Bellingham
O Batismo de Fogo e Gelo
A noite em Madri parecia ter sido forjada em uma fornalha. O ar condicionado da suíte de luxo trabalhava no máximo, mas para Jude Bellingham, o mundo era um deserto em chamas. Ele se revirava entre os lençóis de seda, que agora pareciam feitos de lixa contra sua pele hipersensível. Seus ossos doíam, um latejar profundo que acompanhava cada batida de seu coração acelerado. A agressão de Kane e o estresse traumático dos últimos dias haviam finalmente cobrado o preço: o sistema imunológico do jovem prodígio colapsara, mergulhando-o em uma febre alta e perigosa.
Kylian Mbappé estava sentado na beira da cama, com o rosto vincado pela preocupação. Ele segurava um termômetro digital que acabara de apitar, revelando números que fizeram seu sangue gelar: 40,2°C.
— Jude, olhe para mim — pediu Kylian, passando a mão pela testa escaldante do inglês. — Você precisa se levantar. Sua temperatura está subindo rápido demais.
— Não... — Jude murmurou, a voz saindo como um sussurro seco. — Está frio, Kylian. Por favor, me cubra. Eu sinto tanto frio.
— É a febre te enganando, pequeno — disse Luka Modric, surgindo na porta com uma bacia de água e panos limpos. — Seu corpo está fervendo. Se não baixarmos isso agora, você vai começar a ter convulsões.
Luka aproximou-se e tentou colocar um pano úmido na testa de Jude, mas o jovem deu um solavanco, empurrando a mão do croata com uma força surpreendente para alguém naquele estado.
— Não! Está gelado! — Jude gritou, os olhos brilhando com o delírio da febre. — Afasta isso de mim! Eu quero o meu cobertor!
A porta se abriu e Erling Haaland entrou, trazendo consigo uma aura de autoridade silenciosa. Ele olhou para o termômetro na mão de Mbappé e depois para o estado deplorável de Jude.
— O gelo não vai ser suficiente, Luka — declarou Erling, a voz grossa ressoando no quarto. — Ele precisa de um banho de imersão. Agora.
— Eu não vou! — Jude tentou se sentar, mas a tontura o fez cair de volta nos travesseiros. — Erling, por favor, não me obrigue. Eu estou com frio, eu juro que estou com frio!
— Jude, escute bem — Kylian segurou o rosto dele com as duas mãos, forçando o contato visual. — Nós não estamos pedindo. Sua febre está em um nível crítico. Você vai entrar naquela banheira, quer queira, quer não.
— Não! Vocês não podem me obrigar! — A birra de Jude era uma mistura de exaustão física e medo irracional provocado pelo delírio. Ele começou a chutar as cobertas, tentando se enrolar em um casulo de proteção. — Eu odeio vocês! Deixem-me em paz!
Zlatan Ibrahimovic, que observava da penumbra do corredor, deu um passo à frente. Sua presença parecia diminuir o tamanho do quarto.
— Já chega de teatro — disse Zlatan. — O pônei está agindo como uma criança. Se ele não caminha até o banheiro, nós o carregamos. Haaland, pegue as pernas. Kylian, o tronco.
— Não! — Jude gritou, mas era tarde demais.
Com a eficiência de quem domina um território, os três jogadores mais fortes do mundo cercaram a cama. Haaland agarrou os tornozelos de Jude, imobilizando seus chutes com uma facilidade humilhante. Mbappé passou os braços por baixo das axilas do inglês, levantando-o do colchão.
— Soltem-me! — Jude lutava, mas seu corpo estava fraco demais. Ele começou a chorar, lágrimas de frustração e dor escorrendo pelo rosto afogueado. — Por favor, dói... dói muito!
— Nós sabemos que dói, Jude — sussurrou Modric, caminhando à frente para preparar a banheira. — Mas é para o seu bem.
Eles o levaram para o banheiro imenso, onde a luz branca refletia no mármore frio. A banheira já estava sendo enchida com água em temperatura ambiente, que para alguém com quarenta graus de febre, pareceria gelo derretido.
— Tirem a roupa dele — ordenou Zlatan, cruzando os braços.
Mbappé e Haaland despiram Jude com movimentos rápidos, ignorando os protestos e a resistência física do jovem. Jude estava completamente vulnerável, nu e trêmulo, a pele exibindo um rubor doentio que contrastava com as marcas roxas deixadas por Kane dias antes.
— Está muito frio... Kylian, por favor, eu vou morrer se entrar aí — Jude implorava, os dentes batendo ruidosamente.
— Você não vai morrer. Eu estarei com você — disse Kylian.
O francês, sem hesitar, retirou sua própria camisa e calças, ficando apenas de cueca. Ele entrou na banheira primeiro, sentando-se na água fria e estendendo os braços.
— Tragam-no para mim.
Haaland levantou Jude como se ele fosse uma criança e o entregou a Mbappé. No momento em que a pele de Jude tocou a água, ele soltou um grito agudo, um som de puro choque térmico que ecoou pelo banheiro.
— AAAAAH! NÃO! TIRA-ME DAQUI! — Jude começou a se debater violentamente, tentando escalar o peito de Kylian para fugir da água.
— Segure-o, Kylian! — gritou Modric, aproximando-se com uma esponja.
Kylian envolveu Jude em um abraço de ferro. Ele puxou o jovem para o seu colo, prendendo as pernas de Jude entre as suas e travando os braços dele contra o próprio peito. Jude estava literalmente preso no colo de Mbappé, incapaz de fugir do contato com o líquido que roubava o calor de seu corpo.
— Calma, Jude... respira — Kylian dizia perto de seu ouvido, embora ele mesmo estivesse sentindo o choque do frio. — Eu estou aqui. Eu estou sentindo o mesmo que você.
— Eu odeio você! Eu odeio todos vocês! — Jude soluçava, o rosto enterrado no pescoço de Kylian, o corpo sacudindo com tremores incontroláveis.
Haaland ajoelhou-se ao lado da banheira e começou a derramar canecas de água sobre os ombros e a nuca de Jude. Cada vez que a água caía, Jude soltava um novo gemido de agonia.
— Ele está delirando de novo — observou Zlatan, tocando o pescoço de Jude para sentir a pulsação. — Mas a pele já está começando a esfriar. Continue, Erling.
— Vocês são cruéis... — Jude balbuciou, a cabeça pendendo para o lado, a exaustão finalmente vencendo a resistência. — Vocês só querem me machucar...
— Nunca mais diga isso — disse Modric, passando a esponja carinhosamente pelo peito de Jude. — Nós estamos salvando a sua vida, seu idiota teimoso. Você tem ideia do que acontece com o cérebro se essa febre não baixar?
— Eu não me importo... — Jude fechou os olhos, os lábios ficando levemente azulados pelo frio. — Eu só queria que parasse.
Kylian apertou o abraço, sentindo o coração de Jude martelar contra suas costelas.
— Vai parar. Eu prometo. Mas você precisa aguentar mais dez minutos.
Os minutos que se seguiram foram uma tortura de silêncio e tremores. Mbappé mantinha Jude preso, sentindo a temperatura do corpo do inglês passar para a água e para si mesmo. Era um batismo de gelo, uma purificação necessária após tanta violência e estresse.
Lentamente, a respiração de Jude começou a se estabilizar. Os gritos deram lugar a suspiros longos e cansados. O rubor excessivo de suas bochechas começou a desaparecer, dando lugar a uma palidez mais saudável.
— Acho que é o suficiente — disse Zlatan, após testar a testa de Jude com as costas da mão. — A febre baixou drasticamente.
Haaland pegou uma toalha felpuda e grande, abrindo-a para receber o jovem. Kylian levantou-se da banheira, ainda segurando Jude no colo, e o entregou ao norueguês.
Jude estava completamente entregue agora. Ele não lutava mais. Estava enrolado na toalha, sendo secado com uma delicadeza extrema por Haaland e Modric, como se fosse uma porcelana valiosa que acabara de ser resgatada de um incêndio.
— Levem-no para a cama — ordenou Kylian, saindo da banheira e secando-se rapidamente.
Eles o levaram de volta para o quarto. Desta vez, não houve lençóis de seda. Modric havia preparado roupas de algodão macio e térmico. Jude foi vestido e colocado sob cobertas leves, o suficiente para mantê-lo aquecido sem superaquecer o corpo novamente.
Kylian deitou-se ao lado dele, ainda sentindo o frio em seus próprios ossos, mas determinado a ser o termostato de Jude.
— Jude? — chamou Kylian baixinho.
O inglês abriu os olhos. Eles estavam claros agora, sem a névoa do delírio. Ele olhou para Kylian, depois para Erling, que estava sentado na poltrona ao lado, e para Modric, que trazia um copo de água com eletrólitos.
— Desculpem — sussurrou Jude, a voz sumindo. — Eu... eu agi como uma criança.
— Você agiu como alguém que estava morrendo de febre — retrucou Haaland, com um sorriso de canto. — Mas se você tentar me chutar de novo, eu vou te dar um motivo real para gritar.
Jude soltou uma risada fraca, que logo se transformou em um suspiro de alívio.
— Beba isso — Modric ajudou-o a levantar a cabeça para tomar o líquido. — Você precisa se hidratar.
Jude bebeu tudo, sentindo a vitalidade retornar lentamente aos seus membros. Ele olhou para Mbappé, que ainda tinha o cabelo úmido e os olhos fixos nele.
— Obrigado, Kylian — disse Jude, estendendo a mão para tocar o braço do francês. — E... desculpe por dizer que odiava vocês.
Kylian segurou a mão dele e a beijou.
— Nós sabemos que você não quis dizer isso. Mas não pense que escapou da lição. Amanhã, quando você estiver totalmente recuperado, vamos ter uma conversa séria sobre como você deve se comportar quando nós tomamos uma decisão para o seu bem.
Jude estremeceu, mas não foi de frio. Ele conhecia aquele tom de voz. Era o tom que precedia as palmadas e a dominação que, embora o assustassem, também o faziam sentir-se a pessoa mais importante do universo.
— Agora durma — ordenou Zlatan da porta. — O rei precisa que o seu pônei esteja pronto para o treino em dois dias. E eu não aceito menos que a perfeição.
Jude fechou os olhos, sentindo a mão de Kylian acariciar seu cabelo e a presença protetora de Haaland ao seu lado. A febre havia passado, levada pelas águas frias e pelo controle absoluto daqueles homens. Ele sabia que pertencia a eles, em cada fibra de seu ser, e que, embora o caminho fosse pavimentado com gelo e fogo, ele nunca mais teria que enfrentar uma tempestade sozinho.
O silêncio finalmente reinou na suíte de Madri. Jude Bellingham dormia o sono dos justos, protegido pelos deuses que ele aprendera a temer e a amar com a mesma intensidade. A lição do banho fora apenas mais um capítulo em sua submissão, uma prova de que, para os deuses de Madri, o cuidado e o controle eram as duas faces da mesma moeda de ouro. E Jude, em sua vulnerabilidade, era o tesouro que eles jamais permitiriam que se perdesse.