Blood
O Labirinto de Vidro e Sangue
— Fica parada, porra! — Mizi rosnou, embora suas mãos estivessem surpreendentemente firmes enquanto ela aplicava o kit de primeiros socorros digital no abdômen de Hyuna.
O cenário dentro daquela sala de manutenção era claustrofóbico. O cheiro de mofo misturava-se ao odor metálico que emanava da interface. Sua ajudava a segurar a gaze, os olhos roxos fixos no ferimento que, bizarramente, começou a fechar diante de seus olhos. Em poucos segundos, a pele de Hyuna estava lisa, sem uma cicatriz sequer.
— Caralho... — Hyuna murmurou, levantando-se e apalpando a própria barriga. — Eu não sinto nada. Nem uma pontada. É como se eu tivesse acabado de acordar de um sono de dez horas. Que bagulho bizarro.
— É a lógica desse jogo de merda — Mizi disse, guardando o resto dos suprimentos e checando o tambor de sua pistola de sinalização. — Se a gente cura, o sistema reseta o dano físico. Mas não se acostuma, gata. A próxima facada vai doer do mesmo jeito.
Mizi caminhou até a fresta da porta, observando o corredor. O som dos gritos de Luka ainda ecoava em sua mente, mas ela precisava ser fria.
— Escutem bem. O Luka tá preso no gancho no andar de baixo. Aqueles dois psicopatas, o Jason e o Jeff, com certeza estão rondando ele como urubus. Se a gente descer agora, vamos ser picadinhos.
— A gente vai deixar ele lá?! — Sua perguntou, a voz falhando em um tom agudo de desespero.
— Não — Mizi respondeu, olhando para as duas. — Eu vou lá. Sozinha é mais fácil de passar despercebida. Vocês duas ficam nesse andar. Procurem o gerador que falta aqui em cima. Se a gente ativar mais um, a pressão neles aumenta. Vão!
Hyuna assentiu, puxando Sua pela mão. Elas saíram da sala de manutenção em direção à ala oposta. Não demorou muito para que o faro de Hyuna para problemas — ou soluções — as levasse a uma pequena sala de arquivos. No canto, entre papéis amarelados e estantes tombadas, um gerador emitia um brilho vermelho fraco. E, em cima de uma mesa, uma chave de prata reluzia.
— Bingo — Hyuna sorriu, pegando a chave e entregando a lanterna para Sua. — Ilumina pra mim, amiga. Vamos botar essa lata de lixo pra funcionar.
Enquanto as duas trabalhavam freneticamente nos fios, em outra parte do hospital, a tensão entre Till e Ivan atingia o ápice. Till terminava de passar uma atadura no ombro de Ivan, que rangia os dentes.
— Pronto, para de chorar. Você tá novo em folha — Till resmungou, dando um tapa propositalmente forte no lugar do ferimento.
— Vai se foder, Till — Ivan rebateu, levantando-se e testando o movimento do braço. — Vamos logo. O tempo tá acabando.
Eles se moveram como sombras em direção ao pátio externo, onde um dos portões de saída maciços se erguia. Havia dois cadeados pesados prendendo as correntes. Till tirou a chave de bronze que havia encontrado e, com um movimento brusco, estourou o primeiro cadeado.
— Um já foi — Till disse, limpando o suor da testa.
Nesse momento, passos apressados ecoaram e Hyuna e Sua surgiram do corredor lateral, ofegantes.
— Gente! — Hyuna exclamou, correndo até eles. — A gente conseguiu! Terminamos um gerador lá em cima e achamos essa chave.
Ela mostrou a chave de prata.
— A gente tentou no outro portão lá do fundo, mas a chave não entrava em nenhum dos três cadeados de lá. Aquele portão parece que já tá sem cadeado, mas não abre — explicou Sua, tentando recuperar o fôlego.
Ivan pegou a chave de prata e a testou no segundo cadeado do portão principal. Com um clique satisfatório, o metal cedeu.
— Dois de três — Ivan comentou, a voz sombria. — Onde está a Mizi?
— Ela foi buscar o Luka — respondeu Hyuna, e o silêncio que se seguiu foi carregado de presságio.
Longe dali, no andar de baixo, Mizi se movia como um fantasma. Ela via Luka pendurado, a cabeça baixa, o peito subindo e descendo em espasmos de dor. Jason estava de costas, observando a entrada principal, seu facão arrastando no chão, produzindo faíscas.
Mizi esperou o monstro virar o corredor e correu.
— Luka! — ela sussurrou, subindo na base do gancho e segurando o corpo dele. — Acorda, porra! Ajuda aqui!
Com um esforço hercúleo, ela empurrou o corpo de Luka para cima, livrando-o da ponta de metal. Luka soltou um gemido lancinante, desabando nos braços dela.
— Mizi...? — ele balbuciou, a visão turva.
— Cala a boca e anda, nerd — ela disse, servindo de apoio para ele.
Eles começaram a atravessar o corredor em direção à saída do pátio, mas o som de metal batendo contra azulejo denunciou que Jason os vira. O gigante virou-se, emitindo um som gutural de fúria, e começou a correr na direção deles.
— Merda, merda, merda! — Mizi praguejou, quase carregando Luka enquanto saíam para a área externa.
O grupo no portão viu a cena: Mizi saindo da escuridão, arrastando um Luka ensanguentado, com Jason logo atrás, parecendo uma força da natureza imparável.
— Mizi! — Till gritou, menando a lanterna.
Hyuna não pensou duas vezes. Ela correu na direção de Jason, acionando o feixe máximo de sua lanterna UV.
— Toma essa, seu bosta! — ela berrou.
Jason, porém, foi mais rápido. Ele virou o rosto para o lado, protegendo os olhos com o antebraço, e continuou avançando apenas pelo som dos passos de Mizi. Ele ia alcançá-los.
— Pega ele! — Mizi gritou, empurrando Luka com força na direção de Hyuna.
Luka caiu nos braços da garota, e Mizi girou sobre os calcanhares, ficando cara a cara com o assassino. Ela pulou sobre umas caixas de madeira empilhadas ao lado, ganhando altura, e sacou a pistola de sinalização.
O tempo pareceu desacelerar. O vento soprava os cabelos rosa de Mizi, e todos os outros pararam, prendendo a respiração. Era o tiro de misericórdia. Mizi mirou no peito de Jason e apertou o gatilho.
*Click.*
Nada aconteceu. A arma travou.
— Não... — Mizi sussurrou, o pavor paralisando seus pulmões.
De repente, uma dor lancinante explodiu em seu abdômen. Sem que Jason a tivesse tocado fisicamente, o sistema do jogo processou a falha da arma como um dano de retrocesso. Mizi sentiu o estômago revirar e, em um segundo, uma golfada de sangue quente e escuro jorrou de sua boca, manchando o chão.
— Mizi! — o grito de Ivan ecoou, carregado de um desespero que ele nunca demonstrara.
Jason ergueu o facão para desferir o golpe final. Mizi, sentindo a vida esvair-se e a dor no abdômen como se tivesse sido atravessada por uma lança, jogou-se no chão, rolando para o lado enquanto a lâmina passava a milímetros de sua cabeça.
Deitada, sangrando e com a visão falhando, ela não desistiu. Com as mãos trêmulas, ela golpeou a lateral da pistola contra o concreto, tentando destravar o mecanismo. Jason levantou o facão novamente, a sombra da morte cobrindo a garota.
*BUM!*
Desta vez, a bala de sinalização saiu. O projétil atingiu o ombro de Jason, explodindo em luz e fogo. O monstro cambaleou para trás, rugindo enquanto as chamas começavam a consumir sua vestimenta de couro.
Mizi se levantou, cambaleando, segurando o abdômen com uma mão enquanto a outra limpava o sangue da boca. Ela parecia um espectro de guerra, acabada, mas ainda de pé.
— Tem um... um gerador no segundo andar... quase pronto — ela tossiu, a voz rouca. — Vão! Agora!
Till e Hyuna trocaram um olhar rápido e dispararam escada acima. Eles sabiam que aquela era a chance que Mizi havia comprado com o próprio sangue.
Enquanto isso, Sua e Ivan puxaram Luka para trás de um contêiner de lixo.
— Me dá a seringa, Sua! — Ivan ordenou.
Eles aplicaram a adrenalina e os kits médicos em Luka. Em segundos, o rapaz que estava à beira da morte abriu os olhos, a pele recuperando a cor.
— Eu estou... eu estou bem? — Luka perguntou, confuso.
— Está novo em folha, nerd — Ivan disse, antes de se virar para Sua. — Agora me cura. Eu não vou durar muito se aquele outro aparecer.
Sua, com as mãos ainda trêmulas, aplicou o tratamento em Ivan. O efeito foi imediato. A dor nas costas dele desapareceu, resetando seu status para o verde.
Corta para Mizi. Ela havia conseguido se distanciar de Jason após o tiro, mas o hospital era um território traiçoeiro. Jeff, o Rastreador, estava em sua cola. Ela conseguia ouvir o som das garras dele batendo no teto acima dela.
Mizi dobrou um corredor e viu uma moita densa de arbustos artificiais e entulho decorativo no que costumava ser o solário do hospital. Sem pensar duas vezes, ela se jogou no meio da folhagem, prendendo a respiração.
Jeff surgiu no corredor segundos depois. Ele parou, farejando o ar, a cabeça girando em ângulos impossíveis. Mizi fechou os olhos, sentindo o coração bater contra as costelas. O assassino passou reto, suas garras arrastando na parede, sumindo na escuridão do corredor seguinte.
No segundo andar, a situação era tensa. Till e Hyuna chegaram ao gerador que Mizi mencionara, mas pararam abruptamente.
Jason estava lá.
Apesar das queimaduras do tiro de sinalização, ele parecia ainda mais perigoso. Ele estava chutando o gerador com uma força bruta, fazendo faíscas saltarem e o progresso da máquina retroceder drasticamente.
— Filho da puta — Till sussurrou. — A gente não pode enfrentar ele de frente agora.
— Por aqui! — Hyuna apontou para o final do andar.
Eles deram meia volta, correndo silenciosamente até a outra extremidade da ala. Lá, escondido atrás de uma porta de vidro reforçado, encontraram outro gerador, intocado.
— Vamos, Till. É a nossa última chance — Hyuna disse, ajoelhando-se e começando a puxar os fios.
Till posicionou-se de costas para ela, a lanterna em punho, vigiando a entrada onde não havia mais porta, apenas um vão escuro. A cada ruído metálico que vinha do hospital, os dois estremeciam, sabendo que a qualquer momento, um dos "caçadores" poderia entrar e colocar um fim definitivo naquele pesadelo.
— Rápido, Hyuna — Till murmurou, os olhos verdes fixos na escuridão. — Eu não sei quanto tempo a Mizi e os outros conseguem segurar lá embaixo.
— Tô tentando, porra! — Hyuna rebateu, as mãos voando pelos circuitos. — Só mais um pouco e a gente abre esse portão de uma vez por todas.