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O Coração do Oceano e o Voo das Sombras Aquáticas
A manhã em Awa'atlu surgiu com uma luz perolada, filtrada pelas névoas finas que dançavam sobre os recifes. O som das águas quebrando suavemente contra as raízes das árvores-mangue era o despertador natural de Pandora. Kuro Hatake acordou antes dos outros Sully, sentindo o frescor do mar invadir a marui. Ele passou a mão pelos cabelos brancos curtos, ainda sentindo o sal da noite anterior, e sorriu ao lembrar do toque de Tatsuyo.
Naquela manhã, o plano era especial. Os jovens Metkayina — Aonung, Tsireya e Tatsuyo — haviam prometido levar os "estrangeiros da floresta" para conhecer um dos lugares mais sagrados do recife: a Árvore dos Espíritos subaquática, a conexão profunda do povo da água com Eywa.
— Acorda, Lo’ak! — Kuro chutou levemente a perna do amigo, que ainda roncava baixo. — Hoje é o dia de você passar vergonha tentando montar um Ilu de verdade.
— Vai se ferrar, Kuro — resmungou Lo’ak, cobrindo o rosto com o braço, mas já se espreguiçando.
Neteyam e Kiri já estavam de pé, preparando suas facas e tiras de couro. O clima de trégua entre os grupos estava mais sólido, embora Aonung ainda mantivesse aquele ar de superioridade que fazia os nervos de Kuro vibrarem.
Quando chegaram à beira da água, os irmãos Metkayina já os esperavam com os Ilus. As criaturas aquáticas eram magníficas, com seus pescoços longos e movimentos sinuosos.
— Escutem bem — começou Aonung, cruzando os braços e assumindo o tom de instrutor. — O caminho até a Árvore dos Espíritos atravessa correntes fortes. Vocês vão precisar se segurar firme. Neteyam, você vem comigo.
Neteyam assentiu, aproximando-se do Ilu de Aonung. O Metkayina deu um assobio baixo, e a criatura se posicionou.
— Lo’ak, Kiri, vocês vêm comigo no meu Ilu — disse Tsireya, com um sorriso doce que instantaneamente desarmou qualquer reclamação de Lo’ak. — Ele é forte o suficiente para levar os três, desde que vocês mantenham o equilíbrio.
Kuro olhou em volta, procurando por sua parceira de viagem. Tatsuyo estava um pouco afastada, ajoelhada na areia rasa, falando baixinho com um Ilu menor e de cores mais claras, quase prateadas. Ela acariciava o focinho do animal como se estivesse contando um segredo.
— Tatsuyo! — chamou Tsireya, a voz carregada de uma preocupação protetora. — Lembre-se do que a mãe disse. Não se afaste do grupo e mantenha o Kuro firme atrás de você. E, por favor, não pare para conversar com as águas-vivas no caminho!
A garota de pele ciano levantou-se, rindo.
— Elas têm histórias engraçadas, Tsireya! Mas eu prometo ser rápida.
Tatsuyo olhou para Kuro e acenou com a mão.
— Venha, Kuro da Nuvem! O meu Ilu, Tìyui, disse que gosta do seu cheiro de floresta. Ele acha que você é um macaco azul que caiu no lugar errado.
Kuro soltou uma gargalhada e caminhou até ela, sentindo a água morna nos tornozelos.
— Um macaco azul, é? Pelo menos ele tem bom gosto.
— Kuro — Aonung chamou, o tom subitamente sério —, cuide dela. Tatsuyo se perde nos pensamentos com facilidade. Se ela soltar as rédeas para observar uma bolha de ar, você assume o controle.
— Eu sei, Aonung. Relaxa — respondeu Kuro, embora sentisse o peso da responsabilidade. Ele sabia que Tatsuyo era o tesouro daquela família, a futura Tsahìk que enxergava o mundo com uma pureza que beirava a fragilidade.
Kuro subiu no Ilu, posicionando-se logo atrás de Tatsuyo. Ele hesitou por um momento sobre onde colocar as mãos, mas Tatsuyo, com sua inocência natural, pegou os braços dele e os puxou para envolver sua cintura.
— Segure aqui, Kuro. Tìyui gosta de correr, e as águas são profundas onde vamos.
Kuro sentiu o rosto esquentar. A pele dela era fria e suave, e o perfume de algas e flores aquáticas que emanava de seus cabelos era inebriante.
— Certo... estou pronto.
— Vamos! — gritou Aonung, e os Ilus dispararam.
A sensação foi de um soco de adrenalina. A água passava por eles como um borrão turquesa. Mergulharam fundo, e Kuro teve que prender a respiração, maravilhado com a clareza do oceano. Cardumes de peixes coloridos explodiam em direções opostas como fogos de artifício vivos.
Tatsuyo guiava com uma leveza impressionante. Ela não parecia estar fazendo esforço; parecia estar dançando com a criatura. De vez em quando, ela soltava uma das mãos para tocar uma planta marinha ou apontar para algo que só ela via.
— Olha, Kuro! — ela disse através do elo mental, a voz ecoando na mente dele de forma suave. — As flores de coral estão acordando!
Kuro olhou para baixo e viu milhares de pequenos pólipos se abrindo em tons de rosa e roxo. Era lindo, mas ele percebeu que eles estavam se desviando ligeiramente da trilha de bolhas deixada por Aonung e Tsireya.
— Tatsuyo, foco! — Kuro a apertou um pouco mais pela cintura. — O seu irmão vai me matar se a gente se perder.
— O oceano não deixa ninguém se perder, Kuro. Ele apenas nos leva por caminhos mais bonitos — respondeu ela, mas obedeceu, inclinando o corpo para alinhar Tìyui novamente com o grupo.
Depois de alguns minutos de mergulho intenso, eles chegaram a uma depressão profunda no leito oceânico. Lá, iluminada por uma bioluminescência branca e etérea que parecia vir do centro da própria Pandora, estava a Árvore dos Espíritos. Suas fibras flutuavam na água como fios de seda, movendo-se em um ritmo hipnótico.
Todos soltaram os Ilus e nadaram em direção à estrutura. Aonung e Tsireya flutuavam perto de Tatsuyo, como dois guardiões.
— É aqui — sussurrou Tsireya quando todos emergiram em uma bolha de ar natural dentro de uma caverna próxima, para descansarem antes da conexão. — Aqui, a Grande Mãe ouve os batimentos do oceano.
Tatsuyo caminhou até a beira da água dentro da caverna, olhando para as fibras luminosas. Ela parecia em transe.
— Eles estão chamando — murmurou ela.
Kuro aproximou-se dela, sentindo a energia do lugar. Era diferente da Árvore das Almas na floresta. Lá era terra e raízes; aqui era fluido e luz.
— O que você ouve, Tatsuyo? — perguntou Kuro baixo.
— O canto dos que vieram antes — respondeu ela, voltando seus olhos grandes para ele. — Eles dizem que você tem um coração barulhento, Kuro. Muitas vozes brigando aí dentro.
Kuro desviou o olhar, desconcertado.
— É... ser um Avatar humano tem seus problemas.
— Deixe que a água leve o barulho embora — disse ela, estendendo a mão. — Vamos nos conectar.
Aonung observava os dois com um olhar atento. Ele deu um passo à frente, mas Tsireya o segurou pelo braço.
— Deixe-os, irmão. Eywa sabe o que faz.
— Ela é muito ingênua, Tsireya — resmungou Aonung. — Aquele garoto da floresta... ele não entende a importância disso. Ele pode machucar o espírito dela sem querer.
— Kuro não é mau, Aonung — defendeu Lo’ak, aproximando-se. — Ele é um idiota, sim, e fala muita besteira, mas ele morreria por qualquer um de nós. E ele olha para a sua irmã como se ela fosse a única estrela no céu noturno.
Aonung bufou, mas relaxou os ombros.
— Se ele fizer ela chorar, eu o dou de comida para os Akula.
Lá embaixo, na água, Tatsuyo e Kuro aproximaram-se das fibras da árvore. Tatsuyo pegou sua trança, expondo os filamentos neurais, e olhou para Kuro com uma expectativa doce.
— Tsaheylu, Kuro. Com a Grande Mãe.
Kuro fez o mesmo. Quando as fibras se conectaram, o mundo explodiu em luz.
Não eram memórias de dor ou de guerra. Através de Tatsuyo, Kuro sentiu a paz absoluta. Ele viu o nascimento de uma onda, o primeiro suspiro de um Tulkun, a paciência das pedras no fundo do mar. Ele sentiu a pureza da alma de Tatsuyo — era como água cristalina, sem uma única gota de malícia. Ela via o mundo como um presente constante, uma dança de luz e sombra onde tudo fazia sentido.
E, no meio daquela conexão, Kuro sentiu o que ela pensava dele.
Ela não via os cinco dedos como uma aberração. Ela via como uma ferramenta de criação. Ela não via o cabelo branco como algo estranho, mas como a cor das nuvens que ela tanto admirava. Ela via Kuro como um protetor, alguém que trazia o fogo da floresta para aquecer as águas calmas dela.
Kuro sentiu lágrimas se misturarem à água salgada. Pela primeira vez, o "barulho" em sua cabeça silenciou.
Quando se desconectaram, ambos flutuaram em silêncio por um longo tempo. Tatsuyo tocou o rosto de Kuro, limpando uma lágrima com o polegar.
— Viu? — ela sorriu. — Agora seu coração está cantando a mesma música que o meu.
— É uma música bonita — admitiu Kuro, a voz embargada.
Eles voltaram para a superfície da caverna, onde os outros os esperavam. Aonung imediatamente foi para o lado da irmã.
— Você está bem? Sentiu alguma coisa estranha? — ele perguntou, examinando o rosto dela.
— Estou maravilhosa, irmão — disse Tatsuyo, abraçando Aonung. — Kuro me ajudou a ver as nuvens dentro da água.
Aonung olhou para Kuro, que apenas assentiu com um respeito silencioso. O Metkayina pareceu entender que algo havia mudado.
— Certo — disse Aonung, pigarreando. — Já chega de sentimentalismo. Temos que voltar antes que o sol se ponha. As correntes de retorno são perigosas.
Na volta, o ritmo era mais calmo. Kuro abraçava Tatsuyo com uma ternura renovada. Ele não estava mais apenas "pegando carona"; ele estava cuidando dela, atento a qualquer movimento brusco da água.
— Kuro? — chamou Tatsuyo mentalmente.
— Sim, Tatsuyo?
— O que é um "anjo"? Você me chamou assim um dia.
Kuro sorriu, encostando o queixo no ombro dela enquanto o Ilu deslizava sobre as ondas.
— É um ser que vive no céu, nos contos do meu povo antigo. Eles têm asas e protegem as pessoas. Eles são... perfeitos.
Tatsuyo ficou em silêncio por um momento, observando o pôr do sol que começava a pintar o céu de Pandora.
— Eu não tenho asas — disse ela, parecendo um pouco triste.
— Você não precisa de asas, Tatsuyo — respondeu Kuro, apertando-a suavemente. — Você tem o mar. E você tem a mim.
Tsireya, que nadava logo ao lado com Lo’ak e Kiri, olhou para os dois e sorriu para si mesma. Ela sabia que sua irmãzinha precisava de alguém que entendesse o mundo de uma forma diferente, alguém que pudesse ser a âncora para uma alma que vivia flutuando.
— Eles formam um par estranho, não acham? — comentou Kiri, observando o cabelo branco de Kuro contrastar com o ciano de Tatsuyo.
— O mundo é estranho, Kiri — disse Lo’ak, segurando a mão de Tsireya sob a água. — Mas acho que, pela primeira vez, o Kuro encontrou alguém que fala a mesma língua maluca que ele.
Quando finalmente chegaram às praias de Awa'atlu, o céu era um manto de estrelas e bioluminescência. Ronal e Tonowari esperavam no cais, observando o retorno dos jovens.
Tatsuyo correu para a mãe, contando sobre a Árvore dos Espíritos com uma empolgação contagiante. Ronal ouvia tudo, mas seus olhos estavam fixos em Kuro, que ajudava Neteyam a prender os Ilus.
— Ele a protegeu — observou Tonowari em voz baixa para a esposa.
— Ele a marcou — corrigiu Ronal, com a sabedoria de uma Tsahìk. — O fogo da floresta agora queima sob as águas da nossa filha. Eywa teceu um fio curioso entre esses dois.
Kuro caminhou até Tatsuyo antes de se recolher para a marui dos Sully. Ele pegou uma pequena flor aquática que havia ficado presa em sua pulseira durante o mergulho e a entregou a ela.
— Para a princesa das águas — disse ele, com o velho tom brincalhão, mas com olhos que transbordavam verdade.
Tatsuyo pegou a flor e, em um gesto de pura inocência e carinho, beijou a bochecha de Kuro.
— Boa noite, meu anjo da nuvem.
Kuro ficou parado na areia, observando-a se afastar com sua família. Ele sentiu o tapa costumeiro de Lo’ak na nuca, mas nem se deu ao trabalho de reclamar.
— Você está perdido, cara — disse Lo’ak, rindo.
— Completamente — admitiu Kuro, olhando para a palma de sua mão de cinco dedos. — E, pela primeira vez na vida, eu não quero ser encontrado.
O mar de Pandora continuava seu canto eterno, mas para Kuro Hatake, a música agora tinha um nome, uma cor e o sorriso mais puro que o universo já ousara criar.