Bloom x Jim
Entre Cinzas, Vinho e Pecados
A chuva de Londres batia ritmada contra as claraboias de ferro fundido do galpão abandonado em Southwark. O cheiro de fuligem, óleo de motor e rio Tâmisa pairava denso no ar, mas dentro daquele espaço cavernoso, o silêncio era cortado apenas pela respiração pesada do rapaz que acabara de ter o mundo virado do avesso.
Matt Barrie estava encostado em uma bancada de marcenaria, as mãos trêmulas cobertas por lascas de madeira e serragem. Seus olhos castanhos, arregalados e assombrados, alternavam-se entre a carta antiga que Roxy lhe entregara e a chama dourada que flutuava, mansa e hipnótica, na palma da mão estendida de Bloom.
— Isso é loucura... — murmurou o jovem, a voz falhando em um nó na garganta. — Meu pai era um relojoeiro, um homem comum que morreu quando eu ainda era um moleque. Ele nunca me falou de fadas, de ilhas mágicas ou de guerras dimensionais. Ele só... foi embora.
— Ele não foi embora por fraqueza, Matt — disse Bloom, dando um passo suave à frente. A fada ruiva não vestia sua armadura Dreamix; usava uma jaqueta de couro surrada e jeans, mas a nobreza de sua postura era inconfundível. — Ele fugiu para manter você a salvo da escuridão que tomou o mundo dele. A Terra do Nunca está morrendo nas mãos de uma rainha corrompida. Ela sequestrou pessoas inocentes, talentos que não têm como se defender... e ela está procurando por você.
Matt engoliu em seco, olhando para Stella, Aisha e Roxy, que guardavam as entradas com posturas tensas de vigília.
— E o que vocês esperam que eu faça? Eu não tenho magia! Eu conserto relógios e tento pagar o aluguel dessa oficina imunda!
— Você carrega o sangue do homem que forjou as regras daquele reino — cortou uma voz fria e cortante das sombras do mezanino.
Jim desceu a escada de ferro com passos lentos, os saltos das botas estalando contra as vigas. O pirata trazia um sobretudo escuro fechado até a metade do peito, as mãos enterradas nos bolsos e os olhos azul-violetas cravados no garoto com uma intensidade que beirava a crueldade.
Matt recuou instintivamente. Havia algo de predador naquele homem de traços aristocráticos e cabelos azulados; algo que parecia arrancado de um pesadelo esquecido de sua infância.
— Você tem o maxilar dele — sibilou Jim, parando a um metro de distância do rapaz. O pirata examinou o rosto de Matt com um escárnio amargo, mas seus punhos estavam cerrados tão fortemente dentro dos bolsos que as articulações protestavam. — A mesma postura arrogante e os ombros desleixados. O grande Peter Pan reduziu sua linhagem a um órfão com medo da própria sombra.
— Não fale do meu pai como se o conhecesse! — rebateu Matt, a centelha de orgulho mortal faiscando em seus olhos.
— Eu o conheci tempo suficiente para ver o quanto ele era um desgraçado mentiroso — retrucou Jim, a voz descendo a um rosnado áspero. — Ele nos abandonou. Jogou o pó de fada ao vento, deixou uma ilha inteira apodrecer sob a ganância daquela vadia coroada e veio para este chiqueiro esquecido por Deus para brincar de ser mortal. Ele foi um covarde.
— Jim, basta! — ordenou Bloom, colocando-se firmemente entre os dois homens.
A fada ruiva encarou o corsário com um olhar carregado de aviso, mas por baixo da frieza de Jim, Bloom viu a fenda em sua armadura. Os olhos dele não estavam apenas furiosos; estavam febris, desordenados por um tumulto emocional que o capitão lutava desesperadamente para sufocar.
Bloom virou-se novamente para o garoto, segurando-lhe os ombros com uma doçura firme.
— O seu pai fez escolhas difíceis, Matt, mas ele deixou a chave para reparar os erros dele com você. Nós vamos protegê-lo, mas precisamos que você venha conosco. Não pela lenda do Peter Pan... mas pelas vidas que dependem de nós.
Matt olhou para a carta uma última vez, depois para a fada cujos olhos azuis transmitiam uma coragem que ele nunca vira em ninguém. Ele soltou um suspiro trêmulo e assentiu.
— Tudo bem. Eu vou com vocês.
***
Horas depois, o silêncio finalmente reinou no esconderijo provisório que Stella conseguira em um sótão antigo no coração de Camden Town.
Aisha e Roxy haviam escoltado Matt para um abrigo subterrâneo sob a tutela dos Guardiões de Tir Nan Og, onde ele receberia treinamento básico com armas e proteção mágica contra os espiões da Rainha. Stella, Flora e Musa tinham ido até o centro dimensional de Londres para alinhar as coordenadas do portal que abririam na noite seguinte.
Ficaram apenas Bloom e Jim.
O capitão estava parado diante da janela de vidro fosco, com as costas apoiadas na parede e uma garrafa pela metade na mão direita. Ele não bebia; apenas fitava o horizonte cinzento e úmido da cidade, onde os postes de gás começavam a piscar na névoa londrina.
A mente de Jim era um mar revolto em meio a uma tempestade sem estrelas.
A revelação de que Peter tivera um filho corroía suas entranhas. O pirata passara séculos alimentando seu ódio por um garoto que voava e zombava de homens condenados à velhice e ao mar. Ele chamava Peter de covarde por ter fugido... mas o veneno amargo que queimava em seu estômago era a inveja.
Peter tivera a coragem de escolher. Tivera a coragem de renunciar à ilusão fútil da juventude eterna, de permitir que o tempo marcasse sua pele, de amar uma mulher de carne e osso até o fim e de deixar uma semente viva no mundo real. Enquanto isso, ele, o Capitão Jones, permanecera acorrentado à Terra do Nunca, amargando uma juventude artificial, transformando-se em um fantasma violento que vivia de restos de vingança.
O barulho de uma caixa de papelão sendo aberta na mesa de centro arrancou-o de seus pensamentos escuros.
— Se você continuar encarando a rua desse jeito, os guardas da Rainha vão achar que você virou uma gárgula de telhado — disse Bloom, a voz ecoando com uma tranquilidade forçada.
Jim virou o rosto devagar.
A ruiva estava sentada de pernas cruzadas no tapete surrado, vestindo uma camisa de flanela xadrez folgada que pertencia a ele, cobrindo-lhe até a metade das coxas nuas. Sobre a mesa baixa de madeira, repousavam uma caixa de pizza de calabresa ainda fumegante — uma herança indiscutível dos hábitos mundanos de Gardênia — e duas taças de vidro grosso ao lado de uma garrafa de vinho tinto barato.
O corsário arqueou uma sobrancelha, os olhos azul-violetas deslizando pela pele alva das pernas dela antes de subirem para o rosto desafiador da fada.
— Pizza e vinho de taberna? — zombou ele, a voz ríspida tentando reconstruir o muro de cinismo. — Esse é o seu grande ritual pré-guerra, majestade? Eu esperava banquetes de néctar e cantos élficos.
— Fadas de verdade comem queijo gorduroso quando estão estressadas — rebateu Bloom, enchendo uma das taças até a borda e empurrando-a na direção dele. — Venha comer, Jim. E pare de agir como se estivesse prestes a quebrar o pescoço do primeiro que cruzar o seu caminho.
Jim hesitou. A arrogância o mandava dar as costas e desaparecer nas docas, mas o aroma quente da comida e, acima de tudo, o convite tácito na postura dela quebraram sua resistência. Ele caminhou até a mesa e sentou-se no chão de tábuas corridas, a poucos centímetros de Bloom, cruzando as pernas e largando sua garrafa velha para pegar a taça que ela lhe oferecia.
Ele bebeu um longo gole. O vinho era áspero, seco, queimando na garganta como lixa — exatamente o que ele precisava.
— O pirralho não vai aguentar dez minutos naquela ilha — murmurou Jim, pegando um pedaço de pizza com indiferença forçada. — Peter era ágil, desgraçado, escorregadio feito enguia. O filho dele tropeça nos próprios pés e treme quando ouve trovões.
— Ele nunca foi treinado para ser um herói — respondeu Bloom suavemente, mordendo a sua fatia. — Ele foi criado como um humano normal. Eu sei exatamente como ele se sente.
Jim parou com a taça a meio caminho dos lábios, fitando-a com aquele olhar denso que sempre fazia a respiração de Bloom vacilar.
— Não compare a sua história com a dele, Bloom. Você descobriu que era uma deusa e decidiu incendiar o mundo para salvar quem amava. O garoto só quer voltar para a bancada de madeira dele.
— Ele vai lutar porque é a coisa certa a fazer. Assim como Peter fez quando nos deixou aquela carta.
— Peter foi um egoísta! — cuspiu Jim, a raiva finalmente rompendo a contenção. Ele bateu a taça contra a mesa com força excessiva, derramando algumas gotas rubras sobre a madeira. — Ele brincou de ser rei da Terra do Nunca enquanto era conveniente. Quando a ilha começou a ruir sob o peso das sombras que ele próprio atraiu com a vaidade dele, ele nos deixou para trás! Deixou a tripulação dele, deixou as fadas, me deixou preso com aquela mulher hedionda... para vir para cá e viver uma vida patética de mortal!
— É isso que você realmente acha? — perguntou Bloom, a voz descendo a um sussurro calmo que contrastava brutalmente com a fúria dele.
Ela abandonou a comida, inclinando-se para a frente, diminuindo a distância até que seus joelhos roçassem os dele.
— Do que você está falando? — rosnou o capitão.
— Você não tem raiva porque ele foi egoísta, Jim — disse ela, os olhos azuis cravando-se nos dele com uma lucidez desarmante. — Você tem inveja. Você odeia o Peter porque ele teve a coragem de abrir mão da magia. Ele teve a coragem de envelhecer, de amar alguém de verdade e de sangrar como homem, enquanto você preferiu continuar preso a uma vingança oca, fingindo que este veneno de juventude eterna é uma bênção.
As palavras caíram sobre Jim como lâminas em brasa.
O maxilar do corsário travou. A respiração dele tornou-se pesada, e por um instante terrível, Bloom pensou que ele fosse erguer a mão contra ela. O ar ao redor dos dois estalou com uma eletricidade perigosa — a tensão acumulada de dias de cativeiro, toques clandestinos na escuridão da cela e o beijo febril que a arrancara da morte.
— Você fala demais, ruiva — sibilou ele, a voz rouca, vibrando de um perigo primitivo. — Você acha que me conhece porque viu fragmentos da minha mente? Você não sabe nada sobre o que é viver séculos sem um porto seguro.
— Então me mostre — desafiou Bloom, a teimosia lendária de Domino brilhando em suas íris. Ela não recuou um milímetro. — Pare de fugir para trás dessa máscara de pirata maldito e admita que você está apavorado.
Jim soltou um riso curto, amargo e selvagem.
Em um movimento súbito e predatório, ele largou a taça no chão e avançou. Suas mãos calejadas agarraram a cintura de Bloom, puxando o corpo dela sobre as pernas dele com uma força bruta que arrancou um suspiro entrecortado dos lábios da fada. A caixa de pizza e as taças foram empurradas para o lado no tapete quando Jim a prensou contra o assoalho de madeira, debruçando-se sobre ela como uma tempestade escura.
— Você gosta de brincar com fogo, centelha — murmurou ele, o rosto a centímetros do dela. O hálito dele cheirava a vinho tinto e desafio cru. — Mas se esquece de que piratas não sabem como apagar incêndios. Eles apenas saqueiam o que encontram.
— Então saquearia a fada errada, capitão — retrucou Bloom, a voz trêmula, mas não de medo.
O calor do corpo dele esmagando o seu enviava correntes elétricas direto para o seu ventre. A fada ergueu as mãos e, em vez de empurrá-lo, cravou os dedos nos cabelos azul-violetas da nuca dele, puxando-o para baixo.
O impacto de suas bocas foi uma colisão violenta de dentes, lábios e fúria contida.
Jim tomou os lábios dela com a fome de um homem ressecado que finalmente encontra água no deserto. Não havia delicadeza cortesã em seu beijo; sua língua invadiu a boca de Bloom com autoridade possessiva, saboreando o gosto doce e ardente da fada, misturado ao vinho barato que ambos haviam bebido. Bloom arqueou as costas contra o chão duro, soltando um gemido abafado contra a boca dele enquanto respondia com a mesma voracidade selvagem, cravando as unhas nas costas largas do pirata através do linho de sua camisa.
O ar no sótão tornou-se espesso, sufocante de desejo.
As mãos de Jim abandonaram o chão e deslizaram para as pernas expostas de Bloom. A aspereza dos dedos calejados do marinheiro contra a pele macia de suas coxas arrancou arrepios violentos na ruiva. Ele subiu as mãos devagar, erguendo a barra da camisa de flanela, traçando o contorno dos quadris dela com uma precisão febril que fazia a fada estremecer sob o seu peso.
— Jim... — murmurou ela entre beijos sôfregos, os lábios vermelhos e inchados, as mãos descendo febris pelo peito musculoso dele, tateando as cicatrizes que ele ganhara por defendê-la.
Jim desceu a boca para o maxilar dela, mordiscando a linha sensível de seu pescoço até encontrar o ponto pulsante onde o sangue dela corria quente. Bloom jogou a cabeça para trás, enterrando os dedos nos ombros dele, o peito subindo e descendo em arfadas descompassadas. O calor que emanava do centro de seu ventre não era a Chama do Dragão; era a necessidade pura, feminina e desmedida daquele homem imperfeito, perigoso e irresistível.
O capitão levou a mão livre à fivela do próprio cinto, o metal tilintando na penumbra do quarto enquanto seu corpo pressionava o quadril dela contra o assoalho, deixando dolorosamente clara a rigidez de seu desejo por ela. Bloom deslizou uma das mãos para a cintura dele, pronta para desfazer os últimos nós que os separavam da entrega total.
Foi quando os olhos de Jim encontraram os dela.
No fundo daquelas íris azuis, o pirata viu a entrega febril, mas viu também a vulnerabilidade nua de uma mulher que estivera à beira da morte há poucos dias; uma mulher que carregava o peso de mundos inteiros e que buscava, naquele embate físico, esquecer por algumas horas a guerra que os aguardava na manhã seguinte.
A mente de Jim clareou com a violência de uma onda gelada quebrando na proa.
Ele era um mentiroso, um traidor e um pirata amargo. Ele ainda tinha contas a acertar com a Terra do Nunca, ainda não sabia se sairia vivo do confronto com a Rainha, e sabia perfeitamente que, se a tomasse por inteiro ali, na pressa desesperada de uma noite chuvosa em um chão empoeirado, ele a estaria reduzindo a um saque de oportunidade.
E, pelos infernos, Bloom não era uma conquista qualquer. Ela era a única criatura em três séculos que o fizera sentir-se vivo de verdade.
Com a respiração rascante e os músculos tremendo sob o esforço de conter a própria luxúria, Jim segurou os pulsos de Bloom e os imobilizou contra a madeira, interrompendo o movimento dela em direção às suas roupas.
— Não... — rosnou ele, a voz saindo rouca, sufocada por uma agonia visceral de abstinência.
Bloom piscou, a visão turva pelo prazer e pela confusão, encarando-o com os olhos dilatados.
— O quê...? — murmurou ela, o peito arfando violentamente sob o dele. — Jim...
— Ainda não, centelha — disse ele, a mandíbula tão tensa que os dentes rangiam. O suor brilhava em sua testa enquanto ele apoiava o peso nos cotovelos para não esmagá-la. — Se nós formos até o fim com isso agora... vai ser na lama de Londres, no meio do medo e do desespero de uma guerra iminente. E eu não sou um dos seus príncipes mimados que aceita migalhas de consolo.
Bloom sentiu uma onda de frustração e orgulho ferido queimar em suas bochechas.
— Eu não estou oferecendo consolo! — disparou ela, tentando puxar os pulsos, mas o aperto dele era como ferro forjado.
— Eu sei o que você está fazendo — rebateu ele, os olhos azul-violetas faiscando com uma ternura sombria e inesperada que a desarmou por completo. Ele soltou um dos pulsos dela e levou os nós dos dedos ao rosto da fada, acariciando sua bochecha ardente com uma lentidão torturante. — Você quer queimar para não ter que pensar no amanhã. Mas quando você for minha por inteiro, ruiva... não vai ser para esquecer nada. Vai ser no meu convés, sob o céu da minha terra, e com você totalmente ciente do homem perigoso que escolheu.
As palavras deixaram Bloom sem fôlego. O coração dela martelava descompassado contra as costelas.
Mas Jim não se afastou.
O sorriso torto, diabólico e perverso voltou a desenhar seus lábios escuros.
— Mas isso não significa que eu vou deixar você dormir com essa febre nos olhos — sussurrou ele, a voz descendo a um tom aveludado que fez o baixo-ventre de Bloom contrair em espasmos de pura expectativa.
Antes que ela pudesse formular uma resposta, Jim deslizou o corpo para baixo sobre o tapete.
Suas mãos firmes seguraram as coxas de Bloom, abrindo-as sem pressa, expondo a pele macia à frieza do ar da sala. A ruiva prendeu a respiração quando as mãos grandes e calejadas do corsário subiram lentamente pelas suas pernas, puxando a calcinha de renda fina para o lado com a destreza calculada de quem dominava cada corda de um navio.
— Jim... — o nome escapou como uma súplica rouca quando a boca quente dele pousou na parte interna de sua coxa, beijando e mordiscando a pele sensível em um ritmo que fez os dedos dela enterrarem-se desesperados nos cabelos azulados dele.
— Fique quieta, majestade — murmurou o pirata contra a pele úmida dela, o hálito quente provocando arrepios incontíveis. — Deixe que o pirata cuide dos detalhes.
Quando a língua áspera e experiente de Jim encontrou o ponto exato de seu prazer mais íntimo, Bloom arqueou o corpo inteiro para fora do chão, soltando um gemido longo e desavergonhado que ecoou pelas vigas do sótão.
Ele foi impiedoso. Jim usou a boca e os dedos em uma sinfonia deliberada de toques lentos e pressões calculadas, levando-a até a beirada do abismo apenas para recuar e fazê-la implorar em sussurros desconexos. Bloom puxava as roupas dele, retorcia-se contra o assoalho e perdia qualquer resquício de compostura diante daquele homem que parecia saber exatamente como incendiá-la sem precisar de feitiço algum.
Quando a onda avassaladora do clímax finalmente a atingiu, foi como uma detonação de luz dourada em sua mente.
Bloom gritou o nome dele contra o silêncio da noite londrina, as pernas tremendo espasmódicas ao redor dos ombros fortes de Jim, enquanto o calor a inundava em ondas sucessivas de alívio e êxtase absoluto.
Jim permaneceu ali até que o último tremor abandonasse o corpo da fada.
Lentamente, ele subiu de volta pelo corpo dela, limpando o canto da boca com as costas da mão com aquele escárnio arrogante que agora parecia infinitamente mais íntimo. Ele deitou-se ao lado dela sobre o tapete surrado, puxando o corpo exausto e trêmulo de Bloom para o seu peito, cobrindo ambos com seu sobretudo pesado.
Bloom afundou o rosto na curva do pescoço dele, ouvindo a pulsação forte e ritmada do coração do capitão. Ela ainda tremia, o gosto de vinho e pecado nos lábios, as mãos repousando sobre as cicatrizes que ele carregava.
— Você é um desgraçado insuportável — murmurou ela, a voz fraca, mas carregada de uma paz que não sentia há semanas.
Jim soltou uma risada baixa, os dedos perdendo-se entre os fios ruivos da fada, segurando-a contra si enquanto a chuva lá fora finalmente começava a diminuir.
— E você é a fada mais teimosa que já cruzou o meu caminho, centelha. Agora durma. Amanhã nós vamos tomar a Terra do Nunca de volta.
Sob o peso do sobretudo escuro e o calor daquele pirata perigoso, a Guardiã da Chama do Dragão fechou os olhos, sabendo que a guerra que os esperava seria sangrenta — mas que, pela primeira vez em muito tempo, nenhum dos dois estaria queimando sozinho no escuro.