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Capítulo 1

Entre a Carne e o Espírito

O sol da manhã na pedreira tinha uma palidez doentia, como se a própria luz estivesse cansada de iluminar os restos daquele mundo. Cahide sentou-se em um tronco caído perto da borda do acampamento, observando Turna. A menina estava sentada no chão, tentando consertar uma das alças de sua mochila com um pedaço de corda. Seus dedos, embora pequenos, moviam-se com uma precisão que apertava o coração de Cahide.

— Turna, venha aqui um pouco — chamou Cahide, a voz suave, mas carregada de uma fadiga que ia além do físico.

A menina levantou-se e caminhou até a mãe, sentando-se entre as pernas dela. Cahide começou a desembaraçar os cabelos escuros da filha com os dedos, um ritual que era o último vestígio de normalidade que lhes restava.

— Você está muito quieta hoje, minha pequena — sussurrou Cahide em turco, buscando no idioma natal um refúgio que o inglês não podia proporcionar.

— Eu estava pensando no que aquele homem, o Miller, disse — Turna respondeu, também em turco, a voz pequena. — Sobre sermos um experimento. Mamãe, nós somos apenas ratos em uma gaiola?

Cahide parou o movimento das mãos e abraçou a filha por trás, enterrando o rosto em seu pescoço.

— Não, Turna. Ratos não amam. Ratos não lutam uns pelos outros como nós lutamos ontem à noite. Eles podem ter as armas e os laboratórios, mas eles não têm o que nos mantém de pé. Eles são os que estão mortos por dentro, não nós.

— O Rick... ele olha para o Carl e para a Lori como se eles fossem tudo o que importa — Turna continuou, a percepção infantil cortando como uma lâmina. — Mas quando ele olha para você, parece que ele está sentindo dor. Por que o amor dói tanto agora?

— Porque o amor é a única coisa que ainda tem peso, querida. Tudo o mais é cinza e poeira. — Cahide beijou o topo da cabeça da filha. — Vá brincar com o Carl. Tente ser criança por pelo menos uma hora. Eu preciso me limpar.

Cahide pegou uma muda de roupa limpa e uma toalha gasta. O cheiro de sangue seco, pólvora e suor estava impregnado em sua pele, uma armadura invisível que ela precisava retirar para não enlouquecer. Ela caminhou em direção ao lago, uma pequena bacia natural cercada por rochas altas e vegetação densa, a alguns minutos do centro do acampamento.

O silêncio ali era quase absoluto. A água estava fria, um espelho escuro que refletia as nuvens passageiras. Cahide despiu-se lentamente, sentindo o ar frio arrepiar sua pele. Suas roupas caíram no chão como uma pele velha. Ela entrou na água, soltando um suspiro trêmulo quando o frio atingiu seu peito. Com um pedaço de sabão rudimentar, ela começou a esfregar os braços, os ombros, as pernas, vendo a água ao seu redor escurecer com a sujeira da batalha.

Ela estava mergulhada até os ombros, de olhos fechados, tentando lavar não apenas o corpo, mas a imagem dos mortos da noite anterior, quando ouviu o som de galhos secos se quebrando. Seus sentidos dispararam. Ela se virou rapidamente, cobrindo o peito com os braços, pronta para lutar.

Era Rick.

Ele estava parado na margem, o chapéu de xerife na mão, observando-a com uma intensidade que parecia queimar a distância entre eles. Ele parecia desfeito, as olheiras profundas e a farda manchada.

— Eu não queria te assustar — disse ele, a voz rouca. — Eu só... eu precisava sair de lá. Daquelas vozes, daquelas cobranças.

— O xerife está fugindo das suas responsabilidades? — perguntou Cahide, relaxando os ombros, embora seu coração batesse contra as costelas.

— O xerife está tentando lembrar quem é o homem por baixo do distintivo — Rick respondeu.

Ele caminhou até a beira da água, sentando-se em uma pedra. Ele não desviou o olhar. Não havia luxúria barata naquele olhar, apenas uma fome espiritual, um reconhecimento mútuo de duas almas que haviam sido moídas pelo mesmo moinho.

— Lori está organizando o estoque. Shane está limpando as armas. E eu só consigo pensar em como eu quase perdi você ontem — ele confessou, a voz falhando. — Quando Miller te levou, uma parte de mim simplesmente parou de bater.

Cahide nadou lentamente até a margem, ficando de pé onde a água batia em sua cintura. A nudez diante dele não parecia vulnerabilidade, mas uma declaração.

— Você voltou por mim, Rick. Mesmo com sua família ali, você voltou.

— Eu sempre voltaria — ele disse, levantando-se e entrando na água, mesmo de botas e uniforme.

Ele caminhou até ela, a água subindo por suas pernas, até que estivessem frente a frente. Rick estendeu a mão e tocou o rosto de Cahide, o polegar traçando o lábio inferior dela.

— Eu me sinto um traidor a cada segundo que olho para o Carl — sussurrou ele, aproximando o rosto do dela. — Mas me sinto morto a cada segundo que estou longe de você.

— Então não pense. Apenas sinta — respondeu Cahide, puxando-o pelo colarinho da farda.

O beijo foi uma colisão de desespero e alívio. Rick a abraçou com força, a aspereza do tecido de seu uniforme contrastando com a pele macia e molhada de Cahide. Ele a levantou, e ela entrelaçou as pernas em sua cintura, sentindo o metal frio de sua fivela contra seu ventre.

Rick a levou para a margem gramada e protegida pelas rochas. Ele se livrou das roupas com uma urgência febril, e logo estavam pele contra pele, o calor de seus corpos combatendo o frio da água que ainda escorria.

— Você é a minha paz no meio desse inferno — ele murmurou, descendo os beijos pelo pescoço dela, mordiscando a pele sensível acima da clavícula.

Cahide arqueou as costas, as mãos enterradas nos cabelos curtos de Rick.

— Me faça esquecer, Rick. Me faça esquecer o cheiro da morte. Me faça sentir que ainda sou humana.

Ele penetrou nela com uma intensidade que a fez perder o fôlego, um gemido longo escapando de seus lábios. O movimento era rítmico, uma dança de sobrevivência. Rick segurava as mãos dela acima da cabeça, os dedos entrelaçados, enquanto seus corpos se chocavam com uma força que buscava exorcizar todos os demônios dos últimos dias.

— Cahide... — ele arquejou, o rosto enterrado na curva do ombro dela. — Eu te amo. Eu não deveria, mas eu te amo.

— Eu sei — ela respondeu, as lágrimas se misturando às gotas de água em seu rosto. — Eu também te amo, xerife. E é por isso que isso dói tanto.

Eles se perderam um no outro, em um espaço onde Lori, Shane e os mortos não podiam alcançá-los. Cada toque era uma prece, cada gemido um desafio ao vazio do mundo lá fora. O orgasmo veio como uma onda avassaladora, deixando-os trêmulos e exaustos, abraçados na relva úmida enquanto a respiração voltava ao normal.

Ficaram em silêncio por um longo tempo, o braço de Rick servindo de travesseiro para Cahide.

— O que vamos fazer agora? — ela perguntou, a voz baixa.

Rick olhou para o céu, a expressão endurecendo novamente.

— Agora, eu cumpro minha promessa. Vou buscar o Merle.

— Você sabe que isso é loucura. Depois do que Miller fez...

— É por isso mesmo que eu tenho que ir. Se começarmos a deixar pessoas para trás, nos tornamos como ele. E eu não vou deixar o Daryl perder o irmão.

— Então eu vou com você — disse Cahide, sentando-se e começando a se vestir. — Não tente me impedir, Rick. Você sabe que eu sou melhor em ler o perigo do que qualquer um naquele grupo.

— Eu sei — ele suspirou, vestindo a farda. — Eu só queria que você ficasse segura.

— Segurança é um mito. Lealdade é o que nos resta.

...

Horas depois, o clima no acampamento era de despedida e tensão. Rick, Cahide, Daryl, Glenn e T-Dog preparavam-se para partir em direção a Atlanta. Lori estava parada perto do caminhão, os braços cruzados, o olhar fixo em Cahide com uma frieza que poderia congelar o sol.

— Rick, você está cometendo um erro — disse Lori, ignorando a presença de Cahide. — Você está arriscando sua vida por um homem que não vale nada.

— Eu estou arriscando minha vida por um homem que é irmão de alguém que está nos ajudando — Rick respondeu, sem olhar para ela enquanto verificava sua Python. — É o que precisa ser feito.

Cahide aproximou-se de Turna, que estava sentada com Shane. A menina olhou para a mãe com olhos tristes, mas determinados.

— Fique com o Shane, Turna. Faça o que ele disser, mas mantenha sua faca por perto — instruiu Cahide.

— Eu sei, mamãe. Volte logo. O Rick precisa de você para não se perder.

Cahide deu um nó na garganta e assentiu. Ela subiu na caçamba do caminhão com Daryl e T-Dog, enquanto Glenn assumia o volante e Rick ia no banco do passageiro.

A viagem de volta para Atlanta foi um mergulho no silêncio. O calor da cidade era sufocante, e o cheiro de decomposição parecia ter piorado. Eles se moveram com cautela, evitando as hordas principais, até chegarem ao prédio de departamentos onde Merle fora deixado.

Subiram as escadas em silêncio absoluto, as armas prontas. Daryl estava na frente, a ansiedade emanando dele como calor de um forno. Quando chegaram à porta que dava para o telhado, Rick fez um sinal. Daryl chutou a porta, a besta erguida.

— Merle! — gritou Daryl. — Merle, seu idiota, estamos aqui!

Mas não houve resposta. O telhado estava banhado por uma luz solar cruel. Cahide caminhou lentamente atrás de Daryl, seus olhos varrendo a área.

— Oh, Deus... — ouviu-se a voz de T-Dog, carregada de horror.

Cahide parou. No chão, perto do cano de ventilação onde Merle fora algemado, havia uma mancha de sangue escuro e seco. E, presas à corrente da algema, estava uma mão.

Uma mão humana, decepada grosseiramente na altura do pulso.

Daryl caiu de joelhos diante da cena, um som gutural escapando de sua garganta. Ele estendeu a mão para tocar o membro, mas recuou, tremendo.

— Ele fez isso... — sussurrou Glenn, cobrindo a boca. — Ele cortou a própria mão.

Cahide aproximou-se, observando os detalhes com o desapego profissional que sua mente de advogada às vezes forçava. Havia uma serra de arco caída nas proximidades, a lâmina manchada de sangue e pedaços de cartilagem.

— Ele usou o calor para cauterizar o ferimento? — perguntou ela, apontando para uma pequena fogueira improvisada e um pedaço de ferro queimado.

— Ele é um desgraçado duro de matar — disse Rick, a voz baixa, colocando a mão no ombro de Daryl. — Daryl, sinto muito.

Daryl levantou-se bruscamente, a dor transformando-se em fúria pura. Ele pegou a mão do irmão e a jogou dentro da mochila de Glenn com um movimento violento.

— Não sinta — rosnou Daryl, as lágrimas brilhando nos olhos. — Ele ainda está vivo. O sangue está fresco o suficiente. Ele saiu daqui. E agora eu vou achar esse filho da puta.

Cahide olhou para a poça de sangue e depois para Rick. O mundo estava se tornando um lugar onde as pessoas preferiam se mutilar a serem deixadas para trás. A brutalidade de Merle era apenas um reflexo da brutalidade do novo tempo.

— Rick, olhe — Cahide apontou para o rastro de sangue que levava de volta para dentro do prédio. — Ele não foi para a rua. Ele desceu.

— Temos que segui-lo — decidiu Rick.

— E as armas? — perguntou T-Dog. — Viemos buscar o Merle e a bolsa de armas que você deixou cair.

— O Merle primeiro — disse Rick, mas seus olhos encontraram os de Cahide.

Ela viu a dúvida nele. O peso de ser o líder, o amante, o pai e o salvador. Ela caminhou até ele e tocou seu braço levemente, um gesto que passou despercebido pelos outros, mas que significava tudo para ele.

— Nós vamos achar ambos — ela disse com convicção. — Mas precisamos ser rápidos. O cheiro de sangue vai atrair tudo o que houver nesta cidade.

Enquanto desciam as escadas seguindo o rastro de sangue de Merle, Cahide sentiu o peso da pedra polida em seu bolso. O experimento de Miller continuava, mas eles não eram ratos. Eram lobos. E naquele labirinto de concreto e morte, os lobos estavam aprendendo a morder de volta.

Rick olhou para ela por cima do ombro enquanto entravam em um corredor escuro. No meio da escuridão, ele buscou a mão dela e a apertou por um breve segundo.

— Juntos? — ele sussurrou.

— Até o fim do mundo, xerife — ela respondeu.

E, enquanto caminhavam para o coração das trevas de Atlanta, Cahide sabia que, independentemente de quantas mãos fossem perdidas ou de quantos corações fossem partidos, ela não deixaria Rick Grimes cair. Não enquanto houvesse um sopro de vida nela para defendê-lo.