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O Eco do Trono e o Sangue do Submundo

Os anos em Valhala não passavam como no mundo dos mortais. O tempo ali era uma tapeçaria tecida com fios de eternidade, mas, para Xiao Huang, o crescimento era uma força da natureza que nem mesmo o Rei do Submundo ou o Imperador da China podiam conter. O bebê que um dia balbuciara por uvas e carne no jardim de Hades agora era um jovem de dezesseis anos, com a estatura imponente do pai divino e a beleza afiada e altiva do pai humano.

Xiao Huang estava no auge de sua adolescência, uma fase onde o sangue real chinês e a herança sombria de Helheim ferviam em suas veias. Ele usava vestes escuras adornadas com detalhes em ouro, e seus cabelos negros, presos em um rabo de cavalo alto, balançavam conforme ele andava de um lado para o outro no grande salão do palácio de Hades.

No centro da sala, sentado em um divã de veludo com a mesma elegância desleixada de sempre, Qin Shi Huang polia suas unhas metálicas, os olhos cobertos pela venda, mas a postura exalando uma autoridade que nunca diminuía.

— Eu já disse que não, Xiao Huang — disse Qin, sua voz calma e cortante como uma lâmina de jade. — Um príncipe não se mistura com as futilidades dos deuses menores apenas para provar sua força. Você é um Huang. Sua força é um fato, não uma exibição de feira.

— Você não entende! — Xiao Huang parou abruptamente, os olhos brilhando com uma faísca púrpura que lembrava muito a fúria silenciosa de Hades. — Você sempre fala de "trono", de "caminho real", mas me mantém aqui como se eu fosse um prisioneiro de Helheim! Eu quero lutar na arena de treinamento com os outros, quero mostrar que não sou apenas uma sombra entre dois reis!

Qin levantou o rosto levemente, o sorriso de canto de boca permanecendo inalterado, o que só servia para irritar mais o jovem.

— Onde eu me sento é o trono, e onde você está é a minha proteção — respondeu o Imperador. — Você ainda não tem a têmpera necessária para lidar com a malícia de deuses que guardam rancor de seu pai há milênios.

— Você é arrogante! — gritou Xiao Huang, a voz ecoando pelas colunas de mármore negro. — Você acha que o mundo gira ao seu redor só porque você decidiu que é assim! Você é apenas um humano que se recusa a ver que eu cresci! Eu te odeio por ser tão cego quanto essa venda que você usa!

O silêncio que se seguiu foi pesado. Qin Shi Huang não se moveu. Sua sinestesia toque-espelho captou a dor e a frustração de Xiao Huang como uma onda de calor sufocante, mas ele permaneceu imóvel. No entanto, o ar no salão subitamente ficou gélido. As sombras nos cantos da sala começaram a se alongar e a vibrar com uma energia opressiva e antiga.

— Xiao Huang.

A voz veio da entrada do salão. Era baixa, mas carregava o peso de uma montanha caindo sobre a terra. Hades estava parado ali, segurando seu bidente, a aura de Rei do Submundo emanando dele de forma tão poderosa que as tochas nas paredes diminuíram de intensidade.

O jovem estremeceu, a coragem adolescente murchando sob o olhar heterocromático e severo de seu pai.

— Pai... eu só estava... — começou Xiao Huang, sua voz perdendo a força.

Hades caminhou lentamente até o centro do salão. Cada passo seu parecia ressoar no próprio chão de Helheim. Ele ignorou o filho por um momento e caminhou até Qin, colocando uma mão firme e protetora sobre o ombro do esposo. Só então ele voltou seu olhar para o jovem.

— O que você disse foi uma ofensa que eu não toleraria nem mesmo de um irmão meu — disse Hades, a voz fria como o gelo do Cocito. — Você se esquece de onde veio e de quem te criou.

— Ele não me deixa fazer nada! — Xiao Huang tentou uma última defesa, embora seus olhos estivessem baixos.

— Silêncio — ordenou Hades, e o poder em sua voz fez o jovem se calar instantaneamente. — Você vê um Imperador, vê um homem que você julga ser arrogante. Mas eu vejo o homem que sentiu a dor de cada alma da China para protegê-las. Eu vejo o homem que atravessou o inferno para que você pudesse ter um nome.

Hades inclinou-se um pouco para frente, a pressão de sua aura fazendo Xiao Huang recuar um passo.

— Entenda uma coisa, Xiao Huang, e que isso fique gravado em sua alma imortal — continuou Hades, sua voz agora carregada de uma possessividade feroz. — Qin Shi Huang não é apenas o seu pai. Ele é o meu marido. Ele é o soberano do meu coração e o Rei que eu escolhi para governar ao meu lado.

Hades estreitou os olhos, a ponta do bidente batendo levemente no chão, soltando faíscas de energia sombria.

— Quando você grita com ele, você não está apenas desrespeitando um pai, você está insultando o companheiro do Rei do Submundo. E eu não permito que ninguém, nem mesmo o meu próprio sangue, trate o meu marido com tamanha insolência. Peça desculpas. Agora.

Xiao Huang olhou para Hades e viu algo que raramente via: a fúria protetora de um deus que destruiria o cosmos se Qin Shi Huang pedisse. O jovem engoliu em seco, sentindo o peso do erro. Ele se virou para Qin, que permanecia em silêncio, embora a tensão em seus ombros tivesse relaxado ligeiramente sob o toque de Hades.

— Eu... eu sinto muito, pai — murmurou Xiao Huang, curvando-se profundamente, no estilo tradicional que Qin lhe ensinara. — Eu agi com desonra. Minhas palavras foram baixas e eu não tive a dignidade de um príncipe. Por favor, perdoe minha ignorância.

Qin Shi Huang suspirou, um som suave que pareceu dissipar a tensão no ar. Ele levantou a mão e fez um gesto para que o filho se aproximasse. Quando Xiao Huang chegou perto o suficiente, Qin tocou o rosto do jovem com os dedos metálicos, um gesto de carinho que contrastava com a bronca de Hades.

— Hao — disse Qin, o sorriso voltando aos seus lábios, embora houvesse uma suavidade incomum em seu tom. — Um rei deve saber quando recuar para avançar com mais sabedoria. Vá para os seus aposentos, Xiao Huang. Reflita sobre o que significa ter o poder de um deus e a responsabilidade de um imperador. Amanhã, nós treinaremos... juntos.

Os olhos de Xiao Huang brilharam com surpresa e gratidão.

— Sério?

— O Imperador nunca volta atrás em sua palavra — afirmou Qin.

O jovem assentiu vigorosamente, lançou um olhar de profundo respeito (e um pouco de temor) para Hades, e saiu apressado do salão, o som de seus passos desaparecendo nos corredores.

Quando o silêncio retornou, Hades relaxou sua postura. A aura opressiva desapareceu, substituída pela calma habitual. Ele soltou o bidente, que se desvaneceu em fumaça negra, e sentou-se no divã ao lado de Qin.

— Ele está ficando difícil — comentou Hades, passando a mão pelos cabelos. — A linhagem dele é forte demais para o próprio bem.

Qin não respondeu de imediato. Ele se virou para Hades e, sem aviso, jogou-se nos braços do marido, enterrando o rosto em seu pescoço. Hades, surpreso, envolveu-o em um abraço protetor.

— Qin? O que houve? A sinestesia... a dor dele foi muito forte?

O Imperador soltou uma risadinha abafada contra a pele de Hades, um som que fez o coração do Deus do Submundo saltar.

— Não é dor, Hades — disse Qin, afastando-se apenas o suficiente para olhar para o marido, seu rosto radiante e as bochechas levemente coradas sob a venda. — É que... "o soberano do meu coração"? "O Rei que eu escolhi"?

Hades sentiu um leve calor subir pelo próprio pescoço, percebendo que, na fúria do momento, deixara suas emoções transbordarem mais do que o habitual.

— Eu apenas disse a verdade — murmurou Hades, tentando recuperar sua dignidade estoica. — Ele precisava entender a hierarquia desta casa.

— Você me defendeu como se eu fosse um tesouro sagrado — provocou Qin, passando os dedos pelo maxilar de Hades. — Eu sou o Imperador, eu posso lidar com um adolescente rebelde. Mas ouvir você dizer aquelas coisas diante dele... Hao! Eu me sinto como se tivesse conquistado os sete reinos novamente.

Hades sorriu, a expressão amolecendo completamente. Ele puxou Qin para mais perto, selando seus lábios em um beijo calmo e profundo, que carregava toda a promessa de proteção que ele acabara de declarar.

— Você é o meu reino, Qin — sussurrou Hades contra os lábios dele. — E eu sou um rei muito zeloso com o que me pertence.

Qin se derreteu nos braços de Hades, sentindo-se mais amado e seguro do que em qualquer trono de ferro que já ocupara na vida.

— Sabe, Hades — disse Qin, com um brilho travesso nos olhos —, se você continuar me tratando assim, eu posso acabar ficando mal-acostumado. Posso começar a causar problemas só para ver você me defender de novo.

— Você já causa problemas suficientes por natureza, meu Imperador — brincou Hades, deitando-se no divã e trazendo Qin para cima de seu peito. — Mas não se preocupe. Eu estarei aqui para lidar com todos eles.

Enquanto as luzes de Helheim brilhavam suavemente lá fora, o casal permaneceu abraçado no silêncio do palácio. Para Qin, não importava o quanto Xiao Huang crescesse ou quão desafiadores os deuses fossem. Naquele abraço, ele não era apenas o Imperador ou o herói da humanidade; ele era o homem amado pelo Rei do Submundo, e isso, para ele, era a maior de todas as grandezas.