Caos nas aulas
O Crepúsculo da Deidade e o Sorriso entre Sombras
O silêncio nos corredores do palácio de Tempest era absoluto, um contraste aterrador com a habitual energia vibrante da capital dos monstros. O ar parecia mais denso, carregado com a preocupação coletiva de milhares de cidadãos que, em uníssono, mantinham seus pensamentos voltados para o quarto no topo da torre central. Lá dentro, o tempo parecia ter parado.
Rimuru estava deitado, cercado por travesseiros de seda, sua pele quase tão branca quanto os lençóis. A oscilação mágica que antes ameaçava explodir agora havia sido contida por Shuna, que trabalhava incansavelmente. A princesa ogro estava exausta, mas seus olhos permaneciam fixos nos indicadores de energia vital de seu mestre.
— Ele está estável, por enquanto — sussurrou Shuna, limpando o suor da testa de Rimuru com um pano úmido. — Mas o bebê... o pequeno mestre é ganancioso. Ele está drenando a essência de Rimuru-sama para se proteger do estresse externo.
Guy Crimson, que não soltara a mão de Rimuru por um segundo sequer, apertou os dedos com força, seus olhos vermelhos brilhando com uma mistura de adoração e agonia.
— Ele sempre foi generoso demais — murmurou Guy. — Até mesmo com o próprio filho, ele entrega tudo o que tem sem hesitar.
Subitamente, as pálpebras de Rimuru tremeram. Um murmúrio fraco escapou de seus lábios, e ele abriu os olhos dourados, que pareciam nublados por uma névoa de exaustão. Ele tentou se sentar, mas uma onda súbita de náusea o atingiu, fazendo-o empalidecer ainda mais.
— Devagar, Rimuru — disse Guy, ajudando-o a se recostar. — Não tente se mover.
— Guy... — Rimuru forçou um sorriso trêmulo. — Eu sinto como se tivesse sido atropelado por um exército de cavaleiros sagrados. Onde estão as crianças? Eu ouvi o Kenya chorando... ou foi um sonho?
— Eles estão logo ali fora, mestre — respondeu Diablo, surgindo das sombras com uma tigela de caldo quente. — Eles se recusam a comer ou dormir até verem que o senhor está bem.
Rimuru suspirou, sentindo seu estômago revirar novamente. O enjoo era constante, uma batalha interna entre sua fisiologia de slime e a complexidade da vida que crescia em seu ventre.
— Deixe-os entrar — pediu Rimuru, sua voz pouco mais que um sussurro. — Eu preciso... eu preciso dizer que estou bem.
— Mas Rimuru-sama, o senhor precisa de repouso absoluto! — protestou Shuna.
— Shuna, por favor — Rimuru olhou para ela com aqueles olhos que ninguém conseguia negar. — Se eles me virem assim, vão carregar essa culpa para sempre. Eu sou o pai deles, não sou? E um pai não deixa os filhos no escuro.
Com um aceno relutante de Shuna, a porta se abriu silenciosamente. As cinco crianças entraram em fila, os rostos inchados de tanto chorar. Kenya tentava parecer forte, mas seus lábios tremiam. Alice corria para a beira da cama, parando bruscamente como se tivesse medo de que Rimuru pudesse quebrar se ela chegasse perto demais.
— Ei, pessoal... — Rimuru estendeu a mão, fazendo um esforço hercúleo para manter a voz firme. — Por que essas caras? Eu só tirei uma soneca um pouco mais longa.
— Mamãe! — Alice se jogou nos pés da cama, soluçando. — É nossa culpa! Se a gente não tivesse deixado aqueles nobres falarem aquelas coisas... se a gente fosse mais forte...
— Nada disso — interrompeu Rimuru, e por um momento, sua aura de comando brilhou suavemente, acalmando o coração das crianças. — Vocês foram incríveis. Vocês me defenderam como verdadeiros heróis. O que aconteceu foi apenas... cansaço de adulto. E esse bebezinho aqui — ele tocou a barriga, sentindo um chute leve que o fez perder o fôlego por um segundo — é um pouco apressado, só isso.
— Você jura que não vai embora? — perguntou Ryota, limpando o nariz na manga. — O tio Veldora disse que você estava lutando contra deuses no seu sonho.
Rimuru soltou uma risadinha fraca, que logo se transformou em uma careta de dor quando uma pontada aguda atingiu seu abdômen. Guy instantaneamente colocou a mão sobre a de Rimuru, enviando um fluxo de mana calmante.
— Eu não vou a lugar nenhum — prometeu Rimuru. — Eu ainda tenho que ver o Kenya se tornar o maior espadachim, e a Alice a maior maga... Eu tenho muito o que fazer aqui.
Ele tentou se inclinar para dar um beijo na testa de Alice, mas no momento em que seu tronco se moveu para frente, sua visão escureceu. O mundo girou violentamente.
— Rimuru! — o grito de Guy foi a última coisa que ele ouviu antes de perder a consciência novamente.
— Saiam! Todos para fora! — ordenou Shuna, empurrando gentilmente as crianças para fora enquanto Diablo e Guy seguravam Rimuru.
A flutuação de humor de Rimuru era tão instável quanto sua saúde. Horas depois, quando acordou novamente, ele estava irritado, reclamando que o caldo de Diablo tinha "cheiro de sombras" e exigindo ver Veldora para discutir o final de um mangá que ele sequer tinha terminado de ler.
— Veldora! Traga aquele dragão idiota aqui! — exclamou Rimuru, tentando se levantar da cama com uma energia súbita que assustou a todos.
— Rimuru, deite-se agora! — Guy usou sua voz de Lorde Demônio, mas Rimuru apenas o encarou com os olhos faiscando.
— Não me diga o que fazer, Guy Crimson! Eu sou o governante desta nação e eu quero... eu quero... — Rimuru parou, sua expressão mudando de raiva para uma tristeza profunda em questão de segundos. Lágrimas começaram a escorrer por seu rosto. — Eu só queria que as coisas fossem simples como antes. Eu sinto falta de ser apenas um slime pulando na grama.
Guy, pego de surpresa pela mudança drástica, envolveu Rimuru em um abraço protetor. O contraste era doloroso: o ser mais poderoso do mundo reduzido a uma fragilidade extrema pelas provações da maternidade e do peso da coroa.
— Vai ficar tudo bem, meu pequeno slime — sussurrou Guy, beijando o topo de sua cabeça. — Eu vou carregar o mundo por você até que você possa pular na grama de novo.
Nos dias que se seguiram, a rotina de Tempest tornou-se um ciclo de vigília. Rimuru passava a maior parte do tempo dormindo, e as poucas horas em que estava acordado eram marcadas por pequenos momentos de luz. Ele tentava, mesmo sem conseguir se levantar, organizar festivais imaginários para as crianças, descrevendo os doces que Shuna faria assim que ele estivesse de pé.
Em uma tarde particularmente calma, Rimuru pediu para ser levado até a varanda. Ele queria ver o pôr do sol sobre sua cidade. Guy o carregou nos braços, tratando-o como se fosse feito de cristal.
— Olhe para eles, Guy — disse Rimuru, apontando para os cidadãos abaixo, que trabalhavam em silêncio, muitos parando para olhar para a varanda com as mãos postas em oração. — Eles estão com medo por minha causa. Eu odeio vê-los assim.
— Eles não estão apenas com medo, Rimuru — disse Diablo, surgindo ao lado deles. — Eles estão oferecendo sua lealdade. Cada batida de coração nesta cidade é dedicada à sua recuperação.
Rimuru tentou acenar para o povo, mas o simples movimento de seu braço fez seu coração disparar e sua respiração ficar curta. Ele sentiu o bebê se agitar, uma pressão enorme contra suas costelas.
— Ele é forte... — ofegou Rimuru, encostando a cabeça no ombro de Guy. — Ele tem a sua força, Guy. E a sua teimosia.
— E ele tem a sua alma, Rimuru — respondeu Guy, apertando-o contra si. — Por isso ele vai sobreviver. E você também.
O esforço de estar na varanda foi demais. Rimuru começou a escorregar dos braços de Guy, seus olhos revirando enquanto a exaustão o vencia mais uma vez.
— Shuna! — chamou Guy, sua voz carregada de uma urgência que fez os guardas no pátio tremerem.
De volta ao leito, Rimuru mergulhou em um sono profundo. Mas desta vez, havia um pequeno sorriso em seus lábios. Ele tinha visto seu povo. Ele tinha visto seus filhos. E, embora seu corpo estivesse quebrado e sua magia estivesse sendo drenada por um herdeiro faminto, sua vontade permanecia intacta.
Diablo permaneceu ao pé da cama, observando o peito de Rimuru subir e descer devagar. Ele olhou para Guy, que estava sentado em uma poltrona próxima, com o rosto escondido nas mãos.
— Nós vamos destruir o que restou de Ingrassia, não vamos? — perguntou Diablo, sua voz desprovida de qualquer emoção humana.
Guy levantou a cabeça. Seus olhos não eram mais os de um companheiro preocupado, mas os do Lorde Demônio que governava através do medo e do poder absoluto.
— Primeiro, garantimos que ele e a criança sobrevivam — disse Guy, cada palavra soando como uma sentença de morte. — Depois... eu vou mostrar àqueles humanos o que acontece quando se tenta apagar a luz de um Deus.
Enquanto Tempest se preparava para o pior, dentro do quarto, as cinco crianças entraram escondidas, sentando-se no chão ao redor da cama de Rimuru. Eles não disseram nada. Apenas ficaram ali, pequenos guardiões de um rei que os amava mais do que a própria vida, esperando pelo momento em que o sol de Tempest finalmente voltaria a brilhar com toda a sua glória. E Rimuru, mesmo em seu inconsciente, sentia o calor deles, uma âncora que o impedia de flutuar para longe, mantendo-o firme na promessa de um amanhã onde os doces e os abraços seriam, novamente, a única lei de seu reino.