Ciúmes dos membros
O Labirinto das Intenções
A noite de domingo no dormitório do BTS tinha um peso diferente. O ar não era mais carregado de eletricidade estática, mas havia uma fragilidade palpável, como se todos estivessem caminhando sobre uma camada fina de gelo. S/N estava sentada à mesa, o prato de *japchae* intocado à sua frente, enquanto observava a dinâmica familiar que tanto amava. Jin estava no auge de suas piadas de tio, Namjoon e Yoongi discutiam algo sobre produção em tons baixos, e a "maknae line" parecia estranhamente contida.
Jungkook estava sentado ao lado dela. Ele não tentava tocar sua mão por baixo da mesa, nem lançava olhares possessivos cada vez que um dos membros se dirigia a ela. Ele apenas existia ali, em um silêncio cuidadoso, focado em sua própria comida, embora seus ombros estivessem visivelmente tensos.
— Então, S/N — começou Taehyung, quebrando a bolha de cautela —, eu ouvi dizer que você está ajudando em um novo projeto de design para a próxima turnê. É verdade?
S/N sentiu o olhar de Jungkook vacilar por um microssegundo, mas ele não interrompeu.
— Sim, Tae — ela respondeu com um sorriso encorajador. — É apenas uma consultoria inicial, mas estou animada. O conceito de "metamorfose" que o Namjoon sugeriu é incrível para trabalhar visualmente.
— Eu sabia! — Taehyung exclamou, inclinando-se para frente com entusiasmo. — Eu tenho algumas referências de artes plásticas que podem ajudar. A gente podia sentar amanhã e...
O silêncio caiu sobre a mesa. Todos, instantaneamente, olharam para Jungkook. Era o teste de fogo. O convite de Taehyung para um momento a sós com S/N era exatamente o tipo de gatilho que, uma semana atrás, teria feito Jungkook explodir ou se retirar em um acesso de fúria silenciosa.
Jungkook engoliu o pedaço de carne devagar. Ele sentia o suor frio na nuca, a velha voz em sua cabeça gritando que Taehyung estava tentando "roubar" seu tempo com ela. Mas ele respirou fundo, lembrando-se das palavras de seu terapeuta: *os sentimentos dos outros não são ameaças à sua existência*.
— Acho que seria ótimo — disse Jungkook, a voz um pouco rouca, mas firme. — O Tae tem um olho artístico muito bom, S/N. Ele pode te dar ideias que ninguém mais teria.
Houve um suspiro coletivo de alívio, quase cômico. Jin chegou a soltar um risinho nervoso.
— Vejam só o nosso Maknae! — brincou Jin, tentando aliviar a tensão. — Crescendo e se tornando um homem diplomático. Daqui a pouco ele vai começar a dar conselhos de vida para o Namjoon.
— Não exagera, Hyung — Jungkook murmurou, sentindo as bochechas corarem, mas um pequeno sorriso brincou em seus lábios.
S/N sentiu uma onda de orgulho aquecer seu peito. Ela estendeu a mão e, pela primeira vez naquela noite, tocou o antebraço de Jungkook. Foi um toque rápido, mas carregado de significado.
— Obrigada, Kook — ela sussurrou.
A noite prosseguiu de forma mais leve, mas o verdadeiro desafio surgiu quando o jantar acabou. Os membros começaram a se dispersar. Yoongi e Namjoon voltaram para seus estúdios, e Jin foi para o quarto. Jimin, Taehyung e Hobi sugeriram uma partida de videogame na sala.
— Você vem, S/N? — chamou Jimin, já pegando os controles. — O Jungkook disse que você tem treinado. Quero ver se é verdade.
S/N olhou para Jungkook. Ela queria passar um tempo com ele, mas também queria testar essa nova liberdade.
— Eu vou — disse ela, observando a reação dele. — Mas só por meia hora. Depois eu quero conversar com o Jungkook no quarto, se ele não estiver muito cansado.
Jungkook sentiu a fisgada de ciúmes quando a viu sentar no sofá entre Jimin e Hoseok, mas ele se forçou a sentar na poltrona lateral, mantendo uma distância saudável. Ele observou S/N rir, gritar quando perdia uma vida no jogo e trocar "high-fives" com os meninos.
Desta vez, em vez de focar na proximidade física dela com os outros, ele tentou focar na expressão dela. Ela parecia radiante. Ela parecia *ela mesma*. E ele percebeu, com uma clareza dolorosa, que ao tentar prendê-la só para si, ele estava apagando o brilho que o fizera se apaixonar por ela em primeiro lugar.
— Ei, Jungkook-ah — chamou Hoseok, percebendo que o mais novo estava perdido em pensamentos. — Quer entrar na próxima rodada? O Jimin está ganhando de todo mundo, precisamos do "Golden Maknae" para restaurar a ordem.
Jungkook hesitou. O velho Jungkook teria recusado, querendo que S/N parasse de jogar para dar atenção a ele. O novo Jungkook se levantou.
— Preparem-se — disse ele, pegando o controle. — Eu não pretendo ter misericórdia de ninguém hoje.
Eles jogaram por quase uma hora. O clima era de camaradagem pura. Quando S/N finalmente se levantou, bocejando, ela se despediu dos meninos com abraços rápidos. Jungkook observou, o coração ainda batendo um pouco mais rápido, mas ele não desviou o olhar. Ele enfrentou o desconforto até que ele se tornasse apenas um ruído de fundo.
— Vamos? — perguntou ela, parando ao lado dele.
Eles caminharam até o quarto de Jungkook em silêncio. Quando a porta se fechou, a atmosfera mudou instantaneamente. Não era mais a tensão do grupo, mas a intimidade crua de duas pessoas tentando se reencontrar.
— Você foi incrível hoje — disse S/N, sentando-se na beira da cama. — Eu sei o quanto foi difícil para você ouvir o convite do Tae e ver o Jimin me abraçando depois que eu ganhei aquela partida.
Jungkook sentou-se na cadeira do computador, de frente para ela. Ele passou as mãos pelos cabelos, suspirando.
— Foi difícil — ele admitiu com honestidade. — Meu estômago deu um nó algumas vezes. Mas eu ficava repetindo para mim mesmo que vocês são amigos e que você me escolheu. Eu não quero mais ser o motivo do seu cansaço, S/N.
— Você não é mais o motivo do meu cansaço, Kook. Hoje, você foi o motivo do meu sorriso.
Jungkook sentiu os olhos arderem. Ele se levantou e caminhou até ela, parando entre suas pernas enquanto ela permanecia sentada. Ele não a abraçou imediatamente; ele esperou por um sinal. S/N envolveu a cintura dele com os braços e encostou o rosto em seu abdômen.
— Eu senti tanta falta disso — ele sussurrou, acariciando o cabelo dela. — Do cheiro do seu shampoo, da sua voz no corredor... o dormitório parecia um túmulo sem você.
— Eu também senti falta, mas precisávamos disso. Você vê a diferença, não vê? — Ela olhou para cima, encontrando os olhos escuros dele. — Se tivéssemos continuado como antes, estaríamos gritando um com o outro agora.
— Eu vejo. Mas ainda tenho medo — confessou ele. — Tenho medo de que, em um dia ruim, eu perca o controle de novo.
— E se você perder, nós vamos conversar. Mas você não pode se punir por sentir ciúmes, Jungkook. O ciúme é um sentimento humano. O que você não pode fazer é deixar que ele dite as minhas ações ou as suas palavras.
— Eu prometo que vou continuar tentando — ele disse, inclinando-se para selar o compromisso com um beijo.
O beijo foi diferente dos anteriores. Não havia a urgência desesperada de posse, mas uma doçura exploratória, como se estivessem se beijando pela primeira vez. Era um recomeço real.
No entanto, a vida na HYBE nunca era simples. Dois dias depois, o grupo tinha uma gravação de conteúdo para o "Run BTS". O tema era uma competição de culinária em duplas. O sorteio colocou Jungkook com Jin, e S/N — que estava presente como parte da equipe de apoio criativo — acabou sendo designada para auxiliar a dupla de Taehyung e Jimin, já que eles eram conhecidos por serem um desastre na cozinha.
Jungkook sentiu o sangue gelar quando viu S/N rindo enquanto tentava impedir que Jimin colocasse açúcar em vez de sal no guisado. Taehyung estava ao lado dela, cortando cebolas e fazendo piadas, limpando as lágrimas no ombro de S/N de forma casual.
As câmeras estavam rodando. Jungkook precisava manter o profissionalismo, mas o ciúme, aquele monstro antigo e faminto, começou a arranhar as paredes de seu estômago.
— Jungkook-ah! O fogo! — gritou Jin, apontando para a frigideira que começava a soltar fumaça.
Jungkook desviou o olhar de S/N bruscamente, o coração acelerado. Ele estava falhando. Ele estava perdendo o foco no trabalho porque não conseguia parar de monitorar o que acontecia na outra bancada.
— Desculpe, Hyung — murmurou ele, ajustando a chama.
— Foco no seu prato, garoto — disse Jin em voz baixa, para que os microfones não captassem. — Se você ficar olhando para lá, vai queimar a comida e o seu relacionamento ao mesmo tempo.
Jungkook respirou fundo, tentando usar as técnicas de ancoragem que aprendera na terapia. *Cinco coisas que eu posso ver, quatro coisas que eu posso tocar...* Ele se concentrou no cheiro do alho fritando, na textura da faca em sua mão.
Mas o teste final veio durante o intervalo. A equipe de filmagem parou para ajustar as luzes, e S/N se afastou da bancada para beber água. Taehyung a seguiu, e os dois ficaram em um canto, conversando e rindo. Em um dado momento, Taehyung colocou a mão no topo da cabeça de S/N, bagunçando seu cabelo de forma afetuosa.
Jungkook sentiu a visão escurecer por um segundo. A raiva subiu como uma maré alta. Ele largou o pano de prato na bancada e começou a caminhar em direção a eles. Seus passos eram pesados, e a expressão em seu rosto era a mesma que antecedera a grande briga de semanas atrás.
S/N o viu se aproximar e seu sorriso desapareceu, substituído por uma expressão de apreensão. Taehyung também percebeu a mudança no ar e se empertigou.
— Jungkook... — começou S/N, a voz carregada de aviso.
Jungkook parou a dois passos de distância. Ele olhou para a mão de Taehyung, que ainda estava perto do cabelo dela, e depois para os olhos de S/N. Ele estava no abismo. Um passo a mais e ele voltaria para o labirinto de possessividade.
— O Jin hyung... — Jungkook começou, sua voz tremendo levemente. — Ele precisa de ajuda com o tempero. Ele acha que você tem um paladar melhor para isso, S/N. Você poderia vir dar uma olhada?
O pedido foi feito com esforço. Não era uma ordem, nem uma acusação. Era um pedido de socorro disfarçado de necessidade culinária.
S/N relaxou os ombros. Ela percebeu a luta interna dele. Ele não tinha gritado, não tinha feito uma cena na frente da equipe. Ele tinha encontrado uma forma de interromper o momento que o desconfortava sem destruir a paz.
— Claro, Kook — disse ela suavemente. — Eu vou lá agora.
Ela passou por ele, tocando discretamente suas costas. Taehyung olhou para Jungkook com um olhar analítico, mas acabou dando um tapinha em seu braço.
— Bom trabalho com o guisado, JK. O cheiro está ótimo.
Jungkook assentiu, incapaz de falar. Ele voltou para sua bancada, sentindo-se exausto, como se tivesse corrido uma maratona.
— Você foi bem — sussurrou Jin ao seu lado. — Você não quebrou.
— Mas eu quase quebrei, Hyung — respondeu Jungkook, a voz quase inaudível. — Dói fisicamente tentar controlar isso.
— Eu sei. Mas a dor do controle é melhor do que a dor da perda, não é?
Jungkook olhou para S/N, que agora estava provando o molho de Jin e rindo de algo que o mais velho dissera. Ela parecia segura. Ela não estava com medo dele.
— Sim — concordou Jungkook. — É muito melhor.
Ao final da gravação, quando as luzes se apagaram e a equipe começou a recolher os equipamentos, S/N se aproximou de Jungkook. Ele estava guardando seu kit de facas, o semblante ainda sério.
— Você quer ir para casa comigo hoje? — perguntou ela.
Jungkook parou o que estava fazendo e a encarou.
— Depois de hoje? Eu achei que você estivesse brava comigo por ter interrompido sua conversa com o Tae.
— Eu não estou brava, Jungkook. Eu estou orgulhosa. Você sentiu o gatilho e, em vez de me atacar, você me chamou para perto de você. Foi a primeira vez que você lidou com o ciúme de forma construtiva.
Jungkook soltou um suspiro que parecia estar guardado há horas. Ele a puxou para um abraço rápido, escondendo o rosto no pescoço dela.
— É tão difícil, S/N. Eu me sinto um monstro às vezes por sentir essas coisas.
— Você não é um monstro. Você é apenas alguém que ama demais e ainda não sabe como distribuir esse amor sem medo. Mas hoje você deu um passo gigante.
Eles saíram da HYBE juntos, caminhando sob o céu noturno de Seul. Jungkook ainda sentia os resquícios da insegurança, mas eles eram menores agora. Ele percebeu que a cura não seria um evento único, mas uma sucessão de pequenas vitórias diárias.
— Sabe — disse ele, enquanto entravam no carro —, eu acho que o Tae realmente tinha razão sobre o tempero. O guisado ficou melhor depois que você provou.
S/N riu, encostando a cabeça no ombro dele.
— Viu só? Até o seu ciúme pode ter um lado útil se você souber usá-lo.
Jungkook sorriu, ligando o motor. Pela primeira vez em muito tempo, ele não estava olhando pelo espelho retrovisor para ver quem estava seguindo S/N. Ele estava olhando para a frente, para a estrada que se abria diante deles, sabendo que, embora o labirinto ainda existisse, ele finalmente tinha o mapa para sair dele.
E o mapa era feito de confiança, de respirações profundas e, acima de tudo, da certeza de que S/N não estava com ele porque precisava, mas porque, todos os dias, ela escolhia ficar. E essa escolha era o maior prêmio que o "Golden Maknae" jamais poderia conquistar.