Blood
O Despertar das Cicatrizes Invisíveis
— Acorda, Mizi! Por favor, abre os olhos! — A voz de Ivan parecia vir de dentro de um túnel profundo, abafada pelo som do vento soprando entre as copas das árvores.
Mizi sentiu o cheiro de terra úmida e folhas secas antes mesmo de conseguir processar a dor que latejava em sua cabeça. Quando finalmente abriu as pálpebras, não viu os azulejos mofados do hospital ou as luzes vermelhas de emergência. Viu o céu cinzento da madrugada e as silhuetas retorcidas das árvores da floresta ao norte da cidade.
— Onde... onde é que a gente tá? — Ela tentou se levantar, mas um gemido de dor escapou de seus lábios.
— Na clareira. De volta ao começo — respondeu Ivan. Ele estava sentado ao lado dela, com o rosto sujo de fuligem e os olhos escuros carregados de um cansaço que parecia ter envelhecido sua alma em dez anos.
Ao redor deles, o cenário era de puro desconcerto. Till estava sentado a poucos metros, encarando as próprias mãos como se não as reconhecesse. Luka e Hyuna ajudavam Sua a se levantar; a garota de olhos roxos tremia tanto que seus dentes batiam. Não havia monstros, não havia ganchos, não havia sangue jorrando — pelo menos, não fisicamente.
No centro da clareira, sobre uma pedra achatada, repousavam os objetos que haviam usado no "jogo", mas agora desprovidos de sua glória mortal. A pistola de sinalização de Mizi era apenas uma arma de brinquedo de plástico barato, embora o acabamento fosse assustadoramente realista. A adaga de Ivan tinha uma lâmina de metal, mas estava sem fio, servindo no máximo para descascar uma fruta. As seringas estavam vazias, e as lanternas eram modelos comuns de acampamento.
Ao lado dos objetos, um bilhete branco e impecável balançava com a brisa. Till o pegou, as mãos trêmulas amassando o papel.
— "Parabéns. Vocês sobreviveram ao Palco do Sacrifício. Agradeçam à coragem daquela que não aceitou o fardo. A festa acabou... por enquanto" — Till leu em voz alta, a voz falhando na última palavra. — Que porra foi essa? Que tipo de doentes fazem isso?
— A gente precisa sair daqui — disse Luka, a voz tentando manter uma racionalidade que ele claramente não sentia. — Agora.
Eles correram. Correram como se Jason ainda estivesse atrás deles, mesmo que a floresta estivesse mergulhada em um silêncio sepulcral. Só pararam quando avistaram as primeiras luzes da cidade.
Uma semana se passou desde aquela noite.
A escola parecia um lugar alienígena agora. Os corredores que antes eram apenas tediosos agora pareciam labirintos onde o perigo poderia espreitar em cada armário. A rotina, no entanto, foi forçada a continuar. Eles tentaram, é claro. No segundo dia, Luka e Hyuna insistiram que deveriam ir à polícia.
— Vocês não entendem! — Hyuna gritava na delegacia, batendo a mão no balcão enquanto a delegada Olivia a encarava com uma mistura de tédio e pena. — Nós fomos sequestrados! Tinha um hospital, tinha monstros, a gente quase morreu!
A delegada Olivia suspirou, ajeitando os óculos.
— Escutem, jovens. Eu sei que o estresse do terceiro ano e as festas de final de semana podem ser intensos, mas essa história de "realidade virtual assassina" e "homem com facão de metal" é um pouco demais, não acham? Vocês voltaram para casa sem um arranhão. Não há marcas de agulha, não há cortes, as roupas de vocês estão intactas.
— Mas a dor era real! — Till interveio, quase saltando sobre o balcão. — Eu senti minha perna quebrar!
— Se a perna quebrou, como você está andando agora, rapaz? — Olivia perguntou, arqueando uma sobrancelha. — Voltem para casa. Se encontrarem algum suspeito real, ou se alguém realmente desaparecer, nos liguem. Mas parem de passar trotes com roteiros de filmes de terror.
Eles saíram de lá derrotados. O mundo exterior não aceitava o que eles haviam vivido. A única prova era o trauma compartilhado e o fato de que, agora, os dois grupos de amigos haviam se tornado um só.
No pátio da escola, sob a sombra de uma árvore antiga, Mizi e Ivan não estavam mais sozinhos. Till, Luka, Hyuna e Sua estavam sentados com eles. A barreira que existia antes — o silêncio entre os "populares" e os "isolados" — fora incinerada naquele hospital.
— Eu ainda sinto o cheiro daquele lugar quando fecho os olhos — comentou Sua, em voz baixa, brincando com a alça de sua mochila.
— Todos nós sentimos — disse Ivan, oferecendo um pedaço de seu sanduíche para Till, um gesto de camaradagem que teria sido impossível dez dias atrás. — Mas a polícia não vai ajudar. Estamos por conta própria.
Mizi estava estranhamente calada. Seus olhos dourados seguiam cada movimento de Sua. Desde que voltaram, algo dentro dela havia mudado. O medo de ser um "fardo" fora substituído por uma urgência dolorosa de ser honesta. A morte tinha batido à porta e ela a expulsara, mas a vida agora cobrava o preço da verdade.
— Ei, gente — Mizi começou, a voz um pouco mais trêmula do que o habitual. — Eu preciso falar uma coisa. Especialmente pra você, Sua.
O grupo silenciou. Ivan franziu a testa, estranhando o tom da melhor amiga. Ele a conhecia melhor do que ninguém, mas aquele olhar de Mizi era novo.
— Fala aí, rosa — disse Hyuna, tentando aliviar o clima. — Alguma nova teoria da conspiração?
Mizi respirou fundo, ignorando o comentário. Ela se virou para Sua, que a encarava com aquela expressão doce e reservada que sempre fazia o coração de Mizi dar piruetas.
— Naquele hospital, quando eu vi você no gancho... eu senti que o mundo tinha parado. Eu sempre me achei um vazio, sabe? Um fardo inútil. Mas olhar pra você, ver que você podia sumir... me fez perceber que eu não sinto só amizade por você, Sua.
O silêncio que se seguiu foi tão denso quanto a neblina da floresta. Till arregalou os olhos, Luka limpou os óculos nervosamente e Ivan... Ivan quase deixou o sanduíche cair.
— Mizi? — Ivan sussurrou, chocado. — Você nunca me falou nada.
— Nem eu sabia que era tão forte assim — admitiu Mizi, mantendo o olhar fixo em Sua. — Eu gosto de você. De um jeito que me dá mais medo do que o Jason e o Jeff juntos. Eu precisava dizer isso porque a gente não sabe se vai ter um amanhã.
Sua ficou estática. Suas bochechas ganharam um tom leve de carmesim, e ela desviou o olhar para as próprias mãos. O coração de Mizi martelava. Ela esperava qualquer coisa: um abraço, um grito, talvez até um "eu também".
— Mizi... — Sua começou, a voz suave, mas firme. — Eu agradeço o que você fez por mim. De verdade. Você me salvou. Mas... eu não acho que a gente deva misturar as coisas agora. Foi tudo muito confuso, o trauma, o medo... eu não sinto o mesmo. Pelo menos, não desse jeito.
O golpe foi seco. Mizi sentiu como se tivesse levado um chute no estômago, o mesmo tipo de "retrocesso" que sentira quando a arma de sinalização falhara. Sua se levantou, ajeitando a saia do uniforme.
— Acho melhor a gente focar em ficar vivos, né? — Sua disse, com um sorriso pequeno e um tanto forçado, antes de se afastar em direção à biblioteca.
Mizi ficou ali, sentada no banco, sentindo o rosto queimar.
— Caralho... — Till soltou, quebrando o gelo. — Isso foi... intenso.
— Você tá bem, Mizi? — perguntou Hyuna, colocando a mão no ombro da amiga.
— Tô. Ótima. Maravilhosa — ironizou Mizi, embora seus olhos estivessem úmidos. — Só mais um dia normal de rejeição no apocalipse adolescente.
Ivan se aproximou, sentando-se mais perto dela. Ele não disse nada, apenas ofereceu o ombro, e Mizi encostou a cabeça ali.
— Você foi corajosa, Mizi — sussurrou Ivan apenas para ela ouvir. — Mais corajosa do que eu.
Enquanto isso, Sua caminhava pelos corredores, o coração batendo em um ritmo frenético. Ela entrou no banheiro feminino, trancou-se em uma cabine e encostou a testa na porta fria. Suas mãos tremiam.
— "Eu gosto de você" — as palavras de Mizi repetiam-se em sua mente.
Sua fechou os olhos e um sorriso involuntário, quase imperceptível, surgiu em seus lábios. Ela havia feito o papel de difícil, havia recuado porque o medo de perder aquela nova conexão era imenso, mas a verdade é que, no fundo, saber que Mizi sentia aquilo a fazia se sentir, pela primeira vez em muito tempo, verdadeiramente viva.
Mas o momento de paz durou pouco. Ao abrir a mochila para pegar um caderno, um pequeno pedaço de papel caiu no chão do banheiro.
Sua o pegou. O sangue fugiu de seu rosto instantaneamente.
Era o mesmo papel branco, com a mesma caligrafia elegante e sinistra.
"A segunda rodada começa no sábado. Tragam suas novas amizades. O Palco sente falta de vocês."
Sua amassou o papel, o pavor voltando a inundar seus sentidos. O jogo não tinha acabado. Ele estava apenas esperando que eles baixassem a guarda.
Ela saiu da cabine e correu de volta para o pátio. Precisava contar aos outros. Precisava dizer a Mizi que, talvez, o amor delas tivesse que esperar, mas que a sobrevivência delas dependeria, mais uma vez, de estarem juntas.
— Gente! — Sua gritou, chegando ao grupo ofegante. — Olhem isso!
Mizi levantou a cabeça, limpando as lágrimas rapidamente. Ao ver o papel na mão de Sua, toda a mágoa da rejeição desapareceu, substituída pelo instinto de luta que nascera no hospital.
— Eles não desistem, né? — Till levantou-se, os punhos cerrados.
— Dessa vez a gente vai preparado — disse Mizi, levantando-se também. Ela olhou para Sua, e mesmo com o "não" ainda ecoando, a determinação em seus olhos dourados era inabalável. — Se eles querem um show, a gente vai dar um show que eles nunca vão esquecer.
Ivan pegou sua adaga sem fio da mochila, testando o peso.
— Sábado — ele disse, olhando para o horizonte. — Dessa vez, a gente não vai só fugir.
O grupo de seis se uniu em um círculo, as mãos se sobrepondo. Eles eram diferentes agora. Não eram mais apenas estudantes entediados ou grupos separados por status social. Eram sobreviventes. Eram as peças que haviam aprendido a quebrar as regras do tabuleiro.
E enquanto o sol se punha sobre a escola, projetando sombras longas e distorcidas, uma certeza pairava no ar: o Palco do Sacrifício podia ser cruel, mas ele havia acabado de criar seus piores inimigos.
Mizi olhou para Sua uma última vez antes do sinal tocar.
— A gente vai sair dessa, Sua. Eu prometo.
Sua apenas assentiu, apertando a mão de Mizi com uma força que dizia muito mais do que qualquer palavra de rejeição. O jogo estava prestes a recomeçar, e o sabor do sangue e do medo estava prestes a se misturar, novamente, com o sabor amargo e doce da sobrevivência.