Burn it
Catalisadores Tóxicos
A névoa matinal cobria os arranha-céus de Seul com um manto cinzento e pesado quando Jimin desceu do carro no estacionamento subterrâneo do Instituto de Biotecnologia e Pesquisa Celular Avançada. O ar ali embaixo era frio, com cheiro de concreto úmido e combustível queimado.
Jimin ajustou a alça da mochila de couro sobre o ombro esquerdo. Ele usava uma camisa social preta sob um casaco longo de lã cinza-chumbo, impecavelmente alinhado, contrastando com os cabelos loiros divididos com rigor cirúrgico. Olhando para ele, ninguém diria que, poucas horas antes, aquele mesmo rapaz estivera trancado em uma sala subterrânea secreta, assistindo a registros confidenciais e alimentando uma excitação doentia ao observar a devassidão de seu professor.
Tudo aquilo havia sido devidamente trancado atrás da parede falsa de mogno. Jimin tinha uma capacidade quase inumana de compartimentar suas obsessões. O que pertencia ao domínio de sua vingança ficava nas sombras; no mundo visível, ele era apenas Park Jimin: frio, imperturbável, inalcançável.
Ele subiu pelo elevador privativo até o quarto andar, onde ficavam os laboratórios de contenção e síntese celular. As portas de aço escovado se abriram para um corredor asséptico, iluminado por painéis brancos contínuos no teto. O zumbido dos sistemas de purificação de ar criava uma atmosfera estéril, quase hospitalar.
Jimin caminhou em direção à recepção do bloco de pesquisa, mas seus passos desaceleraram milimetricamente quando avistou a figura parada junto à vidraça da sala de descompressão.
Jeon Jungkook já estava lá.
O professor vestia uma calça escura de alfaiataria e uma camisa preta de botões com as mangas dobradas na altura dos cotovelos, revelando as tatuagens detalhadas que serpenteavam por seus antebraços grossos. Um jaleco branco de tecido pesado estava aberto sobre seus ombros largos, conferindo-lhe uma aura que oscilava entre a sofisticação de um pesquisador brilhante e a truculência de alguém que claramente não pertencia aos moldes tradicionais da academia. Ele segurava uma prancheta metálica em uma das mãos e um copo de café fumegante na outra.
Ao ouvir o som dos sapatos de Jimin contra o piso vinílico, Jungkook ergueu os olhos.
Um brilho perigoso, cínico e avaliador reluziu nas íris escuras do homem mais velho. O olhar de Jeon desceu lentamente pelo corpo de Jimin — notando o porte esguio, porém musculoso sob as roupas caras — antes de retornar ao rosto impassível do aluno.
— Pontual — Jungkook disse, a voz grave quebrando a monotonia do zumbido mecânico. Ele deu um gole no café, sustentando o contato visual. — Achei que herdeiros mimados tivessem dificuldade para acordar antes das sete.
— Eu não me atraso — Jimin respondeu, parando a dois passos de distância, mantendo a postura ereta e a expressão vazia de qualquer emoção. — E eu não desperdiço tempo, professor Jeon.
Jungkook soltou um meio sorriso sarcástico, curvando os lábios cheios de forma provocadora.
— Vamos ver se essa sua arrogância sobrevive às exigências deste lugar. O diretor da divisão já assinou sua credencial provisória com base na minha recomendação. O dez perfeito abriu as portas, Park. Mas mantê-las abertas depende de você não fazer nenhuma merda aqui dentro.
— Minhas fórmulas nunca falham — retrucou Jimin com tranquilidade cortante. — Quem costuma se descuidar com laudos e perdas de reagentes é você.
O maxilar de Jungkook travou por uma fração de segundo, os olhos faiscando com a menção velada às adulterações que Jimin descobrira no campus. Contudo, em vez de recuar ou demonstrar irritação, Jungkook deu um passo à frente, diminuindo o espaço entre eles.
A presença do professor era esmagadora, carregada por aquele aroma característico de tabaco, café amargo e cedro que agora, para o desespero velado de Jimin, disparava gatilhos muito específicos em sua memória recente. Jimin manteve o queixo erguido, recusando-se a recuar um milímetro sequer, embora seu peito se tensionasse sob o tecido da camisa social.
— Aqui dentro, Jimin, nós trabalhamos com linhagens de cultivo celular instáveis — Jungkook murmurou, o tom descendo para um sussurro que apenas o loiro podia ouvir. — Se você tentar brincar de hacker ou de justiceiro nas instalações do conselho, não vai ser uma advertência que você vai receber. Entendeu bem?
— Eu vim trabalhar na síntese de bloqueadores mitocondriais — Jimin respondeu, sustentando o olhar escuro do homem com uma firmeza congelante. — Suas preocupações paranoicas não me interessam. Mostre-me a bancada.
Jungkook sustentou a troca de olhares por mais alguns segundos intermináveis, saboreando a tensão que vibrava entre eles como um fio desencapado. Havia uma hostilidade palpável, uma necessidade mútua de não ceder o comando, mas, sob essa casca de ódio e cinismo, começava a se enraizar uma atração proibida e claustrofóbica. Jungkook achava a audácia de Jimin fascinante; Jimin achava a insolência de Jungkook um desafio que ele pretendia dissecar até os ossos.
— Vira essa cara feia e coloca o jaleco — Jungkook disse por fim, virando-se sobre os calcanhares e caminhando em direção à câmara de esterilização. — O protocolo de assepsia não espera por ninguém.
Jimin seguiu o professor para o vestiário anexo. Em silêncio, ambos passaram pelo processo de desinfecção, vestiram os jalecos brancos com fecho hermético e calçaram luvas de nitrilo preto.
O laboratório principal era uma obra-prima de engenharia biomédica. Bancadas de inox reluziam sob lâmpadas germicidas, capelas de exaustão de alta precisão ocupavam as extremidades e incubadoras de dióxido de carbono mantinham em temperatura constante as placas com culturas celulares raras.
— Nossa tarefa inicial é purificar os compostos carreadores para os testes de permeabilidade de membrana — Jungkook explicou, aproximando-se da bancada central onde diversos frascos de reagentes graduados estavam dispostos. Ele pegou uma micropipeta automática, ajustando o volume com os polegares habilidosos. — É um procedimento delicado. A reação exotérmica do solvente pode desestabilizar os lipossomos se a temperatura passar de quatro graus.
— Eu conheço a cinética da reação — Jimin cortou, posicionando-se do outro lado da bancada de metal. Ele puxou uma grade com tubos de ensaio de fundo cônico e começou a rotulá-los com caligrafia milimétrica. — O tampão fosfato precisa ser adicionado gota a gota sob agitação magnética contínua, caso contrário a precipitina destrói a camada de fosfolipídios.
Jungkook parou o que estava fazendo, erguendo os olhos para o rapaz.
— Não precisa recitar o manual para mim, pirralho. Eu quero ver você fazer isso com a mão firme. A teoria no papel é confortável; a prática com reagentes que custam o salário de um reitor exige nervos de aço.
— Meus nervos são perfeitamente estáveis — Jimin disse, pegando a solução de lipídios com movimentos fluidos e precisos.
Por quase duas horas, o laboratório mergulhou em um silêncio concentrado, quebrado apenas pelo clique dos pipetadores e pelo zumbido dos banhos ultrassônicos. Jimin trabalhava com uma eficiência assustadora. Não havia movimentos desperdiçados, nem hesitações. Seus dedos longos, protegidos pela borracha preta, manipulavam vidrarias caríssimas com a frieza de quem executava uma cirurgia de rotina.
Jungkook o observava pelo canto do olho. O professor tentava manter o foco na calibração do espectrofotômetro, mas era difícil desviar a atenção da presença magnética de Park Jimin. O loiro parecia uma escultura sob as luzes brancas: a linha forte da mandíbula, o pescoço pálido e definido exposto pela gola do jaleco, os ombros largos sustentando o tecido com uma imponência que contradizia sua condição de estudante.
Havia algo extremamente perturbador na tranquilidade de Jimin. Jungkook já havia lidado com dezenas de alunos promissores, mas nenhum deles possuía aquele vazio nos olhos — aquele distanciamento clínico que fazia parecer que o mundo ao redor não passava de uma simulação irrelevante.
E, ainda assim, na noite anterior, aquele mesmo garoto o havia empurrado contra a mesa com uma força brutal, ameaçando-o com segredos que deveriam estar enterrados a sete chaves.
*Quem é você de verdade, Park?*, Jungkook pensou, sentindo uma pontada de irritação e um calor incômodo subindo pela espinha. *E que tipo de segredo você está guardando por trás dessa cara de filho da puta intocável?*
— O solvente está pronto para a infusão do catalisador — a voz de Jimin soou, clara e baixa, cortando os devaneios de Jungkook.
O loiro estava diante da capela de fluxo laminar, segurando um balão volumétrico que continha uma solução densa e translúcida. O composto era instável; uma oscilação mecânica brusca durante a adição do ácido diluído poderia iniciar uma reação em cadeia de decomposição rápida, liberando vapores tóxicos.
Jungkook aproximou-se, parando imediatamente atrás de Jimin.
A proximidade física foi quase instantânea. O peito largo do professor quase encostava nas costas de Jimin, e o calor que irradiava do corpo do homem mais velho era palpável, mesmo através das camadas de tecido.
Jimin sentiu a respiração pesada de Jungkook contra sua nuca e seus músculos travaram por um milésimo de segundo. Uma onda súbita e violenta de calor percorreu suas veias, trazendo de volta à tona a lembrança gráfica das câmeras de vigilância: Jungkook ofegante, sem camisa, a pele tatuada coberta de suor, a virilidade exposta em movimentos crus e primitivos.
Jimin apertou os dedos ao redor do gargalo do balão de vidro, forçando sua mente a manter o controle estrito sobre seus batimentos cardíacos. Ele não podia vacilar. Não na frente dele.
— Não hesite agora — Jungkook murmurou, a voz grave ressoando perigosamente perto da orelha de Jimin. O hálito quente do professor roçou na pele clara do loiro, arrepiando os finos pelos de seu pescoço. — Se o gotejamento for muito rápido, o gradiente de pH quebra a emulsão.
— Eu sei o que estou fazendo — Jimin respondeu, mantendo a voz tão uniforme quanto uma linha reta em um monitor cardíaco. — Dê um passo para trás. Você está invadindo meu espaço de manipulação.
Em vez de recuar, Jungkook deu meio passo à frente.
Seu quadril roçou levemente nas costas de Jimin, e o professor estendeu o braço direito, envolvendo o espaço do aluno até alcançar a base do suporte de bureta. A pele de seu antebraço tatuado, visível acima da luva, quase tocou a lateral do rosto de Jimin.
— O protocolo deste laboratório exige dupla checagem na adição de catalisadores classe três — Jungkook disse, o tom deliberadamente baixo, áspero, carregado de uma provocação que nada tinha a ver com normas técnicas. Ele posicionou sua mão com a luva preta logo acima da mão de Jimin, guiando a válvula de fluxo. — Vamos fazer isso juntos, Park. A menos que você tenha medo de dividir o controle.
Jimin virou o rosto milimetricamente para o lado. Os olhos escuros e afiados de Jungkook estavam a menos de dez centímetros dos seus. O contraste entre os dois era elétrico: o loiro aristocrático, gélido e metódico contra o moreno rebelde, imponente e selvagem. A tensão no ar tornou-se tão densa que parecia exigir um esforço físico para respirar.
Por um breve segundo, Jimin encarou os lábios de Jungkook. Uma vontade inexplicável e corrosiva de quebrar aquela distância, de testar a consistência daquela boca atrevida com a mesma violência com que se enfrentavam verbalmente, cruzou seus pensamentos como um raio. Era uma atração suja, disfuncional, que Jimin odiava sentir.
Jungkook, por sua vez, sentiu o pulso acelerar sob o próprio peito. Ele viu a sombra de perturbação nos olhos castanhos de Jimin antes que o rapaz conseguisse escondê-la novamente sob sua máscara de gelo. Havia um magnetismo irracional ali, um impulso cego que o instigava a segurar a nuca daquele garoto insolente e forçá-lo a abandonar aquela compostura arrogante de uma vez por todas.
Mas nenhum dos dois deu o braço a torcer. Nenhum dos dois cometeria o erro de assumir o desejo que os corroía por dentro.
— Eu não divido controle com ninguém — Jimin sussurrou, a voz cortando a pouca distância entre suas bocas como uma lâmina fria. — E muito menos com você.
Com um movimento preciso e deliberado, Jimin abriu a torneira de teflon da bureta com a ponta dos dedos livres, ignorando a mão de Jungkook que pairava sobre a sua.
A primeira gota do catalisador caiu no balão.
Uma pequena nuvem de vapor subiu e se dissipou na sucção da capela. A solução mudou de cor gradualmente, passando de um tom turvo para um azul cristalino e brilhante, indicando o sucesso absoluto da estabilização da mistura. O rendimento da reação foi perfeito. Cem por cento de pureza teórica e prática.
Jungkook olhou para a solução estabilizada e depois voltou os olhos para Jimin. O professor recuou um passo lentamente, quebrando o contato físico que parecia prestes a incendiar o ar entre eles, mas o meio sorriso em seus lábios permanecia lá, desafiador e perverso.
— Rendimento impecável — Jungkook admitiu, a voz voltando ao tom formal, embora seus olhos continuassem cravados no aluno com uma intensidade predatória. — Parece que você realmente sabe manipular substâncias perigosas sem queimar as mãos.
Jimin fechou a capela protetora de acrílico com um puxão firme, virando-se de frente para o professor. Ele tirou as luvas de nitrilo preto com calma, uma de cada vez, jogando-as na lixeira de resíduos biológicos.
— Eu sou imune ao que queima os outros, professor Jeon — respondeu Jimin, arrumando a gola de seu jaleco com gestos milimétricos. — Sugiro que você se lembre disso antes de tentar me encurralar novamente.
Jungkook riu baixo, uma risada rouca que ecoou pelas paredes vazias do laboratório avançado. Ele cruzou os braços musculosos sobre o peito, apoiando o peso em uma das pernas, observando o loiro como um enxadrista que acabava de ver o adversário fazer um movimento brilhante, mas fatal.
— Você pode ser imune ao calor, Park — Jungkook disse, sustentando o olhar desafiador com uma segurança inabalável. — Mas nós temos seis meses inteiros de projeto pela frente neste mesmo espaço fechado. E eu duvido muito que você consiga manter essa frieza intacta até o fim do semestre.
Jimin sustentou o olhar escuro de Jungkook por mais um longo instante. Em sua mente, as imagens da sala secreta, os relatórios sobre as fraudes da família Jeon e a memória do corpo viril daquele homem colado ao seu continuavam girando em uma espiral caótica e perigosa.
Jungkook não sabia quem Jimin realmente era. Não sabia que estava sendo vigiado dia e noite. E Jimin garantiria que continuasse sem saber — pelo menos até que o império dos Jeon estivesse em ruínas sob seus pés.
— Nós veremos quem vai perder a frieza primeiro, professor — Jimin murmurou, com um tom de voz assustadoramente calmo.
Sem esperar por uma resposta, Jimin tirou o crachá magnético do bolso, caminhou em passos firmes até a eclusa de saída e empurrou a porta de vidro, deixando para trás o laboratório silencioso e o eco pesado da presença de Jeon Jungkook.