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Blood

O Último Batimento da Esperança

O zumbido elétrico do hospital parecia pulsar em sincronia com o medo que escorria pelas paredes. Na ala sul, Luka e Ivan trabalhavam com uma precisão cirúrgica no terceiro gerador, enquanto Sua vigiava a entrada lateral. O suor escorria pela testa de Luka, embaçando seus óculos, mas ele não parava. O progresso estava em setenta por cento.

— Falta pouco, Ivan. Só mais alguns cabos e a energia dessa ala estabiliza — sussurrou Luka, as mãos mergulhadas na fiação.

Ivan, encostado em uma maca enferrujada com a adaga em punho, apenas assentiu. Ele estava tenso. O silêncio era profundo demais, e no Palco do Sacrifício, o silêncio era o prelúdio da dor.

Subitamente, um estalo de osso contra metal ecoou no corredor. Jeff, o Rastreador, surgiu das sombras, a cabeça inclinada em um ângulo antinatural. Ele ainda não os tinha visto, mas seu olfato parecia guiá-lo exatamente para onde estavam.

— Merda — Ivan murmurou, preparando-se para o bote. — Ele vai nos ver. O gerador vai fazer barulho se terminarmos agora.

Sua, que até então estava encolhida nas sombras, olhou para os dois amigos e depois para a seringa de adrenalina em seu pulso. Ela sabia que Ivan estava ferido emocionalmente pela queda e que Luka era essencial para a lógica do grupo.

— Eu vou distrair ele — disse Sua, a voz firme apesar do tremor nas mãos.

— O quê? Sua, nem fodendo! — Ivan tentou segurá-la, mas a garota foi mais rápida.

— Terminem o gerador! — ela exclamou, saindo do esconderijo e correndo em direção à ala leste.

Jeff reagiu instantaneamente. Com um movimento fluido e cruel, ele desferiu uma facada lateral enquanto Sua passava. A lâmina rasgou o tecido do uniforme e a carne de seu ombro.

— Ahhh! — Sua soltou um gemido de agonia, mas não parou.

Em um movimento desesperado, ela cravou a seringa de adrenalina na própria coxa. O efeito foi uma explosão de energia artificial que queimou em suas veias. O mundo ao redor dela pareceu desacelerar. Ela saltou por uma janela quebrada, caindo no pátio e rolando sobre caixas de madeira, dando loops frenéticos entre os escombros. Jeff a perseguia como um predador incansável, suas lâminas raspando nas paredes a milímetros dela.

Sua estava ofegante, desnorteada. O efeito da adrenalina estava passando e Jason, o Destruidor, apareceu no fim do corredor de baixo, bloqueando sua rota de fuga. Encurralada entre os dois assassinos, ela sentiu que aquele seria o seu fim. Jeff ergueu a faca para o golpe que a deixaria no estado de incapacitação.

*BUM!*

Um clarão de luz vermelha explodiu entre Sua e Jeff. Mizi, que estivera observando das sombras, mancando e com a mão pressionando o abdômen ainda dolorido, fizera o impossível. Ela rezou para o sistema não falhar e disparou seu último sinalizador.

— Vem aqui, pequena! — gritou Mizi, aproveitando o atordoamento de Jeff.

Mizi correu até Sua, ignorando a dor lancinante em suas próprias costelas. Vendo que a amiga não conseguia mais manter o ritmo, Mizi a colocou no cavalinho, carregando-a com uma força bruta movida por puro instinto de proteção.

— Segura firme, Sua! A gente vai subir! — Mizi subiu as escadas de emergência, os pulmões ardendo, e se trancou na sala do gerador que Jason havia destruído anteriormente.

Lá dentro, o caos era absoluto. O gerador estava em pedaços, soltando faíscas. Mizi desabou no chão com Sua.

— Me... me cura — pediu Mizi, entregando um kit médico para a menor.

As duas trabalharam juntas no silêncio da sala trancada. Sua curou o abdômen de Mizi enquanto Mizi tratava os cortes nos braços e ombros de Sua. Em poucos minutos, a barra de status de ambas voltou ao verde brilhante. Estavam novinhas, prontas para o round final.

— Vamos consertar essa sucata — disse Mizi, limpando o sangue do rosto. — Eles precisam da gente.

Enquanto Mizi e Sua trabalhavam no gerador destruído, Luka e Ivan finalmente terminaram o deles no andar de baixo. O som de energia sendo restaurada ecoou pelo hospital. Quatro de cinco geradores estavam ativos.

Em outro ponto, Till e Hyuna agiam como uma unidade de elite. Eles encontraram mais duas chaves prateadas em um armário de medicamentos.

— Esse é o último cadeado do primeiro portão! — exclamou Till, girando a chave.

O portão norte se abriu com um rangido pesado, revelando a liberdade, mas eles não podiam sair ainda. Precisavam de todos. Eles correram para o segundo portão, o portão sul, e abriram o primeiro dos três cadeados que restavam lá.

— Falta só um gerador, Hyuna! — gritou Till, a adrenalina lá no alto. — Só um gerador e as últimas chaves!

Mas a esperança é uma mercadoria cara no Palco do Sacrifício.

Mizi e Sua saíram da sala de manutenção, acreditando que o caminho estava limpo. Elas precisavam encontrar as chaves restantes. Ao dobrarem o corredor que levava ao solário, o ar gelou.

Jason estava parado ali, imóvel como uma estátua de horror.

— Corre, Sua! — Mizi gritou, mas Jason foi mais rápido.

Com um movimento lateral de seu facão imenso, ele atingiu o braço de Sua, fazendo-a girar no ar. Quando a garota tentou se levantar para fugir, ele desferiu um segundo golpe nas costas dela, um impacto tão forte que o avatar de Sua colapsou instantaneamente.

— NÃO! — Mizi avançou, mas Jason a repeliu com um chute brutal no peito, jogando-a para debaixo de uma maca hospitalar.

Mizi ficou ali, paralisada pelo impacto, vendo Jason erguer o corpo inconsciente de Sua e colocá-lo sobre o ombro. O monstro caminhou com passos pesados em direção ao centro do hospital.

Segundos depois, o som que todos temiam rasgou o ar. O grito lancinante de Sua quando o metal do gancho perfurou seu ombro, seguido pela voz fria do sistema:

— ATENÇÃO. SUA FOI PRESA AO GANCHO. O SACRIFÍCIO ESTÁ EM PROGRESSO.

Mizi, escondida debaixo da maca, apertou os punhos até os nós dos dedos ficarem brancos, as lágrimas de ódio escorrendo pelo rosto.

No portão sul, Till e Hyuna paralisaram ao ouvir o anúncio.

— A Sua... não, não, não! — Hyuna começou a tremer, a lanterna oscilando em sua mão.

— A gente tem que terminar isso agora, Hyuna! — Till gritou, embora sua voz estivesse embargada. — Se a gente abrir o portão, a gente tira ela de lá e corre!

Perto do quarto gerador, Luka e Ivan trocaram um olhar de puro terror.

— O tempo dela é menor porque ela já foi ferida muitas vezes — analisou Luka, o tom nerd dando lugar ao pavor absoluto. — Ivan, se não ligarmos o último gerador nos próximos dois minutos, a alma dela vai ser consumida pelo sistema.

— Então vamos parar de falar e achar essa porra desse último motor! — rugiu Ivan, partindo para a escuridão, com a adaga em punho e o coração batendo por uma amiga que ele nunca admitiria amar como irmã.

O hospital agora era um campo de guerra final. O último gerador, as últimas chaves e a vida de Sua pendendo por um fio de código e sangue.