Bloom x Jim
Cinzas Primordiais e Lábios Rebeldes
O som rítmico da chuva contra as vidraças de um antigo chalé nos arredores de Gardênia era o único ruído que quebrava o silêncio pesado da noite. Ali, na Terra, longe das florestas corrompidas da Terra do Nunca e do olhar vigilante dos monstros da Rainha, o ar cheirava a terra molhada, pinho e café frio. Era um mundo mundano, calmo até o tédio, mas servia perfeitamente ao propósito das fadas: ocultar o corpo frágil da Guardiã da Chama do Dragão.
Stella e as outras haviam partido há menos de duas horas. A decisão fora tomada em meio a sussurros tensos e olhares temerosos: as Winx precisavam cruzar as dimensões e comparecer perante o Conselho de Magix. Nem mesmo os conhecimentos botânicos de Flora ou a lógica analítica de Tecna conseguiam romper o impasse médico de Bloom. A chama no peito da ruiva permanecera em um limbo inquietante — nem melhorava, nem se extinguia por completo. Estava estagnada, uma brasa enterrada sob uma camada impenetrável de cinzas cinzentas.
E, contra todos os instintos de prudência que Roxy insistira em proclamar antes de partir com as outras, Jim ficara para trás.
O pirata estava sentado em uma poltrona de couro desgastada ao lado da cama, as pernas longas estendidas à frente e os braços cruzados sobre o peito. Ele desfez-se do sobretudo rasgado, vestindo apenas a camisa de linho escuro com as mangas arregaçadas, exibindo os antebraços cobertos por ataduras limpas que Flora aplicara com relutância. Seus olhos azul-violetas não se desviavam do rosto pálido de Bloom.
Ela não se movia. Sob os lençóis de algodão branco, a fada ruiva parecia quase irreal de tão silenciosa. Os cabelos, que costumavam ondular como labaredas vivas ao vento de batalha, repousavam sem brilho sobre o travesseiro. A respiração era rasa, ritmada pelo estalar distante de um relógio de parede.
— Você parece patética desse jeito, centelha — murmurou Jim, a voz rouca arranhando o ar parado do quarto.
Ele descruzou os braços e inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. Havia um copo de conhaque barato sobre a mesa de cabeceira, mas ele mal tocara na bebida. Homens do mar sabiam quando era hora de afogar as mágoas e quando era hora de manter a guarda armada.
Jim passou a língua pelos dentes, encarando a curva serena dos lábios dela. Odiava aquela serenidade. Odiava a falta de resposta. Ele estava acostumado com fadas que o olhavam com desprezo divino, criaturas aladas arrogantes da corte de Neverland que tratavam os homens mortais como brinquedos descartáveis de uma peça de teatro interminável. Mas Bloom não era aquilo.
Mesmo quando tentava agir como uma princesa ou comandante, havia nela uma humanidade crua, uma teimosia mundana que não pertencia aos salões etéreos da magia. Ela fora criada naquele planeta sem poderes, entre humanos comuns, e sangrava como um deles.
— Onde está toda aquela empáfia de Paris? — continuou ele, o tom carregado de um escárnio que falhava miseravelmente em mascarar a amargura entranhada em seu peito. — Onde está a garotinha insolente que me encurralou contra um portão de ferro e prometeu queimar os meus navios?
O silêncio do quarto foi a sua única resposta.
Jim praguejou baixinho, passando as mãos calejadas pelos cabelos escuros e azulados. A cabeça latejava com uma dor maçante. Ele não dormia decentemente há mais dias do que conseguia contar nos dedos de uma mão; a masmorra úmida da Rainha, a perseguição implacável pela selva da Terra do Nunca e o desgaste de sustentar aquela mulher contra o próprio colapso haviam drenado as reservas de sua vitalidade recuperada.
Seus olhos pesaram. O capitão apoiou a fronte contra a mão, os dedos pousando inadvertidamente sobre a colcha, a poucos centímetros da mão inerte de Bloom.
O cansaço finalmente cobrou seu preço, e o mundo ao redor de Jim desvaneceu-se em uma escuridão sem bordas.
***
Não houve transição suave para o sono. Em um segundo ele estava no chalé em Gardênia; no seguinte, Jim encontrava-se suspenso em um abismo infinito, onde não existia terra, céu ou tempo.
O pirata tentou levar a mão à lâmina em sua cintura, mas seu corpo não passava de uma consciência desnuda pairando no vazio absoluto. Antes que o pânico pudesse tomar forma, o cosmos ao seu redor explodiu em luz.
Um rugido primordial sacudiu as próprias fundações do nada.
Das profundezas do vácuo cósmico, uma silhueta colossal emergiu. Não era um monstro, tampouco uma aberração forjada por feitiçaria sombria; era uma entidade viva, titânica, de escamas douradas e rubras que brilhavam com a temperatura de um milhão de sóis nascentes. As asas da criatura estendiam-se por galáxias inteiras, e cada bater de suas garras incrustava estrelas no manto escuro do universo recém-nascido.
O Grande Dragão.
A criatura não falava com palavras humanas. Jim sentiu a mente ser invadida por uma torrente avassaladora de sensações puras, conceitos arcanos que queimavam suas têmporas mortais como ferro em brasa. Ele viu o nascimento da Dimensão Mágica — não como um capricho de fadas vaidosas, mas como uma ordem grandiosa forjada a partir da dor, da luz e do sacrifício primordial.
O tempo avançou em um turbilhão ofuscante.
O corsário viu Domino. Um reino imenso, coroado por torres de espelhos celestes e palácios que desafiavam as nuvens, governado por uma linhagem que guardava a centelha do Grande Dragão não como um troféu de vaidade, mas como um fardo sagrado para manter as sombras ancestrais aprisionadas no abismo. A cada geração, a chama era transmitida: uma tocha viva de responsabilidade e fogo.
Então, o inferno desabou.
As três Bruxas Ancestrais caíram sobre Domino como abutres famintos. Jim assistiu, paralisado por um horror que nenhuma batalha naval jamais provocara em seus ossos, enquanto o fogo dourado era afogado em gelo negro e maldições sepulcrais. Os palácios ruíram; o rei e a rainha foram engolidos por tormentos impensáveis, e as cinzas daquele mundo outrora brilhante começaram a congelar sob o sopro da escuridão.
No coração do massacre, uma jovem mulher de armadura dourada e cabelos castanho-claros lutava com as unhas e dentes.
Daphne. A Ninfa de Domino.
Ela segurava contra o peito um embrulho pequeno, de onde emanava o calor tímido e puro de uma criança recém-nascida. O bebê tinha mechas minúsculas de cabelo ruivo e olhos de um azul tão profundo quanto o oceano.
— Daphne! Entregue a centelha! — uivavam as sombras das bruxas, rasgando o ar com garras espectrais.
A ninfa não cedeu. Jim sentiu o desespero e o amor visceral que transbordavam daquela irmã mais velha. As garras da maldição Sirenix perfuravam a carne espiritual de Daphne, desfazendo seu corpo material em agonia indescritível, mas seus braços permaneceram firmes ao redor do bebê. Com o último suspiro de sua vida carnal, Daphne conjurou um portal dimensional desesperado, empurrando a pequena Bloom através do vórtice em direção ao planeta mais distante e esquecido da criação.
A Terra. Gardênia.
Jim viu o bebê cair sobre os braços de um bombeiro comum entre as chamas de um prédio qualquer, enquanto Daphne sucumbia à morte e à maldição das bruxas, tornando-se um fantasma sem voz que vagaria pelas águas do Lago Roccaluce por anos a fio.
A magia que Bloom carregava não era uma brincadeira de criança mimada. Não era o pó de fada fútil que Peter Pan usava para voar sobre piratas envelhecidos enquanto zombava de suas vidas mortais.
Era o sangue de um reino massacrado. Era o sacrifício de uma irmã que escolhera a danação eterna para que a centelha não morresse. Era a herança de uma garota que passara anos sem saber quem era, descobrindo o peso de um universo nas próprias mãos e sangrando a cada vitória que conquistava.
O Dragão voltou a fitar Jim. Os olhos da besta cósmica encontraram a alma do corsário, transmitindo uma última verdade indelével: *A chama que a Rainha tentou roubar não se alimenta de magia artificial. Ela se alimenta de vontade. De vida. De alguém que a puxe para fora do abismo.*
***
Jim acordou com um solavanco violento, o ar escapando de seus pulmões como se tivesse acabado de emergir das profundezas de uma onda gigantesca.
Ele estava de volta ao chalé. A poltrona de couro rangeu sob seu peso. O suor frio escorria por sua têmpora, e seu peito subia e descia em arfadas descompassadas. O pirata olhou para as próprias mãos; os nós dos dedos estavam brancos pela tensão, mas o tremor não era de medo.
Era de uma compreensão estarrecedora.
Aquele asco profundo que ele sempre nutrira contra a magia — o ódio por criaturas que desafiavam o tempo com facilidade enquanto ele apodrecia em mares hostis — havia se quebrado. Não desaparecera por completo, pois o cinismo era a sua própria armadura, mas a repulsa fora substituída por um respeito visceral e pesado.
Bloom não era um monstro. Ela era uma sobrevivente que carregava um cemitério em chamas dentro do próprio peito.
Jim levantou-se da poltrona, os passos silenciosos levando-o até a beirada da cama.
A chuva continuava a fustigar a janela, mas o quarto parecia mais frio agora. O pirata estendeu a mão lentamente, pousando as pontas dos dedos calejados na maçã do rosto de Bloom. A pele dela estava morna, mas era um calor sem vida, a temperatura de um carvão que esfria lentamente antes de se desfazer em pó.
— Então é esse o peso que você carrega, ruiva? — sussurrou ele, a voz descendo a um murmúrio áspero e íntimo. — Uma órfã de cinzas fingindo que é feita de ferro.
Ele sentou-se na beira do colchão. A madeira gemeu levemente, mas a fada não esboçou qualquer reação.
A raiva começou a ferver sob a pele do capitão. Não contra a Rainha ou contra as bruxas ancestrais daquela visão mística, mas contra a imobilidade de Bloom. Ele não queria a mártir da profecia. Não queria a herdeira quebrada de um mundo de lendas.
Ele queria a fada que o fizera sangrar nos Alpes.
Queria a mulher que o olhava nos olhos sem abaixar a cabeça, que exigia respostas nos becos escuros e que o desafiava com aquela boca descarada e insolente. Ele precisava ouvir o tom irritante de sua voz cortando sua empáfia, precisava sentir o calor perigoso daquele Fogo do Dragão ameaçando mandá-lo para as profundezas do mar toda vez que ele dava um passo em falso.
— Você não vai morrer aqui, Bloom — disse Jim, a mandíbula travada, os olhos azul-violetas faiscando com uma ferocidade possessiva. — Eu não atravessei dimensões, não quebrei as correntes daquela desgraçada e não aguentei as tolices das suas amiguinhas de asas coloridas para você definhar na droga de uma cama de subúrbio.
Ele inclinou o tronco para a frente, apoiando uma mão ao lado da cabeça dela sobre o travesseiro, quebrando todo o espaço que os separava. A respiração fraca de Bloom roçava seu queixo.
— Os conselheiros de Magix não sabem nada sobre você — sibilou ele contra os lábios dela. — Velhos em mantos dourados que nunca seguraram uma espada de verdade. Nenhum ritual deles vai acordar você. Você é teimosa demais para obedecer a magos engomados.
Jim tocou o queixo dela com os nós dos dedos, erguendo levemente o rosto da fada. A proximidade era quase dolorosa. Ele sentia a fragilidade daquela respiração e odiava o quanto aquilo o atingia, odiava o fato de que uma criatura que ele jurara desprezar havia se tornado a única coisa no mundo inteiro pela qual ele arriscaria a própria vida sem hesitar.
— Um pirata nunca pede permissão — murmurou ele, e um sorriso torto, amargo e infinitamente desafiador cortou a linha de seus lábios. — E o que um pirata quer... ele simplesmente toma.
Ele não acreditava em contos de fadas. Zombava das lendas sobre beijos de amor verdadeiro e finais felizes que as amas contavam aos nobres antes de dormir. Mas se havia algo que a visão do Dragão lhe ensinara, era que a chama primordial precisava de um choque de vontade para reacender. Ela precisava sentir que havia algo no mundo dos vivos que se recusava a deixá-la partir.
— Acorde, centelha — ordenou Jim em um sussurro rouco, colando sua boca à dela. — Ou eu juro que vou saquear o seu reino inteiro antes que você possa abrir esses olhos para me xingar.
Ele a beijou.
Não foi a carícia suave e polida de um príncipe da corte. Foi o beijo faminto e possessivo de um corsário que encara o abismo e se recusa a recuar. Jim pressionou seus lábios secos contra os lábios macios e entreabertos de Bloom, despejando naquele toque toda a fúria, o medo não confessado e o desejo cru que vinha queimando entre eles desde a primeira noite sob a neblina de Paris.
O contato físico provocou uma faísca imediata.
No mesmo segundo em que a boca dele cobriu a dela, uma onda de choque invisível correu pelas veias de Jim. O gosto de cinzas nos lábios de Bloom foi subitamente substituído por um calor avassalador — não o calor destruidor das chamas sombrias de Neverland, mas a queimação pura, ardente e viva do ouro derretido.
A respiração dela travou.
Jim sentiu a pulsação no pescoço da fada acelerar como o trote de um cavalo de guerra. Os dedos de Bloom, antes inertes sobre os lençóis, moveram-se em um espasmo involuntário, fechando-se com força desesperada sobre o colarinho da camisa de linho dele.
O capitão não se afastou; aprofundou o beijo, exigindo mais, desafiando a alma adormecida da mulher a lutar contra ele, a responder à provocação física e espiritual que ele impunha.
Sob a pele pálida da fada, veias de luz dourada se acenderam por uma fração de segundo, irradiando do centro de seu peito e expulsando a última névoa fria que a sufocava.
Bloom puxou o ar com um arquejo agudo, quebrando o beijo de repente.
O peito dela inflou com violência, como se os pulmões estivessem se enchendo de oxigênio pela primeira vez em dias. As pálpebras tremeram e se abriram de súbito.
O azul brilhante, feroz e incandescente de suas íris estava de volta.
Ela piscou algumas vezes, a visão focando lentamente no homem debruçado sobre ela. Bloom sentiu o gosto dele em sua boca — tabaco, conhaque, ferro e aquela maresia inconfundível que pertencia unicamente a Jim. Sentiu o calor do corpo dele esmagando os lençóis ao seu redor, o peso de sua presença imensa e a mão firme que ainda segurava seu maxilar.
A fada levou a mão livre ao peito dele, empurrando-o com uma força surpreendente para quem acabara de emergir de um coma mágico.
— O que você... está fazendo? — perguntou Bloom, a voz saindo rouca, falha, mas carregada daquela centelha inconfundível de pura irritação que fez o coração do pirata dar um salto no peito.
Jim recuou apenas alguns centímetros, o suficiente para olhá-la de cima a baixo, sentindo o calor vivo emanando da pele dela como uma forja restaurada. O sorriso torto, arrogante e descaradamente triunfante voltou a se instalar em seu rosto aristocrático.
— Salvando a sua vida, senhorita Bloom — disse ele, a voz ríspida mascarando o alívio esmagador que quase o fez perder o fôlego. — Já que as suas amigas de asas de borboleta acharam que um bando de velhos em Magix faria um trabalho melhor do que eu.
Bloom franziu o cenho, as sobrancelhas ruivas unindo-se em uma carranca de pura desconfiança. As memórias voltavam em fragmentos rápidos — as sombras, o choque em Neverland, os sussurros de um dragão cósmico... e o calor dos lábios daquele homem quebrando as correntes da sua mente.
— Você me beijou, seu pirata desgraçado — acusou ela, os olhos faiscando com pequenas labaredas douradas que faziam o ar ao redor da cama estalar com eletricidade mágica. — Eu estava inconsciente!
— Eu precisava calar a sua boca antes que você começasse a reclamar — rebateu Jim com um brilho malicioso nos olhos azul-violetas, sem desviar o olhar do dela por um único segundo. — E funcionou, não funcionou? Você está viva.
— Eu podia ter acordado sozinha!
— Claro que podia. Daqui a três semanas, talvez, quando já estivesse congelada feito um bacalhau nas docas de Londres.
Bloom tentou sentar-se na cama, mas uma onda passageira de tontura a fez vacilar. Antes que ela perdesse o equilíbrio, as mãos de Jim seguraram seus ombros com firmeza, amparando-a contra o travesseiro com um cuidado quase imperceptível que contrastava dolorosamente com as palavras duras de sua boca.
Ela olhou para os cortes ainda recentes no rosto dele, para as ataduras em seus antebraços e para a exaustão profunda que manchava as sombras sob seus olhos. A lembrança do delírio na selva — os braços dele segurando-a contra o chão, a recusa obstinada daquele homem em deixá-la ser consumida pela Fada Sombria — bateu contra o peito dela com a força de uma maré viva.
A fada engoliu em seco, o fogo da indignação diminuindo apenas uma fração para dar lugar a algo muito mais perigoso: uma tensão palpável, densa e inescapável que pairava entre eles.
— Onde estão as outras? — perguntou ela, mantendo a voz firme, embora a proximidade dele fizesse seu pulso martelar nos ouvidos.
— Foram buscar ajuda — respondeu Jim, os dedos afrouxando o aperto em seus ombros, mas sem se afastar. — Mas não precisamos delas para o que vem a seguir.
Bloom sustentou o olhar magnético do corsário. Ela ainda sentia a queimadura do beijo em seus lábios, a certeza crua de que aquele homem estava jogando um jogo perigoso com ela — e de que, talvez, ela não quisesse mais recuar.
— Se você tentar algo assim de novo sem o meu consentimento, Jim... — começou ela, a voz descendo a um sussurro afiado —, eu vou transformar o que sobrou da sua tripulação em carvão.
Jim soltou uma risada baixa, rouca e genuína, o som vibrando no silêncio do quarto enquanto ele se inclinava um centímetro a mais, os olhos cravados nos dela com uma audácia inabalável.
— Eu não esperava nada diferente de você, ruiva. Mas nós dois sabemos que você adora o perigo.