Continuação amor sombrio
O Crepúsculo dos Deuses de Prata e a Dança das Sombras
A mansão Addams estava envolta em um silêncio que não era ausência de som, mas sim uma presença física, como o peso de uma mortalha de veludo. No grande salão, o ar cheirava a ozônio, sangue de monstro e o perfume de baunilha e mofo que Wandinha exalava. Ela estava sentada diante da lareira apagada, observando o Mãozinha costurar com precisão cirúrgica um rasgo profundo no ombro de Tyler.
Tyler não emitia um som. Ele estava sentado no chão, o torso nu exibindo a musculatura tensa e as cicatrizes que pareciam brilhar sob a luz pálida da lua que entrava pelas janelas altas. Seus olhos mantinham o anel dourado, um farol de predação que nunca se apagava totalmente.
— O Círculo de Sangue enviou seus "Inquisidores de Prata" — comentou Wandinha, sua voz cortando o silêncio como uma lâmina de guilhotina. — Eles estão ficando desesperados. Usar munição de mercúrio em solo Addams é o equivalente a levar um palito de dentes para um duelo de canhões.
— Eles não esperavam que eu fosse capaz de sentir o gatilho antes de ser puxado — disse Tyler, sua voz agora uma mistura sedutora de sua humanidade e o timbre vulcânico do Hyde. — A sua marca no meu sangue... ela me dá uma percepção de tempo que eu não tinha antes. É como se o mundo estivesse se movendo em câmera lenta, e eu sou a única coisa real.
Wandinha levantou-se e caminhou até ele. Ela estendeu a mão pálida e tocou a pele ao redor da ferida que Mãozinha acabara de fechar. Tyler estremeceu, não de dor, mas de uma antecipação elétrica que sempre o consumia quando ela estava perto.
— A percepção temporal é um efeito colateral da simbiose — explicou ela, seus dedos frios traçando a linha de sua clavícula. — O Hyde processa informações sensoriais em uma velocidade que o cérebro humano comum consideraria uma psicose. Eu apenas dei a você o sistema operacional para gerenciar esse caos.
Tyler segurou o pulso de Wandinha, puxando-a levemente para mais perto. Ele olhou para ela com uma fome que ia além da necessidade de carne; era uma necessidade de alma.
— Você me transformou em algo que nem o meu pai, nem a Laurel, nem ninguém poderia imaginar — sussurrou ele. — Eu sou o seu monstro, Wandinha. Mas às vezes eu me pergunto... o que acontece quando o monstro começa a desejar a mestre mais do que a destruição?
Wandinha não desviou o olhar. O gelo em suas íris negras parecia queimar.
— O desejo é uma forma de destruição, Tyler. Ele consome o sujeito e o objeto até que não reste nada além de cinzas e obsessão. Se você me deseja, você deseja o fim de tudo o que conhece.
— Então que venha o fim — Tyler sorriu, um sorriso que continha a doçura de um beijo e a promessa de um funeral.
Ele se levantou, sua altura imponente forçando Wandinha a inclinar a cabeça para trás. O espaço entre eles estava carregado com a promessa de algo sombrio e inevitável. Antes que qualquer um pudesse agir, um estrondo ecoou nas masmorras da mansão. Um som de metal sendo torcido e gritos que morriam abruptamente.
Wandinha soltou-se do aperto de Tyler, sua expressão voltando à neutralidade letal.
— Parece que o nosso convidado na masmorra decidiu que o chá de beladona não foi do seu agrado — disse ela, pegando uma adaga de obsidiana que estava sobre a mesa de centro. — O Inquisidor que capturamos deve ter acordado de seu transe químico.
— Deixe-me cuidar dele — pediu Tyler, as garras começando a despontar de seus dedos, rasgando o ar. — Eu ainda sinto o gosto do medo dele na minha língua.
— Não — interrompeu ela. — A força bruta é um instrumento rombo. Eu quero extrair informações, não apenas vísceras. Siga-me. E tente manter o Hyde em uma coleira invisível. Eu não quero ter que limpar as paredes novamente.
Eles desceram as escadas em espiral que levavam aos níveis inferiores da mansão. O ar tornava-se mais frio e úmido, saturado com o cheiro de séculos de segredos Addams. Na cela de contenção, o prisioneiro — um homem alto, de cabelos grisalhos e olhos injetados de sangue, vestindo o uniforme tático do Círculo de Sangue — estava acorrentado a uma parede de pedra que parecia estar se fechando lentamente sobre ele.
— Onde está... o artefato? — rosnou o homem, sua voz falhando. — Vocês não sabem o que despertaram. O Hyde é apenas o começo. Se o Círculo não recuperar a Relíquia de Prata, este mundo será consumido pelo vazio que vocês tanto adoram.
Wandinha parou diante das grades, observando o homem com o desprendimento de um entomologista estudando um besouro prestes a ser espetado.
— Vocês, puristas, têm uma tendência irritante para o melodrama apocalíptico — disse ela. — A "Relíquia de Prata" é apenas um amplificador de ondas psíquicas que meu tio-avô usava para sintonizar rádios de outros planos. O fato de vocês a considerarem um objeto sagrado apenas prova a pobreza da sua imaginação.
— Ela é a chave para selar as fendas! — gritou o prisioneiro. — Sem ela, as criaturas do abismo não terão barreiras. Vocês estão convidando o inferno para o jantar!
Wandinha virou-se para Tyler, que observava o prisioneiro com uma inclinação de cabeça predatória.
— Tyler, o que o seu olfato diz sobre as palavras dele?
Tyler aproximou-se das grades, aspirando o ar profundamente. O Hyde rugiu silenciosamente dentro dele, processando os feromônios do homem.
— Ele acredita no que diz — afirmou Tyler, sua voz vibrando com uma ressonância inumana. — Mas há um cheiro de mentira por trás da verdade. Ele não teme o abismo, Wandinha. Ele teme que nós tenhamos a chave e eles não. Ele teme a nossa concorrência, não o fim do mundo.
— Exatamente — concluiu Wandinha. — O Círculo de Sangue não quer salvar o mundo. Eles querem o monopólio do horror. Eles querem ser os únicos pastores das sombras.
Ela entrou na cela, a adaga brilhando sob a luz fraca das tochas. O prisioneiro recuou o máximo que as correntes permitiam.
— Eu não vou falar nada — disse ele, os dentes batendo.
— Todos falam — rebateu Wandinha, aproximando a lâmina do olho do homem. — A questão é apenas quanto de você restará para ouvir o som da sua própria confissão. Mas hoje, eu estou com pressa. Tyler, mostre a ele o que acontece quando a vontade de um Addams se funde com a fome de um Hyde.
Tyler entrou na cela. Ele não se transformou. Em vez disso, colocou a mão sobre o rosto do prisioneiro. Seus olhos brilharam em um âmbar cegante. Através da conexão de sangue que Wandinha estabelecera, Tyler agora podia projetar sua própria consciência sombria na mente de outros.
O prisioneiro soltou um grito que não era humano. Seu corpo se contorceu enquanto visões de abismos infinitos, florestas de ossos e a presença esmagadora de Wandinha Addams inundavam seu cérebro. Tyler estava forçando o homem a ver o mundo através dos olhos do monstro.
— Pare! — implorou o homem, as lágrimas de sangue escorrendo por suas bochechas. — O laboratório... o laboratório principal... fica sob o cemitério de Jericó! Eles estão criando um exército! Eles estão usando o DNA da Laurel para estabilizar os novos espécimes!
Tyler soltou o homem, que desabou no chão, um casulo vazio de carne e terror. O monstro olhou para Wandinha, o brilho dourado em seus olhos oscilando com uma satisfação selvagem.
— Jericó — repetiu Wandinha, um sorriso quase imperceptível surgindo em seu rosto. — Eles voltaram para o local do crime original. Que falta de criatividade poética.
— O que faremos? — perguntou Tyler, limpando as mãos na calça. — Se eles estão criando mais como eu, mas sem a sua... orientação... eles serão apenas bestas raivosas.
— Eles serão um insulto à minha obra — declarou ela. — Nós vamos para Jericó. Não para salvar a cidade, mas para garantir que o plágio seja punido com a extinção. Ninguém cria um monstro nas minhas sombras sem a minha permissão.
Eles saíram das masmorras e voltaram para o laboratório de Wandinha. Ela começou a organizar seus suprimentos: frascos de veneno de naja, explosivos de fragmentação e uma pequena caixa de madeira que continha o sangue Addams purificado.
— Tyler — chamou ela, enquanto ele observava a preparação. — Esta missão será diferente. Jericó traz memórias que o seu lado humano ainda tenta processar. A culpa, o medo, a cafeteria...
Tyler aproximou-se, envolvendo-a por trás, suas mãos grandes descansando sobre as dela na mesa de alquimia.
— O garoto da cafeteria morreu na floresta, Wandinha. Você o matou com o seu sangue e eu o enterrei com as minhas garras. O que resta é o que você criou. E o que você criou quer ver Jericó queimar se isso significar que você estará segura.
Wandinha virou-se no abraço, algo que ela raramente permitia. Ela olhou para ele, e por um momento, a mestre e o monstro eram apenas duas metades de uma mesma escuridão.
— Eu não preciso de segurança, Tyler. Eu preciso de lealdade. O mundo vai tentar nos separar. Eles vão tentar usar a sua humanidade como uma alça para puxar você de volta. Eles vão prometer "cura" e "redenção".
Tyler inclinou-se, encostando sua testa na dela.
— A minha redenção é o seu vazio, Wandinha. Eu não quero ser curado de você.
— Ótimo — disse ela, afastando-se com sua frieza habitual, embora houvesse uma nova intensidade em seus movimentos. — Prepare o Mustang. Mãozinha, pegue o kit de primeiros socorros e o veneno de rato. Vamos fazer uma visita ao cemitério de Jericó.
Enquanto o carro prateado rasgava a noite em direção à cidade que ambos haviam deixado em ruínas, o silêncio entre eles era absoluto. Não era o silêncio do desconforto, mas o silêncio de dois predadores em perfeita sincronia.
Ao cruzarem o limite da cidade de Jericó, Tyler sentiu o Hyde ronronar. O cheiro de pinheiros e segredos era o mesmo, mas agora havia algo novo: o cheiro de laboratórios subterrâneos e a estática de tecnologia proibida.
— Eles estão abaixo da cripta de Joseph Crackstone — observou Wandinha, olhando para o cemitério que surgia no horizonte. — A ironia é deliciosa. Usar o túmulo de um fanático religioso para criar abominações biológicas.
— Eles estão nos esperando — disse Tyler, seus sentidos captando a presença de snipers nas árvores e guardas camuflados entre os túmulos.
— Eu ficaria ofendida se não estivessem — respondeu Wandinha, puxando o freio de mão e fazendo o carro derrapar em uma parada perfeita diante dos portões de ferro.
Ela saiu do carro, a silhueta negra contra a névoa, a adaga de obsidiana na mão. Tyler saiu logo atrás, sua forma começando a oscilar, os músculos crescendo e se transformando enquanto o Hyde reclamava seu espaço sob a luz da lua.
— Tyler — chamou ela, sem olhar para trás.
— Sim? — a voz dele já era um rosnado profundo.
— Não deixe nenhum deles inteiro o suficiente para um funeral de caixão aberto. Eu detesto desperdiçar um bom velório com corpos maltratados.
Tyler soltou um rugido que ecoou por toda Jericó, um som que prometia o fim de uma era e o início de um pesadelo.
— Com prazer, mestre.
Eles avançaram para o cemitério, uma dança de lâmina e garra, de inteligência e fúria. Wandinha movia-se com uma graça mortal, cada movimento de sua adaga encontrando uma artéria ou um ponto vital, enquanto Tyler era uma força da natureza, um borrão de destruição que desmantelava as defesas do Círculo de Sangue como se fossem feitas de papel.
Ao chegarem à entrada da cripta, Wandinha parou. Ela olhou para Tyler, que estava coberto de sangue inimigo, os olhos brilhando com uma alegria selvagem.
— Agora — sussurrou ela —, vamos mostrar a eles por que os Addams nunca perdem uma guerra. Porque, para nós, a guerra é apenas uma forma mais barulhenta de amor.
Eles mergulharam na escuridão da cripta, o monstro e a mestre, prontos para reivindicar o seu trono sobre os destroços de Jericó. Naquela noite, as estrelas pareciam se apagar, como se o próprio universo estivesse fechando os olhos para não ver o que Wandinha Addams e seu Hyde estavam prestes a desencadear.
O abismo não estava apenas olhando de volta para eles; ele estava sorrindo. E Wandinha, pela primeira vez em sua vida, sorriu de volta.