Bloom x Jim
Onde a Chama Sangra
O cheiro de ferro queimado e carne cauterizada impregnava o ar pesado da câmara de espelhos partidos. Cada pulsação das agulhas mecânicas cravadas no torso de Bloom arrancava dela não apenas a essência do Fogo do Dragão, mas fragmentos inteiros de sua consciência. Os cabos negros pulsavam com uma luz escarlate e doentia, sugando a chama primordial e transferindo-a para cilindros de vidro que zumbiam como colmeias envenenadas.
Bloom já não conseguia gritar. Sua voz havia morrido horas atrás, reduzida a um fio rouco de respiração entrecortada. A cabeça tombava para a frente, os cabelos ruivos colados ao rosto pelo suor e pelo sangue que escorrera de suas têmporas. A máquina da Rainha não tinha compaixão; era um engenho voraz projetado para drenar divindades até transformá-las em cascas ocas.
A porta de carvalho maciço do santuário ruiu para dentro com um estrondo ensurdecedor.
O metal estilhaçou-se contra o chão de pedra e, por entre a poeira espessa, uma silhueta alta avançou com a fúria cega de uma tempestade em alto-mar. Jim trazia nos olhos azul-violetas um brilho desprovido de qualquer verniz civilizado. As roupas esfarrapadas e ensanguentadas denunciavam o rastro de violência que deixara nos corredores inferiores; nas mãos, empunhava duas lâminas escuras, gotejando a linfa negra dos carrascos que tentara inutilmente conter sua marcha.
— Tirem as mãos dela! — rugiu o corsário, a voz reverberando como um trovão enjaulado.
Os dois acólitos da Rainha que operavam as alavancas do mecanismo mal tiveram tempo de virar os rostos cadavéricos. Em dois passos predatórios, Jim cruzou a distância. A primeira lâmina rasgou a garganta do monstro à direita em um corte limpo e impiedoso; antes que o corpo tocasse as lajes frias, o capitão girou sobre os calcanhares e cravou a segunda adaga profundamente no peito da outra criatura, arrancando o aço com um puxão brutal que espalhou vísceras negras sobre o painel de controle.
Com uma fúria desesperada, ele usou a empunhadura da espada para despedaçar os cilindros de contenção. A fita de cabos partiu-se em um estalo violento de fagulhas, liberando uma onda de choque que empurrou Jim para trás.
O suporte de ferro cedeu. O corpo inerte de Bloom despencou no vazio.
Jim avançou e a apanhou antes que a fada batesse contra os cacos pontiagudos de vidro e espelho. O impacto o fez cair sobre um joelho, mas ele não afrouxou o aperto. Pelo contrário: seus braços enlaçaram a cintura e os ombros dela com uma urgência febril.
— Bloom... — chamou ele, a voz falhando em uma nota crua de angústia que ele jamais admitiria possuir. — Bloom, olhe para mim!
A pele dela ardia sob as roupas rasgadas, quente como uma forja desgovernada, mas as extremidades de seus dedos estavam pálidas, quase translúcidas, e frias como o gelo dos Alpes. Os lábios entreabertos soltavam lamentos desconexos, os olhos azuis revirando sob as pálpebras trêmulas sem fixar-se em nada. O estrago estava feito. A drenagem fora quase total, quebrando os alicerces que mantinham sua mente ancorada à realidade.
O som de cornetas espectrais e o bater de asas corrompidas ecoou pelas abóbadas da fortaleza. O tempo havia acabado.
Sem pensar duas vezes, Jim ergueu-a em seus braços, aconchegando a cabeça inerte da fada contra a curva de seu pescoço. Ignorando a dor lancinante em suas próprias costelas quebradas, ele disparou pela passagem secreta que dava para as galerias externas, fugindo para o único lugar onde os perseguidores teriam dificuldade em rastreá-los: a selva proibida da Terra do Nunca.
***
A floresta era um pesadelo vegetal de raízes retorcidas, cipós espinhosos e um nevoeiro arroxeado que parecia sugar a luz e o ar. Árvores colossais com cascas negras como obsidiana erguiam-se até um céu estéril, onde nenhuma estrela ousava brilhar.
Jim cambaleava, os pés afundando no lodo fétido das margens pantanosas. Ele não parara de correr por quase uma hora, guiado apenas pelo instinto de um marinheiro acostumado a sobreviver em terras selvagens. Seus pulmões queimavam, os músculos de suas pernas tremiam sob o esforço contínuo, mas ele se recusava a soltar Bloom.
Ela pesava pouco, mas carregava o peso insuportável de uma vida que se esvaía a cada respiração rouca.
Encontrando o abrigo oco sob as raízes de um salgueiro gigante, Jim deslizou para o chão lamacento. Ele sentou-se com as costas apoiadas no tronco podre, puxando Bloom para o seu colo, mantendo-a envolta em seu casaco pesado para protegê-la do orvalho venenoso que começava a gotejar das folhas superiores.
— Respire, centelha... — murmurou ele, afastando as mechas úmidas que grudavam na testa incandescente dela. As mãos calejadas do corsário tremiam. Ele, que cruzara espadas com dezenas de homens e desafiara a própria velhice em pactos sombrios, sentia um pavor desconhecido apertar-lhe a garganta. — Você sobreviveu àquela desgraçada. Não ouse morrer nos meus braços agora.
Bloom estremeceu com violência. Um espasmo percorreu sua espinha e ela arqueou o corpo, as mãos fechando-se em punhos cerrados sobre a camisa ensanguentada de Jim. Os olhos dela abriram-se, dilatados, vidrados, encarando a penumbra acima deles sem enxergar a copa das árvores ou o homem que a sustentava.
A febre e o vazio mágico a haviam lançado em um labirinto de delírios torturantes.
— Não... por favor, não me prenda de novo... — sussurrou ela, a voz quebrada, infantilizada pelo pânico puro, escapando entre dentes que batiam descontroladamente.
— Você está livre, ruiva. Eu tirei você de lá — disse Jim com firmeza, segurando o rosto dela entre as mãos ásperas, tentando forçar o olhar da fada a encontrar o seu. — Sou eu. Jones. Você está segura.
Mas Bloom não o ouvia. As barreiras de orgulho, altivez e liderança que ela sempre mantivera diante dele haviam desmoronado, expondo a carne viva de uma alma mutilada por guerras que Jim sequer conseguia conceber.
— Sky... por que você fez aquilo? — balbuciou ela, lágrimas ferventes escorrendo por suas bochechas pálidas, misturando-se à sujeira e ao suor. — Você jurou... você disse que estaríamos juntos, mas você me escondeu coisas... você sempre escolhe o dever, a coroa de Eraklyon, as mentiras... você me deixou sozinha no escuro...
Jim franziu o cenho, o maxilar endurecendo. Ele não sabia quem era aquele homem que ela chamava, mas o ódio que sentiu por aquele estranho foi imediato e irracional. Como alguém poderia ter aquela mulher, ter a sua devoção ardente, e deixá-la carregar marcas tão amargas de abandono?
— Bloom, acorde. Não há nenhum príncipe aqui — rosnou o corsário, os dedos apertando-se de leve contra as têmporas dela.
— Eu procurei tanto por eles... — continuou ela, a respiração transformando-se em soluços dolorosos que sacudiam seu peito frágil. — Por anos... eu olhava para as cinzas de Domino e pensava se tudo aquilo era minha culpa. Minha mãe... meu pai... eu sangrei tanto para encontrá-los, e por quê? Eu passei a vida inteira duvidando de cada passo. Eu não sou perfeita... eu odeio fingir que sou forte o tempo todo! Eu tenho tanto medo, Jim...
Ouvir o próprio nome escapar da boca dela no meio daquele delírio arrancou o ar dos pulmões de Jim. O cinismo do capitão pirata ruiu por completo. Diante dele não estava a fada guerreira do Dreamix que ameaçava queimar seus navios; estava uma mulher quebrada pela própria grandeza, confessando fraquezas que certamente guardara a sete chaves do resto de sua corte perfeita.
— Você não precisa ser forte agora — murmurou ele, a voz adquirindo uma suavidade que ele não usava há séculos, desde que o tempo ainda corria normalmente em suas veias. Ele a puxou mais para perto, aninhando a cabeça dela contra seu peito, deixando que o calor de sua pele humana absorvesse um pouco do fogo doentio que a consumia. — Deixe queimar o que tiver que queimar, ruiva. Eu seguro você.
Mas o delírio de Bloom atingiu um limiar ainda mais tenebroso.
O corpo dela enrijeceu como ferro fundido. As pupilas dilataram-se tanto que o azul quase desapareceu, engolido por um abismo escuro. As mãos dela subiram, cravando as unhas com força desesperada nos antebraços de Jim.
— Ele está aqui... — sibilou ela, a voz subitamente mais grossa, distorcida por um eco sepulcral que fez os pelos dos braços do corsário se arreopiarem. — A fênix... o Lorde Darkar... ele me amarrou nas trevas de Realix... ele me partiu ao meio!
— Bloom, pare! — ordenou Jim, alarmado com a mudança drástica na respiração dela.
— Eu senti o gosto da escuridão... eu fui ela! — gritou a ruiva, debatendo-se em seus braços com uma força desumana que quase o fez perder o equilíbrio. — A fada sombria... ela ainda dorme dentro de mim, Jim! Toda vez que eles roubam meu fogo, ela acorda... ela sussurra... Se a Rainha quebrar o que sobrou, eu não vou voltar! Eu vou queimar tudo... eu vou destruir Stella, Flora... eu vou queimar este mundo até o chão! Mate-me antes que ela saia! Mate-me!
— Eu não vou matar você! — rugiu Jim, segurando os pulsos dela contra o chão com firmeza calculada, forçando o corpo agitado a permanecer imóvel sob o seu peso. Ele olhou profundamente naqueles olhos desvairados pelo terror do próprio passado. — Olhe para mim, droga! Olhe para Jones!
O contato físico bruto e a autoridade rasgada na voz dele pareceram perfurar a névoa do delírio por uma fração de segundo.
Bloom parou de debater-se. O ar escapou de seus pulmões em um suspiro trêmulo. Os olhos dela piscaram, e por um instante fugaz, a centelha azul reconheceu as feições aristocráticas e marcadas do homem debruçado sobre ela.
— Jim...? — sussurrou ela, a mão afrouxando o aperto em seu casaco.
— Sou eu — respondeu ele, a respiração pesada, a boca a centímetros da dela. Ele soltou os pulsos da fada e levou uma das mãos à nuca dela, sustentando-a com uma possessividade feroz. — Você não é a escuridão de ninguém, garota. Você é a droga do Fogo do Dragão. E ninguém apaga essa chama a não ser que você permita. Está me ouvindo? Nem a Rainha, nem os seus fantasmas do passado, e muito menos eu.
Uma lágrima silenciosa escorreu pelo canto do olho de Bloom antes que a cabeça dela caísse pesadamente para o lado, a exaustão vencendo a crise febril e jogando-a de volta em uma inconsciência profunda e perigosa. O corpo dela permaneceu assustadoramente frouxo nos braços dele.
Jim fechou os olhos, soltando uma maldição abafada contra a névoa da floresta. O coração dele martelava contra as costelas como se quisesse escapar do peito. Ele sentiu o pulso de Bloom: fraco, irregular, quase imperceptível. Se continuasse naquele estado, o choque mágico destruiria o que restava de sua força vital em questão de horas.
— Aguente firme, centelha... — pediu ele em um murmúrio desesperado, apertando-a contra si enquanto a chuva ácida da Terra do Nunca começava a fustigar a folhagem ao redor. — Pela primeira vez na vida... não seja tão frágil.
Foi então que o ar mudou.
A densa névoa arroxeada à frente do salgueiro foi repentinamente cortada por relâmpagos de cores puras e brilhantes. O cheiro de podridão e maresia estagnada recuou diante de uma onda de calor perfumado — flores da primavera, brisa do oceano e o brilho estonteante de poeira cósmica.
Cinco raios de luz atravessaram a copa das árvores negras com a força de meteoros, descendo em espirais perfeitas até o solo lamacento.
Quando a luminosidade se dissipou, revelou as figuras em suas formas de batalha Dreamix. Stella avançou à frente, a lâmina de energia solar brilhando em sua mão com intensidade ofuscante; Aisha assumira uma postura de ataque, o Morphix estalando ao redor de seus punhos; Musa e Tecna cobriam os flancos com barreiras sónicas e digitais ativadas, enquanto Flora trazia nas mãos vinhas luminosas prontas para estrangular qualquer ameaça.
Roxy pousou logo atrás, os olhos cravados instantaneamente na figura caída sob a raiz da árvore.
— Ali estão eles! — gritou Roxy, apontando a mão envolvida em energia verdejante.
— Afaste-se dela, seu pirata desgraçado! — ordenou Stella, a voz vibrando com pura fúria protetora, os olhos cor de âmbar chamejando enquanto dava dois passos decididos à frente, pronta para incinerar Jim onde ele estava. — Solte a Bloom agora mesmo ou eu juro que não vai sobrar nem cinzas da sua existência miserável!
Jim não recuou. Ele nem sequer tentou alcançar a adaga que repousava a poucos centímetros de sua bota. Ele apenas ergueu os olhos azul-violetas para fitar as fadas com um escárnio exausto, os braços recusando-se obstinadamente a afrouxar o aperto ao redor de Bloom.
— Guarde o seu espetáculo de luzes para quem se importa, princesa — cuspiu ele, a voz rouca e áspera como lixa. — Se eu quisesse a fada morta, ela já estaria apodrecendo no calabouço daquela aberração que vocês chamam de rainha.
— Stella, espere! — gritou Flora, a voz carregada de uma angústia imediata que quebrou a formação de combate.
A fada da natureza correu até o abrigo do tronco, caindo de joelhos ao lado de Jim. Suas mãos tocaram o braço inerte de Bloom, e a expressão de Flora transformou-se instantaneamente em puro horror. As lágrimas brotaram em seus olhos verdes enquanto ela sentia o fluxo vital da amiga através do contato mágico.
— Pelas estrelas... — sussurrou Flora, a respiração entrecortada, as mãos começando a tremer. — O fogo dela... o núcleo mágico está em colapso total! Está tudo corrompido, vazio... ela está ardendo por dentro, mas a alma dela está congelando!
Aisha e Tecna aproximaram-se rapidamente, as defesas baixando diante da gravidade da cena. O scanner holográfico de Tecna projetou leituras erráticas e alarmantes sobre o corpo estendido de Bloom.
— Os níveis bio-mágicos estão caindo em escala exponencial — anunciou Tecna, a voz analítica perdendo a calma habitual, tingida pelo desespero genuíno. — O canal primordial que sustenta o Dreamix e a força vital dela foi rompido violentamente. O organismo não está respondendo a nenhuma autorrecuperação.
— Ela não consegue acordar... — disse Aisha, os olhos arregalados, ajoelhando-se ao lado de Flora. — Bloom! Bloom, você consegue nos ouvir?
Bloom permaneceu imóvel nos braços de Jim. Nem mesmo a presença luminosa de suas irmãs de batalha conseguiu romper o coma febril em que afundara. A cabeça permanecia tombada contra o ombro do corsário, o contraste entre a pele alva e doentia da fada e o casaco negro do pirata criando um quadro desolador.
Stella aproximou-se devagar, a magia ofensiva dissipando-se de suas mãos. Ela olhou para Jim, e a desconfiança feroz que ardia em suas feições foi gradualmente substituída pelo choque ao ver o estado do homem diante dela.
Jim estava arruinado. O sangue escorria por seu pescoço a partir de cortes profundos; suas mãos estavam em carne viva pelo esforço de quebrar as máquinas da fortaleza, e as marcas roxas de tortura cobriam cada centímetro exposto de sua pele. Mas, acima de tudo, havia o olhar dele: Jim fitava Bloom com uma agonia tão desmedida e crua que Stella, em toda a sua vida, jamais esperaria ver na face de um pirata traidor.
— O que aconteceu lá dentro? — perguntou Stella, a voz vacilando, perdendo o tom bélico e caindo em um sussurro aterrorizado. — Jim... o que aquela mulher fez com ela?
Jim engoliu em seco. Pela primeira vez desde que aquelas garotas o haviam encurralado pela primeira vez nos becos de Paris, o capitão Jones pareceu completamente desprovido de respostas cínicas ou planos maquiavélicos de conquista.
Ele olhou para as fadas reunidas, depois para o rosto imóvel de Bloom repousando contra o seu peito, as palavras delirantes dela sobre o Shadow Phoenix, traições e cinzas ainda queimando em seus ouvidos como uma ferida aberta.
— A Rainha tirou quase tudo — disse ele, a voz quebrando em uma nota áspera de vulnerabilidade que o desarmou por completo. — Ela tirou a chama. E a sua líder... ela está se perdendo no próprio inferno. Se vocês têm alguma magia capaz de salvá-la, façam isso agora. Porque eu... eu já não sei mais o que fazer para mantê-la viva.
O silêncio caiu pesado sobre a clareira escura da Terra do Nunca, quebrado apenas pelo gotejar das folhas venenosas e pelo sussurro imperceptível da respiração fraca de Bloom, enquanto as Winx e o pirata compreendiam, juntos, que a batalha para resgatar a fada da Chama do Dragão estava apenas começando — e que a escuridão que a reclamava era muito mais profunda do que qualquer feitiço já visto.