Bloom e Jim
O Eclipse da Fênix e o Sangue das Estrelas
O silêncio nos corredores do palácio de Domino era, para Bloom, mais ensurdecedor do que qualquer explosão mágica. Desde a partida de Jim, o pequeno Brandon parecia ter desenvolvido um hábito contemplativo que não pertencia a uma criança de sua idade. Ele passava horas na varanda, os olhos azul-violeta fixos no ponto exato onde o navio de Jones havia rasgado o tecido da realidade.
— Ele tinha o seu cheiro, mamãe — disse Brandon subitamente, sem desviar o olhar do horizonte.
Bloom, que tentava ler um relatório do Conselho de Magix, sentiu o coração falhar uma batida.
— Como assim, querido?
— O homem do navio. Ele cheirava a mar e a vento frio. Igual a você quando chega dos treinos na costa — o menino virou-se, e a intensidade de seu olhar fez Bloom recuar mentalmente. — Por que ele estava triste?
— Às vezes, as pessoas carregam pesos que não podemos ver, Brandon — Bloom aproximou-se e acariciou os cabelos ruivos do filho. — Ele é... um velho conhecido.
— Ele é o meu Capitão? — a pergunta foi direta, desarmante.
Bloom não teve tempo de responder. O comunicador em seu pulso brilhou com uma luz vermelha pulsante, o sinal de emergência máxima do Conselho de Magix.
— Bloom, você precisa vir agora! — A voz de Tecna estava distorcida por interferência estática. — Não é um ataque comum. A coisa... ela não está apenas destruindo cidades, ela está devorando a essência vital. As barreiras de Magix estão colapsando.
A fada ruiva olhou para o filho, uma angústia profunda nublando sua visão. Ela sabia que precisava ir. Como líder das Winx e Guardiã da Chama do Dragão, o dever a chamava, mas o instinto materno gritava para que ela se escondesse com Brandon no lugar mais profundo das cavernas de Domino.
— Vovô Oritel e Vovó Marion vão cuidar de você, está bem? — ela disse, beijando a testa do menino. — A mamãe tem um trabalho para fazer.
— Traga o Capitão com você dessa vez — pediu o pequeno, com uma seriedade que arrepiou a espinha de Bloom.
A reunião no Grande Salão do Conselho em Magix era um cenário de caos controlado. Hologramas mostravam vilarejos inteiros reduzidos a cinzas frias e cinzentas. Não havia fogo, apenas o vazio onde antes existia vida.
— Nós a chamamos de Fênix Negra — explicou Faragonda, sua voz cansada ecoando pelo salão. — Mas não é uma fênix de fogo. É uma criatura de antimatéria e vácuo. Ela se alimenta da energia mágica de seres poderosos. Ela está se movendo pelas correntes dimensionais, caçando nos limites da Dimensão Mágica e da Terra do Nunca.
Bloom sentiu um frio glacial percorrer seu corpo ao ouvir a menção à Terra do Nunca.
— Se ela se alimenta de magia, as Winx são os alvos principais — observou Aisha, cerrando os punhos.
— Exatamente — confirmou Faragonda. — E para enfrentá-la, Bloom, você precisará acessar um nível de poder que transcende o Onyrix. Você precisará da Essência Primordial. A forma da Guardiã Absoluta.
Enquanto as Winx se preparavam para a batalha final, longe dali, nas margens esquecidas da Dimensão Mágica, o *Jolly Roger* cortava o espaço sideral. Jim estava no comando, mas sua mente estava em Domino. Ele se perguntava se fora um covarde ao partir. A imagem de Brandon, o menino que carregava seus olhos e o fogo de Bloom, era uma tortura constante.
— Capitão! — gritou o imediato. — Algo está saindo da dobra dimensional! Não é um navio!
Jim correu para a amurada. O que ele viu não era um monstro de carne e osso. Era uma fenda alada, uma criatura de penas negras que pareciam feitas de buracos negros, absorvendo a luz das estrelas ao redor. A Fênix Negra soltou um grito que não foi ouvido pelos ouvidos, mas sentido nos ossos como uma vibração de morte.
— Canhões de luz! Agora! — ordenou Jim, sacando sua espada.
Mas a criatura era rápida demais. Ela mergulhou sobre o navio, e onde suas garras tocavam, a madeira mágica se desintegrava em pó. Jim sentiu a energia vital de seus homens sendo sugada. Ele avançou, a lâmina brilhando com o resquício da magia que Sininho lhe dera, mas a Fênix apenas o golpeou com uma asa de sombras.
O impacto lançou Jim contra o mastro principal. Ele sentiu suas costelas quebrarem e o ar fugir de seus pulmões. Enquanto a criatura se preparava para o golpe final, Jim só conseguia pensar em uma coisa.
— Bloom... Brandon... me perdoem por não ser forte o suficiente — sussurrou ele, fechando os olhos enquanto a escuridão o envolvia.
No centro de Magix, Bloom sentiu o grito silencioso de Jim. Foi como se um fio invisível que ligava seus corações tivesse sido esticado até o ponto de ruptura.
— Ele está em perigo! — gritou Bloom, caindo de joelhos no meio do campo de batalha.
As outras Winx estavam ocupadas contendo as sombras que a Fênix projetava sobre a cidade, mas Bloom não conseguia mais ver nada ao seu redor. A dor de Jim era a sua dor. O medo dele era o seu combustível.
— Bloom, concentre-se! — gritou Stella, disparando raios de sol contra as criaturas de sombra.
Mas Bloom já não ouvia. Ela buscou no fundo de sua alma a chama que a definia. Não a chama que destruía, mas a chama que criava e protegia. O fogo do dragão rugiu dentro dela, fundindo-se com o amor possessivo por seu filho e o desejo desesperado de salvar o homem que ela tentara odiar.
A transformação começou. Não houve brilho de fada ou pó de estrelas. Houve uma explosão de energia pura.
As roupas de Bloom desapareceram, substituídas por chamas vivas que se moldavam ao seu corpo em tons de carmesim e azul cobalto. Seus pés, nus, não tocavam o chão, mas flutuavam sobre brasas invisíveis. Suas asas cresceram até atingirem proporções divinas, não mais transparentes, mas formadas por labaredas que deixavam um rastro de luz no céu noturno. Seu cabelo ruivo flutuava como se estivesse sob a água, e seus olhos brilhavam com um poder que fazia os próprios magos do conselho recuarem.
— Ela alcançou a Forma de Guerra — sussurrou Faragonda, maravilhada e aterrorizada.
Bloom não disse uma palavra. Ela apenas apontou para o céu e disparou como um cometa em direção às coordenadas que seu coração lhe ditava.
Ela chegou ao local do acidente em segundos. O navio de Jim estava em ruínas, flutuando à deriva. A Fênix Negra estava sobre o corpo inerte de Jones, pronta para devorar o que restava de sua alma.
— Afaste-se dele! — a voz de Bloom reverberou pelo vácuo, carregada de uma autoridade cósmica.
A Fênix virou-se, reconhecendo a fonte de energia que tanto cobiçava. Ela avançou contra Bloom, mas a fada guerreira não recuou. Ela abraçou a criatura de sombras, deixando que suas chamas azuis e vermelhas queimassem a antimatéria.
O choque entre a luz absoluta e a escuridão total criou uma onda de choque que limpou os céus de Magix. Bloom sentia a Fênix tentando sugar sua vida, mas ela tinha algo que a criatura não entendia: um vínculo que transcendia a magia.
— Por Domino! Por Brandon! — Bloom gritou, liberando toda a essência da Chama do Dragão em um único pulso de calor.
A Fênix Negra soltou um último guincho agônico antes de se desintegrar em luz branca, purificada pelo fogo da fada.
Bloom, exausta, voltou à sua forma humana enquanto caía no convés destroçado do navio. Ela rastejou até Jim, que estava pálido, a respiração fraca e superficial.
— Jim... Jim, olhe para mim! — ela implorou, segurando o rosto dele entre as mãos trêmulas.
Ele abriu os olhos lentamente, o azul-violeta turvo pela dor.
— Bloom? — ele tossiu, um rastro de sangue correndo pelo canto da boca. — Você... você veio.
— Eu sempre virei — disse ela, as lágrimas caindo sobre o peito dele. — Eu menti para você porque tive medo, mas não posso mais fazer isso. O Brandon... ele precisa de você. Eu preciso de você.
Jim tentou sorrir, aquele sorriso de pirata que sempre a irritava e a encantava.
— Eu vi a Fênix... achei que nunca mais veria o rosto de vocês. Eu fui um tolo em partir, ruiva.
— Sim, você foi — concordou ela, rindo entre o choro. — Mas você é o meu tolo. E agora, você vai voltar para casa conosco. Sem mais segredos.
— E o Conselho? E as suas irmãs? — perguntou ele, a voz ganhando um pouco de força.
— Deixe que elas falem — Bloom ajudou-o a se sentar, apoiando-o contra o que restava do mastro. — Eu sou a rainha de fogo de Domino, Jim. E eu decidi que o meu reino tem espaço para um capitão das sombras.
Longe dali, em Domino, o pequeno Brandon olhou para o céu e viu uma estrela cadente brilhar mais forte do que todas as outras. Ele sorriu, sabendo, com a intuição de quem carrega o sangue dos mares e das chamas, que o seu Capitão estava finalmente voltando para casa.