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Bloom x Jim

O Abismo Entre Chamas e Sombras

As raízes ancestrais de um manguezal petrificado formavam uma abóbada natural sobre o acampamento improvisado, mas nem mesmo a barreira vegetal que Flora erguera conseguia repelir a atmosfera rançosa da Terra do Nunca. O ar ali cheirava a maresia estagnada, folhas podres e a uma magia residual tão fria que fazia a pele arder.

No centro da clareira úmida, sobre um leito de musgo pálido sustentado por vinhas medicinais, Bloom jazia imóvel.

Ela não parecia a líder destemida que desafiara monstros e reinos inteiros. A pele da fada ruiva perdera o tom dourado habitual, assumindo uma palidez lívida, quase translúcida, cortada pelo suor denso que colava mechas carmesins à sua testa. As veias em seu pescoço pulsavam em um tom arroxeado e anômalo. A respiração vinha em estertores curtos, como se cada lufada de ar exigisse uma batalha física contra o nada.

A poucos metros dali, sentado sobre uma rocha coberta de líquen cinzento, Jim observava.

As mãos de Flora brilhavam em uma luz esmeralda suave enquanto ela limpava as lacerações profundas nas costas do corsário. A magia curativa formigava em sua carne dilacerada, unindo tecidos abertos e aliviando a queimação lancinante das costelas trincadas, mas Jim mal registrava o alívio. Os olhos azul-violetas do pirata permaneciam fixos na fada deitada, duros, impenetráveis, mas consumidos por uma inquietude que ele não conseguia disfarçar por completo.

— Fique quieto — murmurou Flora, a voz mansa, mas carregada pela fadiga de horas ininterruptas de esforço. — Se você continuar se tensionando dessa forma, a linfa vai romper os pontos mágicos antes que a pele feche.

— Deixe que rompa — retrucou Jim, a voz rouca, sem desviar o olhar de Bloom. — A dor mantém o sangue circulando.

— Você fala como se desprezasse a própria vida, capitão.

— Eu desprezo a fraqueza. É diferente.

Flora suspirou, canalizando mais um fluxo de essência verde sobre a clavícula do homem, onde a marca de uma maça de ferro deixara um hematoma escuro. A fada da natureza ergueu os olhos castanhos, fitando o perfil aristocrático de Jim. Ela sentia a aura dele; ao contrário de Stella, que só via um pirata perigoso e ardiloso, Flora conseguia ler a linguagem dos corpos, da terra e das emoções que emanavam dos seres vivos. E o que emanava de Jim era um turbilhão denso de cólera ancestral, solidão e um apego visceral, quase desesperado, pela mulher caída no musgo.

— Stella e Tecna estão vasculhando as bordas do arquipélago tentando rastrear os fragmentos do Fogo do Dragão que a Rainha engarrafou — disse Flora suavemente, partindo uma folha aromática entre os dedos e aplicando o sumo sobre a ferida dele. — Mas Tecna já avisou que o processo mecânico que usaram nela foi invasivo demais. A Rainha não drenou apenas a energia como se extrai água de um poço. Ela quebrou o conduto espiritual.

— Uma máquina estúpida forjada por escravos estúpidos — cuspiu Jim, os dentes cerrados. — Eu devia ter decapitado aquele engenheiro antes de cruzar o mar interior.

— Cortar cabeças não vai reconstruir o equilíbrio dela, Jim.

— E ervas brilhantes vão? — Ele virou o rosto para encará-la, a sobrancelha erguida em um sarcasmo cortante que tentava, sem sucesso, disfarçar a impotência que corroía seu peito. — Ela está queimando viva enquanto congela por dentro. Eu passei três noites naquela jaula segurando essa garota. Toda vez que o coração dela falhava, eu pensava que aquele maldito dragão dentro do peito dela ia queimar os ossos dela em cinzas para se libertar.

Flora parou o movimento das mãos. O silêncio que se instalou na clareira foi quebrado apenas pelo gotejar monótono da água ácida sobre a cúpula de raízes.

— Você se importa com ela — disse a fada da natureza, não como uma pergunta, mas como uma constatação despida de julgamentos.

Jim soltou uma risada seca, desprovida de humor, um estalo amargo entre os lábios feridos.

— Eu preciso dela viva. Ela é o meu salvo-conduto para derrubar a corte daquela impostora e recuperar a Terra do Nunca. Uma fada morta não cumpre promessas.

— Não minta para mim, Jim — Flora aproximou-se ligeiramente, os olhos brilhando com uma compaixão serena que desarmava qualquer cinismo. — As plantas ao seu redor murcham quando você mente. A sua frequência cardíaca dispara toda vez que a respiração dela vacila. Eu sinto as correntes invisíveis entre as coisas vivas... e você olha para a Bloom como se ela fosse a única âncora que impede o seu navio de despedaçar contra os recifes.

O maxilar de Jim endureceu. Ele sustentou o olhar penetrante de Flora, a máscara de pirata indiferente caindo por uma fração de segundo, revelando a crueza de séculos de amargura.

— Você não sabe nada sobre mim, garota das flores — murmurou ele, a voz descendo a um sussurro perigoso. — Eu odeio fadas. Odeio as mentiras etéreas de vocês, o modo como vocês descem dos seus pedestais para brincar com os mortais e depois voam de volta para os seus palácios dourados. Peter Pan era uma criança mimada que se cercava de pó de fada para fingir que nunca teria que pagar o preço de ser homem. Eu vi o que o seu povo faz quando tem poder demais.

— Então por que não a deixou no chão daquela masmorra? — insistiu Flora, com voz inabalável. — Você teve todas as chances de escapar sozinho quando Stella e nós chegamos. Você poderia ter desaparecido nos túneis. Mas ficou. Ficou e deixou que seus ossos fossem quebrados pelos carcereiros apenas para mantê-la aquecida.

Jim desviou o olhar para o leito de Bloom. A fada ruiva parecia ainda menor envolta nas dobras de seu casaco escuro.

— Porque ela é diferente — confessou ele enfim, as palavras saindo arrastadas, como se cada sílaba arrancasse uma lasca de seu orgulho. — Ela não é frágil como aquelas pestes aladas de Neverland, e não é fria como a Rainha. Ela é feita de fogo... um fogo arrogante, teimoso, insuportável. Ela ameaçou queimar tudo o que eu possuo nos primeiros cinco minutos em que nos conhecemos. Eu vi rainhas, guerreiros e monstros tremerem diante da morte. Mas a sua líder... ela sangra, cospe desaforos na cara de quem a prende e se recusa a dobrar os joelhos.

Ele fechou as mãos em punhos sobre as próprias coxas, as juntas estalando.

— Ver uma mulher dessas ser esvaziada daquele jeito... apodrecer como um barco encalhado na maré baixa... isso me dá náuseas. Eu não vou permitir que aquela corte imunda apague a chama dela. Não antes de eu ver o que ela realmente pode fazer quando não estiver tentando salvar todo mundo ao mesmo tempo.

Flora contemplou o corsário por um longo instante. Uma sombra de tristeza cruzou o rosto da fada castanha.

— O problema, Jim, é que salvar todo mundo é a própria essência dela. E quando ela não consegue... quando ela se sente culpada... ela abre as portas para o próprio abismo.

Um arrepio repentino cortou a clareira.

A temperatura, que já era desagradavelmente fria, desabou em questão de segundos. A água que pingava das folhas transformou-se instantaneamente em estalactites pontiagudas de gelo negro. O musgo sob o leito de Bloom ressecou, estalando e tornando-se pó cinzento sob o choque de uma onda térmica antinatural.

— Aisha! Musa! — gritou Flora, levantando-se em um salto e erguendo barreiras de folhas luminosas. — Venham depressa!

As duas fadas romperam a cortina de folhagens, as expressões tensas e as asas Dreamix já abertas em prontidão de combate.

— O que está acontecendo? — perguntou Aisha, com as mãos envolvidas em esferas pulsantes de Morphix puro. — Sentimos uma flutuação dimensional vindo daqui!

— É a Bloom! — respondeu Flora, a voz embargada pelo alarme.

No centro da clareira, o corpo de Bloom começara a levitar a poucos centímetros do chão. As mechas ruivas erguiam-se no ar, flutuando como se estivessem submersas em um líquido invisível. Mas não era a luz dourada do Fogo do Dragão que emanava de seus poros.

Eram chamas negras.

Línguas de fogo arroxeado, densas e oleosas como alcatrão aceso, começaram a lamber a pele da fada. A sombra projetada por seu corpo contra a parede de rocha não correspondia à sua silhueta; alongava-se em proporções titânicas, desdobrando asas escuras e pontiagudas, desenhando a figura esguia e cruel de uma entidade que as Winx conheciam bem demais.

— Não... — balbuciou Musa, recuando um passo, os olhos arregalados de horror. — Não pode ser. Isso ficou para trás em Realix! Nós a trouxemos de volta!

— As leituras energéticas estão invertidas — declarou Tecna, pousando apressadamente ao lado de Stella, o visor holográfico estalando em códigos corrompidos vermelhos. — O vácuo deixado pela Rainha quebrou os selos internos. Sem a centelha solar para regular o fluxo primordial, a memória sombria do Lorde Darkar está preenchendo as lacunas da alma dela!

— Bloom! — berrou Stella, arremessando um feixe de luz dourada para envolver a amiga.

No instante em que a magia solar tocou as chamas escuras, uma detonação silenciosa de energia repulsiva varreu o local. O feitiço de Stella foi desintegrado como vidro sob um martelo. A onda de choque arremessou as cinco fadas contra as raízes da clareira, dissipando temporariamente as asas de Aisha e Musa sob o impacto brutal.

Jim fincou as botas no lodo, erguendo o antebraço para proteger os olhos do vendaval abrasador e pútrido que se erguera. O calor era nauseante — queimava a pele sem aquecer os ossos, deixando um rastro de cinzas que sufocava a garganta.

Do peito de Bloom, uma risada ecoou.

Não era a voz da jovem de Domino. Era um tom aveludado, sarcástico, impregnado de veneno e poder absoluto — a ressonância cortante da Fada Sombria.

— Suas tolas patéticas... — sussurrou o eco sepulcral, enquanto a cabeça de Bloom pendia para trás, os lábios curvados em um sorriso sádico que não pertencia a ela. As pálpebras abriram-se, revelando esferas inteiramente douradas, sem íris ou pupilas, brilhando com a malevolência de um predador antigo. — Vocês acharam que podiam queimar o sol sem acordar a noite?

— Bloom, lute contra isso! — implorou Flora, tentando rastejar para a frente, mas o solo sob seus joelhos apodrecia em cinzas no momento em que ela tentava canalizar vida. — Você é luz! Você é a Chama da Vida!

— A Chama da Vida cansou de sangrar por vocês — sibilou a entidade, erguendo uma das mãos pálidas. As chamas negras concentraram-se na palma de Bloom, tomando a forma de uma serpente de fogo que sibilava com a morte iminente. — Agora... eu vou transformar esta ilha em cinzas. E depois... a Dimensão Mágica inteira.

Jim não ouviu os alertas das fadas. Ignorando a dor das costelas que protestavam a cada respiração e a ferida aberta em sua têmpora, o pirata avançou.

— Jim, não! — gritou Stella, desesperada. — Ela vai pulverizar você! Ela não é a Bloom agora!

— Cale a boca! — rugiu ele.

O capitão rompeu a barreira de calor negro. O fogo sombrio lambeu o couro de suas roupas, chamuscando a gola de sua camisa e deixando queimaduras imediatas em seus antebraços, mas Jim continuou andando com a ferocidade de quem já enfrentara monstros nas profundezas de abismos esquecidos.

Ele não via apenas a escuridão que aterrorizava as outras garotas. Seus olhos azul-violetas, acostumados a decifrar a verdade sob mentiras e disfarces, enxergavam os detalhes que o medo cegara nas fadas.

A mandíbula de Bloom tremia. As unhas das mãos dela cravavam-se nas próprias palmas com tanta força que o sangue escorria por entre os dedos, manchando o fogo roxo de escarlate. Sob a superfície daquele poder doentio, o peito da fada arfava em um esforço silencioso e titânico. Ela estava resistindo. Estava puxando as próprias correntes de volta para a escuridão, lutando desesperadamente para não disparar a serpente de fogo contra as amigas que amava.

— Você fala demais para quem está prestes a quebrar — disse Jim, a voz rouca cortando a cacofonia de ventos mágicos.

Ele alcançou o vórtice. Com um movimento bruto e sem a menor hesitação, Jim agarrou os pulsos de Bloom, forçando os braços dela para baixo.

O impacto da magia negra percorreu o corpo do homem como uma descarga de agulhas incandescentes. Jim soltou um grunhido gutural, os joelhos quase cedendo, seus olhos arregalando-se sob a agonia do fogo corrupto que tentava devorar sua carne humana. Mas ele não soltou. Pelo contrário: puxou o corpo flutuante da fada para baixo, colando o peito dela contra o seu, quebrando a distância e forçando o peso de sua presença física sobre o feitiço.

— Jim... solte... — escapou por entre os dentes dela, a voz de Bloom ressurgindo por uma fração de segundo, trêmula, afogando-se no desespero. — Eu vou... destruir você...

— Tente, então — desafiou o corsário, os olhos azul-violetas queimando a centímetros dos olhos dourados e doentios da fada. O hálito dele era quente, carregado de raiva pura e uma determinação obstinada. — Tente me queimar, centelha! Você prometeu que eu veria o Fogo do Dragão, não essa imundície de sombra barata que você pegou emprestada de algum monstro de covil!

A entidade sombria rugiu dentro da mente dela, e as chamas negras lamberam o pescoço de Jim, abrindo vergões sangrentos em sua pele clara. A dor o fez estremecer, mas o sorriso torto e descarado teimou em cortar os lábios do corsário.

— Você é fraca demais para me matar desse jeito — sibilou ele contra o ouvido dela, ignorando as labaredas que devoravam seu sobretudo. — Você é a garota que me encurralou nos becos de Paris. A fada arrogante que não aceita ordens de homem nenhum. Se for para você me matar, que seja com o seu fogo! Não com a sombra daquela aberração que te engaiolou!

— Jim... dói... — o choro escapou da garganta de Bloom, cru, despedaçado.

— Então lute, droga! — rugiu o capitão, levando uma das mãos em carne viva à nuca dela, segurando os cabelos ruivos com firmeza possessiva, forçando-a a olhar diretamente em seus olhos. — Eu não tomei surras na masmorra daquela rainha para ver você se render para um fantasma do passado! Você não é a escuridão deles! Você é a capitã dessa droga de batalha! Assuma o controle!

As palavras cortaram o delírio como uma lâmina forjada a frio.

No fundo dos olhos dourados, uma faísca minúscula de azul puro cintilou.

O corpo de Bloom arqueou-se violently. Um grito rasgou o ar da clareira — não de ódio, mas da mais pura agonia libertadora. A fada puxou as mãos para perto do peito de Jim, e o calor que brotou de seu núcleo espiritual mudou de natureza. O odor de podridão e cinzas recuou diante de um estalo brilhante e dourado.

O Fogo do Dragão não despertou por completo, mas a centelha primordial respondeu ao comando de sua dona. Uma onda de chamas límpidas, solares e escarlates explodiu para fora, devorando as labaredas negras em um redemoinho incandescente.

A sombra que se projetava na rocha desintegrou-se em um chiado fúnebre.

O impacto arremessou ambos para o chão lamacento. As chamas apagaram-se de súbito, deixando a clareira mergulhada em um silêncio atordoante, quebrado apenas pela fumaça que subia das roupas queimadas dos dois e pela respiração pesada de Jim.

O capitão tombou de lado, cuspindo uma lufada de fumaça cinzenta, a camisa em farrapos revelando a pele marcada por queimaduras mágicas. Ele respirava com dificuldade, o peito subindo e descendo em espasmos dolorosos, mas seus olhos nunca deixaram a mulher ao seu lado.

Bloom estava caída sobre o peito dele, imóvel mais uma vez.

Mas as veias roxas haviam desaparecido. Os olhos dourados estavam fechados, e a respiração da fada, embora exausta, tornara-se rítmica, profunda e limpa. A frieza espectral fora substituída pelo calor suave e constante que sempre fora a marca de sua presença viva.

Flora, Stella e as outras correram até eles, caindo de joelhos sobre a lama fumegante.

— Pelas estrelas... — sussurrou Stella, com as mãos trêmulas tocando o ombro chamuscado de Jim. A fada do sol encarava o pirata com uma expressão de espanto e respeito que jamais imaginara dirigir ao corsário. — Você... você segurou a escuridão dela com as próprias mãos. Nenhum humano sem magia deveria ser capaz de sobreviver àquilo.

Jim soltou um grunhido áspero, afastando a mão com cuidado para não acordar Bloom, cujos dedos inconscientes permaneciam agarrados à gola rasgada de sua jaqueta.

— Eu sou um marinheiro, princesa — resmungou ele, a voz falhando em um sussurro arranhado enquanto fechava os olhos por um segundo para afastar a tontura. — Já enfrentei tempestades piores do que os pesadelos de uma fada mimada.

— Ela não é mimada — defendeu Flora baixinho, com um sorriso fraco e grato curvando seus lábios enquanto começava a aplicar bálsamos calmantes sobre os braços queimados de Jim. — E você sabe disso melhor do que qualquer um de nós agora.

Jim não respondeu. Ele apenas abaixou os olhos para o rosto sereno de Bloom, que repousava a fronte contra sua clavícula marcada. Ele sentiu o coração dela bater — forte, firme, aquecendo sua pele ferida com uma chama que nenhuma máquina da Rainha fora capaz de extinguir.

A batalha contra a corte sombria da Terra do Nunca ainda estava diante deles. As cicatrizes estavam longe de fechar, e a traição era um mar pelo qual ele ainda pretendia navegar para recuperar seu navio e seu reino.

Mas ali, sob a abóbada de raízes cinzentas daquela ilha maldita, o capitão Jones compreendeu que a parte mais perigosa de sua jornada não seria enfrentar o retorno de Peter Pan ou o exército da Rainha.

A parte mais perigosa era a chama que agora dormia em seus braços — uma mulher que ele começara odiando por ser fada, mas que agora, a cada respiração compartilhada, tornava-se o único fogo pelo qual ele arriscaria queimar o mundo inteiro.

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