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Atirei pedras na cruz

O Sangue que Clama e o Berço de Ferro

O sol da tarde batia na janela da suíte principal do casarão, refletindo nos cristais que Ravena fizera questão de espalhar pelo quarto para "limpar as energias". Eu estava sentada na poltrona de amamentação que ela comprara na semana passada — uma peça exageradamente cara e macia —, sentindo o peso da minha barriga de cinco meses. A pequena Maya, como decidimos chamar, parecia estar praticando capoeira dentro de mim.

— Ela não para quieta, não é? — A voz de Ravena surgiu da porta, agora desprovida daquela agressividade cortante de meses atrás.

Eu sorri, vendo-a caminhar em minha direção. Ela estava sem o colete tático, vestindo apenas uma regata preta que deixava suas tatuagens à mostra. Ravena se ajoelhou entre minhas pernas e encostou a orelha na minha barriga, fechando os olhos.

— Está agitada hoje — murmurou ela, e eu senti um beijo suave sobre o tecido do meu vestido de gestante. — Deve estar sentindo que a mãe dela está com fome. O que você quer comer? Posso mandar o Blindado buscar o que você quiser na cidade.

— Eu só queria um picolé de fruta, Ravena. Não precisa mobilizar o exército — brinquei, passando a mão pelos cabelos curtos dela.

— Para você e para ela, eu mobilizo o mundo — ela disse, levantando-se e me olhando com uma intensidade que ainda me fazia corar. — Você sabe que o clima no morro vizinho está estranho. Os caras do Comando de Sangue estão se achando muito corajosos ultimamente. Não quero você saindo da sede sem três carros de escolta.

— Ravena, eu só ia até a casa da minha mãe buscar umas mantinhas que ela bordou — suspirei, sentindo falta da simplicidade de caminhar pelas ruelas. — Ninguém vai mexer com a "mulher da patroa". Todo mundo sabe que você vira o morro de cabeça para baixo.

— Exatamente por isso — ela retrucou, o maxilar travando. — Você é o meu coração batendo fora do peito agora. Se encostarem um dedo em você... eu não deixo pedra sobre pedra em Azarath.

Ela me beijou, um beijo que começou protetor e terminou com aquela faísca que nunca se apagara entre nós. Ravena saiu para resolver "negócios" na boca, e eu, movida por uma teimosia que a gravidez só fizera aumentar, decidi que não esperaria pela escolta. A casa da minha mãe era logo ali, a dez minutos de caminhada por dentro dos becos que eu conhecia desde criança. O que poderia acontecer em plena luz do dia?

Peguei minha bolsa e saí pelos fundos, desviando dos seguranças que cochilavam sob o sol. O ar do morro estava quente, e o cheiro de comida caseira vindo das janelas me trazia uma paz nostálgica. Eu estava quase chegando à rua da minha mãe, a apenas dois becos de distância, quando o silêncio se tornou pesado demais.

Um carro preto, com vidros fumê e sem placa, subiu a ladeira em uma velocidade incompatível com o estreito caminho. Antes que eu pudesse reagir, a porta lateral se abriu.

— É ela! Pega a santinha! — gritou uma voz masculina, rouca e carregada de maldade.

Tentei correr, mas o peso da barriga me tornava lenta. Senti mãos brutas agarrarem meus braços. Um pano com cheiro químico foi pressionado contra o meu rosto. Lutei, pensei em Maya, pensei em Ravena, mas a escuridão me tragou em segundos.

***

Acordei com o gosto de metal na boca e o som de goteiras ecoando em um galpão úmido. Minhas mãos estavam amarradas para a frente, o que me permitia proteger a barriga, mas meus pés estavam presos a uma cadeira de ferro.

— Ela acordou — disse um homem magro, com uma cicatriz que atravessava o pescoço, sentado à minha frente brincando com uma faca. — A Rainha de Azarath deve estar subindo as paredes uma hora dessas, não acha, rapaziada?

— Vocês são loucos — eu sussurrei, a voz trêmula, sentindo o terror gelado subir pela minha espinha. — Ela vai matar cada um de vocês. Ela não perdoa.

— Ela vai pagar o que a gente pedir — o homem riu, aproximando a faca do meu rosto. — Ou a gente manda um pedaço da santinha de presente para ela. Quem sabe um dedo? Ou algo que está aí dentro dessa barriga?

Meu sangue gelou. Eu não me importava comigo, mas a menção à Maya me fez sentir uma fúria que eu não sabia que possuía.

— Se você tocar nela — eu disse, encarando-o nos olhos, imitando o tom gélido que eu tanto vira Ravena usar —, o inferno vai parecer um parque de diversões perto do que ela vai fazer com você.

O homem ia responder, mas o som de um rádio comunicador na cintura dele chiou.

— *Chefe! Chefe! Deu ruim! Ela tá aqui! Ela tá...* — O som foi cortado por um estrondo ensurdecedor.

Não foi um tiro. Foi uma explosão. A porta de metal do galpão voou para longe como se fosse feita de papel, e o som de fuzis automáticos preencheu o ambiente.

— Cadê ela?! — O grito de Ravena não era humano. Era o rugido de uma fera ferida, algo que vinha das entranhas da terra.

Os sequestradores entraram em pânico. O homem da cicatriz tentou me usar como escudo, puxando-me pela gola do vestido, mas ele não foi rápido o suficiente. Um laser vermelho brilhou no peito dele por menos de um segundo antes de uma bala atravessar seu ombro, derrubando-o para trás.

Eu fechei os olhos, encolhendo-me. Senti o cheiro de pólvora e o calor das explosões. Ouvi gritos de agonia, mas não ousei olhar. Então, o silêncio voltou, quebrado apenas pelos passos pesados de botas de combate sobre o cimento úmido.

— Se alguém se mexer, eu estouro a cabeça do último que sobrar — a voz de Ravena estava calma agora, o que era mil vezes mais aterrorizante do que o grito de antes.

Senti mãos conhecidas tocarem meus ombros. Abri os olhos e vi Ravena. Ela estava coberta de poeira e sangue — que eu esperava que não fosse dela —, com o fuzil pendurado nas costas. Seus olhos roxos estavam dilatados, faiscando com uma mistura de ódio mortal e alívio desesperado.

— Você está bem? — ela perguntou, suas mãos trêmulas — a primeira vez que as vi tremer — tateando meu rosto e minha barriga. — Eles te machucaram? Maya está bem?

— Estamos bem, Ravena... eu só... eu tive tanto medo — eu comecei a chorar, desabando contra o peito dela enquanto ela cortava minhas amarras com um canivete.

— Eu disse para você — ela sussurrou, abraçando-me com uma força que quase me tirou o ar, escondendo o rosto no meu pescoço. — Eu disse que não deixaria ninguém encostar em você.

Ela me levantou do chão como se eu não pesasse nada, carregando-me no colo. Ao sairmos do galpão, vi o rastro de destruição. O "exército" de Ravena havia cercado o local em tempo recorde. Blindado estava lá, com uma expressão sombria, terminando de render os sobreviventes.

— O que fazemos com eles, patroa? — perguntou Blindado, apontando para os dois homens que restavam, ajoelhados no chão.

Ravena parou. Ela olhou para mim, vendo meu estado, e depois para os homens. Por um momento, vi a escuridão total tomar conta dela. Ela queria o sangue deles. Ela queria que eles sofressem por cada minuto de medo que eu passei.

— Ravena, não — eu pedi, segurando o rosto dela. — Só me tira daqui. Vamos para casa. Pela Maya.

Ela respirou fundo, lutando contra os próprios demônios. O ódio em seus olhos vacilou diante do meu pedido.

— Blindado — disse ela, sem desviar os olhos dos meus. — Leva eles para o tribunal do morro. Ninguém morre hoje... ainda. Mas garanta que eles nunca mais consigam segurar uma arma na vida.

— Entendido — respondeu o segurança.

Ravena me colocou no banco de trás do SUV blindado e entrou logo em seguida, puxando-me para o seu colo, mesmo com a barriga de cinco meses entre nós. Ela me segurava como se eu fosse desaparecer se ela soltasse.

— Me perdoa — ela disse, a voz embargada. — Eu deveria ter sido mais cuidadosa. Eu deveria ter trancado você naquela casa.

— Não, Ravena — eu disse, acariciando o rosto dela, limpando uma mancha de fuligem na sua bochecha. — Eu é que fui teimosa. Eu achei que o mundo era o mesmo de antes. Eu esqueci que agora eu carrego o seu tesouro mais precioso.

Ela encostou a testa na minha, fechando os olhos.

— Eu quase morri, pequena. Quando o Blindado disse que você tinha sumido... eu senti como se o meu ar tivesse acabado. Eu não sou nada sem vocês duas.

— Você é a nossa guardiã — eu sorri, sentindo Maya chutar com força, como se estivesse comemorando o resgate. — Sente isso? Ela sabe que a outra mãe dela chegou.

Ravena colocou a mão sobre a minha barriga e, pela primeira vez desde que a explosão ocorrera, ela sorriu. Um sorriso genuíno, carregado de uma paz que só nós conseguíamos proporcionar a ela.

— Ela é forte — comentou Ravena. — Vai ser igual a você. Uma santinha com fogo nas veias.

Chegamos ao casarão sob uma escolta de dez motos. O morro estava em silêncio, um sinal de respeito e temor pelo que acabara de acontecer. Ravena me levou direto para o quarto e não me deixou sair da cama pelo resto do dia. Ela mesma buscou o picolé de fruta que eu pedira horas antes, servindo-me como se eu fosse uma rainha.

Naquela noite, enquanto a chuva voltava a cair sobre Azarath, Ravena ficou sentada na beira da cama, limpando seu fuzil com uma calma metódica, mas seus olhos não saíam de mim nem por um segundo.

— Você não vai mais sair sem mim, não é? — perguntou ela, embora soasse mais como um pedido do que como uma ordem.

— Pelo menos até a Maya nascer — concordei, estendendo a mão para ela.

Ravena largou a arma e se deitou ao meu lado, abraçando-me por trás, a mão repousando protetoramente sobre o nosso fruto.

— Eu vou construir um muro em volta deste morro se for preciso — ela sussurrou no meu ouvido. — Ninguém nunca mais vai chegar perto do que é meu.

Eu fechei os olhos, sentindo o calor do corpo dela e a segurança daquelas paredes de ferro. Eu sabia que o mundo lá fora continuava perigoso, e que a minha vida como a "menina da igreja" fora substituída por algo muito mais complexo e intenso. Mas ali, nos braços da dona do morro, eu não tinha mais medo do abismo. Porque eu descobri que, quando você cai com a pessoa certa, o abismo se torna o seu lar.

— Eu te amo, Ravena — murmurei, já pegando no sono.

— Eu amo vocês mais do que a minha própria vida — ela respondeu, e eu soube que, para Ravena, aquelas não eram apenas palavras. Era a lei que governava Azarath.

E enquanto o morro dormia sob a guarda dos seus soldados, dentro daquele quarto, a paz era a única soberana. O sangue que clamava lá fora fora silenciado pelo amor que, contra todas as probabilidades, florescera entre o altar e o crime. Maya chutou uma última vez, como um selo de aprovação, e finalmente, o silêncio foi completo.