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Blood

O Eco do Fardo Inútil

Abaixo da maca, o mundo de Mizi se resumia a poeira, cheiro de éter e o som rítmico das botas pesadas de Jason esmagando cacos de vidro no corredor. O pânico não era apenas uma emoção; era um parasita que devorava seu oxigênio, transformando seus pulmões em sacos de areia. Ela apertava as duas últimas chaves contra o peito, o metal frio cravando em sua pele como um lembrete de que ela era a única peça restante naquele tabuleiro de horrores.

— "Você é um fardo, Mizi." — A voz do pai, arrastada pelo álcool e pelo rancor, ecoou em sua mente com a clareza de um tiro.

Ela fechou os olhos e, de repente, não estava mais no hospital. Estava no banco de trás do carro, anos atrás. O cheiro de queimado, o som de metal retorcido e a imagem da mão de sua mãe, inerte e ensanguentada entre os destroços, enquanto as chamas lambiam o asfalto. Ela se lembrou de ter ficado paralisada, uma criança inútil que não conseguiu puxar a mãe, que não conseguiu gritar por ajuda, que apenas assistiu o mundo acabar em laranja e preto.

— "Inútil. Um fardo inútil" — o pai repetia, dia após dia, descontando nela a culpa de ter sobrevivido.

Mizi sentiu uma lágrima quente escorrer e se misturar ao sangue seco em seu rosto. Ela sempre foi a garota sarcástica, a que fazia piadas para esconder que se sentia um vazio completo. Mas agora, vendo todos os seus amigos — as únicas pessoas que faziam aquele vazio diminuir — pendurados em ganchos como carcaças, algo dentro dela quebrou. Ou talvez, finalmente tenha se consertado.

— Eu não vou ser um fardo de novo — sussurrou para a escuridão, a voz rouca e carregada de um ódio que não era direcionado aos monstros, mas a si mesma. — Eu não vou ser a porra de um fardo!

Ela rezou. Não para um deus que ela não conhecia, mas para que a mecânica daquela realidade virtual lhe desse um segundo de sorte. Mizi deslizou para fora debaixo da maca, o abdômen latejando, e se levantou.

No momento em que seus pés tocaram o corredor, a figura maciça de Jason apareceu na entrada da sala. O monstro soltou um rosnado metálico, erguendo o facão imenso.

— Vai se foder, seu pedaço de lixo! — Mizi gritou, a voz saindo em um rugido que ela não reconheceu.

Ela sacou a pistola de sinalização e puxou o gatilho sem hesitar. O estrondo foi ensurdecedor. A bala de luz atingiu o peito de Jason, jogando-o para trás em uma explosão de faíscas rubras. Mizi não esperou. Ela disparou pelo corredor, o coração martelando contra as costelas.

Ela chegou à ala norte, onde Hyuna estava pendurada. A garota parecia pálida, quase sem vida.

— Hyuna! Acorda, caralho! — Mizi subiu na base do gancho e empurrou o corpo da amiga para cima com uma força desesperada.

Hyuna caiu nos braços de Mizi, tossindo e tentando recuperar o foco.

— Mizi...? — a voz de Hyuna era um fio.

— Pega essas chaves! — Mizi enfiou o metal nas mãos dela. — O portão norte está quase aberto. Vai pra lá e termina o serviço. Eu vou buscar o resto.

— Você enlouqueceu? — Hyuna tentou segurá-la. — Eles vão te cercar!

— Só vai, Hyuna! Confia em mim! — Mizi deu um empurrão na amiga e girou, correndo de volta para o coração do hospital.

— Mizi salvou Hyuna! — a voz mecânica anunciou pelo sistema de som, ecoando de forma bizarra.

Mizi entrou novamente na área central e deu de cara com Jason, que já havia se recuperado do sinalizador. Ele bloqueava o caminho para a ala onde Sua e Luka estavam. O monstro desceu o facão em um arco mortal. Mizi agachou no último milésimo de segundo, sentindo o deslocamento de ar cortar alguns fios de seu cabelo rosa.

— Errou, otário! — Ela deu um chute na canela de metal do monstro e passou por baixo do braço dele, correndo como se sua vida dependesse apenas daquela explosão de velocidade.

Ela chegou ao gancho de Sua. A garota de olhos roxos estava quase desvanecendo. Mizi a soltou com um solavanco rápido.

— Mizi salvou Sua! — o telão gritou.

— Corre pro portão, Sua! A Hyuna tá lá! — Mizi mal teve tempo de terminar a frase quando ouviu o arranhar de garras no teto. Jeff. — Ah, não... mais um palavrão pra conta! Que porra!

Ela apontou a arma para cima e disparou. A luz cegou o Rastreador, que caiu do teto emaranhado em fios elétricos. Mizi atravessou o corredor lateral e soltou Luka, que estava quase inconsciente no gancho oposto.

— Mizi salvou Luka! — a voz anunciou novamente.

— Luka, leva a Sua! Vão para o portão principal! — Mizi ordenou, a respiração saindo em espasmos.

Agora faltavam apenas dois. Os mais difíceis. Till e Ivan estavam no andar superior, em uma área aberta que Jason e Jeff agora protegiam como cães de guarda. Mizi subiu as escadas, sentindo o sangue de seu ferimento anterior começar a vazar novamente.

Lá em cima, Jason e Jeff estavam lado a lado, bloqueando a passagem para os ganchos onde Till e Ivan pendiam.

— Ei, seus merdas! — Mizi gritou, agitando os braços. — Eu tô aqui! Venham me pegar!

Jeff, o mais rápido, disparou na direção dela. Mizi fechou os olhos por um breve segundo, rezando para que a arma não falhasse. Ela atirou. O projétil atingiu o rosto de Jeff, fazendo o assassino recuar em agonia.

— Mizi salvou Till! — a voz ecoou enquanto ela aproveitava a brecha para soltar o rebelde de cabelos castanhos.

Till caiu no chão, segurando a perna quebrada, mas seus olhos verdes encontraram os de Mizi.

— Pega isso! — Ele entregou a lanterna UV para ela. — Tira o Ivan de lá!

— Vai pro portão, Till! Agora!

Jason avançou contra ela. Mizi não tinha mais para onde correr. Ela deslizou por baixo das pernas do gigante, sentindo o frio do metal passar raspando por suas costas, e alcançou o gancho de Ivan.

— Ivan... acorda, seu idiota — ela sussurrou, soltando-o.

— Mizi salvou Ivan! — o sistema anunciou, e por um momento, houve um silêncio tenso.

Till, Hyuna, Sua e Luka já estavam no portão, observando da distância segura da luz de saída. Mizi e Ivan estavam sozinhos no andar de cima. Eles correram para o esconderijo de uma sala de cirurgia enquanto Jason e Jeff vasculhavam o andar.

Passaram-se sete minutos de um silêncio agonizante. No portão, o grupo estava em frangalhos.

— A gente não pode ir sem eles — Sua chorava, sendo segurada por Luka.

— Ela vai conseguir — Till dizia, embora sua voz tremesse. — Aquela maluca não sabe a hora de parar.

De repente, Mizi saiu do esconderijo, apoiando Ivan em seu ombro. Eles estavam quase na escada quando Jeff surgiu de trás de uma coluna, encurralando Mizi.

— Ivan, vai! — Mizi o empurrou em direção à escada. — Corre pro portão!

Ivan tentou protestar, mas o ferimento em sua perna o fez vacilar. Ele desceu as escadas aos tropeços, alcançando o grupo no portão. Agora, todos os cinco olhavam para cima, vendo Mizi encurralada entre Jeff, à sua frente, e Jason, que surgia atrás dela.

— Mizi, pula! — Hyuna gritou do portão.

Mizi recuou, mas suas costas bateram no peito frio de Jason. Ela estava cercada. O pânico tentou voltar, mas a imagem da mãe no carro em chamas a atingiu novamente. O sangue espalhado, o cheiro de morte.

— Eu não... sou... um fardo — ela disse, os dentes cerrados.

Ela apontou a pistola para Jason e puxou o gatilho.

*Click.*

A arma emperrou. O retrocesso sináptico foi imediato e brutal. Mizi sentiu como se um martelo tivesse atingido seu estômago. Uma golfada de sangue jorrou de sua boca, manchando o chão e o uniforme. Ela caiu de joelhos, o sangue escorrendo pelo queixo.

— MIZI! — Ivan gritou, tentando correr de volta, mas Till e Luka o seguraram com força. — ME SOLTA! ELA VAI MORRER!

Jason ergueu o facão. O tempo parou. Mizi olhou para o portão. Ela viu Hyuna, Till, Luka, Ivan... e viu Sua. A garota que ela sempre observava nos corredores da escola, a garota que tinha um brilho calmo que Mizi secretamente invejava. Ela não podia deixar que Sua visse sua morte ali.

Mizi respirou fundo, o gosto de ferro inundando sua boca.

Jason desceu a lâmina. No último centímetro, Mizi girou o corpo com uma agilidade impossível para alguém tão ferido. Ela golpeou a pistola contra a palma da mão e disparou à queima-roupa no estômago de Jason.

*BUM!*

O tiro foi certeiro. Jason cambaleou, as chamas do sinalizador começando a derreter sua armadura. Mizi virou-se para Jeff, que saltava em sua direção, e disparou o último cartucho.

*BUM!*

Jeff foi atingido em pleno ar, sendo arremessado contra a parede de vidro, que se estilhaçou, mandando o assassino para o abismo do pátio interno.

Mizi não olhou para trás. Ela correu. Correu ignorando a dor, ignorando o sangue que deixava um rastro no chão, ignorando a visão que começava a escurecer nas bordas.

Ela saltou o último lance de escadas e correu em direção ao portão. As mãos de Ivan e Till se estenderam, agarrando-a e puxando-a para dentro da zona de luz branca no exato momento em que Jason, em chamas, golpeava o ar onde ela estivera um segundo antes.

— A gente conseguiu... — Hyuna sussurrou, caindo de joelhos.

Mizi olhou para os amigos, um sorriso sangrento e genuíno surgindo em seu rosto pálido. Ela olhou para Sua, que a encarava com uma mistura de terror e gratidão infinita.

— Eu disse... que não ia ser... um fardo — Mizi conseguiu dizer antes que suas pernas finalmente cedessem.

No momento em que o corpo de Mizi tocou o chão da zona de saída, o mundo inteiro desapareceu.

TELA PRETA.