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O Baile, o Choro e o Nó na Garganta
A claridade da manhã entrava pelas janelas da cobertura como uma faca polida, iluminando a tensão que se tornara o oxigênio daquele lugar. Emanuel estava sentado à cabeceira da mesa, os olhos fixos em um tablet onde revisava o faturamento de um de seus estúdios em Berlim. Ele tentava, com uma disciplina quase militar, manter a neutralidade. À sua esquerda, Sara, vestindo um conjunto de seda neon que gritava por atenção, mastigava uma torrada com uma agressividade silenciosa. À sua direita, Eduarda, em um vestido de alças finas e estampa de margaridas, mexia em seu iogurte com uma colher de prata, o olhar perdido no horizonte do mar.
— Emanuel, querido — começou Sara, a voz carregada de um sarcasmo que ela nem se dava ao trabalho de esconder —, você viu que a festa da Vogue é no próximo mês? Já reservei o meu designer. Espero que você não pretenda levar... — ela fez um gesto vago com a mão na direção de Eduarda — ...o artesanato para o tapete vermelho.
Eduarda respirou fundo, os dedos apertando a colher. Ela prometera a si mesma que tentaria. Pelo Emanuel. Pela paz que ele tanto buscava.
— Eu posso comprar algo elegante, Sara — disse Eduarda, a voz suave, quase um sussurro. — Eu gosto de moda também. Talvez possamos ir juntas ao shopping hoje? Eu adoraria a sua opinião sobre tecidos.
Sara soltou uma risada ríspida, olhando para Eduarda como se ela fosse uma mancha no mármore.
— Ir ao shopping com você? Poupe-me, boneca. Eu não tenho paciência para ver você provando vestidos que parecem figurino de batizado. Minha paciência com você já está no limite negativo.
— Sara — Emanuel interveio, a voz grave e de alerta. — Eduarda está sendo gentil. O mínimo que você pode fazer é retribuir.
— Gentil? — Sara levantou-se, a cadeira arrastando com um som estridente. — Ela é sonsa, Emanuel! Essa doçura toda é só para você se sentir o herói. Enquanto você cai nesse teatrinho, eu sou a única que vê a verdade. Eu não quero convivência. Eu quero o meu espaço de volta!
Sara saiu da sala batendo os saltos, deixando um rastro de perfume forte e irritação. Eduarda baixou o rosto, as mechas de cabelo escondendo seus olhos que já começavam a brilhar com lágrimas contidas.
— Eu tentei, Emanuel... — murmurou ela, a voz embargada. — Eu realmente tentei.
Emanuel suspirou, levantando-se e caminhando até ela. Ele a puxou para um abraço, sentindo a fragilidade de seus ombros.
— Eu sei que tentou, pequena. A Sara é... difícil. Ela se sente ameaçada. Dê tempo ao tempo.
Eduarda se afastou um pouco, limpando o canto do olho com o dorso da mão. Ela olhou para ele com uma expressão hesitante, como se estivesse ensaiando o que dizer.
— Emanuel... tem uma coisa. Amanhã é o aniversário da Bianca, minha melhor amiga da faculdade. Ela vai comemorar em um lugar... diferente.
Emanuel arqueou uma sobrancelha, voltando para sua cadeira, mas mantendo o olhar nela.
— Diferente como?
— É um baile — disse ela, a voz ficando ainda menor. — Na favela. Um baile funk.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Emanuel, que até então estava com uma expressão relaxada, endureceu os traços imediatamente. O tatuador rico e protetor, que conhecia bem demais a realidade das ruas antes de construir seu império, sentiu o estômago revirar.
— Nem pensar — disse ele, de forma curta e definitiva.
Eduarda piscou, surpresa com a velocidade da resposta.
— Mas Emanuel... é a Bianca! Ela cresceu lá, a família dela mora lá. É o aniversário dela, vinte e um anos! Eu sou a melhor amiga dela, eu não posso faltar.
— Eduarda, olhe para você — ele gesticulou para a figura delicada à sua frente. — Você é uma menina que chora quando o suco acaba. Você é tímida, sensível, não sabe lidar com confronto. Um baile funk em comunidade não é lugar para você. É perigoso, é caótico, e eu não vou conseguir te proteger lá dentro.
— Eu não vou estar sozinha! — Ela se aproximou dele, segurando sua mão com as duas mãos pequenas, a manha começando a transparecer em seu tom de voz. — A Bianca vai estar comigo. Eu fico em um cantinho, eu prometo. Eu só quero dar um abraço nela, cantar parabéns...
— A resposta é não — Emanuel levantou-se, cruzando os braços sobre o peito tatuado. — Eu não sou um ditador, Duda, mas eu sou responsável por você. Eu não vou passar a noite em claro imaginando o que pode acontecer com você em um lugar onde eu não tenho controle. Peça para ela vir jantar aqui, eu pago tudo. Mas você não sobe o morro.
Eduarda sentiu o peito arder. Para ela, aquilo não era apenas uma proibição; era uma barreira entre ela e a única pessoa que a conhecia antes de Emanuel. Ela começou a balançar o corpo levemente, um tique de quando estava prestes a explodir emocionalmente.
— Você não entende! — Ela bateu o pé no chão, um som abafado pelo tapete caro. — Você me prende aqui como se eu fosse um troféu! Eu quero ver minha amiga! Eu faço tudo o que você quer, eu aguento a Sara me humilhando o dia todo, eu... eu faço tudo! Por que você não pode me deixar fazer isso?
— Porque eu te amo e quero você viva e inteira! — Emanuel elevou o tom de voz, a veia em seu pescoço saltando. — Você tem noção de como é um baile desses? O som, as drogas, a polícia, os olhares em cima de uma garota como você? Você não duraria dez minutos sem entrar em crise de pânico.
Eduarda desabou. As lágrimas agora corriam livremente, molhando as bochechas rosadas. Ela se jogou no sofá, escondendo o rosto nas almofadas, soluçando de forma audível e manhosa.
— Você é mau... você é muito mau comigo... — dizia ela entre os soluços. — Eu só queria ser uma pessoa normal por uma noite... eu odeio funk, eu tenho medo de barulho, mas eu amo a Bianca!
Emanuel sentiu o coração apertar. Ele odiava vê-la chorar. A manha de Eduarda era sua maior fraqueza; o som daqueles soluços pequenos e o biquinho que ela fazia o desarmavam mais do que qualquer briga com Sara. Ele caminhou até o sofá e sentou-se ao lado dela, tentando tocá-la, mas ela se esquivou, encolhendo-se como um animal ferido.
— Duda, para com isso. Não faça assim.
— Me deixa! — Ela gritou, a voz abafada pela almofada. — Se você me amasse de verdade, você confiaria em mim. Você me deixaria ir. Eu vou ficar triste para sempre! Eu nunca mais vou comer chocolate branco!
Emanuel quase sorriu com a ameaça infantil, mas a dor dela parecia real demais. Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo curto, sentindo o estresse acumulado.
— Pequena, escuta aqui — ele tentou virá-la para si. — Eu posso mandar dois seguranças com você. Mas mesmo assim...
— Não! — Ela se virou, os olhos vermelhos e inchados, a ponta do nariz rubra. — Seguranças? No aniversário da Bianca? Todo mundo vai rir dela, Emanuel! Vão achar que eu sou uma metida! Eu quero ir como uma pessoa comum. Eu uso um boné, eu uso uma roupa simples... por favor... por favor, Emanuel...
Ela se arrastou pelo sofá e deitou a cabeça no colo dele, olhando para cima com uma expressão tão desolada que Emanuel sentiu sua determinação vacilar. Eduarda começou a traçar círculos no braço dele, a voz agora um sussurro choroso.
— Eu prometo que volto cedo. Eu prometo que não saio de perto da Bianca. Eu faço qualquer coisa que você pedir depois... eu fico uma semana sem sair de casa se você quiser. Mas me deixa ir amanhã? É o único pedido que eu te faço...
Enquanto Emanuel lutava contra a própria lógica, Sara apareceu na porta da sala, observando a cena com um nojo indisfarçável.
— Mas que patético — disse Sara, cruzando os braços. — Agora ela quer ir para o baile funk? Emanuel, se você deixar essa garota ir, você é mais burro do que eu pensava. Ela vai ser engolida viva. Ou pior, vai arranjar confusão e você vai ter que ir lá resgatar a "princesinha".
Eduarda não respondeu a Sara. Ela apenas apertou mais o braço de Emanuel, escondendo o rosto em sua coxa, soluçando baixinho.
— Sara, agora não é a hora — Emanuel disse, a voz cansada.
— Nunca é a hora, não é? — Sara deu um passo à frente, a voz subindo de tom. — Você dá tudo para ela! Se ela chora, você faz carinho. Se eu peço para irmos viajar, você diz que está ocupado. Eu quero ir para o baile também, Emanuel! Se ela vai, eu vou. Quero ver se ela vai ter coragem de fazer manha no meio da favela.
— Você não vai a lugar nenhum, Sara! — Emanuel levantou-se, fazendo Eduarda se sentar bruscamente. — Ninguém vai a baile nenhum! Acabou a discussão!
Eduarda soltou um grito de frustração e correu para o quarto, batendo a porta com tanta força que o som ecoou por toda a cobertura. Emanuel ficou parado no meio da sala, entre o fogo de Sara e o gelo de Eduarda, sentindo-se explodir.
— Está feliz agora? — Sara perguntou, com um sorriso amargo. — Você conseguiu deixar as duas com ódio de você. Parabéns, mestre.
Emanuel não respondeu. Ele caminhou até a varanda, olhando para as luzes da cidade que começavam a se acender. Ele sabia que Eduarda não desistiria. Ela passaria a noite chorando, se recusaria a comer, faria com que ele se sentisse o pior homem do mundo. E Sara... Sara usaria aquilo como munição para os próximos meses.
Mais tarde, o silêncio no apartamento era sepulcral. Emanuel entrou no quarto de Eduarda e a encontrou sentada na cama, olhando para a parede. Seus olhos estavam tão inchados que ela mal conseguia abrir as pálpebras. Ela não disse nada quando ele sentou ao seu lado.
— Duda... — ele começou, a voz suave.
— Eu não quero falar com você — ela murmurou, a voz rouca de tanto chorar. — Você não se importa com os meus sentimentos. Para você, eu sou só uma boneca que você guarda na estante.
— Isso não é verdade.
— É sim! A Bianca é a única pessoa que gosta de mim pelo que eu sou, não pelo que eu pareço ser. E você está me tirando isso. Eu vou ficar aqui, sozinha, enquanto ela comemora com todo mundo. Eu te odeio, Emanuel.
Aquela palavra — ódio — vinda da boca de Eduarda, soou como um tiro. Emanuel sabia que era a manha falando, que era a frustração de uma jovem de vinte anos, mas doeu. Ele a puxou para si, e desta vez ela não resistiu, apenas desabou em seu peito, voltando a chorar com uma agonia renovada.
— Por favor... — ela soluçava, as mãos pequenas agarrando a camisa dele. — Eu prometo que me cuido... eu prometo... eu só quero ver minha amiga...
Emanuel fechou os olhos. Ele sabia que estava cometendo um erro. Sabia que sua lógica estava sendo enterrada pela necessidade de ver Eduarda sorrir novamente.
— Tudo bem — ele disse, finalmente, sentindo o peso da derrota. — Tudo bem, Eduarda. Você pode ir.
Ela parou de chorar instantaneamente, afastando-se para olhar o rosto dele, os olhos brilhando com uma esperança súbita.
— Sério? Você deixa?
— Com condições — ele disse, a voz severa. — Eu vou te levar até a entrada da comunidade. O motorista vai ficar parado lá o tempo todo. Você vai me mandar localização em tempo real a cada quinze minutos. Se você demorar dez minutos para responder uma mensagem minha, eu subo com quem for preciso para te buscar. E você volta à meia-noite. Nem um minuto a mais.
Eduarda jogou-se nos braços dele, cobrindo seu rosto de beijos, a alegria transbordando de uma forma quase infantil.
— Obrigada! Obrigada, Emanuel! Você é o melhor homem do mundo! Eu prometo, eu prometo tudo!
— Eu ainda acho uma ideia péssima — ele murmurou, abraçando-a com força, o instinto de proteção gritando em seus ouvidos. — Se acontecer qualquer coisa, Eduarda... qualquer coisa...
— Não vai acontecer nada! Eu vou ser invisível, eu juro!
No corredor, Sara ouvia tudo com um sorriso sombrio. Ela não ia deixar aquela oportunidade passar. Se Eduarda queria ser "comum", se ela queria se arriscar no mundo real, Sara garantiria que a experiência fosse inesquecível — e não do jeito que Eduarda esperava.
— Aproveita sua festa, bonequinha — sussurrou Sara para si mesma, voltando para o seu quarto. — Porque amanhã, o biquíni de crochê vai encontrar o asfalto quente. E eu vou estar lá para ver você quebrar.
Emanuel, alheio aos planos de Sara, apenas observava Eduarda já escolhendo uma roupa "simples" — que ainda assim parecia cara e delicada demais para o ambiente. Ele sentia que estava abrindo as portas de uma gaiola que ele mesmo construíra, e o medo de que o pássaro não soubesse voar o consumia.
A noite de amanhã seria longa. E Emanuel sabia que, no final, o preço daquela manha seria pago com algo muito mais caro do que lágrimas. Ele olhou para as mãos de Eduarda, tão pequenas e macias, e imaginou-as em meio ao caos do baile. Um nó se formou em sua garganta, um pressentimento que nem todo o seu poder e riqueza poderiam apagar.