d
O Império do Sentimento: Sofrência em Valhala
A tarde em Valhala estava atingindo aquele ponto de saturação onde a dignidade divina começa a se dissolver no álcool e na fumaça de gordura. O churrasco, que começara como uma reunião diplomática sob a supervisão tensa de Brunhilde, havia se transformado em um caos absoluto. De um lado, Thor e Lu Bu disputavam quem conseguia triturar ossos de costela com as mãos nuas; do outro, Zeus tentava, sem sucesso, ensinar passos de dança grega para um Adamas cada vez mais irritado.
Mas o verdadeiro espetáculo não estava nas disputas de força. No centro do jardim, onde um palco improvisado de mármore havia sido erguido para Hermes tocar suas liras, a atmosfera mudou drasticamente. Qin Shi Huang, o Primeiro Imperador da China, havia decidido que o entretenimento clássico era "insuficiente para a grandeza do momento".
— Afastem-se, seres inferiores! — exclamou Qin, subindo em uma mesa com uma garrafa de um líquido âmbar que cheirava a mel e perigo. — O Imperador sente uma vibração no ar. Uma vibração de... como vocês chamam? Ah, sim. Sofrência!
Hades, que até então observava o marido com uma mistura de adoração e resignação, soltou uma risada profunda. Ele se aproximou da mesa, estendendo os braços para que Qin descesse. O Imperador, em vez de descer, simplesmente se jogou, sabendo com absoluta confiança que o Rei do Submundo o capturaria.
Hades o segurou no colo com uma facilidade desconcertante, mantendo Qin aninhado contra seu peito como se o homem que unificou a China pesasse menos que uma pluma.
— Zheng, o que você está planejando? — perguntou Hades, os olhos brilhando de diversão enquanto ajeitava o marido em seus braços.
— Hades, meu caro marido — disse Qin, ajeitando a venda com uma mão e segurando o microfone dourado que "pegara emprestado" de Hermes com a outra —, eu descobri uma frequência emocional humana que ressoa perfeitamente com a minha sinestesia. É uma melodia que fala de traição, de bares, de amores mal resolvidos e de... copos de cerveja riscados.
— Você não está falando daquela música que o Kojiro te mostrou, está? — Hades arqueou uma sobrancelha.
— Exatamente! — Qin apontou para o projetor, onde as letras começaram a aparecer em português, traduzidas magicamente pela tecnologia de Valhala. — Hermes! Solte a batida da Rainha!
A melodia de um piano suave, seguida por um acorde de violão inconfundível, começou a ecoar pelo jardim. Era Marília Mendonça. O silêncio caiu sobre os deuses e humanos. Poseidon, que estava bebendo água em um canto, olhou para a cena com um desdém tão profundo que poderia congelar oceanos, mas ninguém estava prestando atenção nele.
Qin Shi Huang respirou fundo, limpou a garganta com a autoridade de quem vai declarar guerra e começou a cantar. Sua voz, normalmente majestosa e firme, adquiriu um tom dramático, quase choroso, que pegou todos de surpresa.
— "Infiel! Teu cupido é gari!" — entoou Qin, gesticulando dramaticamente com a mão livre enquanto Hades o segurava firmemente, rindo tanto que seus ombros tremiam.
— Zheng, você nem sabe o que é um gari! — Hades sussurrou entre gargalhadas, mas não o soltou. Pelo contrário, começou a balançar o corpo no ritmo da música, carregando o Imperador de um lado para o outro como se estivessem em uma dança de salão clandestina.
— "Pelo erro do passado que você cometeu!" — Qin continuou, agora ignorando os comentários de Hades e focando na performance. — "Pra você eu sou o que sobrou! O que ninguém quis!"
A plateia estava em choque. Xiao Huang, que estava sentado perto de Brunhilde comendo um espetinho, arregalou os olhos e deixou o pedaço de carne cair.
— Pai? — balbuciou o jovem de dezesseis anos, sentindo uma mistura de vergonha mortal e fascinação. — O que está acontecendo com o papai Qin?
— Shhh — disse Brunhilde, que estranhamente estava gravando tudo com um dispositivo escondido. — Isso é ouro puro, Xiao Huang. O Imperador da China está sofrendo por um amor que ele nem perdeu.
No palco improvisado, Qin se empolgou. Ele se inclinou para trás nos braços de Hades, o pescoço exposto, cantando para o céu de Valhala com uma paixão que faria qualquer cantor de churrasco chorar de inveja.
— "E agora você vem me dizer que o seu amor sou eu?!" — Qin apontou o dedo para o rosto de Hades, como se estivesse acusando o Deus do Submundo de uma traição terrível. — "Não me venha com desculpas, seu... seu Rei de Helheim!"
Hades não aguentou. Ele soltou uma gargalhada alta, sonora e genuína, o tipo de som que raramente era ouvido nas profundezas do mundo inferior. Ele girou Qin no ar, ainda segurando-o no colo, enquanto o Imperador tentava manter a nota alta.
— Eu nunca te trairia, Zheng! — disse Hades, rindo tanto que seus olhos lacrimejavam. — Eu nem sei quem é o gari da música!
— Não importa, Hades! — Qin exclamou, voltando para o microfone. — Sinta a energia! É sobre o sentimento! É sobre o trono da sofrência! Agora, todos juntos! "I-N-F-I-E-L!"
Para a surpresa de absolutamente ninguém, Zeus foi o primeiro a se juntar. O Deus do Olimpo começou a bater palmas no ritmo, gritando o refrão com uma pronúncia terrível. Logo, Raiden e Shiva estavam abraçados, balançando de um lado para o outro, cantando sobre amantes que não prestam.
Até mesmo Adamas, que geralmente odiava tudo, estava batendo o pé no chão, contagiado pela energia caótica que emanava do casal real.
— Veja só, Hades! — disse Qin, ofegante após o refrão, com um sorriso vitorioso no rosto. — Eu uni os reinos! Humanos e deuses, todos sofrendo por nada! Isso é o verdadeiro poder imperial!
Hades parou de girar, mas continuou segurando Qin. Ele olhou para o marido, que estava descabelado, com a venda torta e uma expressão de pura alegria triunfante. O Rei do Submundo sentiu aquele calor familiar no peito, uma adoração que transcendia qualquer título ou batalha.
— Você é impossível — disse Hades, sua voz voltando a uma suavidade afetuosa enquanto o barulho ao redor continuava. — Você transforma um churrasco de deuses em um bar de beira de estrada.
— E você adora isso — rebateu Qin, passando os braços pelo pescoço de Hades e aproximando o rosto. — Admita, meu Rei. Você nunca se divertiu tanto em bilhões de anos.
— Eu admito — sussurrou Hades, ignorando a plateia que agora pedia "bis" e outra música da Marília Mendonça. — Mas se você começar a cantar sobre "amigo fura-olho", eu vou ter que confiscar esse microfone.
— Oh, Hades, não seja tão dramático — riu Qin, dando um selinho rápido no marido antes de se virar novamente para a multidão. — Escutem, povo de Valhala! O Imperador tem mais uma! Hermes, mude para "Eu Sei de Cor"!
— Não, por favor, pare! — gritou Xiao Huang ao longe, cobrindo o rosto com as mãos, embora estivesse rindo por trás dos dedos.
— Deixe-os, Xiao Huang — disse Chun Yan, que havia aparecido silenciosamente ao lado do neto, com um sorriso sereno e divertido. — Seu pai passou muito tempo carregando o peso do mundo. Se agora ele quer carregar apenas uma garrafa de saquê e o coração de um Deus, quem somos nós para impedir?
A música recomeçou. Qin, ainda nos braços de Hades, começou a cantar a nova letra com uma intensidade renovada. Hades, aceitando seu destino como o suporte oficial da sofrência imperial, continuou a rir, balançando o marido e ocasionalmente arriscando uma nota ou outra no refrão, apenas para ver o brilho de felicidade nos olhos de Qin.
Naquela tarde, em Valhala, não houve deuses superiores ou humanos inferiores. Houve apenas a música, a fumaça do churrasco e a imagem inesquecível do Rei do Submundo segurando o Imperador da China no colo, enquanto ambos celebravam a vida da única forma que sabiam: com absoluta, caótica e apaixonada audácia.
— Hao! — gritou Qin ao final da música, levantando o microfone para o céu.
— Hao — respondeu Hades, beijando a bochecha do marido enquanto a plateia explodia em aplausos, provando que, no final das contas, até os deuses mais sérios não resistiam a uma boa moda de viola.