Burn it
Combustão Espontânea
Três semanas haviam se passado desde a alteração forjada daquela nota, mas no universo distorcido de Park Jimin, o tempo não era medido em dias, e sim em graus de saturação. Cada segundo respirando o mesmo oxigênio contaminado que Jeon Jungkook no laboratório avançado vinha drenando qualquer resquício de sanidade que o loiro fingia possuir. Para qualquer observador externo, Jimin era apenas a definição clínica da eficiência: um herdeiro gélido que comparecia às aulas obrigatórias apenas para gabaritar testes teóricos em metade do tempo estipulado, com o único objetivo de acelerar a porra do diploma e sumir dali.
Ele não precisava da faculdade. Precisava do carimbo que ela oferecia para fechar o cerco. Mas a verdade subterrânea, aquela que nem mesmo a muralha de concreto de sua mente conseguia soterrar, era que Jeon Jungkook havia se transformado em uma infecção no seu córtex. Uma obsessão carnal, violenta e doentia que nenhum cálculo matemático conseguia neutralizar.
A manhã cinzenta de quinta-feira começou com o mesmo ritual mecânico de sempre. Jimin levantou-se da cama imensa sem emitir um único som, caminhou até o closet espelhado e ajustou a pulseira de platina do seu Rolex Day-Date ao redor do pulso firme. O tique-taque pesado do relógio suíço ecoava como uma contagem regressiva para um massacre silencioso. Ele vestiu uma calça de alfaiataria preta sob medida e uma camisa de seda grafite, cobrindo o peito definido e os ombros largos que dispensavam qualquer jaqueta acolchoada.
No subsolo da cobertura, o motor de sua Ferrari Roma roncou com um estalo metálico ensurdecedor. Jimin guiou a máquina pelo tráfego de Seul com a agressividade precisa de sempre, as mãos firmes na direção, as pupilas dilatadas enquanto a imagem de Jungkook continuava projetada em sua retina. Ele não dormia direito havia dias. Toda vez que fechava os olhos, enxergava a carne morena, o peito desenhado por tinta preta e o sorriso debochado do professor.
Aquilo não era amor. Jimin não sabia o que era amar, e se soubesse, provavelmente envenenaria o sentimento até a morte. Aquilo era posse territorial em sua forma mais primitiva.
Quando entrou no laboratório de biocélulas no início da tarde, o local estava deserto, exceto pela presença inevitável do docente. O projeto conjunto corria sob sigilo estrito na sala de síntese primária. As persianas metálicas estavam fechadas, bloqueando a luz do dia e deixando o ambiente à mercê das lâmpadas fluorescentes que zumbiam baixo.
Jungkook estava debruçado sobre a bancada de inox, analisando uma série de lâminas sob o microscópio óptico. Vestia uma calça jeans escura surrada, botas pesadas de couro e o jaleco branco característico com as mangas puxadas até a dobra dos cotovelos, revelando os dragões e arabescos negros que cobriam seus antebraços grossos. O homem exalava o cheiro de sempre: tabaco caro misturado a café amargo e um toque adstringente de acetona.
Ao ouvir o clique da porta pesada se trancando, Jungkook não se virou de imediato. Apenas soltou o ar devagar, os ombros largos subindo e descendo.
— Você está cinco minutos atrasado, Park — disse o professor, a voz grave e rouca quebrando o silêncio da sala. — Achei que precisões cronométricas fossem a sua religião.
Jimin caminhou em passos lentos e deliberados, sem o menor sinal de pressa. Não colocou o jaleco. Em vez disso, parou do lado oposto da bancada de metal, apoiando os nós dos dedos na superfície fria enquanto cravava seus olhos castanhos, afiados e predadores, diretamente no rosto de Jeon.
— O trânsito de Gangnam é uma variável imprevisível — Jimin rebateu, o tom baixo e calmo. — Ao contrário de você, professor. Você é assustadoramente previsível.
Jungkook ergueu a cabeça da ocular do microscópio, soltando uma risada seca e sem humor. Seus olhos escuros, emoldurados por mechas desalinhadas de cabelo preto, desceram lentamente pelo corpo de Jimin, demorando-se nos contornos da camisa justa antes de voltarem para a boca cheia do garoto. A tensão elétrica entre os dois estalou no ar, densa o suficiente para ser cortada com um bisturi.
— É mesmo? — Jungkook deu a volta na bancada, movendo-se com a lentidão de um felino que fareja uma emboscada, mas decide avançar mesmo assim. Ele parou a menos de meio metro de Jimin, cruzando os braços tatuados sobre o peitoral maciço. — E o que a sua mente brilhante acha que descobriu sobre mim desta vez? Mais desvios de solventes? Mais relatórios com datas adulteradas?
— Eu descobri que você é um hipócrita patético — Jimin respondeu sem piscar, diminuindo o espaço restante entre eles com um único passo à frente.
A diferença de postura não existia mais. Jimin era alto, largo e sustentava o olhar de Jeon com uma insolência crua que desafiava qualquer hierarquia acadêmica. Seus rostos estavam tão próximos que Jungkook podia sentir a respiração fresca de hortelã do aluno contra o seu queixo.
— Cuidado com o que fala neste laboratório, Jimin — Jungkook advertiu em um rosnado baixo, a mandíbula travando enquanto sustentava a provocação. — Você ainda precisa da minha assinatura para validar essas horas complementares.
— Foda-se a sua assinatura — Jimin sussurrou, a voz caindo para uma tonalidade sádica, quase aveludada. Ele inclinou a cabeça levemente para o lado, e um sorriso diabólico, torto e perverso, curvou seus lábios perfeitos. — Você tem hábitos muito peculiares quando fica sozinho até tarde no seu gabinete, professor.
O corpo de Jungkook congelou por um milésimo de segundo. O peito do homem parou de subir, seus olhos semicerrando-se em uma desconfiança imediata e perigosa.
— Do que você está falando, moleque?
— Terça-feira, onze da noite, três semanas atrás — Jimin recitou as coordenadas temporais com a precisão de quem lia um prontuário médico, os olhos brilhando com uma luz maníaca. — As luzes estavam apagadas. Só a tela do seu computador ligada. A calça arriada nos joelhos... e aquela sua mão cheia de tinta trabalhando naquele pau grosso com uma violência descomunal.
A cor fugiu ligeiramente do rosto de Jungkook antes de dar lugar a uma onda violenta de sangue quente que tingiu suas orelhas e seu pescoço. O professor deu um passo à frente, invadindo completamente o espaço de Jimin, cravando os dedos tatuados com força no colarinho da camisa de seda do loiro, empurrando-o contra a borda da bancada metálica. O choque das costas de Jimin contra o inox fez os frascos de ensaio tremerem.
— Você invadiu as câmeras da porra da minha sala? — Jungkook cuspiu as palavras, o hálito quente batendo contra a boca de Jimin. A veia de sua têmpora saltava sob a pele morena. — Você é um doente mental, caralho! Eu posso acabar com a sua vida acadêmica em um estalar de dedos por isso!
Jimin não esboçou a menor reação de pânico. Ele nem sequer tentou soltar a mão de Jungkook de seu colarinho. Em vez disso, seu sorriso se alargou, expondo os dentes brancos em um escárnio puramente carnal. Suas mãos subiram devagar, pousando espalmadas contra o peito arfante de Jungkook, sentindo a solidez dos músculos sob a camisa escura do professor.
— Acabar com a minha vida? — Jimin murmurou, os lábios a milímetros dos de Jeon. — Você não vai fazer nada, Jungkook. Sabe por quê? Porque enquanto você se masturbava naquele escuro parecendo um animal no cio, assistindo ao próprio reflexo patético na janela... eu estava do outro lado da tela.
Jungkook travou, os nós dos dedos afrouxando ligeiramente pelo puro choque da confissão.
— Eu vi cada centímetro daquela porra — Jimin continuou, o tom descendo para uma confissão crua, despudorada e abrasiva que fez os pelos dos braços de Jungkook se eriçarem instantaneamente. — Vi o jeito que você arqueou as costas, vi o desespero nos seus olhos quando você gozou naqueles papéis. E quer saber da melhor parte, professor?
Jimin deslizou a mão direita pelo peito de Jungkook, descendo em um rastro lento e pesado sobre o abdômen tenso do homem até parar logo acima da fivela do cinto do professor, pressionando a palma com uma audácia que beirava a insanidade.
— Eu fiquei duro pra caralho assistindo àquilo — Jimin sussurrou diretamente contra os lábios de Jungkook, sentindo o tremor involuntário que percorreu a estrutura maciça do mais velho. — Meu pau doeu de tão duro. Eu passei a porra da noite inteira querendo estar no lugar daquela sua mão... ou enfiando ele direto na sua garganta até você engasgar com a minha porra em vez de ficar fingindo essa pose de homem inalcançável.
O ar entre eles tornou-se irrespirável. A mente de Jungkook explodiu em um curto-circuito violento de raiva e uma excitação tão brutal que seu próprio baixo-ventre respondeu com um espasmo doloroso. Ele tentou lutar contra o que estava ouvindo, forçando a voz a sair com a costumeira arrogância defensiva:
— Você está delirando, Park... — Jungkook rosnou, embora a voz tenha falhado na última sílaba, saindo mais rouca do que pretendia. Ele apertou os dentes, os olhos cravados nos lábios úmidos do garoto. — Eu não fodo com moleques mimados. E eu definitivamente não tenho essa porra de atração por você. Eu gosto de mulheres, garoto. Mulheres de verdade.
Jimin soltou uma risada baixa, anasalada, que vibrou contra o queixo de Jungkook.
— Mentiroso desgraçado — Jimin rebateu, impiedoso. Ele avançou o quadril para a frente, colando sua virilha na de Jungkook, forçando o homem a sentir o volume denso e rígido que começava a se formar por baixo de sua calça de alfaiataria. — Eu vi o seu apartamento em Mapo-gu também, Jungkook. Eu vi os machos que você arrasta para aquele sofá imundo nos fins de semana. Você fode qualquer coisa que te dê a ilusão de poder. Mas você nunca teve ninguém como eu.
Jungkook estancou. O choque de saber que seu refúgio pessoal fora violado misturou-se a uma onda sufocante de desejo proibido. Jimin sabia de tudo. Jimin tinha o controle de todas as suas fraquezas.
Com um movimento impulsivo, Jungkook largou o colarinho de Jimin e enterrou a mão esquerda na nuca do loiro, cravando os dedos nos fios platinados com uma força violenta, puxando a cabeça do rapaz para trás para expor a curva pálida de seu pescoço.
— Você quer que eu te foda aqui mesmo, é isso? — Jungkook sibilou entre dentes cerrados, as respirações dos dois homens se fundindo em uma única massa de calor opressivo. Seus lábios quase encostavam na pele macia de Jimin, a centímetros de uma colisão devastadora. — Quer que eu quebre essa sua postura arrogante em cima desta bancada até você implorar para eu parar?
Jimin sustentou a dor do puxão no cabelo sem piscar, seus olhos castanhos brilhando com uma fome assassina.
— Experimenta tentar, Jeon — Jimin sussurrou de volta, a boca roçando milimetricamente no lábio inferior de Jungkook, testando o limite físico do homem. — Experimenta me tocar e você vai ver quem termina essa porra de quatro.
Os dois ficaram suspensos naquele abismo. Bastava um movimento de um milímetro para que a violência se transformasse em um beijo desesperado e canibal. O peito de Jungkook arfava contra o de Jimin, o pau do professor já pulsava como chumbo quente contra o zíper da calça jeans, traindo descaradamente a sua negação.
Mas antes que a boca de Jungkook colidisse contra a de Jimin, o bipe agudo do sensor da porta do laboratório soou, indicando que alguém no corredor passara um crachá no leitor externo.
O estalo da realidade rompeu a bolha.
Jungkook soltou a nuca de Jimin com um movimento brusco, recuando dois passos enquanto passava as mãos pelo cabelo em um gesto de pura frustração e desespero. Jimin ajeitou o colarinho de seda com a mesma elegância letal de sempre, o sorriso cínico gravado no rosto pálido enquanto observava o professor tentar recompor a respiração antes que os pesquisadores assistentes entrassem na sala.
Jimin não disse mais nada. Lançou apenas um último olhar carregado de promessa e veneno para o moreno e retirou-se pela porta lateral, deixando para trás um rastro de combustão que Jeon Jungkook não seria capaz de apagar tão cedo.
***
A fumaça espessa e aromática da maconha pairava como uma névoa pesada sob o teto de concreto aparente do loft em Mapo-gu.
Passava das duas da manhã. O ambiente estava imerso em uma penumbra quebrada apenas pelas luzes distantes dos prédios de Seul através da janela de vidro industrial e pela luz âmbar da lâmpada de filamento sobre a bancada da cozinha. Garrafas vazias de soju e cinzeiros transbordando dividiam espaço com pilhas de artigos acadêmicos sobre cinética celular e vidrarias desviadas do departamento de química da universidade.
Jungkook deu um trago longo e profundo no baseado entre seus dedos tatuados. Segurou a fumaça nos pulmões até sentir a pressão arder no peito e soltou o ar devagar pela boca, fechando os olhos enquanto jogava a cabeça para trás contra o encosto do sofá de couro escuro.
Ele estava completamente nu da cintura para cima, vestindo apenas uma calça de moletom cinza folgada. No chão, a alguns metros de distância, as roupas de uma garota qualquer — uma assistente da reitoria cujo nome ele mal conseguia se lembrar — ainda estavam jogadas. A mulher havia ido embora cerca de uma hora atrás, frustrada e insatisfeita.
Jungkook não conseguira terminar.
Ele havia tentado. Prensara a mulher contra o colchão, puxara seus cabelos, usara a força habitual com que costumava anestesiar sua mente nas madrugadas solitárias. Mas tudo pareceu cinza, mecânico, pateticamente oco. Em nenhum momento o rosto daquela mulher ocupou seus pensamentos. Toda vez que fechava os olhos para buscar o orgasmo, a imagem que invadia sua cabeça com a violência de um trem descarrilado era a de Park Jimin.
A pele alva como porcelana. Aquela bunda perfeitamente delineada que o tecido da calça cara destacava a cada passo que o loiro dava pelo laboratório. O porte atlético, os músculos firmes e aquela língua afiada e venenosa que Jungkook desejava, com uma intensidade que o apavorava, prender entre os próprios dentes até arrancar sangue.
— Que porra está acontecendo comigo? — Jungkook murmurou para as paredes vazias, esfregando o rosto com as mãos grandes, os nós dos dedos estalando.
Ele deu mais uma tragada na erva, tentando afogar a paranoia que rastejava sob sua pele. Jungkook era um homem acostumado com o perigo, mas o perigo com o qual lidava era previsível. Ele desviava substâncias controladas dos estoques da faculdade, vendia para laboratórios clandestinos nos becos escuros da cidade e usava o dinheiro sujo para bancar seu estilo de vida anárquico: maconha em quantidades obscenas, noitadas regadas a álcool e corpos descartáveis que preenchiam seus finais de semana.
Ele havia escolhido aquela vida de forma deliberada. Quando era mais jovem, Jungkook sonhara com a normalidade. Tivera a ilusão ingênua de que poderia se formar, casar, construir uma casa com jardim e viver uma existência pacata e honesta longe da podridão que corroía a elite do país. Mas aquele sonho fora assassinado no berço pela sua própria linhagem.
Sua família era um ninho de víboras judiciais. O patriarca Jeon, um juiz cuja moralidade era comprada a peso de ouro, envolvera o sobrenome da família em esquemas de lavagem, extorsão e conspirações hediondas. Jungkook cortara os laços de vez havia anos. Ele nem sequer sabia por onde seus parentes andavam agora, e não dava a mínima para isso; preferia morrer de overdose em um beco a voltar para a mansão de mármore construída sobre cadáveres e subornos. Decidira ser o pária. O professor rebelde, o químico talentoso que vivia à margem de tudo.
Mas agora, o inferno que ele tentara evitar vinha bater à sua porta com o rosto angelical de Park Jimin.
Jimin sabia sobre os desvios. Jimin sabia sobre suas gravações íntimas. Pior: Jimin havia invadido a sua privacidade digital como se a segurança de sua vida não passasse de uma fechadura de brinquedo. A adrenalina daquilo corria nas veias de Jungkook como combustível puro. Ele era viciado em risco, e Jimin era a personificação viva da autodestruição.
Contudo, além da paranoia de ter seus esquemas expostos, havia aquela atração corrosiva que o estava enlouquecendo. A lembrança do garoto colado ao seu corpo no laboratório, dizendo com aquele sorriso sádico que havia ficado duro assistindo-o se masturbar, fazia o pau de Jungkook latejar de novo, pesado e dolorido sob o tecido do moletom.
O desgraçado loiro sabia exatamente como desestabilizá-lo.
Jungkook apagou a ponta do baseado no cinzeiro de cerâmica com força excessiva. Ele levantou-se do sofá, caminhando até a imensa vidraça do loft e olhando para as luzes frias da metrópole lá embaixo.
A vida que ele construíra com tanto esforço para ser caótica, porém sob o seu controle, estava em ruínas completas. Park Jimin havia puxado o primeiro pino da granada, e a explosão era apenas uma questão de tempo.
Jungkook passou a língua pelos lábios secos, sentindo o gosto residual do fumo e a memória amarga da pele que quase provara horas atrás. Uma risada rouca, áspera e resignada escapou de sua garganta na penumbra do apartamento.
— Você quer jogar esse jogo até o final, Jimin? — Jungkook sussurrou para a escuridão da cidade, os olhos escuros brilhando com uma chama perigosa e irrevogável. — Então é bom você estar preparado para queimar junto comigo.