Ciúmes dos membros
O Eco do Recomeço
— Você não acha que está sendo um pouco óbvio demais? — Yoongi perguntou, encostado no batente da porta da sala de ensaio, observando Jungkook encarar a tela do celular pela décima vez em cinco minutos.
— Não sei do que você está falando, Hyung — Jungkook respondeu rapidamente, bloqueando o aparelho e jogando-o sobre a mochila. — Só estava vendo a hora.
— A hora não muda tão rápido, Kook. E o seu rosto também não — Yoongi deu um passo à frente, o olhar aguçado. — Você está com aquela expressão de quem está tentando desarmar uma bomba, mas não sabe se corta o fio vermelho ou o azul. É por causa dela?
Jungkook soltou um suspiro pesado, desabando no chão de madeira da sala. O suor da prática de dança ainda brilhava em sua testa, mas o cansaço físico não era nada comparado à exaustão mental de tentar policiar seus próprios instintos.
— Ela foi para aquele evento da marca de moda hoje. Sabe, aquele que o Taehyung também foi convidado? — Jungkook passou a mão pelo cabelo, frustrado. — Eu confio nela. Eu juro que confio. Mas eu vi as fotos que começaram a sair no Twitter. O Tae está o tempo todo ao lado dela, rindo, segurando a cintura dela para as fotos... e as pessoas estão comentando como eles "combinam".
— E você está morrendo por dentro — concluiu Yoongi, sentando-se ao lado do mais novo. — Escute, o Taehyung é o Taehyung. Ele toca em todo mundo, ele é social, ele é uma borboleta. E ela é a sua namorada. Ela escolheu você depois de toda aquela confusão. Você realmente vai deixar que alguns comentários de estranhos na internet estraguem o que vocês reconstruíram?
— Eu não quero estragar nada — Jungkook sussurrou, a voz carregada de uma vulnerabilidade crua. — Mas dói, Hyung. Dói ver o mundo inteiro achando que ela pertence a outra pessoa só porque eu não posso estar lá com ela, segurando a mão dela publicamente.
— O amor não é sobre quem o mundo vê segurando a mão dela — Yoongi disse, com aquela sabedoria silenciosa que só ele possuía. — É sobre quem ela procura quando as luzes se apagam e as câmeras param de piscar. Agora, levante-se. Temos mais duas horas de ensaio e você precisa tirar essa energia ruim de dentro de você antes de ir encontrá-la.
Jungkook obedeceu, mas o peso em seu peito não diminuiu. Cada movimento da coreografia parecia uma tentativa de expulsar a imagem de S/N sorrindo para as lentes enquanto Taehyung sussurrava algo em seu ouvido.
Quando o ensaio finalmente terminou, Jungkook correu para o chuveiro e se vestiu às pressas. Ele tinha prometido buscá-la após o evento. No caminho, ele lutava contra o impulso de abrir o celular e procurar mais fotos. Ele sabia que, se fizesse isso, chegaria ao encontro dela com os olhos carregados de acusação, e o ciclo de brigas recomeçaria.
Ele estacionou o carro em uma rua lateral, longe dos paparazzi. Minutos depois, viu a silhueta de S/N se aproximando. Ela usava um vestido elegante que abraçava suas curvas, o cabelo impecável, mas seus ombros pareciam caídos. Assim que ela entrou no carro e fechou a porta, o perfume dela preencheu o espaço, e por um momento, Jungkook esqueceu como respirar.
— Oi — ela disse, soltando um longo suspiro e tirando os sapatos de salto. — Eu achei que essa noite nunca fosse acabar. Meus pés estão me matando.
Jungkook a observou. Ela não parecia alguém que estava em um encontro glamouroso com um ídolo mundial; ela parecia alguém que só queria estar em casa.
— Foi tão ruim assim? — ele perguntou, tentando manter a voz neutra.
— Foi cansativo, Kook. Muita gente falsa, muita conversa vazia. O Tae foi um anjo, ele não saiu do meu lado e me ajudou a fugir de alguns empresários bem chatos, mas mesmo assim... eu só queria você.
A menção ao nome de Taehyung fez o estômago de Jungkook dar um nó, mas ele se forçou a relaxar as mãos no volante.
— Vi algumas fotos — ele comentou, incapaz de se conter totalmente. — Vocês pareciam estar se divertindo bastante.
S/N virou a cabeça para encará-lo. Ela conhecia aquele tom. Era o tom que precedia a tempestade.
— Jungkook — ela disse suavemente, esticando a mão para tocar o braço dele. — Não faça isso. Não hoje.
— Não estou fazendo nada — ele rebateu, embora sua voz tivesse subido um oitava. — Só estou dizendo que o Twitter está pegando fogo com fotos de vocês dois. "O casal visual", eles estão chamando. É engraçado, não é? Como todo mundo acha que vocês são perfeitos juntos.
— Não é engraçado, é apenas marketing e fofoca — S/N retirou a mão, sentindo a irritação começar a borbulhar. — Eu estava lá a trabalho. O Taehyung estava lá a trabalho. Nós somos amigos. Você sabe disso. Por que você insiste em se machucar com o que pessoas que nem nos conhecem dizem?
— Porque eu queria estar lá! — Jungkook explodiu, finalmente virando-se para ela, os olhos brilhando com uma mistura de raiva e tristeza. — Eu queria ser o cara que segura a sua cintura. Eu queria ser o cara que as pessoas dizem que "combina" com você. Mas eu tenho que ficar escondido neste carro, esperando você sair de um evento onde outro homem assume o meu papel.
— O Taehyung não assumiu papel nenhum! — S/N gritou de volta. — Ele é seu irmão, Jungkook! Ele estava me protegendo porque sabe o quanto eu fico desconfortável nesses lugares. Você prefere que eu estivesse lá sozinha, sendo importunada por estranhos, só para que o seu ego não ficasse ferido?
— Não se trata do meu ego! — Ele socou o volante, o som ecoando no carro pequeno. — Trata-se de pertencimento. Trata-se de eu sentir que, toda vez que você sai por aquela porta, eu tenho que lutar contra o resto do mundo para provar que você é minha.
— Eu não sou sua, Jungkook! — S/N disse, a voz agora perigosamente baixa e trêmula. — Eu estou com você. Existe uma diferença enorme. Se você me vê como uma posse que precisa ser defendida, então você ainda não entendeu nada do que conversamos após a última briga.
O silêncio que se seguiu foi cortante. S/N abriu a porta do carro, mas Jungkook travou as portas automaticamente.
— Destrave isso agora — ela ordenou, sem olhar para ele.
— Não. S/N, por favor, vamos conversar. Eu não queria gritar.
— Mas você gritou. E você desconfiou de mim de novo. E você desconfiou do seu melhor amigo — ela finalmente olhou para ele, e Jungkook viu lágrimas em seus olhos. — Eu estou exausta, Jungkook. Eu passo o dia inteiro tentando ser o que as pessoas esperam de mim, e eu achei que, quando entrasse neste carro, eu poderia finalmente ser eu mesma. Mas aqui, eu sou apenas o objeto do seu ciúme.
— Eu sinto muito — ele sussurrou, o arrependimento atingindo-o como uma onda. — Eu juro que estou tentando. Eu fui para a terapia, eu converso com o Yoongi... mas quando eu vejo você tão longe de mim, brilhando daquele jeito, eu sinto que você vai perceber que merece alguém que possa brilhar ao seu lado publicamente.
— Você acha que eu me importo com o brilho? — S/N soltou uma risada amarga. — Jungkook, eu amo o garoto que usa moletons largos e fica nervoso quando perde no videogame. Eu amo o homem que me beija na testa antes de eu dormir. O brilho daquelas câmeras é falso. O que temos aqui é real. Mas o real não sobrevive sem confiança.
Jungkook destravou as portas, os ombros caindo em sinal de derrota.
— Você vai embora? — ele perguntou, o medo evidente em sua voz.
S/N hesitou, com a mão na maçaneta. Ela olhou para o rosto dele, para a dor estampada em cada traço. Ela sabia que ele estava lutando contra demônios que foram criados muito antes dela aparecer em sua vida.
— Não vou embora hoje — ela disse, fechando a porta novamente, mas permanecendo encostada nela. — Mas você precisa entender uma coisa: eu não posso ser a cura para a sua insegurança. Eu posso ser sua parceira, sua namorada, sua melhor amiga. Mas a confiança tem que vir de dentro de você. Se você continuar procurando motivos para nos destruir, você eventualmente vai encontrar um, mesmo que ele não exista.
Jungkook inclinou a cabeça para trás, fechando os olhos.
— O que eu faço? — ele perguntou. — Como eu paro de sentir que o mundo está tentando te tirar de mim?
— Você para de olhar para o mundo e começa a olhar para mim — S/N se aproximou, diminuindo o espaço entre eles no banco do carro. Ela pegou o rosto dele entre as mãos, forçando-o a encará-la. — Olhe para mim, Jeon Jungkook. Eu estou aqui. Eu não fui para casa com o Taehyung. Eu não dei meu número para nenhum executivo. Eu vim para cá. Para este carro escuro, em uma rua deserta, só para ver você. Isso não é o suficiente?
Jungkook sentiu as lágrimas finalmente escaparem. Ele puxou S/N para um abraço apertado, escondendo o rosto em seu pescoço, soluçando silenciosamente.
— É o suficiente — ele murmurou entre os soluços. — É mais do que o suficiente. Me desculpa. Eu sou um idiota.
— Sim, você é — ela disse, mas seus dedos acariciavam o cabelo dele com ternura. — Um idiota que eu amo muito. Mas eu não posso fazer isso para sempre, Kook. Eu preciso de paz.
— Eu vou te dar paz — ele prometeu, afastando-se um pouco para olhar nos olhos dela. — Eu vou trabalhar mais nisso. Da próxima vez que eu ver uma foto, eu vou sorrir e pensar: "aquela mulher incrível é minha namorada e ela vai voltar para casa para mim".
— É um bom começo — S/N sorriu, limpando as lágrimas do rosto dele com os polegares. — Agora, por favor, me leve para casa. Eu quero tirar esse vestido, comer ramen instantâneo e esquecer que o resto do mundo existe.
Jungkook ligou o carro, sentindo uma leveza que não sentia há horas. Ele sabia que o ciúme não desapareceria da noite para o dia, que era uma erva daninha que precisava ser arrancada constantemente. Mas, enquanto ele dirigia pelas ruas de Seul, ele não olhava mais para o celular. Ele olhava para a mulher ao seu lado, que agora cantarolava baixinho uma música que ele mesmo tinha escrito para ela.
Ao chegarem ao apartamento, o clima era de uma reconciliação silenciosa. Eles cozinharam juntos, rindo das tentativas desastradas de Jungkook de quebrar ovos com uma mão só. Por algumas horas, o "Golden Maknae" do BTS e a consultora de moda de sucesso não existiam. Eram apenas dois jovens tentando navegar pelas águas turbulentas de um primeiro amor verdadeiro.
No entanto, antes de dormirem, o celular de Jungkook vibrou sobre a mesa de cabeceira. Era uma mensagem no grupo do BTS.
Taehyung: "Kook, espero que a S/N tenha chegado bem. Ela estava bem cansada no evento. Desculpe se as fotos pareceram estranhas, eu só estava tentando afastar um cara que não parava de segui-la. Você tem sorte, ela não parou de falar de você nem por um segundo."
Jungkook leu a mensagem e sentiu uma pontada de vergonha, mas também uma imensa gratidão. Ele olhou para S/N, que já estava quase dormindo, e digitou uma resposta curta.
Jungkook: "Obrigado, Hyung. Eu sei. Eu tenho muita sorte."
Ele bloqueou o celular e o colocou virado para baixo. Ele não precisava mais checar as redes sociais. Ele não precisava mais de validação externa. Ele se aconchegou atrás de S/N, envolvendo-a em seus braços, sentindo o calor do corpo dela contra o seu.
— Kook? — ela murmurou, meio adormecida.
— Sim?
— Eu te amo.
— Eu também te amo, S/N. Mais do que qualquer foto ou comentário poderia explicar.
O silêncio de Seul lá fora era barulhento, cheio de luzes e pessoas que nunca paravam de falar. Mas dentro daquele quarto, o silêncio era sagrado. Era o eco de uma promessa de mudança, de um vidro que, embora rachado, estava sendo colado com uma paciência infinita. Jungkook fechou os olhos, finalmente permitindo que o sono o levasse, sabendo que, amanhã, ele acordaria e teria que lutar contra seus demônios novamente. Mas, pela primeira vez, ele sentia que estava ganhando a guerra. Porque a sua maior arma não era o controle, mas a entrega total ao amor que ele tinha medo de perder. E S/N, em sua sabedoria silenciosa, estaria lá para segurar sua mão em cada passo do caminho.