até mim, ignorando os fiéis que observavam horrorizados. — Ouvi que você está grávida. E ouvi que o pai é esse... esse moleque!
Ela apontou para Davi com um desprezo mortal. Davi olhou para mim, em choque.
— Grávida? Irmã, isso é verdade? — ele perguntou, a voz trêmula.
Eu olhei para Ravena. A dor e a raiva no rosto dela eram quase palpáveis. Ela achava que eu a tinha traído com a pessoa que ela mais detestava.
— E se for verdade, Ravena? — provoquei, cruzando os braços sobre o ventre. — O que você tem a ver com isso? Você não disse que eu era um erro? Que queria a Juju como sua fiel? O Davi vai assumir o que é dele.
Ravena deu um passo à frente, invadindo meu espaço. A fúria em seus olhos deu lugar a uma angústia profunda.
— Você se deitou com ele? — ela sussurrou, a voz quebrada. — Depois de tudo o que a gente teve... você deixou esse imbecil te tocar?
— Ele me dá a paz que você me tirou — menti, sentindo meu coração se despedaçar ao ver o estado dela.
— Mentira! — Ravena gritou, e de repente, ela segurou meu braço com firmeza, mas sem machucar. — Eu conheço o seu cheiro. Eu conheço o seu corpo. Esse filho não pode ser dele.
— Por que não, Ravena? — perguntei, desafiadora. — Só porque você se acha a dona de tudo?
— Porque eu sei o que eu fiz! — ela explodiu, as lágrimas finalmente vencendo sua máscara de durona. — Eu sei que aquela noite foi real. Eu sei que eu te dei tudo de mim. Você não conseguiria olhar para ele se tivesse o meu toque na pele.
Davi, percebendo que a conversa tinha entrado em um terreno que ele não compreendia, começou a se afastar lentamente.
— Eu... eu acho que vou para casa — ele gaguejou e saiu quase correndo.
Ficamos sozinhas diante da igreja. O silêncio era cortante. Ravena olhou para a minha barriga, a mão trêmula estendendo-se para tocar, mas hesitando no meio do caminho.
— Diz a verdade — ela pediu, quase em um súplice. — Diz que é meu. Diz que você não me traiu com aquele projeto de santo.
Eu olhei para ela, vendo a mulher poderosa do morro reduzida a uma alma suplicante. O jogo tinha ido longe demais.
— É claro que é seu, sua idiota — eu disse, soluçando. — Como você pôde achar que eu deixaria outra pessoa chegar perto de mim depois de você? Como você pôde me expulsar daquela casa e dizer que eu era um erro?
Ravena fechou os olhos, deixando as lágrimas caírem livremente. Ela deu um passo à frente e finalmente colocou a mão sobre o meu ventre. No momento em que a palma da mão dela encontrou a curva da minha barriga, o bebê chutou novamente, com força.
Os olhos de Ravena se arregalaram. Um sorriso trêmulo e maravilhado surgiu em seus lábios.
— Ele... ele chutou — ela murmurou, a voz cheia de uma admiração que eu nunca tinha visto. — É meu. É nosso.
— Sim — respondi, segurando a mão dela sobre o meu corpo. — É o nosso erro, Ravena. O erro mais lindo que a gente já cometeu.
Ela me puxou para um abraço apertado, escondendo o rosto no meu pescoço. Senti o calor dela, o cheiro de sândalo que eu tanto sentira falta.
— Me perdoa — ela sussurrou. — Eu tive medo. Medo de que você me odiasse por te tirar da sua vida pura. Medo de que esse mundo de crime acabasse com você. Eu tentei te afastar para te proteger, mas eu quase morri de ciúmes desse Davi.
— Você não precisa me proteger de mim mesma, Ravena — eu disse, afastando-me para olhá-la. — Eu escolhi você. Com crime, com perigo, com tudo.
— A Juju... — comecei a dizer, mas ela me interrompeu.
— A Juju não é nada. Eu mandei ela embora no dia seguinte. Eu só queria te ferir porque eu estava ferida. Eu sou uma idiota.
— É, você é — concordei, rindo entre as lágrimas.
Ravena olhou ao redor, percebendo que ainda estávamos na frente da igreja, com vários olhares curiosos sobre nós.
— Vem comigo — disse ela, pegando minha mão com uma possessividade renovada. — Você não volta para aquela casa. Você vem para o topo do morro. É lá que o meu herdeiro, ou herdeira, vai nascer.
— Ravena, a minha mãe, a igreja...
— Eu cuido de tudo — ela afirmou, a autoridade de dona do morro voltando, mas agora temperada com uma doçura nova. — Ninguém vai falar um "a" da mãe do meu filho. Eu vou transformar este morro no lugar mais seguro do mundo para vocês dois.
Ela me conduziu até o SUV. Antes de entrar, eu olhei para a igrejinha uma última vez. Eu sabia que a minha vida de "menina certinha" tinha acabado ali. Mas, ao olhar para Ravena, que agora abria a porta para mim com um cuidado quase sagrado, eu soube que tinha encontrado uma fé muito mais real.
O caminho até o topo do morro foi silencioso, mas era um silêncio cheio de promessas. Ravena não soltou a minha mão em nenhum momento. Quando chegamos ao casarão, ela me levou direto para o quarto dela, um lugar onde eu nunca tinha entrado.
— Este é o seu lugar agora — disse ela, sentando-me na cama imensa. — Tudo o que é meu, é seu.
— Eu só quero você, Ravena — eu disse, puxando-a para um beijo.
O beijo foi diferente de todos os outros. Não havia a urgência desesperada do pecado, nem a agressividade do poder. Havia a promessa de uma família.
Naquela noite, deitada nos braços da dona do morro, eu percebi que o plano de Deus para mim era muito mais complexo do que os sermões do Pastor Elias. Eu tinha sido enviada para o abismo, não para cair, mas para levar luz para a alma que habitava as sombras. E, no processo, eu tinha encontrado a minha própria redenção nos braços do meu "erro" mais sagrado.
O Morro de Azarath continuaria pulsando ao som do funk e do crime, mas dentro daquele casarão, uma nova história estava sendo escrita. Uma história onde a santinha e a dona do morro não eram mais opostas, mas duas partes de um todo que agora batia em um ritmo só, sob o coração de uma criança que nasceria para governar o abismo com o amor que apenas o pecado mais puro poderia gerar.