Bellingham
O Cristal Quebrado e a Colher de Prata
O silêncio na suíte de Jude era denso, interrompido apenas pelo som rítmico do umidificador de ar. Dois dias haviam se passado desde o banho de gelo, e embora a temperatura corporal do jovem inglês tivesse estabilizado temporariamente, algo mais profundo parecia ter se quebrado. Jude estava pálido, as olheiras profundas contrastando com a pele alva, e seus lábios estavam secos. O maior problema, no entanto, não era apenas a fraqueza residual, mas a recusa absoluta em ingerir qualquer coisa.
Kylian Mbappé entrou no quarto segurando uma bandeja com uma sopa leve de legumes e um copo de suco natural. Ele observou a figura encolhida sob os lençóis, os olhos de Jude fixos em um ponto invisível na parede.
— Jude, você não tocou na comida que o Luka trouxe mais cedo — disse Kylian, colocando a bandeja na mesa de cabeceira. Sua voz era calma, mas carregava aquela autoridade metálica que Jude aprendera a temer. — Você precisa comer. Seu corpo está definhando.
— Eu não tenho fome, Kylian — sussurrou Jude, sem desviar o olhar. — Sinto enjoo. Por favor, leve isso embora.
— Não é um pedido, mon ange. É uma ordem — Kylian sentou-se na beira da cama e puxou o edredom para trás, expondo a fragilidade do garoto. — Se você não colocar combustível nesse corpo, não vai conseguir nem ficar de pé, quanto mais entrar em campo.
Jude tentou protestar, mas antes que pudesse formular uma frase, sentiu as mãos fortes de Kylian o segurarem pelas axilas. Com um movimento fluido e sem esforço, o francês o içou da cama e o sentou em seu próprio colo, como se Jude fosse uma criança pequena.
— O que você está fazendo? Me solta! — Jude tentou se debater, mas a fraqueza o traiu. Ele se sentia minúsculo contra o peito sólido de Mbappé.
— Você vai comer agora. Do meu jeito — Kylian o prendeu com um braço ao redor da cintura, mantendo-o firme contra seu corpo, enquanto com a outra mão pegava a colher. — Abra a boca, Jude. Agora.
— Não sou um bebê, Kylian! Isso é humilhante! — As lágrimas de frustração começaram a arder nos olhos de Jude.
— Você está agindo como um, então será tratado como tal — Kylian aproximou a colher dos lábios dele. — Abra. Ou eu vou ter que forçar, e nós dois sabemos que você não vai gostar disso.
Relutantemente, Jude abriu a boca. O caldo quente desceu por sua garganta, e o calor da comida pareceu confrontar o vazio gelado em seu estômago. Kylian continuou o processo, ignorando os soluços baixos do inglês. A cada colherada, o francês limpava o canto da boca de Jude com o polegar, um gesto que misturava uma ternura possessiva com uma dominação absoluta.
— Bom garoto — murmurou Kylian quando a tigela estava na metade. — Viu como não é tão difícil?
No entanto, o momento de paz durou pouco. Assim que Jude terminou de engolir a última colherada, um tremor violento percorreu seu corpo. Sua pele, antes pálida, subitamente tornou-se ruborizada. Kylian sentiu o calor emanando do pescoço de Jude contra seu braço.
— Droga, Jude... você está queimando de novo — Kylian encostou a palma da mão na testa do jovem. A febre voltara com uma vingança silenciosa.
A porta se abriu e Luka Modric entrou, acompanhado por um dos médicos de confiança do clube, que carregava uma maleta preta. O olhar de Modric endureceu ao ver o estado de Jude.
— A febre não está cedendo com os comprimidos, Kylian — disse Modric, a voz carregada de preocupação. — O médico disse que a infecção está persistente. Ele precisa de um antibiótico forte e um antitérmico direto na corrente sanguínea.
O médico preparou uma seringa, o líquido límpido brilhando sob a luz do abajur. Jude, ao ver a agulha, entrou em pânico. O trauma das últimas semanas, a agressão de Kane e a sensação de perda de controle sobre o próprio corpo explodiram em uma reação instintiva.
— Não! Agulha não! — Jude tentou escorregar do colo de Kylian, seus movimentos erráticos e desesperados. — Eu tomo qualquer remédio, eu juro, mas não me deem injeção!
— Jude, pare com isso! — Kylian tentou segurá-lo, mas o jovem, impulsionado pela fobia e pelo delírio da febre, conseguiu se desvencilhar e cair no chão, rastejando em direção ao banheiro.
— Erling! Zlatan! — chamou Modric.
Os dois gigantes apareceram quase instantaneamente. Haaland bloqueou o caminho de Jude para o banheiro, enquanto Ibrahimovic apenas observava com uma expressão de desaprovação imperial.
— O pônei ainda tem energia para fugir? — disse Zlatan, dando um passo à frente. — Interessante. Mas a paciência do rei tem limites.
Haaland inclinou-se e pegou Jude pelo quadril, levantando-o do chão enquanto o jovem chutava o ar.
— Me solta! Erling, por favor, dói! — Jude gritava, o rosto banhado em suor e lágrimas.
— Vai doer muito mais se você continuar se mexendo e a agulha quebrar dentro de você — rosnou Haaland, levando-o de volta para a cama.
Mbappé assumiu o controle novamente. Ele sentou-se na cama e ordenou que Haaland colocasse Jude de bruços sobre suas pernas. Com uma mão pesada na base das costas de Jude, Kylian o imobilizou, enquanto com a outra puxou o tecido da calça do pijama do inglês, expondo a pele pálida da nádega direita.
— Não, por favor... Kylian, eu imploro... — Jude soluçava alto, o rosto enterrado no edredom, o corpo tremendo tanto que a cama parecia vibrar.
— Fique quieto, Jude — disse Kylian, sua voz agora fria e cortante. — Se você der mais um pio ou tentar se mexer, eu vou te dar dez palmadas antes da injeção. Você escolhe.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelos soluços sufocados de Jude. O médico aproximou-se, limpou a pele com álcool — um toque gelado que fez Jude arrepiar-se — e, com um movimento rápido e preciso, inseriu a agulha.
Jude soltou um grito abafado contra o lençol, os dedos cravando-se na coxa de Mbappé. O líquido era espesso e causava uma sensação de queimação que parecia se espalhar por toda a perna.
— Já passou, já passou — murmurou Modric, acariciando o cabelo de Jude para tentar acalmá-lo enquanto o médico retirava a seringa e aplicava um pequeno curativo.
Kylian não o soltou imediatamente. Ele manteve Jude naquela posição de submissão por mais alguns minutos, deixando que a realidade da sua impotência se assentasse. Quando finalmente o virou, Jude estava em frangalhos. Seus olhos estavam vermelhos, o nariz escorrendo e ele parecia ter perdido toda a vontade de lutar.
— Olhe para mim — ordenou Mbappé.
Jude levantou o olhar, a imagem da vulnerabilidade absoluta.
— Nunca mais tente fugir de nós — continuou o francês, limpando as lágrimas do rosto do garoto. — Nós fazemos o que é necessário. Sua saúde pertence a este clube, e seu corpo pertence a nós. Entendido?
— Sim... entendido — sussurrou Jude, a voz quebrada.
Kylian suspirou e sua expressão suavizou ligeiramente. Ele puxou Jude de volta para seu colo, mas desta vez de frente, permitindo que o jovem escondesse o rosto em seu pescoço. Jude, exausto pela febre, pela luta e pela dor da injeção, simplesmente se entregou. Ele se encolheu, as pernas dobradas, os braços envolvendo o tronco de Kylian, buscando o calor e a segurança que só seu dominador parecia oferecer.
— Ele está dormindo? — perguntou Haaland em voz baixa, aproximando-se da cama.
— Quase — respondeu Kylian, balançando Jude levemente, um movimento de ninar que parecia incongruente com a violência de minutos atrás. — A medicação está fazendo efeito. Ele vai apagar em breve.
Modric sentou-se na poltrona ao lado, observando a cena.
— Ele parece tão pequeno assim — comentou o croata. — É difícil lembrar que ele é o cara que carrega o meio-campo nas costas.
— Aqui ele não carrega nada — disse Zlatan, aproximando-se e colocando uma mão grande sobre a cabeça de Jude. — Aqui, ele é apenas o nosso Jude. E nós vamos garantir que ele nunca mais se esqueça disso.
Jude soltou um suspiro longo, seu corpo finalmente relaxando completamente contra Mbappé. Ele parecia, de fato, um bebê — um ser que fora quebrado pelo mundo e reconstruído por mãos cruéis, porém protetoras. O delírio da febre estava sendo substituído por um torpor medicamentoso, e em sua mente nublada, a distinção entre cuidado e controle desaparecia.
— Eu vou ficar com ele esta noite — anunciou Mbappé, ajeitando Jude nos travesseiros, mas sem sair de perto. — Ele precisa sentir que não há para onde fugir, mesmo em sonhos.
Os outros jogadores assentiram e saíram silenciosamente, deixando os dois na penumbra. Kylian deitou-se ao lado de Jude, puxando o corpo do inglês para mais perto, sentindo a respiração agora lenta e profunda do jovem.
— Você é meu, Jude — sussurrou Kylian contra o ouvido dele. — Cada lágrima, cada grama de dor, cada batida desse coração... tudo é meu.
Jude não respondeu, mas em seu sono, ele se aproximou ainda mais do calor de Mbappé. A lição fora dura, a comida fora forçada e a agulha fora um lembrete de sua fragilidade, mas no final, o colo de seu mestre era o único lugar onde o mundo parava de girar. O "bebê" de Madri estava seguro, sob a guarda dos predadores que o amavam com uma fúria que nenhum outro homem ousaria desafiar.