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Bloom e Jim

O Legado das Cinzas e o Silêncio de Domino

O ar de Domino sempre fora carregado de uma pureza cristalina, um perfume de flores eternas que parecia ignorar as tragédias do passado. No entanto, para Bloom, aquela brisa era um lembrete constante de tudo o que ela escondera sob o peso da coroa de princesa e das responsabilidades como fada guardiã. Cinco anos haviam se passado desde que o mundo parecia ter desmoronado em Gardenia. Cinco anos desde que o silêncio se tornara sua armadura mais resistente.

Bloom caminhava pelos jardins suspensos do palácio, observando a figura pequena que corria entre as roseiras de fogo. O menino, que não aparentava mais do que quatro anos, tinha cabelos ruivos indisciplinados que brilhavam como brasas ao sol, mas eram seus olhos que paralisavam qualquer um que olhasse com atenção: um azul-violeta profundo, hipnótico e carregado de uma inteligência que não pertencia a uma criança comum.

— Brandon, não vá tão longe! — chamou Bloom, a voz suave, mas firme.

O menino parou, virando-se com um sorriso travesso que fez o coração de Bloom dar um solavanco. Era o mesmo sorriso de canto, a mesma expressão de desafio que ela vira tantas vezes no rosto de um pirata na Terra do Nunca.

— Eu só queria ver se as flores falam, mamãe! — respondeu o pequeno, voltando a trotar em direção a ela.

Bloom o pegou no colo, sentindo o calor reconfortante daquela pequena vida. Ela se lembrava vividamente do dia em que tudo mudara. Da dor de ver Stella em um leito de hospital, da decisão desesperada de buscar os Magos da Dimensão Mágica, cujos conhecimentos ancestrais eram a única esperança contra a maldição de Selene. Foram meses de agonia até que Stella finalmente abrisse os olhos, perguntando por que todos pareciam tão sérios.

Naquela época, a pressão fora insuportável. Bloom sentia o peso da traição de Jim, a culpa pelo ferimento de Stella e a descoberta aterrorizante da gravidez. Ela só conseguira confiar em uma pessoa.

— Bloom? — A voz de Flora a trouxe de volta ao presente.

A fada da natureza aproximou-se, os anos trazendo-lhe uma elegância ainda mais serena. Flora fora a única que ouvira a confissão de Bloom naquela noite chuvosa no hospital. Fora ela quem segurara a mão de Bloom quando ela contou sobre Jim, sobre a paixão clandestina e sobre a vida que crescia em seu ventre.

— Ele está cada dia mais parecido com o pai — comentou Flora em voz baixa, parando ao lado da amiga.

— Eu sei — suspirou Bloom, colocando Brandon no chão para que ele pudesse brincar com as borboletas mágicas. — Às vezes, tenho medo de que alguém perceba. Daphne me olha de um jeito... como se estivesse montando um quebra-cabeça.

— Você fez o que precisava para protegê-lo, Bloom — confortou Flora. — Aquele homem... Jim... ele era perigoso. E a situação com a Bruxa Ancestral exigia que você estivesse focada.

Bloom desviou o olhar. Ela se lembrava da última vez que vira Jim, meses após o rompimento. Ele a encontrara em um momento de fraqueza, nos arredores de Alfea. Ele a questionara sobre as mudanças em seu corpo, sobre o brilho diferente em sua aura. Ele, o homem que vivera séculos, começara a somar dois mais dois.

— Eu menti para ele, Flora — sussurrou Bloom, a lembrança da dor nos olhos violetas de Jim ainda a queimando. — Eu disse que tinha perdido a criança. Disse que o estresse da batalha e o ódio que eu sentia por ele tinham matado qualquer fruto daquele erro. Eu o mandei embora com a pior mentira que uma mulher pode contar.

— Você o salvou de si mesmo — disse Flora com firmeza. — E salvou o Brandon de uma vida de fugitivo. Jim nunca seria um pai doméstico, Bloom. Ele é o Capitão Gancho. Ele pertence ao mar e às sombras.

Enquanto isso, a milhões de quilômetros dali, em uma dobra dimensional onde o tempo se comportava de maneira caprichosa, o mar da Terra do Nunca rugia contra o casco de um novo navio.

Jim, agora Jones novamente para aqueles que o seguiam, estava parado na proa, os olhos fixos no horizonte sem fim. Ele havia reconstruído sua tripulação, recuperado seu posto e, de certa forma, sua honra. Mas a redenção era um prato amargo.

Ele passara os últimos anos tentando se convencer de que a dor no peito era apenas o eco de sua idade real, e não a ausência de uma fada ruiva. Ele vira Matt e Sininho construírem um reino de harmonia, um amor tão puro que o fazia sentir náuseas de inveja. Ele tentara se perder em novas aventuras, em tesouros e em batalhas contra monstros marinhos, mas o silêncio da noite sempre trazia a mesma pergunta.

— Capitão? — Um jovem marujo aproximou-se com cautela. — O vento está mudando. As correntes indicam que estamos nos aproximando da fronteira com o Universo Mágico. Devemos virar?

Jim apertou o corrimão de madeira até os nós dos dedos ficarem brancos. Ele prometera a si mesmo que nunca mais voltaria. Prometera que a humilhação de ter sido rejeitado e a dor de saber que seu filho — a única coisa real que ele produzira em séculos — fora perdido, seriam o prego final no caixão de sua ligação com as Winx.

— Mantenha o curso — ordenou Jim, a voz como o estalar de um chicote. — Não temos nada a buscar em Magix.

Mas, enquanto ele falava, uma perturbação no éter chamou sua atenção. Não era um ataque, mas uma ressonância. Algo que vibrava na mesma frequência que sua própria alma amaldiçoada.

Na Terra do Nunca, ele aprendera que o sangue nunca mente. E, por um breve segundo, ele sentiu um puxão. Um calor que não vinha do sol, mas de um coração que batia com a mesma cadência do dele, em algum lugar distante.

— Ela mentiu — murmurou ele para as ondas, a percepção atingindo-o como um raio.

A ideia de que ele era infértil fora uma suposição baseada em séculos de esterilidade mágica sob a forma de um velho ranzinza. Mas Sininho o transformara. Ela lhe dera um corpo novo, uma vitalidade jovem. E Bloom... Bloom era a Chama do Dragão. A própria fonte da vida.

— Capitão? O senhor está bem? — perguntou o marujo, notando a expressão selvagem que tomava conta do rosto de Jones.

— Mude o curso — disse Jim, um sorriso perigoso e predatório começando a surgir. — Vamos para Domino.

De volta ao planeta real, Bloom sentiu um arrepio súbito. O céu de Domino, antes claro, começou a escurecer com nuvens que não pareciam feitas de chuva, mas de uma bruma cinzenta e familiar.

— Flora, leve o Brandon para dentro — disse Bloom, a voz carregada de uma urgência que não sentia há meia década.

— O que foi, Bloom? — perguntou a fada da natureza, já pegando o menino no colo.

— Ele está vindo — respondeu Bloom, suas mãos começando a brilhar com um fogo azulado. — O destino se cansou de esperar.

Daphne apareceu na varanda do palácio, sua aura real brilhando intensamente.

— Bloom, há um navio rompendo as barreiras dimensionais de Domino. Ele não tem autorização, mas a energia que emana... é antiga.

Bloom não esperou. Ela se transformou, as asas do Onyrix se abrindo em um clarão de luz e determinação. Ela voou em direção à atmosfera, encontrando o navio de Jones no ponto exato onde as nuvens se rasgavam.

O navio não era mais a sucata de madeira de antes, mas uma embarcação majestosa, envolta em magia de proteção. No convés, sozinho, estava o homem que ela tentara esquecer em cada oração e em cada pesadelo.

Jim olhou para cima e viu a fada. Ela estava mais bonita do que nunca; a maturidade dera a Bloom uma aura de poder que a tornava quase intocável. Mas ele não estava ali para admirá-la.

— Você mentiu para mim, Bloom! — gritou ele, a voz ecoando pelo céu, desafiando a gravidade.

Bloom pousou no convés, o fogo ao seu redor criando um círculo de calor intenso.

— Você não deveria estar aqui, Jim! Eu te dei uma ordem! Eu te dei a paz do esquecimento!

— Você me deu uma tumba vazia! — ele rebateu, caminhando em direção a ela, ignorando as faíscas que saltavam de sua pele. — Eu senti, Bloom. Eu senti hoje. Uma conexão que eu não sabia que existia. Onde ele está?

— Não há ninguém aqui para você — sibilou ela, embora o tremor em sua voz a denunciasse.

— Não minta de novo! — Jim estava agora a centímetros dela. Ele não era mais o jovem educado e misterioso; ele era o pirata que reivindicava o que era seu. — Eu vi como você olhou para o horizonte. Eu vi o medo em seus olhos agora. Não é medo de mim, é medo da verdade.

Nesse momento, um grito infantil ecoou do palácio abaixo. Brandon, escapando dos braços de Flora, correra para a varanda, olhando para o céu com curiosidade.

Jim desviou o olhar de Bloom por um segundo, focando na pequena figura ruiva lá embaixo. A distância era grande, mas para os olhos de Jones, treinados para ver através de tempestades e distâncias místicas, a imagem foi clara. O menino tinha a postura dele. O olhar dele.

— Brandon... — sussurrou Jim, o nome soando como uma descoberta sagrada.

Bloom tentou se colocar entre ele e a visão do filho, mas Jim a segurou pelos ombros, não com violência, mas com uma intensidade que a fez fraquejar.

— Cinco anos, Bloom. Você me privou de cinco anos de ver o meu próprio sangue crescer. Por quê?

— Porque você o destruiria! — gritou ela, as lágrimas finalmente vencendo a barreira. — Você é um homem de guerra, de traição! Como eu poderia criar um príncipe de Domino, um herdeiro da luz, ao lado de alguém que só conhece as sombras?

— Eu teria mudado! — ele rugiu. — Por você, eu mudei! Por ele, eu teria queimado o mar e construído um reino de terra firme!

— Você nunca muda, Jim. Você apenas se adapta para conseguir o que quer.

Jim soltou-a, dando um passo atrás. Ele olhou para as próprias mãos, as mãos que haviam tirado tantas vidas, mas que agora tremiam com a ideia de segurar aquela criança.

— Eu não vim aqui para lutar, Bloom — disse ele, a voz subitamente baixa e carregada de uma tristeza que a desarmou completamente. — Eu vim porque uma parte de mim sabia que eu estava incompleto. E agora eu sei por quê.

— O que você vai fazer? — perguntou ela, preparando-se para o pior. — Vai tentar levá-lo? Se tentar, as Winx, os especialistas e todo o exército de Domino vão te caçar até o fim dos tempos.

Jim olhou para o palácio e depois de volta para Bloom.

— Eu sou um pirata, Bloom. Eu sei quando perdi uma batalha. Mas eu também sou um homem que não desiste do seu tesouro mais precioso.

Ele se aproximou dela, desta vez com uma suavidade que a lembrou das noites em Gardenia. Ele tocou o rosto dela, o polegar acariciando a maçã da face com a mesma delicadeza de cinco anos atrás.

— Eu vou embora agora. Mas não pense que isso acabou. Eu não vou levar o Brandon para as sombras, Bloom. Eu vou trazer a luz para o meu navio. Eu vou provar a você que este "pirata traidor" pode ser o pai que esse menino merece.

— Jim... — começou ela, mas ele a silenciou com um beijo rápido e urgente, um beijo que carregava a promessa de um retorno inevitável.

— Diga a ele que o pai dele está navegando pelas estrelas — sussurrou Jim contra os lábios dela. — E diga a ele para olhar para o céu todas as noites. Porque eu estarei vigiando.

Ele se virou e deu a ordem para a tripulação. O navio começou a recuar, a bruma cinzenta envolvendo-o novamente enquanto ele se preparava para o salto dimensional.

Bloom ficou parada no convés até que o navio desaparecesse por completo. Ela desceu lentamente até a varanda, onde Flora e Daphne a esperavam com expressões de choque e preocupação. Brandon correu para ela, abraçando suas pernas.

— Mamãe, quem era o homem no navio bonito? — perguntou o menino, os olhos azul-violeta brilhando de curiosidade.

Bloom olhou para o horizonte, onde a última centelha da magia de Jim se dissipava. Ela sentiu o peso do segredo finalmente se transformar no peso da expectativa.

— Aquele, meu querido... — começou ela, passando a mão pelos cabelos ruivos do filho — ...era um capitão. E um dia, ele vai te contar histórias que ninguém mais neste mundo conhece.

Daphne aproximou-se da irmã, colocando a mão em seu ombro.

— Você sabe que ele vai voltar, não sabe?

— Eu sei — respondeu Bloom, um pequeno e triste sorriso surgindo em seus lábios. — E, pela primeira vez em cinco anos, eu acho que não vou tentar impedi-lo.

O destino de fato não havia terminado com eles. O fogo e o mar haviam se encontrado novamente, e embora a tempestade tivesse passado, a maré estava apenas começando a subir. Bloom sabia que os próximos anos seriam de desafios, de explicações para as outras Winx e de uma reconstrução lenta de uma confiança que fora quebrada. Mas, ao olhar para Brandon, ela percebeu que algumas chamas eram destinadas a queimar para sempre, não importa o quão forte fosse o vento que tentasse apagá-las.

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