Bloom e Jim
O Eco do Sangue e do Segredo
O crepúsculo de Gardenia pintava o céu com tons de violeta e laranja, uma paleta de cores que Bloom não conseguia evitar associar aos olhos do homem que a esperava nas sombras. Havia se passado um ano desde que a Terra do Nunca deixara de ser uma ameaça e se tornara o cenário de um renascimento sombrio. Um ano de mentiras, de saídas furtivas e de um desejo que, em vez de se extinguir com a convivência, apenas se tornara uma chama mais alta e perigosa.
Bloom ajustou a alça de sua bolsa, sentindo uma tontura leve enquanto descia as escadas do loft das Winx. Ela parou por um momento, a mão espalmada contra a parede fria. Ultimamente, o mundo parecia girar um pouco mais rápido do que suas pernas podiam acompanhar.
— Bloom? Está tudo bem? — A voz de Flora veio da cozinha, carregada daquela preocupação doce que costumava confortar Bloom, mas que agora a fazia sentir um peso insuportável de culpa.
— Sim, Flora! Só... esqueci onde deixei meu celular — mentiu Bloom, a voz saindo um pouco mais aguda do que o normal. — Vou dar uma volta para tomar um ar. Não me esperem para o jantar.
Ela saiu antes que Flora pudesse oferecer um chá ou mais perguntas. Caminhou apressada até o cais abandonado, onde a brisa marinha trazia o cheiro de sal e de madeira velha — o cheiro dele. Jim estava encostado em um pilar de sustentação, as sombras parecendo se curvar à sua vontade. Ele não envelhecera um dia; a magia de Sininho o mantinha naquela forma jovem e vigorosa, embora seus olhos carregassem o peso de séculos.
— Você está atrasada, ruiva — disse ele, um sorriso de canto iluminando seu rosto conforme ele se aproximava.
— O ensaio da banda demorou mais que o esperado — respondeu Bloom, deixando-se envolver pelos braços dele. O calor de Jim era o seu único refúgio, mas até ali, a paz era frágil. — As meninas estão começando a desconfiar. Stella fez uma piada hoje sobre eu ter um "admirador secreto das sombras". Ela não faz ideia do quão perto da verdade está.
Jim segurou o queixo dela, forçando-a a olhar em seus olhos azul-violeta.
— Deixe que desconfiem. O que temos não pertence a elas, Bloom. Pertence a nós.
— Mas por quanto tempo, Jim? Eu sou uma Winx. Você é... você.
— Eu sou o homem que te ama — ele sussurrou, a voz rouca, antes de capturar os lábios dela em um beijo que exigia esquecimento.
Porém, a realidade tinha uma maneira cruel de se impor.
Naquela mesma semana, Gardenia recebeu uma visita inesperada. Uma mulher chamada Selene, uma crítica musical renomada, de cabelos platinados e olhos frios como mármore, começou a frequentar as audições das Winx. Ela era elegante, educada e tinha um conhecimento enciclopédico sobre magia, o que deveria ter sido o primeiro sinal de alerta.
— Há algo de errado com aquela mulher — comentou Musa durante um ensaio. — As vibrações dela são... dissonantes. Como se houvesse um ruído branco escondido sob a voz dela.
Bloom mal ouviu. Ela estava sentada em um banco lateral, sentindo uma náusea súbita subir por sua garganta. O cheiro das flores que Flora trouxera para o estúdio parecia insuportável.
— Bloom, você está pálida — disse Stella, aproximando-se com seu brilho habitual. — Parece que viu um fantasma. Ou talvez precise de um novo guarda-roupa para animar esse rosto.
Antes que Bloom pudesse responder, a porta do estúdio explodiu em estilhaços de sombra.
Selene não era uma crítica. Ela era uma das Bruxas Ancestrais, uma essência remanescente que encontrara um hospedeiro jovem e sedento por poder. Ela não queria apenas a chama do dragão; ela queria vingança contra a linhagem que a aprisionara por eras.
— Fadinhas tolas — sibilou Selene, sua forma humana distorcendo-se em uma silhueta de trevas e garras. — Vocês acham que a paz é eterna?
O combate foi imediato. As Winx se transformaram, o brilho do Onyrix iluminando o estúdio. Mas Bloom sentia-se pesada. Suas chamas, normalmente indomáveis, pareciam vacilar.
— Stella, cuidado! — gritou Aisha.
Selene lançou uma lança de energia obsidiana direcionada a Bloom, que estava momentaneamente paralisada por uma pontada aguda no baixo ventre. Stella, em um instinto puro de lealdade, jogou-se na frente. O impacto foi devastador. A luz de Stella vacilou e ela caiu, um ferimento escuro manchando seu traje brilhante.
— NÃO! — Bloom rugiu, mas a bruxa apenas riu antes de desaparecer em um vórtice de sombras, deixando o aviso de que aquele era apenas o começo.
No hospital de Gardenia, o clima era de velório. Stella estava em coma mágico, o ferimento resistindo até às magias de cura de Flora. As Winx estavam reunidas no corredor, o silêncio sendo quebrado apenas pelos soluços baixos de Musa.
— Onde você estava, Bloom? — perguntou Aisha, a voz dura, os olhos fixos na líder. — Você hesitou. Você nunca hesita.
— Eu... eu não sei o que aconteceu — sussurrou Bloom, as mãos tremendo.
— Você tem andado distraída há meses — continuou Tecna, consultando seu dispositivo com uma frieza analítica que escondia sua dor. — Seus níveis de energia estão instáveis. Se você não estivesse tão ocupada com seus "passeios noturnos", talvez tivesse visto o ataque vindo.
Bloom não suportou. Ela saiu correndo do hospital, ignorando os chamados das amigas. Ela precisava de Jim. Ela precisava descontar sua dor em alguém que pudesse aguentar.
Ela o encontrou no mesmo cais de sempre. Ele parecia já saber do ocorrido; as notícias de ataques mágicos corriam rápido no submundo.
— Bloom, eu sinto muito pela sua amiga — começou ele, tentando se aproximar.
— Não chegue perto de mim! — gritou ela, as chamas azuis brotando de suas mãos com uma fúria autodestrutiva. — Isso é culpa sua! Se eu não estivesse mentindo para elas, se eu não estivesse perdendo meu tempo e minha alma com você, eu estaria atenta! A Stella está morrendo por minha causa! Por causa de nós!
— Não coloque isso nos meus ombros, ruiva — rebateu Jim, a voz subindo de tom, a arrogância de pirata ressurgindo como um mecanismo de defesa. — Eu nunca te pedi para negligenciar suas amigas. Eu te dei o que ninguém mais deu: a verdade sobre quem você é fora desse grupo de bonecas perfeitas.
— A verdade? A verdade é que você é um veneno, Jim! — Bloom soluçava agora, o fogo se apagando para dar lugar a um desespero cru. — Você me trai até quando diz que me ama, porque você me afasta de tudo o que é bom. Isso acaba aqui. Agora.
Jim deu um passo à frente, os olhos violetas faiscando de dor e raiva contida.
— Você está dizendo isso porque está com medo. Mas você não consegue viver sem mim, Bloom. O fogo precisa de oxigênio, e eu sou o único que te deixa respirar.
— Não, Jim. Você é o que me sufoca. Eu não posso mais te ver. Eu não posso mais te amar. Por favor... vá embora. Volte para a Terra do Nunca, suma nas sombras, eu não me importo. Só me deixe em paz.
Jim ficou imóvel por um longo tempo, a brisa agitando seu cabelo azul. Ele parecia querer dizer algo, talvez implorar, talvez lutar, mas o olhar de Bloom era de um vazio absoluto.
— Como desejar, fada — disse ele, a voz fria como o gelo da Floresta Branca. — Mas lembre-se: você pode tentar apagar a chama, mas as cinzas sempre permanecem.
Ele desapareceu na escuridão, deixando Bloom sozinha com o som das ondas e o peso de seu próprio corpo.
Ela caminhou de volta para o loft, sentindo-se como se tivesse envelhecido cem anos em uma única noite. Ao entrar no banheiro, ela se olhou no espelho. Suas olheiras eram profundas, sua pele estava pálida. Ela se lembrou da tontura no cais, do cansaço crônico que a perseguia há semanas, da náusea que sentira no estúdio.
Um pensamento terrível e maravilhoso atravessou sua mente. Ela abriu a gaveta e pegou seu calendário.
— Não... — sussurrou ela, os dedos traçando as datas. — Duas semanas... três... quase dois meses.
Ela se sentou no chão frio do banheiro, a mão descendo instintivamente para o ventre ainda plano. O cansaço não era apenas estresse. A hesitação na batalha não era apenas falta de foco. Havia uma nova vida ali, uma mistura de fogo do dragão e a essência eterna de um homem que ela acabara de expulsar de sua vida.
Bloom enterrou o rosto nas mãos e chorou. Ela estava sozinha, sua melhor amiga estava em perigo, uma bruxa ancestral estava à espreita, e ela carregava o segredo mais perigoso de todos. O destino, ao que parecia, ainda não terminara de brincar com o coração da fada ruiva. E desta vez, as chamas não seriam suficientes para salvá-la.