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Capítulo 1

O Preço da Lealdade e o Gosto do Sangue

A escuridão da pedreira parecia ter dentes. O aviso de Daryl sobre as armadilhas de nylon e a transmissão interrompida de Morgan pairavam sobre o acampamento como uma sentença de morte suspensa. Cahide não conseguia fechar os olhos. Dentro de sua barraca, ela ouvia a respiração pesada de Turna, um som que normalmente a acalmava, mas que agora servia apenas para lembrá-la do tamanho da sua responsabilidade.

Lá fora, o estalar das brasas da fogueira moribunda era pontuado pelo som de botas batendo no cascalho. Era a vigília de Shane. Cahide sabia que o parceiro de Rick a vigiava com um misto de luxúria reprimida e ódio genuíno. Para Shane, ela era a variável que ele não conseguia controlar; a mulher que conhecia um Rick que ele preferia acreditar que não existia mais.

Cahide levantou-se silenciosamente e saiu para o ar frio da noite. Ela precisava de água, ou talvez apenas de sentir que não estava sendo sufocada pelo tecido da barraca. Perto do estoque de suprimentos, ela encontrou Rick. Ele estava sozinho, segurando o rádio de Morgan contra o peito, os olhos perdidos na linha das árvores.

— Você também não consegue dormir — disse ela, a voz um sussurro que mal perturbava o silêncio.

Rick se sobressaltou levemente, mas relaxou ao reconhecer o contorno dela.

— Morgan está lá fora, Cahide. Com Duane. E há homens armados que não pertencem a este lugar. Se eu os trouxe para uma emboscada em vez de um refúgio...

— Você fez o que podia com as informações que tinha — interrompeu ela, aproximando-se o suficiente para sentir o calor que emanava dele. — O mundo não nos dá garantias, Rick. Ele só nos dá escolhas. E você escolheu salvar sua família.

— E você? — Ele se virou para ela, a luz da lua refletida no azul cansado de seus olhos. — Eu te arrastei para isso. Você estava segura no seu caminho, e agora está no meio de uma guerra doméstica e de uma ameaça que nem conseguimos ver.

— Eu nunca estive segura, Rick. Desde que cruzei a fronteira da Turquia, a segurança é uma ilusão que eu parei de perseguir. O que eu tenho agora é um propósito. E esse propósito inclui garantir que você e a Turna continuem respirando.

Antes que Rick pudesse responder, um movimento na sombra de uma das caravanas chamou a atenção de ambos. Lori estava parada ali, enrolada em um cobertor, observando-os com uma expressão que oscilava entre a mágoa e a fúria gélida.

— Rick? — chamou ela, a voz carregada de uma autoridade que ela tentava reafirmar. — Carl está perguntando por você. Ele teve um pesadelo.

Rick soltou um suspiro longo e pesado. Ele olhou para Cahide uma última vez — um olhar que pedia desculpas e socorro ao mesmo tempo — antes de caminhar em direção à esposa.

— Já estou indo, Lori.

Cahide observou-os entrar na caravana. A porta se fechou com um som seco, um veredito final sobre onde Rick pertencia aos olhos do mundo. Ela sentiu um gosto amargo na boca, mas não era ciúme; era a percepção de que a estrutura daquele grupo era frágil demais para suportar o que estava por vir.

— Ele nunca vai escolher você — a voz de Shane surgiu das sombras, carregada de veneno.

Cahide não se virou. Ela apenas apertou o cabo do machado que sempre carregava na cintura.

— Ele não tem que me escolher, Shane. Ele tem que sobreviver. Algo que você parece estar tornando difícil com essa sua obsessão por controle.

— Eu mantenho essas pessoas vivas — Shane deu um passo à frente, entrando no círculo de luz fraca. — Eu as mantive vivas enquanto ele estava em coma. Eu cuidei da mulher dele. Eu cuidei do filho dele. E agora você chega, com esse ar de quem sabe mais que todo mundo, e o enche de ideias sobre voltar para Atlanta ou caçar fantasmas na floresta.

— Eu não o encho de ideias, Shane. Eu apenas não tento transformá-lo em algo que ele não é. Você quer ser o rei desta pedreira, mas esquece que o trono está em cima de um formigueiro.

— Tome cuidado, advogada — sibilou Shane, aproximando-se perigosamente. — Acidentes acontecem na floresta. Especialmente com pessoas que não conhecem o terreno.

Cahide finalmente se virou, os olhos brilhando com uma determinação que fez Shane recuar um milímetro.

— Eu conheço o terreno da natureza humana melhor do que você, Shane. E eu sei reconhecer um homem que está prestes a quebrar. Não tente me intimidar. Eu já lidei com carrascos de verdade. Você é só um garoto assustado com um distintivo que não vale mais nada.

Ela deu as costas a ele e voltou para sua barraca, mas o sono continuou sendo um luxo inalcançável.

Ao amanhecer, o acampamento foi despertado não pelo sol, mas pelo som de um motor se aproximando. Não era a caminhonete de Daryl ou o carro de Glenn. Era um som mais pesado, mais rítmico.

— Peguem as armas! — gritou Rick, saindo da caravana com a Python em punho.

Cahide já estava de pé, empurrando Turna para trás de uma das rochas grandes. Daryl surgiu da mata, a besta armada, o rosto suado.

— Eles estão aqui — disse Daryl, ofegante. — Pelo menos três veículos. Estão subindo a estrada de serviço.

Segundos depois, dois utilitários militares pintados de preto surgiram na entrada da pedreira. Eles pararam de forma coordenada, levantando uma nuvem de poeira. Homens saltaram dos veículos. Eles usavam uniformes tácticos cinzas, sem insígnias oficiais, mas com uma organização que gritava treinamento paramilitar.

Rick deu um passo à frente, os braços estendidos em um gesto de paz, embora sua arma estivesse pronta.

— Este é um acampamento civil! — gritou Rick. — Quem são vocês?

Um homem alto, com o rosto marcado por uma cicatriz que atravessava o supercílio, deu um passo à frente. Ele não carregava um fuzil, mas uma pistola estava presa ao seu peito.

— Meu nome é Miller — disse o homem, sua voz calma e desprovida de emoção. — Estamos limpando a área de possíveis ameaças biológicas e coletando recursos para o Centro de Reconstrução.

— Centro de Reconstrução? — perguntou Shane, aproximando-se de Rick. — Nunca ouvimos falar de vocês. Onde fica isso?

— É uma zona segura, a cerca de oitenta quilômetros ao norte — respondeu Miller. — Mas a entrada é restrita. Estamos aqui para oferecer uma troca. Suprimentos e segurança em troca de mão de obra e armas.

Cahide, observando da lateral, sentiu seus instintos de advogada dispararem. A forma como os homens de Miller se posicionavam — cobrindo todos os ângulos de tiro, mantendo o dedo no guarda-mato — não era de quem veio oferecer uma troca justa. Era de quem veio fazer um inventário antes de um saque.

— Não estamos interessados — disse Rick, a voz firme. — Temos o que precisamos. Podem seguir seu caminho.

Miller deu um sorriso frio, que não chegou aos seus olhos.

— Receio que o mundo não funcione mais assim, xerife. O solo onde vocês estão pertence à jurisdição do Centro agora. Há uma taxa de ocupação. Armas, munição e metade do seu estoque de conservas.

— Vocês estão nos roubando — disse Lori, saindo de trás de Rick, o rosto pálido de indignação.

— Estamos cobrando pela sua proteção — corrigiu Miller. — Há hordas descendo de Atlanta que vocês nem imaginam. Se não pagarem, não garantimos que este acampamento estará aqui amanhã.

Daryl levantou a besta, a ponta da flecha mirando o pescoço de Miller.

— Eu garanto que você não vai estar aqui amanhã se não der meia-volta agora, seu merda.

A tensão no ar era quase sólida. Os homens de Miller levantaram seus fuzis simultaneamente. O som metálico de trincos sendo puxados ecoou pela pedreira.

— Abaixem as armas! — ordenou Rick para o seu próprio grupo, embora ele mesmo não tivesse guardado a dele. — Ninguém precisa morrer hoje.

Cahide saiu das sombras, caminhando devagar até ficar ao lado de Rick. Ela olhou para Miller, analisando cada detalhe de seu uniforme.

— Você fala em jurisdição — disse ela, a voz clara e projetada. — Mas não vejo ordens assinadas, nem identificação de unidade. Se vocês são o que resta do governo, onde está o seu oficial de ligação civil?

Miller olhou para ela, surpreso pela interrupção.

— E quem é você?

— Cahide Karahan. Advogada internacional e alguém que sabe exatamente quando um contrato está sendo imposto sob coação. Vocês não são o governo. Vocês são apenas homens com armas que encontraram um depósito de uniformes.

Miller riu, um som seco.

— Advogada? O tribunal fechou, senhora. A única lei que resta é a do calibre.

— Se fosse assim — continuou Cahide, sem se abalar —, você já teria começado a atirar. Mas você quer o que temos sem gastar sua própria munição ou perder homens. Você sabe que, se o tiroteio começar, metade do seu grupo cai antes de vocês tomarem este lugar. É um custo-benefício ruim, não é, Miller?

Miller estreitou os olhos. A lógica de Cahide havia atingido o ponto certo. Ele não esperava resistência intelectual em um acampamento de refugiados.

— Vocês têm até o pôr do sol — disse Miller, sinalizando para seus homens recuarem. — Se as caixas não estiverem prontas na estrada, voltaremos com reforços. E aí não haverá conversa.

Os veículos deram meia-volta, deixando para trás um rastro de poeira e um medo palpável.

O acampamento explodiu em caos. Shane começou a gritar sobre como deveriam ter matado Miller ali mesmo. Lori tentava acalmar Carl, enquanto os outros sobreviventes discutiam se deveriam fugir ou pagar o tributo.

— Temos que sair daqui — disse Rick, reunindo os líderes perto da mesa de mapas. — Se eles voltarem com mais gente, não temos chance.

— Sair para onde, Rick? — perguntou Shane, furioso. — Temos crianças, idosos. Não podemos simplesmente correr para a mata. Temos que lutar.

— Lutar uma guerra que não podemos vencer? — rebateu Cahide. — Eles têm treinamento militar, Shane. Nós temos um grupo de civis assustados e alguns de nós que sabem atirar.

— E o que você sugere, advogada? — Shane cuspiu as palavras. — Que apresentemos uma petição?

— Eu sugiro que usemos a cabeça — respondeu ela, ignorando o insulto. — Eles mencionaram o Centro de Reconstrução. Se esse lugar existe, Miller pode estar agindo por conta própria, ou pode haver uma dissidência interna. Precisamos de informações antes de tomarmos uma decisão desesperada.

Rick olhou para ela, a confiança voltando aos seus olhos.

— Cahide tem razão. Daryl, você consegue seguir o rastro deles sem ser visto?

— Eu posso seguir um fantasma na neve, xerife. Mas vou precisar de cobertura.

— Eu vou com ele — disse Cahide.

— Não — Rick disse imediatamente. — É perigoso demais.

— Eu conheço as táticas deles, Rick. Eu vi como eles se comunicam. Eu posso identificar a estrutura de comando. O Daryl é o melhor batedor, mas eu sou a melhor em ler as entranhas de uma organização.

Rick hesitou, olhando para Lori, que observava a conversa com uma expressão de desdém. Ele então olhou para Cahide, e o vínculo entre eles — forjado no sangue de Atlanta e no vapor daquele vestiário — falou mais alto.

— Vá. Mas se algo der errado, você volta. Não tente ser uma heroína.

— Eu sou uma sobrevivente, Rick. Heróis morrem no primeiro capítulo.

Cahide preparou sua mochila. Turna aproximou-se dela, segurando a pedra polida que lhe dera no dia anterior.

— Você vai voltar, não vai? — perguntou a menina em turco, a voz trêmula.

— Eu sempre volto para você, Turna — respondeu Cahide, beijando o topo da cabeça da filha. — Fique perto do Rick. Ele vai cuidar de você.

Ela e Daryl partiram pelas matas laterais, movendo-se como sombras entre as árvores. Daryl era um mestre em silêncio, e Cahide esforçava-se para imitar cada passo dele. Após cerca de uma hora de caminhada, eles encontraram o que procuravam.

Os utilitários de Miller estavam parados em um antigo posto de gasolina na base da montanha. Mas eles não estavam sozinhos. Havia um terceiro veículo, um caminhão de transporte de tropas com uma insígnia que Cahide reconheceu imediatamente: a Organização Mundial da Saúde, mas com uma tarja vermelha sobreposta.

— O que é aquilo? — sussurrou Daryl, observando através da luneta de seu rifle.

Cahide pegou o binóculo. Ela viu Miller conversando com uma mulher de jaleco branco, que parecia estar dando ordens a ele. Atrás deles, homens em uniformes de proteção biológica carregavam caixas que pareciam conter material médico... ou amostras.

— Não é um centro de reconstrução — murmurou Cahide, o coração batendo rápido. — É um laboratório de campo. Eles não estão limpando a área, Daryl. Eles estão coletando dados.

De repente, o rádio de Miller, que estava pendurado em seu cinto, chiou. A voz que saiu dele fez o sangue de Cahide congelar.

— Unidade 1, aqui é a Base. A horda de Atlanta foi desviada com sucesso para o quadrante da pedreira. Iniciem a coleta de dados de estresse térmico e resposta de combate assim que o contato for estabelecido.

Cahide e Daryl se olharam. A percepção foi como um soco no estômago. Miller não estava cobrando um tributo. Ele estava usando o acampamento de Rick como um experimento controlado. Eles haviam atraído os zumbis para a pedreira para ver como um grupo de civis reagiria sob pressão.

— Precisamos voltar — disse Daryl, a voz carregada de uma urgência mortal. — Agora!

Eles começaram a correr, mas o destino tinha outros planos. Um estalo de galho seco atrás deles os fez parar. Cahide girou, o machado pronto, mas foi recebida pelo cano de um fuzil.

— Olhe o que temos aqui — disse um dos homens de Miller, surgindo de trás de um carvalho. — Os espiões do xerife.

Daryl tentou levantar a besta, mas outro homem surgiu à sua esquerda, chutando sua perna e derrubando-o. Cahide avançou, desferindo um golpe com o machado que atingiu o ombro do primeiro soldado, mas um terceiro homem a atingiu na nuca com a coronha de uma arma.

O mundo de Cahide mergulhou na escuridão.

Quando ela acordou, estava amarrada a uma cadeira dentro de uma das salas do posto de gasolina. Sua cabeça latejava e o gosto de sangue enchia sua boca. Daryl estava amarrado ao lado dela, ainda inconsciente, com o rosto ensanguentado.

Miller estava sentado à sua frente, limpando uma faca de combate.

— Você é inteligente, Cahide — disse ele, sem olhar para ela. — Inteligente demais para o seu próprio bem. Você estava certa sobre a jurisdição. Não somos o governo. Somos o que sobrou da ciência que tentou impedir isso e falhou. E agora, precisamos entender por que alguns grupos sobrevivem e outros não.

— Você é um monstro — sibilou ela, tentando soltar as cordas que prendiam seus pulsos.

— Eu sou um pragmático. O seu acampamento é uma amostra perfeita. Um líder forte, um parceiro instável, uma advogada astuta, mulheres e crianças. Queremos ver o que acontece quando a pressão aumenta. E a horda que está chegando... ela é a nossa variável principal.

— O Rick vai vir atrás de nós — disse ela, a voz falhando, mas carregada de convicção.

— Eu espero que sim — sorriu Miller. — Vai ser um excelente dado de liderança sob coação.

Enquanto Miller falava, Cahide sentiu algo em seu bolso traseiro. A pedra polida que Turna lhe dera. Com um esforço sobre-humano, ela começou a usar a borda afiada da pedra para desgastar as cordas de nylon. Era um trabalho lento, agonizante, mas era a única chance que tinham.

Lá fora, o som dos primeiros gemidos da horda começou a ecoar pelas montanhas. O experimento havia começado.

— Sabe, Cahide — Miller levantou-se e aproximou-se dela, passando a lâmina fria da faca pelo seu rosto —, eu quase lamento ter que descartar você. Você teria sido uma excelente adição à nossa equipe de análise.

— Eu prefiro morrer do que ser como você — respondeu ela, cuspindo no rosto dele.

Miller limpou o rosto, os olhos brilhando com uma fúria contida. Ele levantou a mão para bater nela, mas um estrondo ensurdecedor vindo do lado de fora interrompeu o gesto.

Tiros de Python. O som rítmico e poderoso que Cahide conhecia tão bem.

— Ele chegou — sussurrou ela, um sorriso sangrento surgindo em seus lábios.

As cordas finalmente cederam. Cahide não esperou. Ela chutou a mesa contra as pernas de Miller e avançou sobre ele com a ferocidade de uma loba defendendo sua cria. A luta foi brutal. Miller era mais forte, mas Cahide era movida por um ódio puro e pela necessidade de voltar para Turna e Rick.

Ela conseguiu pegar a faca de Miller e, em um movimento rápido, enterrou-a na coxa dele. Enquanto ele gritava, ela correu para Daryl, cortando suas amarras.

— Acorde, Daryl! — gritou ela, sacudindo-o.

Daryl abriu os olhos, tossindo sangue, mas recuperando a consciência rapidamente. Ele viu a situação, pegou sua besta que estava em um canto da sala e levantou-se com dificuldade.

— Vamos acabar com isso — disse Daryl.

Eles saíram do posto de gasolina sob uma chuva de balas. Rick estava lá, usando a viatura da polícia como cobertura, disparando com uma precisão mortal. Shane estava ao seu lado, e até Glenn estava lá, usando o Challenger para criar distrações.

O reencontro foi breve. Rick correu até Cahide, segurando-a pelos ombros, verificando se ela estava inteira.

— Você está bem? — perguntou ele, a voz embargada.

— Eu disse que voltaria, não disse? — respondeu ela, abraçando-o por um segundo antes de se recompor. — Rick, eles atraíram a horda para o acampamento! Precisamos voltar agora!

— O Shane e o Glenn já estão indo para lá com os outros — disse Rick. — Eu não podia te deixar para trás.

Eles saltaram na viatura e saíram em disparada de volta para a pedreira. O caminho era um cenário de horror. Milhares de zumbis estavam subindo a encosta, uma massa cinzenta e faminta que parecia imparável.

Ao chegarem ao acampamento, o cenário era de guerra total. Lori estava no topo de uma das caravanas, disparando um rifle. Turna estava com Carl, ambos armados com facas, defendendo a entrada de uma das tendas.

Cahide saltou do carro antes mesmo dele parar, o machado em mãos. Ela abriu caminho através dos mortos, cada golpe sendo uma libertação da raiva que sentia. Ela chegou até Turna, abraçando-a rapidamente antes de se posicionar na linha de frente.

A batalha durou horas. O sol se pôs, e a luta continuou sob a luz das fogueiras e das lanternas. O grupo de Rick lutou com uma coragem que Miller e seus cientistas nunca poderiam prever. Eles não eram apenas uma amostra de laboratório; eles eram uma família, forjada na dor e na perda.

Quando o último zumbi caiu, o silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O acampamento estava em ruínas, mas eles estavam vivos. Quase todos.

Cahide sentou-se no chão, exausta, observando Rick caminhar em direção a Lori e Carl. Ele os abraçou, mas seus olhos, mais uma vez, buscaram os de Cahide. Havia uma distância nova entre eles, uma distância criada pela presença física de Lori e pela realidade do papel de Rick como protetor de sua antiga vida.

Lori olhou para Cahide. Não havia mais ciúme em seus olhos, apenas uma aceitação amarga. Ela sabia que, sem Cahide, Rick não teria voltado. E Cahide sabia que, enquanto Lori estivesse ali, ela seria sempre a mulher das sombras.

Turna aproximou-se de Cahide, sentando-se ao seu lado e encostando a cabeça em seu ombro.

— Nós vencemos, mamãe? — perguntou a menina.

Cahide olhou para os corpos espalhados, para o rádio quebrado de Morgan no chão e para o horizonte onde as luzes dos veículos de Miller haviam desaparecido.

— Por hoje, Turna. Por hoje, nós vencemos.

Mas, no fundo de seu coração, Cahide sabia que o experimento estava longe de acabar. O mundo havia se tornado um laboratório de crueldade, e o próximo capítulo exigiria dela algo que ela ainda não tinha certeza se possuía: a capacidade de amar em um mundo que só conhecia o ódio.

Ela olhou para Rick uma última vez antes de se levantar para ajudar a limpar os destroços. Ele era o seu xerife, o seu amante, o seu parceiro. Mas, acima de tudo, ele era a prova de que, mesmo nas cinzas do agora, alguns fogos se recusavam a apagar.