Capítulo 1
Preciso que continue este capítulo Depois de alguns minutos que pareceram suspensos no tempo, Rick desligou o registro do chuveiro. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som das gotas batendo no piso de cerâmica e pela nossa respiração, que aos poucos voltava ao ritmo normal. O vapor ainda flutuava ao nosso redor, criando uma névoa densa que escondia as imperfeições daquele vestiário decadente. Rick afastou o rosto do meu pescoço, mas não me soltou imediatamente. Ele colou a testa na minha, os olhos azuis ainda dilatados, as mãos segurando meu rosto com uma delicadeza que contrastava com a violência da nossa entrega momentos antes. — Eu não queria que fosse assim — ele sussurrou, a voz rouca, carregada de um pesar que ele tentava esconder. — Em um vestiário sujo, com o mundo acabando lá fora. Você merecia algo melhor, Cahide. Eu dei um meio sorriso, deslizando minhas mãos pelos ombros dele, sentindo o tecido ensopado da farda. — Rick, o mundo "melhor" acabou há semanas. O que temos agora é o real. E o que aconteceu aqui foi a coisa mais real que senti desde que saí da Turquia fugida— respondi, sendo sincera. — Não peça desculpas por me fazer sentir viva. Ele assentiu, depositando um beijo leve nos meus lábios antes de me colocar no chão. O frio do ambiente começou a penetrar nossos corpos molhados. Precisávamos nos secar e nos recompor antes que Morgan começasse a desconfiar da demora. Usamos as poucas toalhas que ainda restavam nos armários, movendo-nos com uma agilidade silenciosa, como se estivéssemos em uma missão tática. Vesti minhas roupas, que agora pareciam mais pesadas por causa da umidade, mas a sensação de limpeza era um luxo indescritível. Rick ajeitou o cinto de utilidades, prendendo a Python no coldre com um estalo seco. O xerife estava de volta, mas havia algo diferente nele. O peso nos seus ombros parecia um pouco mais leve. — Vamos — disse ele, abrindo a porta do vestiário e checando o corredor. — Temos uma família esperando por nós. Descemos as escadas para o arsenal. Morgan estava sentado em um caixote de madeira, limpando o cano de uma espingarda com um pedaço de pano velho. Duane e Turna estavam num canto, a menina ensinando ao garoto como organizar as munições por calibre dentro das mochilas. Assim que entramos, Turna levantou os olhos. O sorriso dela não tinha mudado; continuava carregado daquela percepção aguçada que só os filhos têm sobre os pais. — Demoraram na manutenção das ferramentas, não foi? — Turna perguntou, a voz inocente demais para ser verdade. — A água quente estava boa? Morgan levantou os olhos, alternando o olhar entre o meu cabelo ainda úmido e a expressão de "homem de lei" de Rick, que parecia um pouco forçada demais. Ele soltou um suspiro curto, quase uma risada contida. — A água é um privilégio que não teremos na estrada, garota — disse Morgan, voltando sua atenção para a arma. — Rick, consegui sintonizar o rádio. Não há nada nas frequências locais, mas há uma transmissão repetida vindo de Atlanta. Eles falam sobre um centro de refugiados. Uma zona segura. Rick caminhou até a mesa de rádio, os dedos traçando os botões com urgência. — Atlanta... é para lá que Lori e Carl iriam. É o maior centro urbano da região. Faz sentido — Rick murmurou, mais para si mesmo do que para nós. — Morgan, você vem conosco. Temos armas, temos carros no pátio dos fundos. Podemos fazer isso juntos. Morgan parou o movimento de limpeza. Ele olhou para Duane, que o observava com expectativa. O silêncio se arrastou, pesado e denso. — Eu ainda não posso, Rick — Morgan respondeu, a voz falhando levemente. — Jenny... ela ainda está lá fora. Eu não posso deixá-la assim. Preciso... preciso fazer o que deveria ter feito há muito tempo. Eu entendi imediatamente. Morgan estava falando da esposa. A mulher que arranhava a porta todas as noites. Ele não estava pronto para abandonar o fantasma dela. Rick colocou a mão no ombro de Morgan, um gesto de respeito entre dois homens que haviam perdido quase tudo. — Eu entendo. Mas pegue o rádio. Vou tentar entrar em contato todos os dias, ao amanhecer. Quando você estiver pronto, quando o caminho estiver livre... você nos encontra em Atlanta. — Eu estarei lá — Morgan prometeu, apertando a mão de Rick. Passamos a hora seguinte carregando o que podíamos. Rick escolheu uma viatura da polícia que ainda tinha meio tanque de combustível. Enchemos o porta-malas com galões de água, conservas encontradas na despensa da delegacia, coletes à prova de balas e, claro, o arsenal. Quando saímos da delegacia, o sol já estava alto, mas o brilho era pálido, filtrado pelas cinzas e pela poluição que pairava no ar. O mundo parecia vasto e terrivelmente vazio. — Turna, no banco de trás — ordenei, abrindo a porta da viatura. — Coloque o cinto e mantenha o machado no chão, ao alcance da mão. Se algo acontecer, você não espera por mim. Você se protege. — Eu sei, mamãe — ela disse, subindo no carro. — Eu sei ler os sinais, lembra? Rick assumiu o volante. Eu me sentei ao lado dele, sentindo o couro frio do banco do passageiro. Ele girou a chave, e o motor da viatura rugiu, um som que parecia alto demais, perigoso demais naquele silêncio mortal. Morgan e Duane ficaram na calçada, observando-nos partir. — Pronta? — Rick perguntou, olhando para mim antes de engatar a marcha. — Pronta — respondi, segurando a mão dele sobre o console central por um breve momento. A viagem para Atlanta começou sob um silêncio tenso. As estradas estavam obstruídas por engavetamentos quilométricos. Rick dirigia pelo acostamento, desviando de corpos estirados e veículos queimados. A cada quilômetro, a paisagem se tornava mais desoladora. Cartazes de "Procurem ajuda" e "Deus nos perdoe" estavam pichados em muros de casas abandonadas. — Você acha que eles estão lá, Rick? — perguntei, depois de horas de viagem, observando as placas que indicavam a proximidade da cidade. — Eu tenho que acreditar que sim, Cahide. Se eu parar de acreditar nisso, não sobra nada do homem que eu era. E eu preciso que esse homem sobreviva para cuidar do Carl, da Turna e de você. — Você não está sozinho nessa — eu disse, apertando o cabo do meu machado que estava entre as minhas pernas. — Eu passei anos defendendo pessoas que o sistema queria esmagar. Agora, o sistema é a morte. E eu ainda não perdi um caso. Rick deu um sorriso de lado, aquele brilho de determinação voltando aos seus olhos. — É por isso que eu te quero do meu lado sempre. ..... À medida que nos aproximávamos dos subúrbios de Atlanta, a quantidade de veículos abandonados aumentou drasticamente. A rodovia principal estava bloqueada por uma massa intransponível de metal e vidro. Rick parou a viatura diante de um bloqueio militar abandonado. Tanques de guerra estavam parados como sentinelas mortas, e o cheiro... o cheiro era insuportável. Era o odor da morte em escala industrial. — O que é aquilo? — Turna apontou para o céu. Ao longe, sobre o horizonte de prédios de Atlanta, uma fumaça negra subia. Não era um incêndio pequeno; parecia que a cidade estava queimando há dias. — Rick, olhe para a entrada da cidade — eu disse, apontando para a rodovia oposta. Milhares de carros estavam parados na saída de Atlanta, mas a entrada... a entrada estava vazia. Era um convite silencioso para o inferno. — Precisamos de outro caminho — Rick decidiu, manobrando a viatura. — Se entrarmos pela rodovia principal, seremos alvos fáceis se houver bloqueios ou hordas. Ele pegou um mapa rodoviário no porta-luvas, estudando as rotas secundárias. — Há uma estrada de terra que contorna a zona industrial e sai perto do centro ferroviário. É mais longo, mas menos exposto. — Faça o que for preciso, xerife — eu disse, sentindo a adrenalina começar a bombear novamente. Pegamos o desvio. A estrada era estreita, cercada por mato alto e galpões abandonados. De repente, um som estranho começou a ecoar. Não era o rosnado dos zumbis. Era um som mecânico, rítmico. — Abaixem-se! — Rick gritou, freando bruscamente. Um helicóptero militar passou baixo sobre nós, voando em direção ao coração da cidade. O barulho foi ensurdecedor, e o deslocamento de ar fez a viatura balançar. — Eles ainda estão operando? — Turna perguntou, espiando pela janela. — Se o exército está lá dentro, talvez a zona segura seja real — Rick disse, os olhos brilhando com uma nova esperança. — Se seguirmos aquele helicóptero, ele nos levará ao comando central. — Ou ao lugar onde o fogo é mais alto — ponderei, sentindo um pressentimento ruim. — Rick, se o exército está voando baixo assim, é porque perderam o controle do solo. — Só há um jeito de saber. Ele acelerou. Entramos na zona urbana de Atlanta por uma rua lateral. A cidade estava estranhamente silenciosa, um contraste bizarro com o caos que imaginávamos. Prédios espelhados refletiam o sol poente, e as ruas estavam limpas de carros, mas cheias de lixo e sangue seco. — Algo está errado — sussurrei, sacando a pistola que Rick havia me dado na delegacia. — Está silencioso demais. — Mantenham os olhos abertos — Rick ordenou. Dobramos a esquina da Peachtree Street e, de repente, o mundo parou. À nossa frente, a rua se abria em uma praça larga. Mas não conseguíamos ver o asfalto. Havia uma massa em movimento. Milhares. Dezenas de milhares de mortos-vivos caminhavam em uma procissão lenta e macabra, preenchendo cada centímetro da avenida principal. O som de seus passos e gemidos era como o rugido de um oceano de agonia. — Meu Deus... — Turna exclamou, cobrindo a boca com as mãos. Rick tentou engatar a marcha ré, mas o motor da viatura escolheu aquele exato momento para falhar. O barulho da tentativa de ignição ecoou como um tiro no desfiladeiro de prédios. As cabeças da horda giraram simultaneamente. Milhares de olhos sem vida fixaram-se na viatura branca e preta. — Saiam do carro! Agora! — Rick gritou. Abrimos as portas e saltamos. O pânico de Turna era visível, mas ela não congelou. Ela segurou a minha mão com força enquanto corríamos em direção a um beco lateral. Rick vinha logo atrás, disparando sua Python contra os primeiros zumbis que se aproximavam com uma velocidade surpreendente. — Para cima! — Rick apontou para uma escada de incêndio de ferro enferrujado na lateral de um prédio de tijolos. — Cahide, leve a Turna primeiro! Subi os primeiros degraus, puxando Turna comigo. A horda estava sobre nós. As mãos cinzentas e descarnadas arranhavam o metal da escada logo abaixo dos pés de Rick. Ele chutou o rosto de um zumbi que tentava escalá-lo e subiu os últimos degraus com um salto desesperado. Chegamos ao telhado, ofegantes, os corações batendo contra as costelas. Olhamos para baixo. A rua estava tomada. Éramos náufragos em uma ilha de tijolos cercada por um mar de dentes e unhas. Rick caminhou até a beirada do telhado, olhando para o horizonte da cidade. A poucos quarteirões dali, um tanque de guerra estava parado no meio de um cruzamento, cercado por corpos. — Não podemos ficar aqui — disse Rick, recuperando o fôlego. — Eles vão sentir o nosso cheiro. Precisamos nos mover pelos telhados. — Rick, olhe — apontei para o tanque. — Há alguém se movendo lá perto. Um jovem de boné, carregando uma mochila, corria entre os carros abandonados com uma agilidade impressionante, evitando a horda com precisão quase matemática. Ele desapareceu sob o tanque. — Se ele conhece a cidade, ele é a nossa melhor chance — Rick decidiu. — E como vamos chegar até ele sem virarmos comida? — perguntei, olhando para a horda lá embaixo e sem soltar a mão da Turna. Rick olhou para mim, depois para Turna. Ele limpou o suor do rosto e deu um sorriso determinado, o mesmo sorriso que ele tinha no quarto de tralhas, mas agora carregado de uma coragem suicida. — Nós vamos descer. Mas não pela rua. Vamos usar os tanques de combustível e as mangueiras de incêndio deste prédio. Vou criar uma distração. Cahide, quando eu der o sinal, você e Turna correm para aquele tanque. — Você está louco, xerife — eu disse, segurando o rosto dele. — Mas eu não vou te deixar sozinho. — Você não vai. Você vai proteger a Turna. Eu encontro vocês lá. Ele me beijou rapidamente, um toque de lábios que selava uma promessa silenciosa. Rick correu para o outro lado do telhado, pegando um sinalizador que havia encontrado na viatura. — Ei, seus sacos de carne! — ele gritou para a horda, disparando o sinalizador para longe, em direção a um depósito de gás do outro lado da rua. A explosão foi imediata. Uma bola de fogo subiu aos céus, e o som ensurdecedor atraiu a atenção da massa de zumbis. — Agora! — Rick gritou. Descemos pela mangueira de incêndio nos fundos do prédio, caindo em um beco relativamente vazio. Corremos como se nossas vidas dependessem de cada centímetro de asfalto. Turna era rápida, seus pés pequenos batendo no chão com agilidade. Chegamos ao tanque de guerra. Rick abriu a escotilha inferior e nos empurrou para dentro do metal sufocante e escuro. — Entrem! — ele sibilou. Fechamos a escotilha. O silêncio dentro do tanque era absoluto, quebrado apenas pela nossa respiração pesada. Estávamos seguros, por enquanto. — Ei, vocês — uma voz jovem e sarcástica ecoou pelo rádio interno do tanque. — Vocês são os idiotas que acabaram de explodir metade do quarteirão? Rick pegou o comunicador, um sorriso de alívio surgindo em seu rosto. — Aqui é o Rick. E eu sugiro que você nos ajude se não quiser que eu exploda a outra metade. — Bem-vindos a Atlanta, xerife — a voz respondeu. — Eu sou o Glenn. E vocês acabaram de entrar no pior dia das suas vidas. Rick olhou para mim na penumbra do tanque. Ele segurou a minha mão e a de Turna. — Sobrevivemos a King County. Vamos sobreviver a isso — ele afirmou. E eu sabia que, enquanto estivéssemos juntos, o apocalipse era apenas mais um caso que eu estava determinada a vencer. .......... A escuridão dentro do tanque de guerra cheirava a óleo diesel antigo, suor frio e metal oxidado. O espaço era tão reduzido que meus joelhos tocavam os de Rick, e o corpo de Turna estava espremido entre nós, sua respiração pequena e rápida sendo o único som além do zumbido estático do rádio. Lá fora, o mundo era um mar de rosnados e unhas batendo contra a blindagem, um som rítmico e desesperador que lembrava uma chuva de granizo feita de carne morta. — Ei, vocês ainda estão aí? — a voz de Glenn estalou novamente no comunicador, soando jovem e estranhamente calma para quem estava no meio do inferno. — Se estiverem vivos, não tentem sair pela escotilha de cima. Eles estão amontoados lá como formigas em um torrão de açúcar. Rick pegou o rádio, os dedos ainda trêmulos pela adrenalina da corrida. — Estamos aqui, Glenn. Estamos em três. Eu, uma mulher e uma criança. Como saímos daqui? Houve uma pausa do outro lado. O silêncio de Glenn foi quase mais aterrorizante do que os gritos dos caminhantes. — Três? Droga, xerife, você não facilita as coisas. Escutem bem: há uma saída de emergência no piso do tanque, atrás do assento do artilheiro. Ela leva a uma galeria de manutenção. Eu vou criar uma distração sonora a dois quarteirões daí. Quando ouvirem os fogos, vocês têm exatamente dez segundos para descer e correr para a esquerda. Se forem para a direita, viram jantar. Entendido? — Entendido — Rick respondeu, olhando para mim. Seus olhos azuis, que horas atrás brilhavam de desejo sob a água quente do vestiário, agora eram puro aço. Ele estendeu a mão e acariciou o rosto de Turna, que tremia levemente. — Vai ficar tudo bem, querida. Só precisamos correr mais uma vez. Você é a menina mais rápida que eu conheço, lembra? Turna assentiu, forçando uma coragem que nenhuma criança de dez anos deveria ter. Eu segurei o cabo do meu machado, sentindo o peso familiar. O sangue seco da delegacia ainda manchava minhas unhas, um lembrete de que a Cahide advogada havia morrido para dar lugar à Cahide sobrevivente. — Rick — sussurrei, aproximando meu rosto do dele no breu — se nos separarmos... — Não vamos — ele me cortou, selando a promessa com um aperto firme no meu braço. — Eu não te achei nessa vida para te perder em um bueiro de Atlanta. De repente, um som de assobios e explosões coloridas ecoou do lado de fora. Glenn havia soltado fogos de artifício em um beco distante. O efeito foi imediato. O peso sobre o tanque diminuiu conforme a horda era atraída pelo brilho e pelo barulho. — Agora! — Rick gritou, chutando a pequena escotilha no chão do veículo. Descemos um por um, caindo em um túnel estreito e úmido. O cheiro de esgoto era nauseante, mas era o cheiro da liberdade. Corremos para a esquerda, como instruído, com Rick na retaguarda, a Python em punho. O túnel nos levou a um porão de uma loja de departamentos abandonada. Subimos as escadas correndo e, no topo, um garoto de boné e traços asiáticos nos esperava, segurando uma porta de metal entreaberta. — Rápido, rápido! — Glenn sibilou, puxando-nos para dentro e trancando a porta com três ferrolhos pesados. O interior da loja estava na penumbra. Manequins sem roupas e prateleiras derrubadas criavam um cenário fantasmagórico. Glenn nos olhou de cima a baixo, bufando. — Vocês são loucos. Entrar na cidade com uma viatura barulhenta? Vocês basicamente tocaram o sino do jantar para todos os zumbis do centro. — Não tínhamos escolha — eu disse, recuperando o fôlego e ajeitando o cabelo desgrenhado. — Estávamos seguindo um helicóptero. Glenn arqueou as sobrancelhas. — Helicóptero? Cara, eu estou aqui há semanas e nunca vi um helicóptero pousar. Vocês devem estar vendo miragens de fome. Enfim, venham. O resto do grupo está lá em cima. E eles não vão ficar felizes em ver mais três bocas para alimentar. Subimos as escadas rolantes paradas até o telhado do prédio. Lá, um grupo eclético de pessoas nos observava com armas em punho e expressões de puro terror e raiva. Um homem alto e de traços rudes, que Glenn chamou de Merle, começou a gritar sobre como Rick havia condenado todos eles com aquele barulho todo. A tensão escalou rápido. Rick, em seu instinto de xerife, tentou acalmar os ânimos, mas a hostilidade de Merle era tóxica. Ele apontou um rifle para o peito de Rick, e o meu sangue ferveu. Antes que eu pudesse processar, eu já estava na frente de Rick, a lâmina do meu machado erguida lateralmente, os olhos fixos nos de Merle. — Abaixe essa arma agora, seu pedaço de lixo — sibilei, a voz saindo como o estalar de um chicote. — Eu passei vinte anos lidando com criminosos muito mais perigosos e inteligentes que você em tribunais de Istambul. Você não me assusta. Se puxar esse gatilho, eu garanto que minha lâmina encontra seu pescoço antes de você conseguir recarregar. O silêncio caiu sobre o telhado. Até Rick pareceu surpreso com a minha ferocidade. Merle riu, uma risada seca e feia, mas baixou o rifle milímetros. — Uma turca brava, hein? — ele cuspiu no chão. — O xerife arrumou uma cadela de guarda. — Ela é minha parceira — Rick disse, a voz baixa e perigosa, colocando a mão no meu ombro para me puxar levemente para trás. — E ela está certa. Estamos todos no mesmo barco. Se brigarmos aqui, os mortos lá embaixo vencem por W.O. Glenn interveio, tentando dissipar a tensão. — Chega! Temos um problema maior. O sinalizador do Rick e os fogos atraíram milhares para o bloco. Estamos cercados. Precisamos de um plano para sair deste prédio e chegar até as vans que deixamos nos arredores. Passamos as horas seguintes traçando rotas. Turna ficou sentada perto de uma mulher chamada Andrea, que parecia chocada demais para falar, mas que ofereceu um pouco de água à minha filha. Eu me juntei a Rick e Glenn na beirada do telhado, observando a rua. — Não podemos sair pela frente — Glenn explicou. — Mas há um caminhão de carga nos fundos. Se alguém conseguisse chegar até ele... — Eu vou — Rick disse imediatamente. — Eu e a Cahide. — Rick, não — eu disse, segurando sua mão. — É suicídio. — Não é se usarmos o que o Glenn sugeriu. O cheiro. Glenn havia explicado que os mortos se guiavam pelo olfato. Se nos cobríssemos com o sangue e as entranhas deles, poderíamos caminhar entre a horda. A ideia era repulsiva, mas era a única chance. Minutos depois, estávamos no beco dos fundos. Rick e eu tínhamos abatido um zumbi que estava preso em uma grade. Com facas, começamos o trabalho macabro de estripar o cadáver. O cheiro era indescritível; uma mistura de carne podre, amônia e algo doce e metálico que revirava o estômago. Rick pegou um punhado de entranhas cinzentas e começou a passar no meu casaco de moletom, aquele mesmo que ele havia tirado com tanta pressa e desejo na delegacia. Nossos olhos se encontraram. Não havia romance ali, apenas a determinação bruta de quem quer ver o sol nascer novamente. — Você está bem? — ele perguntou, a voz abafada pela bandana que cobria seu nariz. — Eu já estive em lugares piores — menti, sentindo o sangue frio escorrer pelo meu braço. — Mas se sobrevivermos a isso, Rick Grimes, você me deve um jantar de verdade. Com vinho e sem cheiro de cadáver. Ele soltou uma risada curta e nervosa. — É uma promessa. Saímos para a rua principal. O mundo mudou de perspectiva. Estávamos caminhando lado a lado, com os ombros curvados, imitando o arrastar dos mortos. Eles estavam por toda parte. Um deles, uma mulher sem metade da mandíbula, aproximou-se de mim, farejando o ar. Prendi a respiração, sentindo o coração martelar contra as costelas. Ela rosnou, o hálito podre batendo no meu rosto, mas depois de um segundo que pareceu uma eternidade, ela se virou e continuou seu caminho sem rumo. Rick segurou o cabo do meu machado com a ponta dos dedos, um contato mínimo para garantir que ainda estávamos ali. Avançamos lentamente em direção ao caminhão. Estávamos quase lá, a apenas dez metros do veículo, quando o céu, que estivera nublado o dia todo, decidiu nos trair. Um trovão ecoou e, em segundos, uma chuva torrencial começou a cair. — Droga — Rick sibilou. A água começou a lavar o sangue e as entranhas dos nossos casacos. O cheiro de "vivo" começou a emanar novamente. Os caminhantes ao redor pararam. As cabeças giraram. O rosnado coletivo mudou de tom, tornando-se agudo e faminto. — Corra! — Rick gritou. Descartamos o disfarce e disparamos. O asfalto molhado era escorregadio. Rick alcançou o caminhão, arrancando a porta e pulando no banco do motorista. Eu pulei na caçamba, girando o machado para derrubar um zumbi que tentava me puxar pelas botas. — Entra, Cahide! — ele gritou, estendendo a mão por dentro da cabine. Eu me joguei para dentro enquanto ele acelerava. O caminhão rugiu, atropelando dezenas de mortos que tentavam bloquear o caminho. Rick dirigia como um louco, subindo em calçadas e destruindo barricadas improvisadas. — Precisamos voltar para o prédio! — gritei acima do barulho do motor. — Turna ainda está lá! — Eu sei! Eu não vou deixá-la! Ele manobrou o caminhão pesado de volta para a rua lateral do prédio de departamentos. Enquanto isso, ouvimos o som de outro motor. Glenn havia conseguido ligar um Dodge Challenger vermelho e estava usando o alarme do carro para atrair a horda para longe da entrada principal. — Aquele garoto tem culhões — comentei, vendo o carro esportivo voar pelas ruas de Atlanta. Rick parou o caminhão rente à porta de carga. O grupo desceu correndo, com Turna na frente. Eu a peguei no colo e a joguei para dentro da cabine, abraçando-a com tanta força que ela reclamou. — Eu estou bem, mamãe! Eu vi você! Você parecia um monstro de lama! — ela riu, o humor infantil voltando em meio ao caos. O resto do grupo subiu na caçamba. Rick engatou a marcha e saímos em disparada, deixando para trás o pesadelo de concreto de Atlanta. O sol estava se pondo, pintando o céu de um laranja sangrento enquanto pegávamos a estrada em direção às montanhas, onde Glenn disse que o acampamento principal estava localizado. A viagem foi silenciosa. O cansaço era uma entidade física que pesava sobre nós. Rick dirigia com uma mão no volante e a outra entrelaçada na minha, sobre o banco central. Turna dormia com a cabeça no meu colo, finalmente vencida pela exaustão. — Rick — chamei baixinho, observando as árvores passarem pela janela. — Sim? — Você acha que eles estão lá? No acampamento? Ele suspirou, os olhos fixos na estrada escura. — Glenn disse que há famílias lá. Pessoas que fugiram da cidade antes do bombardeio. Se houver uma chance no mundo de eles estarem vivos, é lá. — Nós vamos achá-los — afirmei, fechando os olhos por um momento. — E quando acharmos, o que acontece com a gente? Rick apertou a minha mão. — O que aconteceu naquele quarto de tralhas e naquele chuveiro não foi um erro, Cahide. E não foi só por causa do fim do mundo. Eu sinto coisas por você que eu não entendo, mas que eu não quero que parem. — Eu também — confessei. — Mas o Carl... a Lori... — O Carl é o meu filho, a minha família. E você e a Turna agora fazem parte disso. Vamos descobrir como isso funciona. Juntos. Horas depois, as luzes de um pequeno acampamento surgiram no topo de uma pedreira. Glenn, que já havia chegado com o Challenger, sinalizou com os faróis. Rick parou o caminhão. O grupo da caçamba começou a descer. Andrea, T-Dog, Morales... todos pareciam aliviados. Um homem de chapéu, que parecia ser o líder do acampamento, caminhou em nossa direção. — Rick? — uma voz feminina gritou do meio das barracas. Meu coração parou. Rick congelou ao meu lado. Uma mulher morena correu em direção ao caminhão, seguida por um menino de chapéu de xerife. — Lori? Carl? — a voz de Rick saiu como um sopro. Ele saltou do carro e correu. O reencontro foi uma explosão de lágrimas, abraços e soluços. Carl se jogou nos braços do pai, e Lori o abraçou como se ele fosse um milagre. Eu saí do caminhão lentamente, segurando a mão de Turna. Ficamos ali, na periferia da luz da fogueira, observando a cena. A felicidade de Rick era radiante, mas eu senti uma pontada aguda de incerteza no peito. Eu era a mulher que o trouxera de volta, que compartilhara sua cama no escuro e seu sangue na batalha. Mas ali, sob a luz da lua, ele era o pai do filho daquela mulher e o pai que havia voltado dos mortos. Turna olhou para mim, apertando minha mão. — E agora, mamãe? — ela perguntou em turco, a voz carregada de dúvida. Eu observei Rick. Ele estava abraçado à ex, mas por um breve segundo, por cima do ombro de Lori, seus olhos azuis buscaram os meus na penumbra. Havia dor ali, e uma promessa silenciosa de que nada seria fácil. — Agora, Turna... — respondi, endireitando os ombros e sentindo o peso do machado na outra mão — agora nós sobrevivemos ao próximo capítulo. Caminhamos em direção ao fogo. O apocalipse não havia acabado; ele estava apenas começando a testar do que éramos realmente feitos. E eu, Cahide, a advogada que nunca perdia um caso, estava pronta para lutar pelo meu lugar naquele novo e brutal mundo. .......... O ar na pedreira era diferente do ar de Atlanta. Lá embaixo, na cidade, o cheiro era de metal, asfalto quente e morte em decomposição. Aqui, o aroma era de pinheiros, terra úmida e o suor humano de quem lutava para manter a sanidade. Mas para Cahide, o ar parecia mais pesado do que nunca. Ela estava sentada na borda de uma rocha, observando o horizonte onde o sol começava a se pôr. Ao seu lado, Turna limpava meticulosamente a lâmina da sua pequena faça com um pedaço de flanela velha. A menina estava silenciosa, um silêncio que Cahide reconhecia bem: era o silêncio de quem observa as peças de um tabuleiro se movendo sem poder intervir. — Ela olha para ele como se estivesse vendo um fantasma e como se estivesse arrependia, mamãe— disse Turna, sem levantar os olhos da faça. Cahide não precisou perguntar de quem a filha estava falando. Lori Grimes. A ex esposa que Rick acreditava estar morta. A mulher que agora ocupava o centro do acampamento, cercada por uma aura de choque e alívio, enquanto Carl se agarrava às pernas do pai como se o mundo pudesse engoli-lo se ele soltasse. — Ela está vendo um fantasma, Turna — respondeu Cahide, a voz firme, apesar do nó em seu estômago. — Para ela, o Rick morreu naquele hospital. O reencontro é um milagre que ninguém esperava. — E para você, mamãe? — Turna finalmente olhou para ela, os olhos escuros e analíticos. — O que o Rick é agora? Cahide hesitou. Como explicar a uma criança — que o mundo forçara a amadurecer rápido demais — que o homem que a protegeu, que a beijou com a urgência de quem não tem amanhã, agora era um estranho dividido? — Ele é o homem que nos trouxe até aqui. E é um homem que encontrou sua família. O resto... o resto o tempo vai dizer. O som de passos sobre o cascalho interrompeu a conversa. Cahide se levantou instintivamente, a mão descendo para o cabo da faca presa ao cinto. Era Shane. O parceiro de Rick tinha um olhar sombrio, uma mistura de ressentimento e vigilância que Cahide ainda não conseguia decifrar completamente. — O xerife quer falar com o grupo — disse Shane, parando a alguns metros de distância. Ele olhou para Cahide de cima a baixo, um brilho de desconfiança nos olhos. — Ele está organizando as vigílias. E quer agradecer formalmente por você ter ajudado a trazer o traseiro dele de volta para casa. — Eu não fiz isso por gratidão, Shane — Cahide respondeu, sua postura de advogada assumindo o controle, fria e inabalável. — Fiz porque era o certo. E faria de novo. Shane soltou um riso seco, quase um latido. — É, eu percebi. Vocês dois parecem ter ficado bem próximos na estrada. — O que você percebeu ou deixou de perceber não é problema meu — cortou ela, passando por ele e fazendo um sinal para Turna segui-la. No centro do acampamento, em volta de uma fogueira ainda apagada, o grupo se reunia. Rick estava de pé, o chapéu de xerife nas mãos, parecendo exausto. Lori estava ao seu lado, a mão possessivamente pousada em seu braço. Quando os olhos de Rick encontraram os de Cahide, houve uma fração de segundo em que o mundo ao redor deles desapareceu. Foi uma troca de olhares carregada de eletricidade, culpa por Lori está grudada nele como se estivessem reatando qualquer relação e uma promessa não dita. — Precisamos de ordem — começou Rick, a voz projetando a autoridade que ele carregava naturalmente. — Atlanta foi um erro. Quase não saímos de lá. Se quisermos sobreviver aqui, precisamos de patrulhas constantes e de um inventário rigoroso de munição e comida. — E quanto ao Merle? — gritou Daryl Dixon, surgindo das sombras com sua besta no ombro, o rosto vermelho de raiva. — Você deixou meu irmão algemado naquele telhado como se fosse lixo! — Ele era um perigo para o grupo, Daryl — Rick respondeu, mantendo a calma. — Mas eu não vou deixar um homem para trás se houver uma chance. Vou voltar para buscá-lo. Um murmúrio de protesto percorreu o acampamento. Lori apertou o braço dele com mais força. — Rick, não! Você acabou de voltar — ela sussurrou, mas alto o suficiente para que Cahide ouvisse. — Você não pode nos deixar de novo. Não por causa daquele homem. — Eu algemei aquele homem, Lori. É minha responsabilidade — disse Rick, embora seus olhos estivessem fixos em Cahide, como se buscasse nela qualquer tipo de validação. Cahide deu um passo à frente, cruzando os braços. A advogada em seu íntimo sabia que aquela era uma missão suicida, mas a sobrevivente sabia que Rick não conseguiria viver consigo mesmo se não tentasse. — Se ele for, eu vou junto — anunciou Cahide. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Lori olhou para Cahide pela primeira vez com total atenção, os olhos estreitados em uma mistura de ciúme e confusão. — E quem é você exatamente? — perguntou Lori, a voz tingida de uma hostilidade mal disfarçada. — Rick mencionou que você o ajudou, mas não sabia que você fazia parte das decisões do pai do meu filho. Cahide manteve o queixo erguido. — Eu não faço parte da sua família, Lori. Mas faço parte do grupo que sobreviveu a Atlanta enquanto você estava aqui em cima, protegida. Eu conheço o caminho, conheço os telhados e sei como o Rick luta. Se ele vai entrar naquele inferno de novo, ele precisa de alguém que cubra as costas dele, não de alguém que o segure pelo braço. — Chega — interrompeu Rick, a voz soando como um chicote. — Cahide tem razão sobre o terreno. Mas ninguém vai a lugar nenhum esta noite. Vamos descansar. Amanhã decidimos quem vai. O grupo se dispersou lentamente. Cahide sentiu o olhar de Lori queimando em suas costas enquanto caminhava em direção à sua pequena barraca improvisada. Ela sentia a tensão vibrando no ar, uma tempestade que não tinha nada a ver com os mortos-vivos. Mais tarde, quando a lua já estava alta e o acampamento mergulhado em um sono inquieto, Cahide sentiu uma presença do lado de fora de sua barraca. Ela pegou a faca, mas relaxou ao ouvir o sussurro familiar. — Sou eu. Ela abriu o zíper da barraca. Rick estava parado ali, as sombras das árvores dançando em seu rosto cansado. Sem dizer uma palavra, ele entrou e fechou o zíper atrás de si. O espaço era pequeno, o que os forçava a uma proximidade quase dolorosa. — Você não deveria estar aqui — sussurrou Cahide, embora suas mãos estivessem subindo para tocar os ombros dele. — Sua ex esposa que acha ser a atual, está a poucos metros de distância. — Eu sei — disse Rick, a voz rouca. Ele fechou os olhos por um momento, encostando a testa na dela. — Mas eu sinto que estou vivendo duas vidas ao mesmo tempo, Cahide. Em uma, eu sou o ex-marido que voltou dos mortos e não corta a ex, com medo de magoar o meu filho. Na outra... na outra eu sou o homem que você salvou, que fez amor com você, que descobriu o amor outra vez. O homem que se apaixonou por você enquanto o mundo queimava. — Você não pode ter as duas, Rick. Este mundo não permite esse tipo de luxo. — Eu sei disso também — ele murmurou, as mãos encontrando a cintura dela, puxando-a para mais perto. — Mas por enquanto, apenas por alguns minutos, eu preciso saber que o que aconteceu entre nós foi real. Que não foi apenas o medo da morte nos empurrando um para o outro. Cahide buscou os lábios dele, um beijo que começou desesperado e terminou com uma doçura triste. Era um beijo de despedida e de reafirmação. — Foi real — ela disse contra os lábios dele. — Mas amanhã, quando o sol nascer, você é o líder deles. E eu sou a mulher que vai garantir que você volte vivo. Nada mais. — Cahide... — Vá embora, Rick. Antes que o Carl acorde. Antes que a mentira se torne insuportável, porquê você não cortar a Lori pra magoar o seu filho, está me magoando profundamente. Ele a olhou por um longo tempo, uma luta interna visível em seus olhos azuis. Por fim, ele assentiu, deixou um último beijo em sua testa e saiu da barraca tão silenciosamente quanto havia entrado. Cahide deitou-se, mas o sono não veio. Ela pensou em Morgan e no rádio que Rick carregava. Pensou no helicóptero que viram em Atlanta — um sinal de que ainda havia um mundo ordenado em algum lugar, ou talvez apenas um remanescente de um poder que se recusava a morrer. Mas, acima de tudo, ela pensou na expressão de Lori. A guerra pelo coração de Rick Grimes estava apenas começando, e Cahide sabia que, em um tribunal ou em um apocalipse, as batalhas mais sangrentas eram sempre as que envolviam o que restava de humanidade. Pela manhã, o rádio de Rick chiou. — Rick, você está na escuta? — a voz de Morgan era fraca, mas reconhecível através da estática. Cahide se levantou, saindo da barraca a tempo de ver Rick correr para pegar o rádio. — Morgan! Estou aqui. Você está bem? Onde você está? — Estamos perto, Rick. Mas a estrada... a estrada está mudando. Há coisas aqui que não vimos antes. Homens, Rick. Homens com uniformes que não são da polícia nem do exército. A transmissão foi cortada por uma interferência violenta. Rick olhou para o rádio, depois para Cahide, que já estava ao seu lado. — Ele disse homens uniformizados? — perguntou ela, a mente jurídica já traçando possibilidades e perigos. — Sim. E se eles não são exército, quem são? — Rick guardou o rádio, sua expressão endurecendo. — Esqueça o Merle por um momento. Temos um problema maior se houver outros grupos armados operando na região. — Precisamos de patrulhas mais longas — sugeriu Cahide. — Vou levar o Daryl. Ele conhece estas matas melhor do que ninguém. Se houver alguém nos vigiando, ele vai encontrar os rastros. — Tome cuidado, Cahide — disse Rick, a preocupação superando o protocolo de líder na frente de todos. — Eu sempre tomo, xerife. Enquanto se preparava para partir com o caçador ranzinza, Cahide sentiu o olhar de Turna sobre ela. A menina estava sentada perto de Carl, mas seus olhos estavam fixos na mãe. Turna entregou-lhe uma pequena pedra polida que encontrara na pedreira. — Para dar sorte, mamãe — disse a menina. — O mundo está ficando menor, não está? — Está, querida. E as pessoas estão ficando mais perigosas. Cahide montou em um dos cavalos que o grupo havia conseguido. Ela olhou para Rick uma última vez antes de esporear o animal. O conflito com Lori, o mistério do helicóptero e a segurança do acampamento teriam que esperar. Naquele novo mundo, a sobrevivência era uma sentença de morte adiada dia após dia, e ela não pretendia deixar que o juiz batesse o martelo tão cedo.