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Bloom x Jim

O Rastro do Herdeiro Perdido

A brisa fria da manhã varria a varanda de madeira do chalé, carregando o cheiro úmido de pinheiros e terra batida. A tempestade de dias atrás dissipara-se por completo, deixando em seu rastro um céu límpido, de um azul quase translúcido.

Bloom ergueu a mão direita, com os dedos entreabertos contra o vento.

No centro de sua palma, uma labareda dourada dançava com vigor renovado. Não era o fogo instável e doloroso que a consumira durante a febre, tampouco a sombra púrpura do Lorde Darkar que quase a fizera sucumbir na Terra do Nunca. Era a Chama do Dragão em seu estado mais puro: viva, indomável, respondendo ao ritmo regular de suas batidas cardíacas.

A fada fechou o punho com um estalo seco, dissipando o calor em fagulhas brilhantes que se desvaneceram no ar.

— Uma performance adorável, majestade — ecoou uma voz rouca atrás dela, tingida por uma zombaria aristocrática inconfundível. — Embora eu preferisse quando você estava calada e dormindo. Era consideravelmente menos barulhenta.

Bloom virou-se sobre os calcanhares, os cabelos ruivos ondulando sobre os ombros cobertos por uma jaqueta de couro vermelho.

Jim estava encostado no batente da porta, segurando uma xícara de porcelana lascada com uma postura descaradamente relaxada. O pirata usava uma nova camisa escura, com o colarinho entreaberto revelando a pele alva da clavícula, onde algumas cicatrizes recentes ainda exibiam um tom rosado. Os cabelos azul-violetas estavam presos para trás em um rabo de cavalo desleixado, e seus olhos fixavam-se nela com aquele brilho predatório, atento a cada respiração da ruiva.

— Se eu estivesse dormindo, você não teria ninguém para tolerar as suas piadas estúpidas, capitão — retrucou Bloom, cruzando os braços e erguendo o queixo com frieza calculada.

Jim soltou uma risada baixa, dando um gole lento no café amargo antes de dar dois passos lentos em direção à balaustrada, encurtando perigosamente o espaço entre eles.

— Tolerar? Não seja ingrata, ruiva. Eu passei horas vigiando o seu sono de beleza para garantir que você não derretesse os lençóis de algodão. E, a propósito, o seu réptil dourado é um anfitrião péssimo.

Bloom paralisou. O sarcasmo que preparava evaporou de seus lábios, substituído por uma contração rígida de cautela.

— O que você disse?

O corsário apoiou os antebraços no corrimão da varanda, fitando a névoa que se dissipava sobre a floresta ao longe. Um sorriso torto e enigmático curvava o canto de sua boca.

— O seu lagarto de fogo. A criatura cósmica alaranjada que você guarda trancada dentro das costelas. Quando você estava à beira de apagar de vez e eu tive que intervir com métodos... mais pessoais... aquela coisa forçou a entrada na minha cabeça.

A fada sentiu o sangue subir quente para suas bochechas, impulsionado tanto pela menção indireta ao beijo quanto pela invasão profunda daquele homem em seus segredos mais íntimos.

— O Dragão não entra na mente de estranhos — sibilou ela, dando um passo incisivo na direção dele. — O que ele mostrou para você, Jim? Diga logo!

Jim virou o rosto devagar, deliciando-se visivelmente com a raiva dela. Os olhos azul-violetas desceram pelos lábios entreabertos de Bloom antes de subirem de volta para o azul fulgurante de suas íris.

— Vi um palácio dourado afundando em cinzas — disse ele, a voz perdendo a leviandade e adquirindo uma cadência sombria, quase reverente. — Vi três bruxas velhas rasgando um céu de cristal e uma mulher de armadura afundando em uma maldição para colocar uma garotinha ruiva nos braços de um bombeiro qualquer neste planeta insignificante.

O ar pareceu congelar nos pulmões de Bloom. Domino. Daphne. O sacrifício de sua irmã e as décadas em que ela vivera na ignorância, acreditando ser apenas uma órfã terrestre. Aquela dor era dela. Fora forjada no silêncio e nas lágrimas de anos de batalha. Saber que um pirata cínico, traidor e ladrão tivera acesso àquela ferida aberta a fez sentir-se despida, violada em sua intimidade mais sagrada.

— Você não tinha o direito de ver isso — rosnou ela, aproximando-se tanto que sentiu o calor do corpo dele contra o vento da manhã. Faíscas crepitaram nas pontas de seus dedos. — Aquilo não pertence a você!

— Eu não pedi para ver — rebateu Jim, a voz descendo a um sussurro ríspido, sem recuar um único milímetro diante das faíscas que ameaçavam queimar sua camisa. — Mas o seu dragão achou conveniente me mostrar que eu não estava lidando com uma fada fútil da corte de Neverland. Ele queria ter certeza de que eu saberia o que aconteceria se tentasse quebrar você.

Ele estendeu a mão livre e, com uma audácia que fez a respiração de Bloom travar, deslizou as costas dos nós dos dedos calejados pela linha do maxilar tenso da fada. A pele dele ardeu levemente com o calor natural que ela emanava, mas ele manteve o toque firme, hipnótico.

— Uma garota de cinzas — murmurou o corsário, os olhos faiscando com uma intensidade que quase a sufocou. — Eu admito, ruiva... você fica muito mais fascinante quando está furiosa. Essa empáfia toda esconde muito bem o quanto você é quebrada por dentro.

Bloom deu um tapa seco na mão dele, afastando-a com um movimento brusco.

— Não toque em mim! — disparou ela, dando um passo para trás, o peito arfando sob a jaqueta de couro. — Você acha que sabe tudo sobre mim só porque viu memórias arrancadas do meu subconsciente? Você é um corsário amargo que não consegue aceitar que perdeu a própria terra para uma fada e uma criança mimada!

— Talvez — admitiu ele, o sorriso desafiador voltando a estalar em seus lábios sem qualquer sinal de vergonha. — Mas eu não finjo ser um santo. Ao contrário dos homens que você costuma manter por perto.

O golpe invisível atingiu o alvo com precisão cirúrgica.

Sky.

O nome ecoou na mente de Bloom como o badalar fúnebre de um sino de prata. As noites em que ele a deixara para trás em nome dos deveres reais de Eraklyon; as mentiras sobre Diaspro; as cartas não respondidas e a sensação constante de que, para a nobreza de Magix, ela sempre seria a forasteira de Gardênia, a arma definitiva que precisavam usar, mas cuja intensidade temiam. Sky era a ordem, a luz polida, a coroa brilhante... e a promessa constante de um abandono disfarçado de virtude.

Jim era o oposto absoluto. Ele era a lama, o ferro enferrujado e o perigo sem disfarces. Era um homem que admitia abertamente sua sede de vingança e poder, mas que, na hora do colapso, não dera meia-volta para consultar um conselho de guerra. Ele ficara. Ele apanhara até sangrar no chão imundo de uma masmorra apenas para mantê-la aquecida.

Ela o detestava por ser tão imprevisível. Ou, ao menos, tentava desesperadamente convencer a si mesma disso. O medo de confiar e ser abandonada novamente queimava em suas entranhas com mais força do que qualquer veneno mágico.

Antes que Bloom pudesse desferir outra réplica cortante, o som de asas estalando no ar quebrou a tensão.

Cinco raios de luz atravessaram a copa dos pinheiros, aterrissando no gramado em frente à varanda com elegância marcial. As Winx estavam de volta.

Stella recolheu as asas Dreamix, descendo os últimos degraus de luz com o rosto tenso, acompanhada por Aisha, Tecna, Musa e Flora. Roxy vinha logo atrás, trazendo nas mãos um mapa astral codificado. As expressões de todas elas não traziam o alívio habitual de uma missão diplomática bem-sucedida; havia a gravidade gélida de quem se prepara para uma guerra sem precedentes.

— Bloom! — exclamou Flora, subindo os degraus da varanda com pressa e segurando as mãos da líder ruiva. A fada da natureza examinou o pulso e os olhos da amiga com alívio imediato. — As flores... a sua energia voltou a florescer com força total. O colapso foi superado.

— Estou inteira, Flora — respondeu Bloom, lançando um olhar de soslaio para Jim, que dera um passo para o lado, reassumindo sua postura fria e distante de espião. — Como foi em Magix? O que o Conselho decidiu?

Tecna acionou o comunicador de pulso, projetando um holograma tático que iluminou o espaço entre eles. Linhas azuis delineavam a geografia corrompida da Terra do Nunca, com marcas vermelhas concentradas ao redor da Árvore da Morte e do Castelo das Sombras.

— Conseguimos o apoio das cortes das fadas terrestres e de um batalhão de elite dos Guardiões de Tir Nan Og — explicou Tecna com firmeza técnica. — Aisha mobilizou as ninfas dos oceanos místicos para bloquear as correntes dimensionais da Terra do Nunca, impedindo que a Rainha envie mais sombras para a Terra. Estamos montando um exército, Bloom. O maior contingente de ataque que já reunimos desde a queda dos Bruxos do Círculo Negro.

— Mas não podemos atacar às cegas — interveio Aisha, a voz decidida e o olhar focado nos pontos estratégicos do mapa. — A Rainha escravizou as almas dos talentos sequestrados para alimentar os núcleos de defesa da fortaleza. Se entrarmos com magia bruta, corremos o risco de destruir a própria essência de Annabelle e dos outros antes que possamos libertá-los.

— Precisamos de uma chave — disse Stella, os braços cruzados sobre a jaqueta cintilante. — Algo que quebre o domínio psíquico que a Rainha exerce sobre a terra. Jim disse que a magia daquele lugar pertencia a Peter Pan antes da queda, mas Peter desapareceu há décadas sem deixar vestígios.

Jim soltou um pigarro áspero, atraindo a atenção de todas as fadas.

— O pirralho voador fugiu como um covarde — rosnou o capitão, os olhos faiscando com um ódio antigo que nenhum disfarce conseguia abafar. — Ele nos condenou à eternidade naquele inferno e bateu asas para o mundo mortal quando as coisas ficaram feias. Vocês estão perdendo tempo procurando por um fantasma.

— Talvez não por um fantasma — declarou Roxy, dando um passo à frente e estendendo uma pasta de couro antiga, selada com fitas escuras. — Enquanto vocês estavam na masmorra, eu e Musa fomos até Londres. Seguimos o rastro que a equipe do *World of Winx* mapeou nos antigos registros da família Darling.

Bloom franziu as sobrancelhas, aproximando-se da amiga mais jovem.

— Wendy Darling? Ela ainda está viva?

— Frágil, cega e vivendo em uma casa de repouso nas colinas de Kensington — respondeu Musa, a voz carregada de uma tristeza silenciosa. — Ela mal se lembrava do próprio nome... mas quando Stella usou um feitiço de ressonância de memória pura, o nome de Peter quebrou a névoa mental da velhice. Ela estava guardando isto há mais de cinquenta anos.

Roxy abriu a pasta. Dentro repousava uma folha de papel amarelada pelo tempo, com as bordas corroídas pela umidade, mas cuja caligrafia apressada e rebelde ainda brilhava com resíduos quase imperceptíveis de pó estelar.

Bloom pegou a carta com cuidado, sentindo o ardor suave da magia residual contra as pontas de seus dedos.

Jim, apesar de seu escárnio fingido, não conseguiu conter o impulso. Ele deu dois passos largos à frente, postando-se logo atrás do ombro de Bloom, os olhos cravados nas linhas escritas no papel antigo. O cheiro dele — maresia, couro e tabaco amargo — envolveu a ruiva novamente, mas desta vez ela não o empurrou. A gravidade da descoberta suplantara qualquer disputa pessoal.

— Leia em voz alta — murmurou Jim, a voz tensa, a mandíbula tão cerrada que os músculos de seu rosto saltavam sob a pele.

Bloom limpou a garganta e começou a ler:

— *“Minha querida Wendy... Eu não posso mais voltar. O pó de fada não funciona mais nas minhas veias porque eu escolhi o caminho que jurei jamais seguir: eu cresci. O tempo me alcançou, e com ele vieram as dores do mundo dos homens. A Terra do Nunca está perdida nas mãos daquela que eu amei e traí, e o preço do meu erro foi alto demais. Mas a luz daquele reino não morreu comigo.”*

A respiração de Jim travou audivelmente. Bloom sentiu o homem tensionar cada músculo atrás dela.

— *“Eu deixo a você a única coisa pura que consegui criar longe das cinzas da ilha. O sangue de Neverland vive nele. O nome dele é Matt. Meu filho. Encontre-o quando as sombras despertarem, Wendy. Ele é o único que carrega a centelha capaz de empunhar a espada e redimir os meus pecados. O herdeiro da Terra do Nunca caminha entre os mortais.”*

Um silêncio aterrador desabou sobre a varanda do chalé.

As Winx entreolharam-se em choque absoluto. Stella levou a mão aos lábios; Aisha franziu a testa em um cálculo rápido de possibilidades estratégicas, e Flora suspirou com a dor implícita nas palavras do antigo menino que se recusava a crescer.

— Peter Pan... teve um filho? — murmurou Roxy, os olhos arregalados. — O herdeiro da coroa esquecida é um humano na Terra?

— Matt... Matt Barrie — disse Tecna, digitando furiosamente em seu console digital, cruzando bancos de dados genealógicos terrestres e frequências arcanas. — Se Peter adotou uma identidade mortal em Londres durante o último século, os registros civis devem ter o rastro desse garoto. Ele não sabe quem é... a Rainha deve estar caçando-o sem nem mesmo entender o que procura!

Mas Bloom não estava olhando para os mapas holográficos ou para as amigas.

Ela virou o rosto para trás, fitando Jim diretamente.

O corsário parecia ter sido atingido por uma bala de canhão em pleno peito. A arrogância habitual, o cinismo aristocrático, a máscara de pirata imbatível... tudo havia ruído sob o peso de uma verdade devastadora. Os olhos azul-violetas estavam desvairados, fixos na carta que Bloom segurava.

Peter Pan não era mais o garoto etéreo que voava zombeteiramente sobre as velas de seu navio. Ele envelhecera. Sofrera. Amara uma mortal, sangrara como um homem comum e morrera longe de seu reino mítico, deixando para trás um herdeiro de carne e osso.

O ódio de séculos de Jim contra Peter Pan perdera o seu alvo original. O homem que ele jurara estripar em alto-mar já havia virado pó na terra fria de um cemitério londrino.

— Um filho... — sibilou Jim, a voz quebrando em uma nota áspera de incredulidade e fúria latente. — Aquele desgraçado me aprisionou na juventude eterna de um pesadelo... e fugiu para criar uma família?

— Jim... — começou Bloom, tocando suavemente o braço dele, surpresa consigo mesma pela necessidade súbita de conter o impacto daquela revelação na mente do homem.

O corsário arrancou o braço do toque dela, os olhos faiscando com um perigo renovado. Ele encarou as fadas reunidas, depois cravou o olhar na ruiva com uma determinação fria e cortante.

— Se aquele pirralho carrega o sangue de Peter Pan, ele é a chave para abrir os portões do coração da Terra do Nunca — declarou Jim, a voz ríspida ecoando como um veredicto de guerra. — A Rainha não pode tocar no herdeiro legítimo sem que a própria terra a rejeite. Nós encontramos o garoto antes das sombras dela... ou não haverá reino algum para vocês salvarem.

Bloom guardou a carta no bolso interno de sua jaqueta, sustentando o olhar feroz do capitão. Ela viu a tempestade que rugia dentro dele — a dor da vingança roubada misturada à ambição voraz de comandar o mundo que lhe fora negado.

Ele ainda era perigoso. Ainda era um traidor em potencial que usaria qualquer um para alcançar seus fins.

E, no entanto, enquanto os olhares dos dois se cruzavam no silêncio tenso da manhã, Bloom sentiu a Chama do Dragão rugir em seu peito, não com medo, mas com a certeza inescapável de que, para encontrar o filho de Peter Pan e derrubar a Rainha, ela e Jim estavam condenados a queimar juntos na mesma fogueira.

— Preparem o transporte — ordenou Bloom, a voz de líder soando inabalável enquanto assumia o comando da operação. — Nós vamos para Londres. É hora de encontrar Matt Barrie.

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