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Capítulo 1

O Labirinto de Concreto e a Lei do Talhão

O rastro de sangue de Merle Dixon era um mapa de agonia que serpenteava pelas escadarias frias do prédio. Daryl avançava como um animal ferido, os olhos fixos nas manchas escarlates que se tornavam mais ralas à medida que desciam. Cahide mantinha-se logo atrás de Rick, o machado em punho, os sentidos aguçados pelo eco constante de gemidos distantes que vinham das ruas de Atlanta.

— Ele não pode ter ido longe — sussurrou Glenn, a voz trêmula pela tensão. — Perder uma mão... o choque hipovolêmico deveria ter derrubado ele em minutos.

— Você não conhece o meu irmão — rosnou Daryl, sem olhar para trás. — Ele é feito de couro e ódio. Ele vai sobreviver só para poder matar quem deixou ele lá.

Quando finalmente alcançaram o nível da rua, a visão foi desoladora. Onde deveria estar o caminhão que usaram para chegar ao centro, havia apenas um espaço vazio e marcas de pneus cantando no asfalto. Merle não apenas sobrevivera à automutilação; ele roubara o único meio de transporte rápido que o grupo possuía.

— Aquele desgraçado! — Daryl chutou uma lata de lixo, o som ecoando perigosamente entre os prédios. — Ele nos deixou a pé no meio desse ninho de ratos!

— Ele está em choque, Daryl — disse Rick, tentando manter a voz nivelada, embora o suor escorresse por sua têmpora. — Ele agiu por instinto.

— Instinto de nos ferrar! — rebateu T-Dog, olhando nervosamente para os lados.

Cahide aproximou-se de Rick, tocando levemente seu braço.

— Rick, o caminhão é um problema, mas temos outro. A mochila. Se Merle está solto e armado com um veículo, e a horda está se movendo, as armas são a nossa única moeda de troca com a realidade agora.

Rick assentiu, a expressão endurecendo.

— Ela tem razão. Vamos buscar a bolsa. Glenn, você lidera. É o seu plano.

O grupo moveu-se com agilidade pelas ruelas laterais. O plano de Glenn era simples: ele correria até o tanque onde a mochila fora deixada, enquanto Rick e os outros dariam cobertura. Cahide posicionou-se em um ângulo que lhe permitia vigiar o cruzamento. O ar cheirava a borracha queimada e carne podre.

— Tudo pronto? — perguntou Glenn, ajustando o boné.

— Vai — ordenou Rick.

Glenn disparou como uma flecha. Cahide observava-o contornar os carros abandonados, aproximando-se do tanque de guerra. Tudo parecia correr bem até que, do nada, dois vultos surgiram de trás de um ônibus capotado. Não eram mortos. Eram jovens, rápidos e visivelmente desesperados.

— Ei! — gritou um deles, avançando sobre Glenn.

— Rick! — Cahide alertou, apontando para o conflito.

Antes que pudessem reagir, um carro de passeio surgiu derrapando na esquina. Dois homens saltaram de dentro dele. O confronto foi caótico e veloz. Daryl disparou uma flecha que atingiu um dos agressores no bumbum, mas o outro conseguiu agarrar Glenn e jogá-lo para dentro do carro.

— Glenn! — Rick gritou, disparando contra os pneus, mas o veículo arrancou em alta velocidade, desaparecendo em meio à fumaça e aos destroços.

No chão, entre os carros, um dos jovens agressores gemia de dor, a flecha de Daryl cravada nele. Rick e Daryl avançaram sobre ele imediatamente, mas Cahide manteve os olhos no perímetro.

— Pegamos um deles! — Daryl rosnou, puxando o jovem pelos cabelos. — Onde levaram o garoto?

— Rick, a mochila — Cahide disse, apontando para o chão. — Eles não levaram as armas. Só levaram o Glenn.

Rick pegou a bolsa pesada, mas seu rosto era uma máscara de preocupação.

— Temos um refém. E eles têm o Glenn.

— Vamos interrogar esse verme — disse Daryl, chutando o jovem, que choramingava. — Ele vai falar ou eu vou arrancar a outra perna dele.

— Daryl, chega! — Rick ordenou. — Vamos levá-lo para um lugar seguro. Precisamos de um plano de troca.

Recuaram para um prédio abandonado nas proximidades. O jovem, que se identificou como Miguel, tremia de medo sob o olhar fulminante de Daryl e a presença silenciosa e intimidadora de Cahide. Ela se encostou na parede, observando Miguel com a frieza de quem já viu muitos réus tentarem mentir para escapar da sentença.

— Escuta aqui, Miguel — começou Cahide, sua voz calma e cortante como uma navalha. — Eu sou advogada. Eu sei quando alguém está escondendo provas. Se você nos levar até o seu grupo e o nosso amigo estiver inteiro, talvez o xerife aqui não deixe o arqueiro terminar o que começou. Entendeu?

Miguel assentiu freneticamente.

— É o Vatos... eles estão no hospital. Nós só queríamos as armas. O mundo acabou, cara! Precisamos nos proteger!

— Todos precisamos — disse Rick, limpando sua Python. — Vamos lá.

O grupo caminhou até o complexo que Miguel indicara. Era uma fortaleza improvisada, cercada por grades e arame farpado. No topo do portão, homens armados observavam a aproximação. Rick caminhou à frente, mantendo Miguel como escudo, enquanto Cahide e Daryl flanqueavam as laterais.

— Queremos o Glenn! — Rick gritou. — Temos o seu homem aqui. Vamos fazer uma troca limpa.

Um homem robusto, com olhar de líder, apareceu no topo da barricada. Era Guillermo.

— Você traz um dos meus sangrando e quer fazer exigências? — Guillermo riu com escárnio. — Eu quero as armas. A mochila toda. Ou o seu garoto vira comida de cachorro.

— Isso não vai acontecer — Rick respondeu, a voz carregada de uma autoridade mortal.

— Rick — Cahide sussurrou —, olhe para a postura deles. Eles estão nervosos. Não são soldados. Estão protegendo algo.

A tensão escalou. Daryl estava pronto para disparar, e os homens de Guillermo apontavam fuzis para o peito de Rick. Parecia que um banho de sangue era inevitável até que uma senhora idosa apareceu no pátio, gritando por socorro.

— Abuela! — Guillermo gritou, sua expressão mudando instantaneamente de predador para protetor.

A confusão que se seguiu quebrou o impasse. A senhora, confusa e assustada, agarrou o braço de Rick, acreditando que ele era um oficial ali para ajudá-la. O ódio nos olhos de Guillermo dissipou-se, substituído por uma exaustão profunda.

— Entrem — disse Guillermo, baixando a arma. — Apenas entrem.

Cahide seguiu o grupo para dentro do hospital. O que encontraram não era uma guarita de bandidos, mas um asilo improvisado. Dezenas de idosos estavam deitados em macas, sendo cuidados pelos jovens que Rick julgara serem criminosos.

— Você cuida deles? — perguntou Rick, guardando a arma, visivelmente chocado.

— Alguém tinha que ficar — respondeu Guillermo, sentando-se cansado ao lado de uma das camas. — Os médicos fugiram. Os enfermeiros fugiram. Nós éramos os zeladores, os seguranças, os caras que limpam o chão. Não podíamos deixá-los aqui para serem comidos vivos.

Cahide sentiu um aperto no peito. Ela olhou para os idosos e depois para os jovens. Era a maior prova de humanidade que vira desde o início do apocalipse.

— Nós pensamos que vocês eram como os outros — disse Cahide, aproximando-se de Guillermo. — Em um mundo onde todos roubam, vocês estão protegendo o que restou do passado.

— É o que fazemos — disse Guillermo. — Mas precisamos de armas. A cidade está ficando mais perigosa a cada hora.

Glenn foi trazido para o pátio, são e salvo. Ele abraçou Rick e sorriu para Cahide, aliviado por estar fora daquela cela improvisada.

Rick abriu a mochila de armas. Ele olhou para Guillermo, depois para o seu próprio grupo.

— Metade — decidiu Rick. — Vamos dividir. Vocês precisam delas tanto quanto nós.

— O xerife tem um coração de ouro — comentou Daryl, embora não parecesse mais tão irritado.

— Não é coração, Daryl — disse Cahide, observando a troca. — É justiça.

Após deixarem o hospital, o grupo caminhou em direção ao local onde Glenn deixara o Dodge Challenger escondido. O silêncio da cidade era agora preenchido pelo som distante de milhares de pés arrastando-se. A horda estava se movendo.

— Precisamos sair daqui agora — disse Glenn, entrando no carro esportivo. — Merle ainda está por aí, e ele tem o caminhão.

— Se ele voltar para o acampamento... — Rick não terminou a frase, mas todos sabiam o que ele temia.

A viagem de volta foi um teste de nervos. Glenn liderava no Challenger, o alarme disparando para atrair os mortos para longe da estrada principal, enquanto Rick dirigia o carro de fuga com Cahide ao seu lado.

— Você está bem? — perguntou Rick, olhando para ela rapidamente entre uma manobra e outra.

— Estou pensando naqueles idosos — respondeu Cahide, olhando pela janela as carcaças de prédios passando. — Eles são o que estamos tentando salvar, Rick. Não apenas a nossa própria pele, mas a ideia de que ainda somos humanos. Se perdermos isso, Miller e os cientistas dele ganham.

— Nós não vamos perder — prometeu Rick, apertando o volante.

Quando finalmente avistaram a pedreira, o sol já estava se pondo. Mas a paz que esperavam encontrar não existia. O acampamento estava em polvorosa.

— Eles voltaram! — gritou Carl, correndo em direção ao carro assim que Rick parou.

Lori apareceu logo atrás, o rosto pálido.

— O caminhão... — ela começou, ofegante. — Merle passou por aqui. Ele não parou. Ele apenas gritou algo sobre vingança e seguiu em direção ao norte.

— Ele não atacou o acampamento? — perguntou Daryl, descendo do carro com a mochila nos ombros.

— Não — respondeu Shane, aproximando-se com o fuzil na mão, o olhar fixo em Cahide. — Mas ele levou quase todo o estoque de combustível que tínhamos guardado nos galões de reserva. Ele nos deixou secos.

Rick desceu do carro, o cansaço pesando em seus ombros como chumbo. Ele olhou para o grupo, para as crianças assustadas e para a fogueira que mal conseguia aquecer a noite que chegava.

— Pelo menos as armas estão aqui — disse Rick, jogando a bolsa no chão.

Cahide aproximou-se de Turna, que a abraçou com força.

— Você demorou, mamãe — sussurrou a menina.

— Tivemos que resolver um mal-entendido, querida — respondeu Cahide, olhando para Rick.

Naquela noite, o acampamento estava silencioso, mas a tensão era quase elétrica. Rick e Cahide sentaram-se afastados, perto da borda da pedreira.

— Merle está lá fora, Miller está lá fora... — murmurou Rick, olhando para a Python em seu colo. — Sinto que o mundo está se fechando sobre nós.

— Então temos que abrir caminho — disse Cahide. — Rick, o que aconteceu hoje no hospital... me lembrou de que existem pessoas boas. Mas também me lembrou de que a bondade é um alvo.

— Eu não vou deixar ninguém tocar em você ou na Turna — ele disse, voltando os olhos azuis para ela. — Nem o Merle, nem o Miller, nem o Shane.

— Eu sei — ela sorriu tristemente. — Mas quem vai proteger você, xerife?

— Você já está fazendo isso — ele respondeu, tocando o rosto dela.

A noite avançou, e com ela, a percepção de que Atlanta fora apenas um prelúdio. O caminhão roubado, a mão decepada, o asilo secreto e as armas divididas eram as peças de um quebra-cabeça que ainda não fazia sentido.

Cahide deitou-se ao lado de Turna, mas antes de fechar os olhos, ela olhou para a mochila de armas no centro do acampamento. As armas eram o novo ouro, e a lealdade era a nova moeda. E naquele tribunal de sombras, ela estava pronta para defender seu caso até a última bala.

— Amanhã — sussurrou ela para si mesma — amanhã nós caçamos o Merle.

Mas, no horizonte, as luzes de Atlanta pareciam zombar de sua esperança. A cidade estava queimando, e o fogo estava apenas começando a se espalhar.