Ciúmes dos membros
Ecos de um Vidro Colado
A luz da manhã filtrava-se pelas cortinas de linho do apartamento de S/N, criando padrões de ouro sobre o lençol bagunçado. Jungkook estava acordado há algum tempo, com o braço servindo de travesseiro para ela, observando o ritmo calmo de sua respiração. A paz daquele momento era algo que ele aprendera a não dar mais como garantido. Cada segundo de silêncio compartilhado era uma vitória conquistada após semanas de terapia e conversas difíceis.
S/N começou a despertar, soltando um murmúrio baixo antes de abrir os olhos e encontrar o olhar intenso de Jungkook. Ela sorriu, uma expressão sonolenta e doce que ainda fazia o coração dele tropeçar.
— Você está me encarando de novo — disse ela, a voz rouca pelo sono.
— É difícil não encarar — respondeu Jungkook, passando o polegar pela bochecha dela. — Às vezes ainda parece que você é uma miragem e que, se eu piscar, vou acordar naquele dormitório vazio de novo.
— Eu não sou uma miragem, Kook. Eu estou aqui. — Ela se inclinou para lhe dar um beijo rápido. — Mas hoje o dia vai ser longo. Você tem o ensaio para o show de Busan e eu tenho aquela reunião com a equipe de marketing da marca de joias.
Jungkook sentiu a familiar pontada de ansiedade. Ele sabia que a equipe de marketing incluía alguns executivos jovens e que as reuniões costumavam se estender para jantares de negócios. Antigamente, ele teria feito um interrogatório sobre quem estaria lá e a que horas ela voltaria. Hoje, ele apenas respirou fundo.
— Tudo bem. Você quer que eu peça algo para o café antes de sair? — perguntou ele, orgulhoso de sua própria contenção.
— Não precisa, vou pegar algo no caminho. Mas me deseje sorte, o diretor criativo deles é conhecido por ser... difícil.
— Você vai ser incrível — disse ele, e era verdade. Ele admirava a competência dela tanto quanto a amava.
No entanto, o teste real veio à tarde. Jungkook estava na sala de ensaio da HYBE, o suor escorrendo pelo rosto após repetirem a coreografia de "Run BTS" pela décima vez. Durante o intervalo, ele pegou o celular e viu uma notificação de marcação no Instagram. Era uma foto postada por um dos membros da equipe da marca de joias.
Na imagem, S/N estava sentada em uma mesa de conferência elegante, rindo de algo que um homem jovem e bem-vestido ao seu lado dizia. A legenda dizia: "Negociações produtivas com a melhor consultora de Seul". O braço do homem estava encostado na cadeira dela, uma proximidade que, para o antigo Jungkook, seria um convite para o desastre.
Ele sentiu o sangue esquentar. O "monstro" do ciúme, como ele agora chamava aquela parte sombria de si, acordou e começou a sussurrar: "Veja como ela se diverte sem você. Veja como ele a olha".
— Jungkook? — A voz de Jimin o tirou do transe. — O que foi? Você ficou pálido de repente.
Jungkook hesitou por um segundo, o polegar pairando sobre a tela. Ele queria mostrar a foto a Jimin, queria validação para sua raiva, queria que o amigo concordasse que aquele homem estava sendo "ousado demais". Mas ele se lembrou da última vez que envolveu os membros em suas paranoias.
— Nada, Hyung — disse Jungkook, bloqueando a tela do celular. — Só estou um pouco cansado. Vou beber água.
Ele caminhou até o canto da sala, longe das câmeras que gravavam os bastidores. Ele fechou os olhos e contou até dez, visualizando a "âncora" que seu terapeuta sugerira: uma imagem de S/N sorrindo para ele na noite anterior, dizendo que o amava.
— Ela escolheu você — ele sussurrou para si mesmo. — Ela está lá trabalhando. Aquele homem é apenas um colega.
O ensaio continuou, mas a mente de Jungkook era um campo de batalha. Quando terminaram, já era tarde da noite. Ele enviou uma mensagem para S/N: "Acabei agora. Como foi a reunião?".
A resposta demorou vinte minutos.
S/N: "Ainda estamos terminando um jantar de negócios. O diretor é realmente exigente, mas acho que fechamos o contrato! Volto em uma hora."
"Estamos". "Jantar". As palavras ecoavam na cabeça de Jungkook. Ele se sentou no chão da sala de ensaio, agora vazia, sentindo o peso da solidão. Ele imaginou o homem da foto servindo vinho para ela, fazendo-a rir com piadas que ele não conhecia.
Ele se levantou e começou a caminhar em direção à saída, mas parou diante do grande espelho da sala. Ele viu seu reflexo: o cabelo bagunçado, as roupas de treino encharcadas, a expressão de alguém que estava prestes a perder o controle.
— Não — ele disse em voz alta. — Eu não vou ser aquele cara de novo.
Em vez de ir para casa e esperar por ela com um interrogatório preparado, Jungkook decidiu fazer algo diferente. Ele foi até uma loja de conveniência aberta 24 horas, comprou os lanches favoritos de S/N e um buquê de flores simples que encontrou em uma floricultura noturna no caminho.
Quando ele chegou ao apartamento dela, S/N ainda não havia voltado. Ele arrumou a mesa, preparou um chá quente e esperou. Cerca de quarenta minutos depois, ouviu o som da chave na fechadura.
S/N entrou, parecendo exausta. Seus sapatos de salto estavam na mão e seu cabelo estava um pouco desgrenhado. Quando ela viu Jungkook ali, sentado à mesa com as flores e o chá, ela parou, surpresa.
— Kook? O que é tudo isso?
— Eu imaginei que você chegaria cansada e com fome — disse ele, levantando-se. — Como foi o jantar?
S/N suspirou, jogando a bolsa no sofá e aproximando-se dele.
— Foi exaustivo. Aquele diretor, o Sr. Han, não parava de falar sobre si mesmo. Eu quase dormi em cima do risoto.
Jungkook sentiu um alívio tão grande que quase riu. "O Sr. Han". O homem da foto.
— Ele parecia... simpático na foto que postaram — comentou Jungkook, tentando manter o tom de voz casual, mas falhando levemente.
S/N parou e o olhou nos olhos. Ela não era boba; ela sabia exatamente do que ele estava falando.
— Você viu a foto, não viu?
— Vi — admitiu ele, baixando o olhar. — E vou ser sincero, S/N... eu senti o ciúme voltando. Eu senti vontade de te ligar e exigir que você viesse embora. Eu senti raiva daquele cara por estar tão perto de você.
S/N cruzou os braços, mas não havia raiva em seu rosto, apenas uma expectativa cautelosa.
— E por que você não ligou?
— Porque eu percebi que o problema não era a foto. O problema era que eu não estava confiando na sua capacidade de colocar limites. E eu não queria estragar o seu sucesso profissional com a minha insegurança. Então, em vez de brigar, eu decidi que queria ser a pessoa que te recebe com carinho depois de um dia difícil.
S/N ficou em silêncio por um longo momento, procesando as palavras dele. Lentamente, ela se aproximou e envolveu o pescoço dele com os braços, puxando-o para um abraço apertado.
— Você não tem ideia do quanto eu estou orgulhosa de você agora — sussurrou ela contra o peito dele. — O Sr. Han é um chato pretensioso que tentou me impressionar a noite toda, e tudo o que eu conseguia pensar era em como eu queria estar aqui, de pijama, comendo lanches baratos com você.
Jungkook relaxou nos braços dela, o último resquício de tensão abandonando seu corpo.
— Sério?
— Sério. Ele pode ser rico e ter um cargo importante, mas ele não é o meu Jungkook. Ele não tem esse sorriso de coelho que me desmonta, e ele certamente não me conhece o suficiente para saber que eu estava morrendo de vontade de comer esses salgadinhos de camarão que você comprou.
Eles se sentaram para comer, e a conversa fluiu de forma leve. Jungkook contou sobre os erros engraçados no ensaio, e S/N descreveu as gafes do jantar de negócios. Não havia sombras entre eles, apenas a luz quente da cozinha e o som de suas risadas.
No entanto, a vida tem uma maneira de testar a resolução das pessoas nos momentos mais inesperados. Na manhã seguinte, enquanto Jungkook se preparava para sair, o celular de S/N, que estava sobre a mesa, começou a vibrar. Era uma mensagem de texto, e a prévia apareceu na tela.
"S/N, aqui é o Minho (Sr. Han). Esqueci de dizer ontem, mas você deixou seu cachecol no meu carro. Posso passar na sua casa hoje à noite para entregar? Seria uma boa desculpa para continuarmos nossa conversa."
Jungkook leu a mensagem. O convite era direto, quase um flerte descarado. Ele sentiu o "monstro" rugir novamente. O cachecol no carro dele? Por que ela tinha tirado o cachecol? Eles tinham ido juntos para algum lugar?
Ele pegou o celular e caminhou até o quarto, onde S/N estava terminando de se vestir.
— S/N — disse ele, a voz um pouco mais tensa do que ele pretendia. — O Sr. Han acabou de mandar uma mensagem.
Ela se virou, percebendo o tom de voz dele.
— O que ele disse?
— Disse que você esqueceu seu cachecol no carro dele. E perguntou se pode passar aqui hoje à noite para "continuar a conversa".
S/N franziu o cenho, pegando o celular das mãos dele e lendo a mensagem. Ela soltou um suspiro de irritação.
— Que cara inconveniente. Eu tirei o cachecol porque o aquecimento do carro estava muito alto quando ele me deu carona até o restaurante, e acabei esquecendo lá.
— Ele te deu carona? — Jungkook perguntou, tentando manter a calma.
— Sim, o restaurante era em um lugar difícil de estacionar e a equipe sugeriu que fôssemos em menos carros. Eu fui com ele e com a secretária dele, Jungkook.
— Ele não mencionou a secretária na mensagem — observou Jungkook, cruzando os braços.
S/N deixou o celular sobre a cama e caminhou até ele, colocando as mãos em seus ombros.
— Jungkook, olhe para mim. Eu não posso controlar o que ele escreve ou o que ele tenta fazer. Mas eu posso controlar como eu respondo.
Ela pegou o celular novamente e, na frente de Jungkook, começou a digitar.
— O que você está fazendo? — perguntou ele.
— Respondendo. — Ela mostrou a tela para ele.
"Olá, Sr. Han. Pode deixar o cachecol na recepção da HYBE aos cuidados da minha equipe de design hoje à tarde. Estarei ocupada com meu namorado hoje à noite e não poderei recebê-lo. Obrigada pelo profissionalismo ontem."
Ela apertou "enviar" e bloqueou o celular.
— Satisfeito? — perguntou ela, com uma sobrancelha arqueada.
Jungkook sentiu uma mistura de vergonha e alívio. Ele percebeu que, ao mostrar a mensagem a ela em vez de guardar a raiva para si e explodir depois, ele tinha dado a ela a chance de resolver a situação.
— Desculpe — murmurou ele. — Eu vi o nome dele e o convite e... eu me perdi por um segundo.
— Tudo bem se perder por um segundo, Kook. O importante é que você voltou para mim. Você não gritou, não me acusou de nada. Você apenas me trouxe o fato. Isso é progresso.
— É cansativo — admitiu ele, sentando-se na cama. — Eu sinto que estou sempre em guerra comigo mesmo. Eu quero ser o cara legal, o cara que confia, mas o medo de te perder é tão grande que às vezes ele me cega.
— O medo só te cega se você fechar os olhos, Jungkook. Se você os mantiver abertos e falar comigo, nós vamos encontrar o caminho juntos. Sempre.
Ele a puxou para o seu colo, escondendo o rosto em seu pescoço.
— Eu te amo tanto que dói.
— Eu sei. E eu te amo o suficiente para aguentar essa dor junto com você até que ela vire apenas uma lembrança.
Naquela tarde, Jungkook foi para o ensaio com uma leveza que não sentia há anos. Quando encontrou os outros membros, ele estava sorrindo de verdade.
— O que aconteceu? — perguntou Taehyung, aproximando-se com uma garrafa de água. — Você parece... diferente hoje. Mais leve.
— Eu tive um pequeno teste hoje — disse Jungkook, olhando para o amigo. — E acho que, pela primeira vez, eu tirei uma nota boa.
— Sobre a S/N? — Taehyung perguntou, cauteloso.
— Sim. Um cara tentou dar em cima dela.
Taehyung ficou tenso, esperando a reação explosiva que costumava seguir esse tipo de informação.
— E? O que você fez? Quebrou o celular? Foi atrás do cara?
— Não — Jungkook sorriu, de forma quase serena. — Eu deixei que ela resolvesse. E ela resolveu. Eu percebi que, se eu confio nela, o que os outros caras fazem ou dizem não importa. Eles são apenas ruído.
Taehyung arregalou os olhos e depois soltou uma gargalhada, dando um tapa forte nas costas de Jungkook.
— Nosso Maknae finalmente virou um homem! O Namjoon vai chorar de orgulho quando souber disso.
— Não conta para ele ainda — riu Jungkook. — Eu ainda estou em treinamento.
A noite chegou e, conforme prometido, S/N e Jungkook passaram o tempo juntos. Eles não foram a nenhum lugar badalado. Ficaram no apartamento, pediram pizza e assistiram a um documentário qualquer na TV.
Enquanto S/N dormitava em seu ombro, Jungkook olhou para o cachecol dela, que a recepção da HYBE realmente havia entregado a ele no final do dia. Ele o pegou e sentiu o perfume dela.
Ele percebeu que o ciúme era como um vidro quebrado. Você pode colar os pedaços, mas as rachaduras sempre estarão lá, visíveis se você olhar de perto. No entanto, aquelas rachaduras não tornavam o objeto menos valioso. Elas contavam uma história de sobrevivência, de esforço e de um amor que era forte o suficiente para se reconstruir.
Ele beijou o topo da cabeça de S/N e fechou os olhos. Pela primeira vez em muito tempo, o silêncio de Seul não era barulhento. Era apenas o som de dois corações que tinham aprendido que a verdadeira liberdade não era a ausência de medo, mas a coragem de amar apesar dele.
— Eu consegui, S/N — sussurrou ele, quase inaudível.
E, no sono, ela sorriu, como se soubesse exatamente do que ele estava falando. A briga que quase os destruíra agora era apenas um eco distante, uma lição aprendida no labirinto das intenções, onde Jeon Jungkook finalmente encontrara a saída. E a saída sempre fora ela.