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O Eclipse de Sangue e a Sombra do Homem do Céu

A paz de Awa'atlu não foi quebrada por uma tempestade, mas pelo som mecânico e cortante que vinha do horizonte. O céu, antes um manto de azul e ouro, foi rasgado pelo rastro de fumaça dos motores da RDA. O "Povo do Céu" havia retornado, e desta vez, eles não buscavam apenas baleias Tulkun; eles buscavam vingança contra Jake Sully e qualquer um que o protegesse.

O caos se instalou em segundos. O som das trombetas de concha ecoou por todo o recife, um chamado de guerra que fez o sangue de Kuro Hatake gelar. Ele estava na orla com Neteyam e Lo’ak quando as primeiras explosões atingiram as águas externas.

— Eles estão aqui! — gritou Neteyam, já correndo em direção aos seus Ikrans. — Lo’ak, Kuro, peguem suas armas! Agora!

Kuro sentiu a adrenalina disparar. Ele pegou seu arco e a faca de osso, mas seus olhos procuraram desesperadamente por uma silhueta ciano específica. Em meio à correria de Na'vis pegando suas montarias e guerreiros se pintando para a batalha, ele a viu.

Tatsuyo estava parada perto de uma das plataformas de observação, com os olhos arregalados de terror e confusão. Para ela, a guerra era um conceito abstrato, algo que acontecia nas histórias tristes de seu pai. Ela via as máquinas de metal descendo como monstros de ferro e, em sua inocência devastadora, ela não via apenas inimigos; ela via seres que pareciam perdidos e furiosos.

— Tatsuyo! Saia daí! — gritou Kuro, correndo em direção a ela.

— Kuro, olhe! — Ela apontou para um dos botes de assalto que se aproximava da areia, danificado por uma flecha incendiária. — Eles estão caindo! Eles vão se afogar!

— Deixe que se afoguem! — Kuro a alcançou, segurando-a pelos ombros. — Você precisa ir para as cavernas com sua mãe e Tuk. Agora, Tatsuyo!

— Mas eles estão gritando, Kuro... — A voz dela tremeu. — Eywa diz que toda vida...

— Eywa não conhece esses demônios! — Kuro a sacudiu levemente. — Vá!

Ele a viu correr em direção às habitações, mas o campo de batalha era imprevisível. O ataque da RDA foi coordenado. Enquanto os guerreiros Metkayina e os Sully enfrentavam os navios maiores no mar aberto, pequenas unidades de infantaria em botes rápidos flanqueavam a vila.

Kuro lutou como um demônio. Ele usava sua agilidade de floresta para saltar entre as raízes e as passarelas, disparando flechas com uma precisão mortal. Ele viu Neteyam derrubar um helicóptero Samson com um mergulho audacioso de seu Ikran, e sentiu um breve alívio ao ver que seu "irmão" estava vivo. Mas o alívio durou pouco.

Um grupo de soldados da RDA desembarcou perto do berçário das crianças. Entre eles, um soldado ferido e desesperado arrastava-se pela areia, apontando sua arma para qualquer coisa que se movesse.

Tatsuyo, que estava a caminho das cavernas, parou. Ela viu o homem. Viu o sangue vermelho — tão diferente do sangue Na'vi — manchar a areia branca. Em sua mente pura, ela achou que, se mostrasse bondade, a violência pararia. Ela acreditava piamente no que sua mãe ensinava sobre a cura e a conexão.

— Pare! — ela gritou, aproximando-se do soldado com as mãos abertas, sem armas. — Você está ferido! Eu posso ajudar!

— Tatsuyo, não! — O grito de Kuro ecoou, mas ele estava longe demais, ocupado enfrentando dois soldados que o cercavam.

O soldado da RDA não viu uma curandeira. Ele viu um selvagem azul se aproximando. No pânico da agonia e do ódio, ele levantou o fuzil.

— Morre, sua aberração! — o homem rugiu.

O som do disparo foi seco, abafado pelo estrondo das explosões maiores, mas para Kuro, foi o único som que existiu no mundo. Ele viu o corpo pequeno e gracioso de Tatsuyo ser arremessado para trás pelo impacto da bala de grosso calibre.

— NÃAAAAOOO! — O grito de Kuro rasgou sua garganta.

Ele não pensou. Ele saltou sobre os soldados que o impediam, golpeando-os com uma fúria cega e brutal, usando as mãos de cinco dedos para esmagar e rasgar. Ele chegou ao soldado ferido antes que o homem pudesse disparar novamente. Kuro não usou o arco; ele usou as mãos. Foi rápido, violento e sombrio.

Depois, ele se jogou na areia ao lado de Tatsuyo.

O sangue ciano dela estava por toda parte, manchando seu peito. Ela estava pálida, a respiração vindo em arquejos curtos e úmidos.

— Tatsuyo... não, não, não... — Kuro pressionou a ferida no ombro dela, o pânico nublando sua visão. — Fique comigo, pequena. Por favor, fique comigo.

— O... o coração dele... — ela sussurrou, os olhos fixos no céu. — Estava com tanto medo, Kuro... eu só queria...

— Eu sei, eu sei. Você é um anjo, mas o mundo é um lixo — ele soluçou, segurando-a contra o peito enquanto a batalha continuava a rugir ao redor deles.

A intervenção de Jake e Tonowari foi decisiva. Os reforços da RDA foram repelidos, e os sobreviventes recuaram para o mar. A vitória foi conquistada, mas o custo estava sendo contado nos gritos de dor que ecoavam pela vila.

Horas depois, Tatsuyo estava deitada na marui de cura. Ronal trabalhava sobre ela com uma intensidade feroz, suas mãos trêmulas de uma forma que ninguém jamais vira. Tonowari estava parado na entrada, uma estátua de mármore azul, exalando uma fúria contida que ameaçava explodir.

Kuro estava do lado de fora, sentado nas raízes úmidas. Ele estava coberto de sangue — o dele, o de Tatsuyo e o dos humanos que ele matara. Suas mãos de cinco dedos estavam trêmulas.

Neteyam aproximou-se dele, colocando uma mão em seu ombro.

— Ela vai sobreviver, Kuro. A bala não atingiu o coração. Ronal disse que ela é forte.

Kuro não respondeu. Ele olhava para o horizonte, onde a fumaça ainda subia.

— Foi minha culpa — disse Kuro, a voz morta. — Eu deveria ter sido mais rápido. Eu deveria ter previsto que ela faria algo assim.

— Ela é inocente, Kuro. Ninguém poderia prever que ela tentaria curar um demônio — disse Neteyam.

Mas a atmosfera na vila estava mudando. A dor da perda e o choque do ataque precisavam de um alvo. E, para os Metkayina, o alvo era óbvio.

Tonowari saiu da marui de cura e caminhou em direção ao grupo. Seus olhos, antes cheios de respeito por Jake e seus filhos, agora estavam carregados de um veneno frio. Ele parou diante de Kuro.

— Ela vive — disse o Olo’eyktan, sua voz vibrando como um trovão distante. — Mas a alma dela está ferida. Ela viu a maldade que você trouxe para cá.

Kuro levantou-se, encarando o líder.

— Eu não trouxe isso, Tonowari. Eles vieram atrás de nós.

— E por que eles vieram? — Ronal apareceu atrás do marido, sua expressão era de puro ódio. Suas vestes de Tsahìk estavam manchadas com o sangue da própria filha. — Eles vieram por causa de vocês. Por causa do "Povo do Céu" que brinca de ser Na'vi.

Ela caminhou até Kuro, apontando para as mãos dele.

— Olhe para você! Cinco dedos! O sangue que corre em você é o mesmo sangue daqueles que atiraram na minha filha. Você diz que é um de nós, mas você é a semente do destruidor.

— Eu lutei por vocês! — gritou Kuro, a raiva finalmente rompendo sua tristeza. — Eu matei os meus próprios "semelhantes" para proteger esta vila! Eu quase morri defendendo a Tatsuyo!

— E por que ela precisava de defesa? — Tonowari deu um passo à frente, sua presença física esmagadora. — Porque você estava aqui. Porque a sua presença é um farol para a morte. Minha filha é pura. Ela não conhecia o ódio até você aparecer com suas histórias da Terra e sua energia de guerra.

Jake Sully aproximou-se, tentando intervir.

— Tonowari, pare. Kuro é um de nós. Ele é um filho para mim.

— Então você também é culpado, Jake Sully! — Ronal gritou. — Vocês trouxeram a sombra para o nosso sol. Minha filha quase morreu por causa da curiosidade que sentiu por esse... esse mestiço!

A multidão de Metkayinas começou a se aproximar, murmurando palavras de desprezo. "Demônio", "Cinco dedos", "Traidor".

Kuro olhou para Neteyam, Lo’ak e Kiri. Eles pareciam chocados, mas impotentes diante da fúria de um clã inteiro que acabara de ver sua futura Tsahìk sangrar na areia.

— Ela tentou ajudar aquele soldado porque ela é boa demais para este mundo — disse Kuro, as lágrimas queimando seus olhos. — E vocês estão usando o sacrifício dela para destilar ódio contra mim?

— Nós estamos protegendo o que resta da nossa paz — disse Tonowari. — Você ajudou na batalha, Kuro Hatake. Por isso, não pedirei seu sangue. Mas você não é mais bem-vindo perto da minha filha. Você não falará com ela. Você não chegará perto da marui dela. Para Tatsuyo, você está morto.

— Você não pode fazer isso — sussurrou Kuro.

— Eu sou o Olo’eyktan! — rugiu Tonowari. — Saia da minha vista antes que eu me esqueça da dívida de guerra e faça o que meu coração pede.

Kuro olhou para a entrada da marui de cura, onde Tatsuyo lutava pela vida. Ele queria gritar, queria entrar lá e dizer a ela que ele sentia muito. Mas ele viu os guerreiros Metkayina fecharem o caminho, suas lanças apontadas para ele.

Ele se virou e caminhou em direção à parte mais escura da praia, longe das luzes da vila.

Neteyam tentou segui-lo, mas Jake o segurou.

— Deixe-o, Neteyam. As coisas estão quentes demais agora.

Kuro sentou-se sozinho nas raízes de uma árvore-mangue, onde a água batia com força. Ele olhou para suas mãos de cinco dedos. Ele salvara a vida de muitos naquela tarde, mas para o povo que ele aprendera a amar, ele era apenas o reflexo do monstro que apertara o gatilho.

— Eu sinto muito, Tatsuyo — ele sussurrou para o mar, o som de seu próprio choro abafado pelas ondas. — Eu sinto muito por ser o que eu sou.

Naquela noite, o herói da batalha de Awa'atlu dormiu no chão frio e úmido, exilado dentro do próprio lar, enquanto a única pessoa que via beleza em sua "estranheza" permanecia em um sono profundo, protegida por um muro de ódio que Kuro não sabia se um dia conseguiria derrubar.

Ele era Kuro Hatake, o avatar de cinco dedos. E ele finalmente entendera que, em Pandora, a cor da pele azul não era suficiente para apagar a sombra do homem que ele um dia fora. A guerra deixara cicatrizes em Tatsuyo, mas fora em Kuro que ela abrira o abismo mais profundo.

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