Avatar
O Canto das Chamas e o Silêncio dos Pais
A recuperação de Tatsuyo foi um milagre que nem mesmo os mais céticos curandeiros Metkayina puderam explicar. Onde a ciência humana veria uma cicatrização acelerada, o clã via a mão de Eywa protegendo sua futura Tsahìk. Mas, enquanto o corpo da jovem se fortalecia, a alma de Kuro Hatake definhava sob o peso de um desprezo que ele nunca imaginou enfrentar.
Nas semanas que se seguiram ao ataque, a vila de Awa'atlu tornou-se um labirinto de olhares gélidos para o Avatar de cabelos brancos. Os adultos, liderados pela fúria silenciosa de Tonowari e pelo rancor aberto de Ronal, tratavam Kuro como um presságio de morte. Mas a dor mais profunda veio de onde ele menos esperava. Jake Sully, o homem que Kuro chamava de pai, o homem que compartilhava com ele a marca dos cinco dedos, parecia ter projetado em Kuro toda a sua própria culpa e medo. Jake mal o olhava, e quando o fazia, seus olhos carregavam uma acusação muda: "Você é o lembrete de tudo o que eu trouxe de ruim para este mundo".
Kuro sentia-se um fantasma. Ele comia sozinho, treinava longe dos outros e evitava as áreas comuns. O único refúgio era o mar profundo, onde Tatsuyo, desafiando as ordens severas de seus pais, o encontrava quase todos os dias.
Naquela noite, a lua de Pandora banhava o oceano com um brilho prateado. Longe das maruis principais, em uma pequena enseada protegida por rochas altas, uma fogueira crepitava. O grupo de jovens havia se reunido em segredo, fugindo da atmosfera opressiva da vila para buscar um pouco de normalidade.
Neteyam, Lo’ak, Kiri, Tsireya e até Aonung — que mudara drasticamente sua atitude após ver Kuro quase enlouquecer de dor quando Tatsuyo foi ferida — estavam sentados ao redor do fogo. Kuro estava um pouco mais afastado, observando as chamas com um olhar vago, até que sentiu um peso familiar e quente encostar em seu ombro.
— Você está pensando no barulho de novo, Kuro da Nuvem? — perguntou Tatsuyo, aninhando-se ao lado dele.
Kuro forçou um sorriso, passando o braço pelos ombros dela. A cicatriz no ombro da garota, visível sob a luz do fogo, era um lembrete constante de sua falha, mas a forma como ela o olhava — com uma adoração pura e inabalável — era a única coisa que o mantinha são.
— Só estou aproveitando o silêncio, pequena — mentiu ele.
— O silêncio é bom — disse ela, voltando-se para o resto do grupo com um brilho travesso nos olhos. — Mas o Lo’ak disse que ia nos ensinar uma dança da floresta! Ele disse que envolve pular como um Prolemuris bêbado.
Lo’ak engasgou com a água que bebia, enquanto Tsireya soltava um risinho encantado.
— Eu não disse bêbado, Tatsuyo! — protestou Lo’ak, o rosto ficando roxo sob a pele azul. — Eu disse que era uma dança de celebração!
— É a mesma coisa quando você faz, irmãozinho — zombou Neteyam, jogando um graveto no fogo. — Você tem a coordenação motora de um peixe fora d'água.
— Pelo menos eu não fico tentando impressionar as garotas fazendo poses de guerreiro no topo das árvores — rebateu Lo’ak, fazendo Tsireya corar furiosamente.
A atmosfera era leve, uma bolha de paz em meio ao caos emocional que Kuro vivia. Tatsuyo, em sua inocência, era o centro gravitacional de todos eles. Ela não entendia por que os pais estavam tão zangados, ou por que Jake Sully evitava Kuro. Para ela, o mundo era simples: eles estavam vivos, o mar estava calmo e o amor era a única resposta lógica.
— Kuro — chamou Tatsuyo, puxando a mão de cinco dedos dele para perto do seu rosto, examinando as linhas da palma dele. — Por que o seu pai tem olhos tão tristes quando olha para você?
O silêncio caiu sobre a fogueira como um manto de chumbo. Neteyam baixou o olhar, e Aonung mexeu na areia com o pé, desconfortável.
— Ele não está triste, Tatsuyo — respondeu Kuro, a voz falhando levemente. — Ele só... ele está cansado.
— Ele não está cansado — disse ela, com a franqueza devastadora de uma criança. — Ele está com medo. Ele olha para você e vê o metal que machucou o meu ombro. Mas ele é bobo. Ele não vê que você é o escudo, não a flecha.
Kiri suspirou, aproximando-se da amiga.
— Os adultos esquecem como ver as coisas, Tatsuyo. Eles ficam presos nas sombras.
— Então temos que levar luz para eles! — exclamou Tatsuyo, levantando-se de repente. Ela começou a girar, seus longos cabelos ondulados chicoteando o ar. — Como as flores da Árvore das Ligações! Kuro, vamos lá amanhã? Elas disseram que sentem sua falta. Elas gostam de como seus dedos fazem cócegas nelas.
Kuro sentiu o rosto queimar enquanto Aonung e Lo’ak caíam na gargalhada.
— Cócegas, Kuro? — provocou Aonung. — Então esse é o seu segredo espiritual?
— Cala a boca, Aonung! — Kuro resmungou, embora estivesse rindo também. — Ela que é sensível demais ao toque, eu só... eu só nado perto delas!
— Não é verdade! — Tatsuyo parou de girar e apontou para ele, com uma seriedade cômica. — Você até conversou com aquele peixe-lua ontem. Você disse a ele que ele era gordo e precisava de uma dieta. O que é uma "dieta", Kuro? É um tipo de alga?
Desta vez, até Neteyam perdeu a compostura, curvando-se para frente de tanto rir. Kuro cobriu o rosto com as mãos, sentindo a vergonha subir pelo pescoço.
— É... é um conceito humano, pequena. Esquece isso.
— Eu acho que dieta deve ser algo muito importante — continuou ela, sentando-se novamente e olhando para o fogo com curiosidade. — Porque depois que você falou isso, o peixe-lua ficou muito triste e nadou para o fundo. Você deveria pedir desculpas a ele, Kuro. Não se deve chamar ninguém de gordo, a menos que seja um Tulkun muito feliz.
— Eu vou pedir desculpas ao peixe, eu juro — prometeu Kuro, limpando as lágrimas de riso dos olhos.
Por alguns momentos, Kuro esqueceu que era odiado pelos líderes do clã. Esqueceu que Jake Sully o via como um erro. Ali, cercado pelos irmãos e pelos amigos que o aceitavam, ele era apenas Kuro.
— Sabe — disse Tsireya, olhando para a fogueira com um olhar suave —, meu pai e minha mãe podem estar agindo com medo agora, mas eles não conseguem ignorar a verdade por muito tempo. Eles veem como a Tatsuyo está feliz. Eles veem como você cuida dela, Kuro.
— Eles veem o que querem ver, Tsireya — rebateu Kuro, o tom subitamente sério. — Para eles, eu sou o humano que nunca saiu de dentro desse corpo azul. Eles me culpam por cada gota de sangue derramada naquela praia.
— Eu não culpo você — disse Aonung, surpreendendo a todos. O filho do Olo’eyktan olhou diretamente para Kuro. — No começo, eu te odiava porque você era diferente. Depois, eu te odiava porque você era melhor que eu em algumas coisas da floresta. Mas quando vi você protegendo minha irmã... eu entendi. Você não é um deles, Kuro. Você é mais Na'vi do que muitos guerreiros que nasceram aqui.
Kuro sentiu um nó na garganta. O reconhecimento de Aonung era algo que ele nunca esperava conquistar.
— Obrigado, peixinho — murmurou Kuro.
— Não me chame de peixinho — resmungou Aonung, mas havia um sorriso no canto de sua boca.
Tatsuyo, sentindo a mudança de energia, decidiu que era hora de quebrar a tensão novamente. Ela se inclinou para Kuro e sussurrou, alto o suficiente para que todos ouvissem:
— Kuro, você pode me mostrar de novo como os humanos fazem aquele barulho com a boca? Aquele que parece um pássaro ferido?
Kuro franziu a testa.
— Que barulho?
— Aquele! — Ela tentou assobiar, mas apenas soltou um sopro de ar cômico. — Você fez isso quando viu a Kiri tropeçar na raiz ontem.
Kiri estreitou os olhos.
— Você assobiou quando eu caí, Kuro?
— Eu... eu estava chamando um pássaro! — mentiu Kuro descaradamente, enquanto Tatsuyo tentava imitar o som novamente, fazendo biquinho e soprando, parecendo um filhote de Ilu confuso.
— É assim, Tatsuyo — disse Lo’ak, soltando um assobio alto e melodioso.
— Oh! — Tatsuyo bateu palmas. — Isso é música de humano? É tão... afiado! Parece que o vento cortou a língua de vocês.
— Mais ou menos isso — riu Neteyam.
A noite avançou entre histórias da floresta e lendas do mar. Tatsuyo, em sua curiosidade infinita, fazia perguntas que deixavam os rapazes em situações complicadas.
— Kuro — ela perguntou, enquanto observava as faíscas subirem para o céu —, por que os humanos usam roupas de metal? Eles têm medo de que Eywa os toque?
Kuro suspirou, sentindo o peso daquela pergunta.
— Eles têm medo de tudo, pequena. Eles usam metal porque não confiam na natureza. Eles acham que, se estiverem protegidos por fora, nada pode machucá-los por dentro.
— Que bobagem — disse ela, encostando a cabeça no peito dele, ouvindo o coração de Kuro bater. — O que machuca por dentro sempre entra pelo olhar ou pelas palavras. O metal não protege o coração de ficar triste.
Kuro olhou para o topo da cabeça dela, sentindo uma onda de proteção tão forte que quase o sufocou.
— Você é sábia demais para ter apenas quinze anos, Tatsuyo.
— Eu não sou sábia — ela riu, olhando para ele com olhos brilhantes. — Eu só escuto o que a água diz. E a água diz que você é bom. Se meu pai e o seu pai não conseguem ouvir isso, é porque eles estão com os ouvidos cheios de areia.
O grupo riu novamente, e por um tempo, o som da alegria jovem abafou a dor do preconceito. Eles ficaram ali até as brasas da fogueira começarem a morrer.
Na volta para a vila, caminhando pelas passarelas de raízes sob a luz das estrelas, o grupo se dividiu silenciosamente. Tsireya e Aonung foram para a marui real, enquanto os Sully e Kuro seguiam para a sua.
Antes de se separarem, Tatsuyo segurou a mão de Kuro uma última vez.
— Amanhã, na Árvore das Ligações — sussurrou ela. — Não deixe o medo deles entrar no seu sonho, Kuro da Nuvem. Você é o meu anjo. E anjos não ligam para o que os peixes rabugentos dizem.
Kuro deu um beijo na testa dela, sentindo a paz que só ela conseguia transmitir.
— Até amanhã, pequena.
Ao entrar na marui dos Sully, Kuro encontrou Jake sentado na entrada, observando o mar. O olhar de Jake cruzou com o de Kuro por um breve segundo — um olhar carregado de uma dor que Kuro não sabia como curar e de uma culpa que não pertencia a ele. Jake não disse nada, apenas desviou os olhos, voltando-se para a escuridão do oceano.
Kuro deitou-se em sua rede, sentindo o vazio no peito que a atitude de Jake sempre deixava. Mas, ao fechar os olhos, ele não viu o rosto decepcionado de seu "pai" ou o olhar de ódio de Ronal. Ele viu Tatsuyo girando ao redor da fogueira, ouviu seu riso cristalino e lembrou-se de suas palavras.
"Você é o escudo, não a flecha."
Ele era Kuro Hatake, o Avatar de cabelos brancos e cinco dedos. O mundo podia odiá-lo, seu pai podia culpá-lo e o clã podia exilá-lo, mas enquanto houvesse uma garota ciano disposta a ouvir o canto das flores com ele, ele continuaria a nadar. Porque no fundo do oceano de Pandora, onde a luz de Eywa brilhava mais forte, ele não era um demônio. Ele era apenas alguém que aprendera que o amor era a única coisa capaz de silenciar o barulho do mundo.