Caos nas aulas
O Alvorecer da Fragilidade e o Grito que Abalou o Mundo
O ar de Tempest estava impregnado com o perfume das flores de cerejeira e o som distante das ferrarias de Kaijin, mas para Rimuru, o mundo parecia envolto em uma névoa espessa. Sentado em sua cama, ele observava as cinco crianças — Kenya, Ryota, Gale, Alice e Chloe — sentadas em um semicírculo no tapete, os rostos ainda marcados pela preocupação dos dias anteriores. O coração de Rimuru apertou. Ele odiava vê-los assim, tão silenciosos, tão contidos.
— Ei, pessoal — chamou Rimuru, sua voz saindo mais doce e suave do que pretendia. — O que acham de darmos um passeio? Eu sinto falta de ver como a cidade está ficando.
As crianças ergueram os olhos simultaneamente, uma mistura de esperança e medo cruzando suas expressões.
— Mas mamãe, a Shuna disse que você precisa de repouso absoluto! — exclamou Alice, aproximando-se da cama com as mãos dadas em frente ao peito.
— Shuna se preocupa demais — Rimuru sorriu, tentando esconder a pontada de dor que sentiu ao se sentar na borda do colchão. — Se eu ficar trancado aqui por mais um dia, vou acabar virando um slime mofado. Guy? Diablo? Vocês me ajudam?
Guy Crimson, que estava encostado na parede oposta, franziu o cenho. Ele não gostava da ideia, mas ver o brilho de determinação nos olhos dourados de Rimuru era algo a que ele raramente conseguia resistir.
— Se você prometer que não vai se esforçar além do limite — disse Guy, caminhando até ele e oferecendo o braço como suporte.
— Eu estarei logo atrás para garantir que o caminho de Rimuru-sama seja tão suave quanto a seda — acrescentou Diablo, seus olhos brilhando com uma devoção perigosa.
A caminhada começou lentamente. Rimuru, vestindo uma túnica larga de seda azul que escondia, mas não totalmente, a saliência de sua barriga, caminhava apoiado firmemente no braço de Guy. Ao seu redor, uma escolta que faria qualquer exército retroceder: Benimaru, Shion, Souei, Shuna e as cinco crianças, que pulavam ao redor dele como pequenos satélites.
— Olha, mamãe! — Kenya apontou para uma nova barraca de espetinhos. — O tio Rigurd disse que eles estão fazendo um molho especial em sua honra!
Rimuru riu, e por um momento, a dor constante em seu abdômen pareceu recuar diante da alegria de seus filhos. Os cidadãos de Tempest paravam o que estavam fazendo, curvando-se com reverência e amor enquanto seu mestre passava. O sentimento de pertencer àquele lugar, de ser amado por seu povo, era o melhor remédio que Rimuru poderia receber.
No entanto, a harmonia foi bruscamente interrompida. Um grupo de mercadores e nobres menores de Ingrassia, que estavam na cidade para tratar de rotas comerciais e não tinham sido informados sobre a gravidade da situação do Lorde Demônio, vinha apressado na direção oposta, discutindo em voz alta sobre impostos.
— Saiam da frente! Temos uma audiência com o chanceler! — gritou um homem corpulento, cujas vestes caras denunciavam sua arrogância.
No meio da confusão e da pressa, o homem esbarrou violentamente no ombro de Rimuru. O impacto, embora pequeno para um ser comum, foi devastador para o equilíbrio precário de Rimuru. Seus pés falharam e ele cambaleou para trás.
— Rimuru! — Guy o segurou antes que ele atingisse o chão, mas o dano já estava feito.
A cabeça de Rimuru pendeu para o lado, sua visão tornando-se um borrão de cores desconexas. O mundo começou a girar, e um zumbido agudo preencheu seus ouvidos.
— Como ousa... — a voz de Benimaru era um rugido de brasa pura.
— Matem-nos — sibilou Shion, sua mão já no cabo de sua espada titânica.
— Não... — Rimuru murmurou, lutando para manter a consciência, sua mão apertando o braço de Guy. — Não façam... nada. Por favor.
Guy olhou para os mercadores com um olhar que prometia mil anos de tortura, mas o estado de Rimuru era a prioridade. O homem que havia esbarrado nele empalideceu ao perceber quem eram as figuras ao redor da "mulher" que ele tinha atingido. Ele caiu de joelhos, mas ninguém lhe deu atenção.
— Vamos levá-lo para a praça central — sugeriu Shuna, sua voz trêmula de preocupação. — O ar fresco e a visão das crianças brincando podem ajudá-lo a se estabilizar.
Eles acomodaram Rimuru em um banco de pedra esculpido, coberto com peles macias, de frente para a fonte onde as crianças da cidade brincavam. Rimuru tentou manter um sorriso para Kenya e os outros, incentivando-os a ir brincar um pouco.
— Vão... eu estou bem — mentiu ele, sentindo uma gota de suor frio escorrer por sua têmpora. — Quero ver vocês correndo.
As crianças hesitaram, mas Chloe, percebendo que Rimuru precisava de um momento de paz, pegou a mão de Alice e as levou para perto da fonte. Rimuru os observou, mas a dor, que antes era uma pontada, transformou-se em uma lâmina em brasa rasgando suas entranhas. Ele tentou disfarçar, fechando os olhos e respirando fundo, mas seu corpo começou a tremer involuntariamente.
— Rimuru? — Guy se inclinou, sua mão tocando a bochecha pálida do companheiro. — Você está gelado.
Rimuru não respondeu. Sua cabeça tombou para o peito e ele desmaiou mais uma vez, a exaustão mágica e física finalmente vencendo a sua vontade.
— Shuna, o que fazemos?! — Shion estava à beira de um colapso nervoso, segurando as mãos de Rimuru.
— Eu não sei... — Shuna confessou, as lágrimas finalmente transbordando. — A energia dele está sendo consumida por dentro. Talvez... talvez devêssemos chamar a Rainha dos Espíritos? Ou até mesmo a Rainha Luminous? Precisamos de alguém especializado em cura de almas e corpos divinos!
Eles levaram Rimuru de volta ao palácio às pressas. Horas depois, quando ele finalmente recuperou a consciência, o quarto estava mergulhado na penumbra do entardecer. Guy estava sentado ao seu lado, as olheiras profundas em seu rosto revelando que ele não tinha saído dali.
Ao ver Guy, e logo depois Shuna e as crianças que espiavam pela porta, Rimuru sentiu uma onda avassaladora de culpa. Ele viu o cansaço deles, a tristeza nos olhos de seus subordinados que ele tanto amava.
— Eu sou um fardo... — sussurrou Rimuru, as lágrimas começando a cair sem controle.
— Do que você está falando, Rimuru-sama? — perguntou Diablo, ajoelhando-se ao lado da cama.
— Olhem para vocês... — Rimuru soluçou, cobrindo o rosto com as mãos. — Estão todos infelizes por minha causa. Eu dou tanto trabalho... Eu só causo dor. Talvez... talvez fosse melhor se vocês desistissem de mim. Se deixassem o bebê e a mim... apenas seguirem o destino.
— Nunca mais diga isso! — Guy rugiu, segurando os ombros de Rimuru com firmeza, mas sem machucá-lo. — Você é o nosso mundo! Sem você, Tempest é apenas pedra e madeira! Sem você, eu não sou nada!
— Mas dói, Guy... — Rimuru chorou, seu corpo se curvando. — Dói tanto que eu não consigo respirar!
As emoções fortes agiram como um gatilho. A instabilidade mágica de Rimuru atingiu um ponto de ruptura. Ele sentiu uma pressão insuportável em seu ventre, como se seu próprio poder estivesse tentando escapar de seu corpo.
— AAAAAAAHHHHHHHHHHHH!
O grito que escapou da garganta de Rimuru não foi humano. Foi um som devastador, carregado de agonia e poder bruto, que ecoou por cada rua, cada beco e cada floresta de Tempest. As janelas do palácio vibraram e trincaram. O céu sobre a cidade escureceu instantaneamente, relâmpagos azuis riscando as nuvens em resposta à dor de seu mestre.
No fundo do palácio, Veldora, que estava tentando se distrair com seus mangás, sentiu o grito vibrar em sua própria essência de dragão. Ele jogou o livro para o lado e correu, atravessando as paredes se fosse necessário.
— RIMURU! — Veldora escancarou a porta do quarto, seus olhos brilhando com o poder da tempestade.
Logo atrás dele, Ramiris entrou voando, chorando desesperadamente, seguida por Milim Nava. Milim, a Lorde Demônio que raramente mostrava fraqueza, tinha o rosto banhado em lágrimas, soluçando como uma criança pequena enquanto via o estado de seu melhor amigo.
— Rimuru! O que está acontecendo?! Por que ele está gritando assim?! — Milim se jogou sobre a cama, tentando abraçá-lo.
— Saiam! — gritou Guy, tentando conter a aura de Rimuru que agora chicoteava pelo quarto como navalhas de energia. — Ele não consegue controlar o poder!
Rimuru estava arqueado na cama, seus olhos totalmente dourados, sem pupilas, enquanto o grito continuava a ecoar, perdendo as forças apenas quando seus pulmões ficaram sem ar. Ele ofegou, olhando para Veldora, Milim e Ramiris com uma expressão de agonia pura.
— Por favor... — ele sussurrou, sua voz agora quebrada. — Façam parar...
— Nós vamos, Rimuru! — Ramiris tentou usar sua magia de labirinto para estabilizar o espaço ao redor dele. — Aguenta firme, por favor!
Rimuru olhou para as crianças, que estavam paradas na porta, aterrorizadas pelo grito e pela demonstração de dor. Ele tentou estender a mão para elas, um último gesto de conforto, mas seus olhos reviraram e seu corpo relaxou abruptamente.
O silêncio que se seguiu ao grito foi ainda mais assustador. Rimuru desmaiou novamente, mas desta vez, sua respiração estava tão superficial que mal movia o tecido de sua túnica.
— Shuna! Chame a Luminous! Agora! — ordenou Guy, sua voz carregada de um desespero que nenhum Lorde Demônio deveria conhecer. — Se ela não vier por bem, eu trarei o reino dela abaixo!
Milim segurou a mão de Rimuru contra o rosto, soluçando baixo, enquanto Veldora permanecia em pé ao lado da cama, sua aura de Dragão Verdadeiro pulsando em um ritmo lento e sombrio. O sol de Tempest havia se apagado, e naquela noite, ninguém na cidade dos monstros ousou fechar os olhos, temendo que, se o fizessem, o seu Deus nunca mais acordaria.