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O Eco da Chuva e o Brilho do Perdão

A sala de projeções em Valhala estava lotada, um evento raro onde deuses e humanos se reuniam não para lutar, mas para o que Hermes chamava de "sessão de retrospectiva histórica". O Imperador Qin Shi Huang estava sentado em sua poltrona personalizada — que mais parecia um trono — com Xiao Huang, agora um pouco mais jovem do que na última discussão, sentado ao seu lado, e Hades mantendo uma mão possessiva sobre o ombro do marido.

— Eu não entendo por que fomos convocados para isso — murmurou Qin, ajustando sua venda. — O Imperador tem coisas mais importantes a fazer, como decidir qual tipo de seda Xiao Huang usará no próximo festival.

— Relaxe, Qin — disse Hades, embora houvesse uma nota de suspeita em sua voz enquanto olhava para Loki, que operava o projetor com um sorriso malicioso. — Se for alguma brincadeira de Zeus, eu mesmo cuidarei para que ele se arrependa.

A tela gigante se iluminou. O título apareceu em letras garrafais: "A Noite da Tempestade Imperial".

O vídeo começou com uma música eletrônica ensurdecedora. A imagem estava um pouco trêmula, mas o cenário era inconfundível: uma balada luxuosa em um dos distritos mais agitados de Valhala. No centro da pista de dança, ou melhor, debruçado sobre o balcão do bar, estava Qin Shi Huang. Ele não usava suas vestes imperiais habituais, mas uma túnica de seda negra entreaberta, e sua venda estava ligeiramente torta.

— Bebe mais uma, Alvitr! — gritou o Qin da tela, levantando uma garrafa de saquê dourado. — O Imperador ordena que a tristeza seja afogada em álcool!

Ao lado dele, a valquíria Alvitr parecia estar em um estado de pânico controlado, tentando equilibrar o Imperador enquanto ele cambaleava.

Na sala de projeção, o silêncio foi absoluto. Qin Shi Huang endureceu na cadeira, sentindo o rosto esquentar. Hades estreitou os olhos, a aura de Helheim começando a esfriar o ambiente.

— Papai... você está... dançando em cima da mesa? — perguntou Xiao Huang, apontando para a tela com os olhos arregalados.

No vídeo, Qin começou a soluçar dramaticamente.

— Ele me traiu, Alvitr! — Qin gritou na tela, as lágrimas escorrendo por baixo da venda. — Eu vi! Ele estava sussurrando com aquela deusa da colheita... a Deméter! Eles estavam planejando... eu senti a dor da traição na minha pele! A sinestesia não mente!

— Qin, você é um idiota! — a Alvitr do vídeo gritava, tentando puxá-lo para baixo. — Eles estavam falando sobre o suprimento de romãs para o Submundo! O Hades te ama, seu mané orgulhoso!

— Não! — Qin soluçou, abraçando a garrafa como se fosse seu único amigo. — Eu sou o Imperador de tudo, mas não sou o imperador do coração dele! Eu vou morar nesta balada para sempre! Garçom, mais mil garrafas! Hao!

A plateia em Valhala explodiu em risadas. Zeus batia no joelho, quase caindo da cadeira, enquanto Ares escondia o rosto nas mãos, envergonhado pelo tio.

— Qin... — Hades começou, sua voz era um trovão contido. — Você achou que eu estava te traindo com a Deméter por causa de uma conversa sobre frutas?

— Eu... o Imperador às vezes interpreta mal as vibrações do ambiente! — Qin tentou se defender, mas sua voz saiu pequena.

O vídeo continuou. A cena mudou para o lado de fora da balada. Estava chovendo torrencialmente, uma daquelas tempestades raras que limpavam as ruas de Valhala. Qin estava sentado no meio-fio, completamente encharcado, a túnica colada ao corpo, parecendo tragicamente desolado. Alvitr estava ao telefone, gritando no meio da chuva.

— Hades, pelo amor de todos os reinos, venha buscar seu marido! Ele tentou lutar com um poste de luz porque achou que o poste estava olhando torto para ele! Ele está chorando há duas horas!

A câmera tremeu e, de repente, um vulto negro e majestoso surgiu na tela. Hades apareceu, sem guarda-chuva, sem escolta. Ele caminhou sob a chuva com uma expressão que misturava fúria e uma preocupação devastadora.

No vídeo, Hades parou diante de Qin. O Imperador levantou o rosto, a venda agora caída no pescoço, revelando olhos vermelhos e inchados de tanto chorar.

— Você veio rir da minha ruína? — perguntou o Qin bêbado, com a voz embargada. — Vá embora para suas romãs e suas deusas perfeitas!

O Hades do vídeo não disse nada. Ele simplesmente se ajoelhou na lama e na chuva, segurando o rosto de Qin com as duas mãos.

— Zheng — disse Hades, e a doçura na voz do Deus do Submundo fez a sala de projeção suspirar. — Você é o único que governa a minha vida. Não existe romã, não existe deusa, não existe nada neste ou em qualquer outro mundo que brilhe mais do que você.

— Mas eu senti... — Qin tentou protestar, mas um soluço o interrompeu.

— Você sentiu o meu cansaço, não a minha traição — explicou Hades, encostando a testa na dele enquanto a chuva caía sobre ambos. — Eu estava exausto tentando organizar tudo para que pudéssemos passar mais tempo juntos. Eu te amo, seu Imperador tolo e magnífico.

O Qin da tela abraçou o pescoço de Hades com uma força desesperada, escondendo o rosto em seu ombro.

— Eu sou um idiota — soluçou Qin.

— Sim, você é — concordou Hades, sorrindo levemente. — Mas você é o meu idiota.

E então, sob a chuva torrencial, os dois se beijaram. Foi um beijo lento, carregado de perdão e de uma paixão que parecia desafiar a própria tempestade. A música de fundo no vídeo mudou para algo suave, e a imagem focou nos dois abraçados enquanto a luz dos postes refletia nas poças de água.

A tela escureceu. As luzes da sala se acenderam.

Qin Shi Huang estava tão vermelho que parecia que ia entrar em combustão espontânea. Ele ajeitou a venda freneticamente, tentando recuperar qualquer vestígio de sua dignidade imperial.

— Isso... isso foi uma manipulação digital! — exclamou Qin, levantando-se. — O Imperador nunca sentaria em um meio-fio! E eu certamente não choro por romãs!

Hades, no entanto, não estava rindo. Ele olhou para Qin com uma expressão suave, a mesma que mostrara no vídeo. Ele pegou a mão do marido e a beijou diante de todos, ignorando as piadinhas de Zeus e os assobios de Loki.

— Foi uma noite difícil — admitiu Hades em voz alta. — Mas foi a noite em que eu percebi que, não importa o quão orgulhoso o Imperador seja, ele ainda precisa que eu o carregue para casa às vezes.

— Você me carregou no colo? — perguntou Xiao Huang, olhando para o pai com admiração.

— Ele me carregou como se eu fosse um fardo de arroz! — reclamou Qin, embora estivesse sorrindo por trás da venda. — Foi extremamente indigno!

— Você dormiu no meu ombro e babou na minha capa o caminho todo — relembrou Hades, puxando Qin de volta para o assento.

— Hao! — Qin exclamou, tentando mudar de assunto. — O vídeo acabou! Quem mais quer churrasco? O Imperador decreta que o banquete continue e que ninguém mencione postes de luz ou chuva pelos próximos cem anos!

A multidão começou a se dispersar, ainda comentando sobre a vulnerabilidade rara do Imperador e a devoção absoluta do Rei do Submundo. Enquanto caminhavam para fora, Xiao Huang correu à frente para brincar com os corvos de Odin, deixando o casal para trás.

Qin entrelaçou seus dedos nos de Hades, caminhando em silêncio por um momento.

— Você realmente não me trocaria por uma deusa da colheita? — perguntou Qin, em um sussurro quase inaudível.

Hades parou e puxou Qin para um canto mais reservado do corredor, longe dos olhos curiosos. Ele levantou a venda de Qin apenas o suficiente para olhar naqueles olhos que ele tanto adorava.

— Zheng, eu governo o reino dos mortos — disse Hades, com uma seriedade profunda. — Eu vi todas as belezas que já passaram pela terra. E nenhuma delas, em bilhões de anos, me fez sentir metade do que eu sinto quando você simplesmente entra em uma sala e decide que ela é o seu trono.

Qin sorriu, o brilho de sua arrogância habitual retornando, mas desta vez suavizado pelo amor.

— É claro — disse Qin, empinando o nariz. — Afinal, quem mais poderia ser o par perfeito para o Rei do Submundo senão o homem que conquistou a morte e a vida?

— Exatamente — concordou Hades, inclinando-se para dar um beijo rápido no marido. — Mas, da próxima vez que você tiver dúvidas, por favor, me pergunte antes de tentar beber todo o estoque de saquê de Valhala. Minha paciência é eterna, mas o meu fígado metafórico tem limites.

— O Imperador não promete nada — riu Qin, correndo à frente para alcançar o filho. — Mas talvez, apenas talvez, eu aceite uma romã de vez em quando.

Hades observou Qin correr, sua túnica balançando como as asas de uma fênix. Ele balançou a cabeça, rindo baixinho. Ele sabia que a vida com Qin Shi Huang nunca seria calma ou previsível, mas ele não a trocaria por toda a paz silenciosa da eternidade. Porque no final de cada tempestade, em cada beijo na chuva, ele sabia que tinha encontrado o único tesouro que realmente importava em todos os reinos.