D
O Labirinto de Vidro e a Sombra no Umbral
A noite no Rio de Janeiro estava abafada, uma promessa de tempestade que nunca se concretizava, deixando apenas um mormaço pesado no ar. No interior da cobertura de Emanuel, o clima não era diferente. Ele terminava de ajustar o relógio de pulso, um modelo suíço discreto mas caríssimo, enquanto observava o próprio reflexo no espelho do hall. Ele se sentia dividido, uma sensação que se tornara crônica desde que Eduarda entrara em sua vida.
Sara apareceu no corredor, uma visão de excessos e impacto. Ela usava um vestido de vinil vermelho, curto ao extremo, que abraçava suas curvas siliconadas com uma agressividade planejada. O perfume era doce, envolvente e caro, preenchendo o espaço como uma declaração de posse.
— Finalmente, Emanuel — disse ela, retocando o batom diante do espelho. — Achei que fôssemos passar a noite inteira admirando o teto. O reserva no restaurante era para as nove, e se perdermos a mesa, eu vou ficar insuportável.
— Já estou pronto, Sara — respondeu ele, a voz grave, mas desprovida de entusiasmo. — Só vou me despedir da Eduarda.
Sara soltou um estalido de língua, revirando os olhos.
— Ah, por favor. Ela não é uma criança que precisa de beijo de boa noite. Ela tem vinte anos, Emanuel. Deixe a bonequinha de porcelana com os livros de arte dela e vamos logo. Eu quero vinho, quero lagosta e quero você longe desse clima de velório.
Emanuel a ignorou e caminhou até o quarto de hóspedes. Eduarda estava encolhida na poltrona, usando um de seus vestidos românticos de linho, os pés descalços e um livro sobre o Barroco Italiano aberto no colo. Ela parecia pequena demais para o ambiente, uma flor delicada em um vaso de concreto e vidro.
— Eu já vou, Duda — disse ele, aproximando-se e acariciando o topo da cabeça dela. — O motorista está lá embaixo, e a segurança do prédio é a melhor da cidade. Você tem os meus dois números, o do estúdio e o pessoal. Qualquer coisa, me ligue.
Eduarda levantou os olhos, e Emanuel sentiu aquele aperto familiar no peito. Ela parecia triste, com aquele biquinho manhoso que sempre o desarmava.
— Você vai demorar? — perguntou ela, a voz pequena e carente. — Eu não gosto dessa casa quando você não está. Parece que o silêncio faz barulho.
— Não vou demorar mais do que o necessário — prometeu ele, inclinando-se para beijar a testa dela. — Coma alguma coisa, peça o que quiser pelo aplicativo do condomínio.
— Eu queria que você ficasse... — murmurou ela, segurando a ponta da manga da camisa dele. — A Sara sempre volta tão... barulhenta.
— É apenas um jantar, pequena. Tente descansar.
Emanuel saiu do quarto sentindo o peso da culpa, um sentimento que Sara tratou de dissipar assim que entraram no elevador privativo. Ela se jogou contra ele, as mãos explorando o peito dele com uma urgência que não admitia recusas.
— Esquece a sonsa, Emanuel — sussurrou ela contra o pescoço dele. — Hoje a noite é nossa. Depois do jantar, eu não quero voltar para aquele apartamento com cheiro de naftalina e inocência fingida. Eu reservei uma suíte naquele motel na Barra, aquele com a piscina de vidro. Quero você todo para mim, sem interrupções.
Emanuel sentiu o desejo carnal que Sara sempre despertava nele — uma mistura de luxúria e irritação. Ele precisava daquele escape. A doçura de Eduarda era seu refúgio, mas a vulgaridade de Sara era seu combustível.
— Tudo bem, Sara. Vamos para o motel depois.
Enquanto o carro de luxo deslizava pelas ruas da zona sul em direção ao restaurante requintado, a cobertura de Emanuel mergulhava em um silêncio sepulcral. Eduarda tentou ler, mas as palavras pareciam flutuar para fora das páginas. Ela se sentia vulnerável. O apartamento era magnífico, mas para ela, era um labirinto de vidro onde ela se sentia constantemente observada pelo vazio.
Ela se levantou e foi até a cozinha buscar um copo d'água. O biquíni de crochê azul-claro que ela usara na praia ainda estava pendurado no banheiro, um lembrete do dia em que conhecera o homem que mudara sua vida. Ela sentia falta da simplicidade do quiosque, do gosto do chocolate branco e até da melancolia de não ter seu drink de cereja. Ali, cercada por mármore e tecnologia, ela se sentia uma intrusa.
De repente, um som metálico ecoou vindo da área de serviço. Eduarda estancou, o copo de água tremendo em sua mão.
— Emanuel? — chamou ela, a voz falhando.
Nenhuma resposta. Apenas o zumbido do ar-condicionado central.
Ela tentou se convencer de que era apenas o prédio assentando, ou talvez o vento nas janelas panorâmicas. Mas então, ouviu vozes. Vozes baixas, ásperas, que não pertenciam ao vocabulário polido daquele condomínio de luxo.
— ...o painel de controle é ali. Desativa logo essa merda antes que o alarme central dispare.
— Relaxa, o esquema com o guarda da guarita foi quente. Temos dez minutos até a próxima ronda.
O coração de Eduarda disparou. O pânico, frio e paralisante, subiu por sua garganta. Ela correu para o quarto, os pés descalços não fazendo barulho no tapete, e trancou a porta. Suas mãos tremiam tanto que ela quase derrubou o celular.
Ela discou o número de Emanuel.
No restaurante, o ambiente era sofisticado. Sara ria alto, bebendo uma taça de vinho tinto caríssimo, enquanto Emanuel tentava manter uma conversa sobre a expansão de seus estúdios na Ásia. O celular dele, colocado sobre a mesa, vibrou.
— Não atenda — disse Sara, segurando a mão dele. — É ela, não é? A bonequinha está com medo do escuro? Deixe que ela aprenda a ser gente grande.
Emanuel olhou para o visor. Era Eduarda. Ele sentiu uma pontada de preocupação, mas o olhar de desprezo de Sara e a promessa de uma noite intensa o fizeram hesitar.
— Ela deve estar apenas querendo atenção, Sara.
— Exatamente. E se você atender, ela ganha. Deixe tocar.
Emanuel silenciou o aparelho e o guardou no bolso.
No apartamento, Eduarda ouviu o som da porta principal sendo forçada. O sistema de segurança eletrônico, que Emanuel tanto confiava, estava sendo burlado por profissionais que sabiam exatamente o que estavam fazendo. O condomínio fora invadido; uma falha humana na guarita permitira que um grupo entrasse sob o disfarce de manutenção de emergência.
— Tem alguém aqui — disse uma das vozes, agora mais perto. — A luz da cozinha está acesa.
— Pega o que for de valor rápido. Relógios, joias, o cofre deve estar no quarto principal. Se tiver alguém, a gente apaga.
Eduarda sufocou um grito, as lágrimas escorrendo por seu rosto. Ela se encolheu no closet, escondendo-se atrás dos vestidos caros que Emanuel comprara para ela. Ela tentou ligar novamente, mas o celular estava sem sinal. Eles haviam trazido um bloqueador.
O som da porta do quarto de hóspedes sendo arrombada foi como um tiro no silêncio. Eduarda abraçou os próprios joelhos, soluçando baixinho, rezando para que não abrissem o closet.
— Nada aqui. Só cheiro de perfume de menina.
— Procura no outro quarto. O dono é o tatuador rico, o cara deve ter uma fortuna em relógios.
Ela ouviu os passos se afastarem, mas o terror não diminuiu. Ela estava sozinha. Emanuel estava nos braços de Sara, e ela estava à mercê de homens que não hesitariam em feri-la.
Enquanto isso, no motel de luxo na Barra, Sara terminava de se despir, movendo-se com uma confiança predatória sob as luzes neon da suíte. Emanuel a observava, mas sua mente estava inquieta. O silêncio de Eduarda depois das chamadas perdidas estava começando a incomodá-lo de uma forma que ele não conseguia ignorar.
— O que foi, Emanuel? — perguntou Sara, aproximando-se e passando os braços pelo pescoço dele. — Você está aqui, mas sua cabeça está naquela sonsa.
— Eu tenho um pressentimento ruim, Sara. Ela nunca liga tantas vezes seguidas se não for algo sério.
— Ela é manipuladora, Emanuel! — Sara exclamou, irritada. — Ela sabe exatamente como te puxar pela coleira. Esquece ela! Me beija e esquece que aquela garota existe por uma hora.
Emanuel tentou. Ele a beijou, deixou-se levar pelo calor do corpo de Sara, mas quando o rádio de segurança do seu carro — que ficava conectado a um canal de emergência do condomínio — começou a chiar no bolso de seu paletó jogado na poltrona, ele estancou.
— ...invasão confirmada na Torre A. Código Vermelho. Suspeitos armados no 22º andar.
O sangue de Emanuel gelou. O 22º andar era a sua cobertura.
— Eduarda — sussurrou ele, a voz carregada de um pavor que ele nunca sentira.
— Emanuel, onde você vai? — gritou Sara, vendo-o vestir a camisa às pressas. — Você vai me deixar aqui sozinha por causa de um alarme falso?
— Não é falso, Sara! Invadiram o apartamento. Ela está lá sozinha!
— E os seguranças? E a polícia? — Sara estava vermelha de raiva, a humilhação de ser abandonada em um motel superando qualquer preocupação. — Você é um idiota! Ela planejou isso, ela deve ter deixado a porta aberta só para você correr para ela!
Emanuel não ouviu. Ele saiu da suíte correndo, o som dos pneus cantando no asfalto segundos depois.
Na cobertura, o caos era silencioso e terrível. Os assaltantes haviam encontrado o cofre, mas a frustração de não conseguirem abri-lo rapidamente os tornara agressivos.
— Revira tudo! Deve ter a chave ou a senha anotada em algum lugar!
Um deles caminhou até o closet onde Eduarda estava. Ele puxou a porta com violência.
O grito de Eduarda ecoou pelo apartamento, um som de puro desespero. O homem, usando uma máscara de esqui, a segurou pelos cabelos, arrastando-a para fora do esconderijo.
— Olha só o que temos aqui — disse ele, a voz cruel. — Uma bonequinha.
— Por favor... — soluçava Eduarda, as mãos juntas em prece, a manha transformada em terror absoluto. — Levem tudo... mas não me machuquem... por favor...
— Onde está a senha do cofre, gracinha? — O homem encostou a ponta fria de uma faca no pescoço delicado de Eduarda. — Fala logo ou eu vou estragar esse rostinho bonito.
— Eu não sei... eu juro que não sei... o Emanuel não me conta essas coisas...
— Mentira! — Ele a sacudiu, e Eduarda sentiu que ia desmaiar. — Vocês, patricinhas, sempre sabem.
Nesse momento, o som do elevador privativo chegando ao andar ecoou. Emanuel não esperara pela polícia; ele subira com a fúria de um homem que sentia que seu mundo estava sendo violado.
Ele entrou na sala como uma força da natureza. Emanuel não era apenas um empresário rico; ele crescera em ambientes onde a violência era uma linguagem comum antes de se tornar o tatuador renomado que era. Ele viu a cena: o apartamento revirado e Eduarda, sua pequena e frágil Eduarda, sob a lâmina de um estranho.
— Solta ela — disse Emanuel, a voz tão baixa e perigosa que fez os assaltantes hesitarem.
— Fica parado, ricaço! Ou a menina morre!
Emanuel não parou. Ele não usou lógica, não usou razão. Ele agiu pelo instinto possessivo que o definia. Em um movimento rápido, ele arremessou um peso de papel de cristal que estava sobre a mesa de centro, atingindo o braço do homem que segurava Eduarda.
O grito de dor do assaltante deu a Emanuel o segundo de que precisava. Ele avançou, derrubando o homem e desferindo socos carregados de uma fúria cega. Os outros dois assaltantes, ouvindo as sirenes da polícia que finalmente se aproximavam lá embaixo, decidiram fugir pela escada de emergência, deixando o comparsa para trás.
Emanuel não os perseguiu. Ele se jogou no chão ao lado de Eduarda, que tremia de forma convulsiva, encolhida em posição fetal.
— Duda... pequena... sou eu. Acabou. Eu estou aqui.
Eduarda se lançou nos braços dele, chorando tão alto que o som parecia rasgar o ar da sala. Ela se agarrou à camisa dele, enterrando o rosto em seu peito, buscando o cheiro de tinta e perfume que representava sua segurança.
— Você demorou... — soluçava ela, a manha voltando em meio ao trauma. — Você me deixou sozinha... eu achei que ia morrer...
— Eu sinto muito — sussurrou ele, as lágrimas queimando seus próprios olhos. — Eu nunca mais vou te deixar sozinha. Nunca mais.
Minutos depois, a polícia e os paramédicos inundaram o apartamento. Emanuel não soltou Eduarda nem por um segundo. Ele a mantinha envolvida em seu paletó, protegendo-a dos olhares curiosos.
Foi então que Sara apareceu na porta. Ela viera em um táxi, o vestido de vinil amassado, o rosto carregado de um ódio que nem o cenário de crime conseguia aplacar. Ela viu Emanuel no chão, embalando Eduarda como se ela fosse a coisa mais preciosa do mundo.
— Então é isso? — perguntou Sara, a voz estridente atraindo a atenção dos policiais. — O grande assalto. E você, claro, é a vítima sofredora.
Emanuel levantou os olhos para Sara. O amor que ele sentia por ela ainda estava lá, mas estava manchado pela frieza com que ela tratara o perigo de Eduarda.
— Sara, vá para casa — disse ele, a voz exausta.
— Vá para casa? Eu moro aqui, Emanuel! Ou você esqueceu?
— Hoje não. Hoje você não fica aqui. A Eduarda precisa de paz.
— Você está me expulsando? Por causa dela? — Sara apontou para Eduarda, que se encolheu ainda mais no abraço de Emanuel. — Você é um fraco, Emanuel! Ela te manipulou direitinho. Esse susto foi a melhor coisa que aconteceu para ela, não foi, "Dudinha"? Agora você tem ele na palma da mão.
Emanuel se levantou, ainda segurando Eduarda. Ele caminhou até Sara, sua presença emanando uma autoridade inquestionável.
— Ela quase morreu, Sara. Se você não consegue sentir empatia por isso, então você não tem lugar na minha vida hoje. Saia. Amanhã conversamos.
Sara olhou para ele, depois para Eduarda, e soltou uma risada amarga. Ela percebeu que, naquela noite, a batalha fora decidida. Não pelo sexo, não pela beleza, mas pela vulnerabilidade.
— Você vai se arrepender, Emanuel — disse ela, dando as costas e saindo sob o olhar dos policiais. — Homens como você se cansam rápido de cuidar de passarinhos feridos.
Emanuel não respondeu. Ele voltou para Eduarda, que o olhava com olhos imensos e úmidos.
— Ela vai voltar? — perguntou ela, a voz trêmula.
— Não importa agora, pequena — respondeu ele, beijando o topo da cabeça dela. — O que importa é que você está segura. Eu vou cuidar de você.
Naquela noite, Emanuel não dormiu. Ele ficou sentado na cama de hóspedes, segurando a mão de Eduarda enquanto ela finalmente caía em um sono inquieto, interrompido por sobressaltos. Ele olhava para as paredes da cobertura e percebia que o luxo não significava nada se ele não pudesse proteger o que amava.
Ele ainda amava Sara, a intensidade dela, o fogo que o consumia. Mas o que sentia por Eduarda era uma necessidade de ser melhor, de ser um escudo. Ele queria as duas, mas naquele momento, enquanto observava a respiração frágil da garota, ele sabia que o preço de manter esses dois mundos seria muito mais alto do que qualquer joia levada pelos ladrões.
Ele era o tatuador rico, o mestre do controle, mas ali, no silêncio da madrugada pós-trauma, ele era apenas um homem tentando segurar a seda e o espinho sem se sangrar por inteiro. E ele sabia, com uma clareza dolorosa, que a próxima tempestade não viria de fora, mas de dentro do seu próprio coração dividido.