Blood
O Último Acorde do Pavor
A escuridão do hospital parecia ter ganhado dentes. O som metálico da voz do sistema ainda vibrava nos ouvidos de Luka, um zumbido constante que alimentava o pânico em seu peito. Ele corria pelo corredor leste, os pulmões ardendo, ignorando o suor que fazia seus óculos escorregarem. Ele via Sua ao longe, uma silhueta frágil pendurada naquele gancho grotesco, o sangue digital escorrendo por suas vestes.
— Eu tô chegando, Sua! Aguenta! — gritou Luka, a voz falhando.
Ele estava a poucos metros quando um vulto negro despencou do teto. Jeff, o Rastreador, aterrissou com a agilidade de um inseto, as lâminas das mãos brilhando sob a luz vermelha. Antes que Luka pudesse desviar, Jeff desferiu um corte horizontal.
— Merda! — Luka urrou de dor quando a lâmina rasgou seu ombro.
O impacto o jogou contra a parede, mas a adrenalina — ou o desespero puro — o manteve de pé. Ele não parou. Ele cambaleou, desviou de um segundo bote e alcançou o gancho. Seus dedos tocaram o metal frio, prontos para erguer Sua, mas o ar atrás dele subitamente esfriou.
Uma mão imensa e enluvada fechou-se em volta de seu pescoço. Jason.
O Destruidor não hesitou. Com um golpe seco do cabo do facão nas costelas de Luka, ele interrompeu o resgate. Luka desabou, o ar escapando de seus pulmões em um chiado sufocado. Ele tentou se arrastar, os dedos arranhando o azulejo, mas Jason o ergueu como se ele fosse um boneco de pano.
Luka foi içado. O metal perfurou sua carne com um som úmido e lancinante.
— ATENÇÃO. LUKA FOI PRESO AO GANCHO. ESTADO: CRÍTICO. UMA ÚNICA CHANCE RESTANTE PARA ESTE SOBREVIVENTE — a voz mecânica ecoou, impiedosa.
Do outro lado do complexo, Ivan estava sozinho. O silêncio ao seu redor era quase pior que os gritos. Ele havia encontrado o último gerador em uma pequena sala de manutenção nos fundos da ala oeste. Suas mãos, normalmente tão firmes, tremiam enquanto ele tentava alinhar os fios de cobre.
— Porra, porra, porra... — Ivan sussurrava, o suor pingando no painel elétrico. — Anda logo com essa merda!
Cada estalo do gerador parecia um tiro de canhão no silêncio. Ele sabia que seus amigos estavam caindo um por um. Ele ouviu o anúncio sobre Luka e fechou os olhos por um segundo, sentindo um nó na garganta. Ele era o único que restava livre, além de Mizi, que ele não via há tempo demais.
Após o que pareceu uma eternidade de ansiedade corrosiva, o gerador tossiu uma nuvem de fumaça e a luz mudou para verde. Um estrondo ecoou por todo o hospital: a energia principal havia sido restaurada. Os portões de saída agora estavam energizados, esperando apenas pelas chaves finais.
— Consegui — Ivan arfou, encostando a testa no metal frio da máquina. — Agora eu só preciso tirar eles de lá.
Enquanto isso, Hyuna e Till haviam se separado na confusão. Hyuna corria pelos corredores da ala norte, procurando desesperadamente pelas duas últimas chaves que faltavam para abrir o portão final. Ela estava ofegante, a lanterna piscando, quando dobrou uma esquina e estacou.
Jeff estava parado no meio do corredor, as lâminas pingando um líquido escuro.
— Ah, você tá de brincadeira comigo... — Hyuna tentou recuar, mas Jeff avançou com uma velocidade sobrenatural.
A primeira facada atingiu sua coxa, fazendo-a cair de joelhos. A segunda veio logo em seguida, rasgando suas costas. Hyuna soltou um grito que foi cortado abruptamente quando Jeff a agarrou pelos cabelos. Sem cerimônia, ele a arrastou até o gancho mais próximo da ala norte e a pendurou.
— ATENÇÃO. HYUNA FOI PRESA AO GANCHO.
Till, que estava subindo as escadas de emergência para tentar um resgate desesperado de Sua e Luka no andar de cima, parou ao ouvir o nome de Hyuna.
— Não... não ela também — Till murmurou, os olhos verdes injetados de sangue. — Seus desgraçados! Eu vou matar cada um de vocês!
Ele correu para o patamar superior, mas o ódio o tornou descuidado. Jason estava esperando nas sombras da escada. Um golpe devastador nas costas jogou Till contra os degraus de metal. Antes que ele pudesse se recuperar, Jason desferiu um chute pesado em sua perna, ouvindo-se o som nítido de um osso quebrando na simulação.
Till gritou de dor, tentando alcançar sua lanterna, mas Jason o pegou pela perna e o arrastou escada abaixo. O som da cabeça de Till batendo em cada degrau era rítmico e aterrorizante.
— ATENÇÃO. TILL FOI PRESO AO GANCHO. QUATRO SOBREVIVENTES EM SACRIFÍCIO.
Ivan, ouvindo os anúncios sucessivos, sentiu o pânico subir como bile em sua garganta. Ele correu em direção ao centro do hospital, para onde Luka estava preso. Ele precisava salvar o "cérebro" do grupo; talvez Luka soubesse o que fazer.
Ele dobrou o corredor e deu de cara com Jeff, que voltava do gancho de Hyuna.
— Sai da frente, seu lixo! — Ivan avançou, usando sua adaga para tentar um corte defensivo.
Ele conseguiu arranhar o braço de Jeff e passou por ele, correndo em direção a Luka. Mas Jeff era um caçador nato. Ele girou e, com um movimento preciso, cravou a faca na panturrilha de Ivan. O rapaz caiu, rolando pelo chão.
Ivan tentou se levantar, a visão turva pelo choque sináptico, quando a sombra de Jason se projetou sobre ele, vindo da direção oposta. Ele estava encurralado. Jason desferiu o golpe final, um impacto que desligou as funções motoras do avatar de Ivan.
— ATENÇÃO. IVAN FOI PRESO AO GANCHO. TODOS OS SOBREVIVENTES IDENTIFICADOS ESTÃO EM SACRIFÍCIO.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, interrompido apenas pelos gemidos baixos dos cinco jovens pendurados em diferentes partes do hospital.
Debaixo de uma maca, na penumbra de uma sala de exames abandonada, Mizi estava encolhida. Ela via, através do vão entre o metal e o chão, os pés de Jason passando lentamente pelo corredor. Ela segurava as duas últimas chaves contra o peito, o metal frio machucando sua pele.
Ela ouviu cada anúncio. Sua. Luka. Hyuna. Till. E agora, Ivan.
Seu melhor amigo. O cara que sempre tinha uma piada idiota para tirá-la do sério. O cara que a protegera na floresta. Ele estava no gancho. Todos estavam.
Mizi sentiu o pânico fechar sua garganta como uma mão invisível. Ela tentou respirar, mas o ar parecia feito de vidro moído. Seus olhos dourados estavam fixos no nada, as pupilas dilatadas. Ela era a única que restava. Se ela saísse dali, Jason a pegaria. Se ela ficasse, todos morreriam.
— Eu não consigo... — ela sussurrou, a voz sumindo no choro reprimido. — Eu não consigo fazer isso sozinha.
Ela travou. O corpo de Mizi não respondia mais. Ela ficou ali, encolhida no meio da poeira e do sangue seco, enquanto o cronômetro invisível do Palco do Sacrifício avançava para o fim, e os gritos de seus amigos se tornavam cada vez mais fracos no eco dos corredores de vidro.